{"id":10272,"date":"2017-12-12T09:26:36","date_gmt":"2017-12-12T12:26:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/educacao\/?p=10272"},"modified":"2017-12-12T09:26:36","modified_gmt":"2017-12-12T12:26:36","slug":"pesquisa-primeirissima-infancia-creche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/2017\/12\/12\/pesquisa-primeirissima-infancia-creche\/","title":{"rendered":"Pesquisa Primeir\u00edssima Inf\u00e2ncia: Creche"},"content":{"rendered":"<p>No Brasil, 59% das crian\u00e7as de fam\u00edlias com renda superior a cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos frequentam creches, e 9% est\u00e3o em busca de uma vaga. Ao olhar para as fam\u00edlias com renda de at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem diferente. Apenas 26% das crian\u00e7as frequentam alguma creche \u2013 bem abaixo da meta de 50% estabelecida no Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o \u2013, e 34% est\u00e3o em busca de uma vaga. E essa desigualdade, que j\u00e1 come\u00e7a nos primeiros sopros de vida, s\u00f3 tende a se alargar ainda mais \u2014 uma vez que essas crian\u00e7as que s\u00e3o deixadas para tr\u00e1s tem menos chances de resgatar o tempo perdido.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o da pesquisa Primeir\u00edssima Inf\u00e2ncia: Creche, realizada pelo Ibope Intelig\u00eancia e pela Funda\u00e7\u00e3o Maria Cec\u00edlia Souto Vidigal, apresentados durante o VII Simp\u00f3sio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Inf\u00e2ncia, em Fortaleza. O evento foi realizado pela Funda\u00e7\u00e3o, em parceria com a Universidade Harvard, com a Faculdade de Medicina da USP e o Insper \u2013 juntos, os institutos comp\u00f5em o N\u00facleo Ci\u00eancia pela Inf\u00e2ncia (NCPI). EXAME foi convidada a acompanhar a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados.<\/p>\n<p>Cada vez mais estudos mostram que, para garantir que essas crian\u00e7as cheguem \u00e0 fase adulta com plena capacidade de desenvolvimento, \u00e9 preciso investir nos seus primeiros anos de vida. \u00c9 na fase chamada de primeira inf\u00e2ncia \u2014 que compreende do 0 aos seis anos de idade \u2014 que ocorre o desenvolvimento de estruturas e circuitos cerebrais e a aquisi\u00e7\u00e3o de capacidades fundamentais para o aprimoramento de habilidades futuras, como aponta o estudo \u201cO impacto do desenvolvimento na primeira inf\u00e2ncia sobre a aprendizagem\u201d, realizado pelo NCPI.<\/p>\n<p>Estimular o desenvolvimento integral saud\u00e1vel das crian\u00e7as nessa etapa da vida garante que as pr\u00f3ximas etapas sejam mais pr\u00f3speras, e elas passam a ter maior facilidade para se adaptar a diferentes ambientes e de adquirir novos conhecimentos. E esse processo n\u00e3o tem a ver s\u00f3 com educa\u00e7\u00e3o \u2014 ele come\u00e7a ainda na gravidez, com a crian\u00e7a recebendo todos os nutrientes necess\u00e1rios na barriga da m\u00e3e.<\/p>\n<p>No Brasil, conforme aponta o estudo do NCPI, algumas pesquisas pr\u00e9vias j\u00e1 mostram que baixo peso ao nascer, prematuridade, retardo no crescimento e infec\u00e7\u00f5es nos dois primeiros anos de vida s\u00e3o alguns dos fatores relacionados a desempenho cognitivo inadequado e maior taxa de evas\u00e3o da escola. A renda baixa e a escolaridade prec\u00e1ria dos pais tamb\u00e9m influenciam nesse desempenho, uma vez que as crian\u00e7as dessas fam\u00edlias t\u00eam registrado pior desenvolvimento da linguagem e da cogni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O caminho para reduzir a desigualdade<\/p>\n<p>Para tentar impedir que as crian\u00e7as mais pobres do pa\u00eds continuem sendo deixadas para tr\u00e1s logo no in\u00edcio da vida, especialistas defendem que \u00e9 preciso come\u00e7ar a investir nelas o quanto antes. O economista americano James Heckman, vencedor do Pr\u00eamio Nobel em 2000 e professor da Universidade de Chicago, mostra em algumas pesquisas que, quanto mais cedo o investimento for feito, maiores as taxas de retorno proporcionadas. O investimento com maior retorno \u00e9 aquele realizado no pr\u00e9-natal, em seguida os investimentos nos primeiros anos da inf\u00e2ncia (de zero a tr\u00eas anos), na pr\u00e9-escola (de quatro a cinco anos), na educa\u00e7\u00e3o escolar e, por fim, na capacita\u00e7\u00e3o profissional. Os retornos dos investimentos na gesta\u00e7\u00e3o chegam a ser tr\u00eas vezes maior do que os do \u00faltimo, que j\u00e1 s\u00e3o realizados na fase adulta.<\/p>\n<p>A especialista em educa\u00e7\u00e3o Claudia Costin, que \u00e9 diretora do Centro de Excel\u00eancia e Inova\u00e7\u00e3o em Pol\u00edticas Educacionais no Rio de Janeiro, da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas e ex-diretora s\u00eanior para educa\u00e7\u00e3o no Banco Mundial, acredita que \u00e9 preciso priorizar as fam\u00edlias de baixa renda quando o assunto s\u00e3o as vagas nas creches. \u201cO Brasil tem um bom cadastro de quem s\u00e3o as fam\u00edlias abaixo da linha da pobreza, basta olhar para as que recebem o Bolsa Fam\u00edlia, e elas devem ser priorizadas\u201d, afirma Costin.<\/p>\n<p>A economista Ana L\u00facia Lima, que foi facilitadora e consultora t\u00e9cnica da rec\u00e9m lan\u00e7ada pesquisa sobre creches, concorda que esse \u00e9 preciso priorizar para reduzir desigualdades. \u201cN\u00f3s naturalizamos e nos acostumamos com essas diferen\u00e7as. E as pesquisas est\u00e3o mostrando que investir na educa\u00e7\u00e3o de zero a tr\u00eas anos tem grandes chances de ajudar a romper esse ciclo\u201d, afirma a economista.<\/p>\n<p>Investimento que traz resultado<\/p>\n<p>Investir nas crian\u00e7as tem se mostrado o caminho para uma sociedade mais pr\u00f3spera, e uma das melhores maneiras de reduzir a desigualdade, j\u00e1 que as chances de retorno s\u00e3o muito maiores. O pediatra Daniel Becker, que \u00e9 diretor do Centro de Promo\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade (Cepads) da UFRJ e um dos criadores do programa Sa\u00fade da Fam\u00edlia, cita o economista James Heckman para falar como investir na inf\u00e2ncia supera a dualidade entre equidade e efici\u00eancia que muitas vezes atormenta os gestores p\u00fablicos que trabalham para reduzir a desigualdade. \u201cInvestir na redu\u00e7\u00e3o da pobreza muitas vezes \u00e9 muito custoso e tem pouco resultado, porque a estrutura dessas pessoas j\u00e1 \u00e9 muito viciada por opress\u00e3o e baixo desenvolvimento, o que faz com que esse recurso seja usado de forma pouco eficiente\u201d, diz Becker.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, destinar recursos para o desenvolvimento das crian\u00e7as \u00e9 como ajudar a combater a pobreza antes que ela j\u00e1 se consolide na vida delas. \u201c\u00c9 uma forma de superar a dualidade cl\u00e1ssica do pol\u00edtico, que quer ter resultados daqui a quatro anos, quando ele estiver se reelegendo. E o investimento na primeira inf\u00e2ncia d\u00e1 resultado no curto prazo, com fam\u00edlias mais felizes, crian\u00e7as rendendo mais na escola, boas fotos, e tamb\u00e9m mais cidadania e uma sociedade mais capacitada a longo prazo\u201d, afirma Becker.<\/p>\n<p>No artigo Investir no desenvolvimento na primeira inf\u00e2ncia: Reduzir d\u00e9ficits, fortalecer a economia, o economista James Heckman, Nobel de Economia em 2000, afirma que uma pr\u00e9-escola p\u00fablica de meio per\u00edodo, destinada a crian\u00e7as de baixa renda, pode gerar um benef\u00edcio de 48.000 d\u00f3lares por crian\u00e7a para o povo, de acordo com analistas do Chicago Child\u2013Parent Center. Ao chegar aos 20 anos, as crian\u00e7as t\u00eam maior chance de concluir o ensino m\u00e9dio e menor chance de serem presas. O retorno estimado sobre o investimento \u00e9 de sete d\u00f3lares para cada d\u00f3lar investido. Outro levantamento, do programa Perry Preschool, mostrou que o retorno sobre o investimento na primeira inf\u00e2ncia pode ser de 7 a 10% ao ano, levando em conta o aumento da escolaridade e do desempenho profissional, al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o dos custos com refor\u00e7o escolar, sa\u00fade e gastos do sistema de justi\u00e7a penal.<\/p>\n<p>A busca por impacto<\/p>\n<p>A enfermeira e sanitarista M\u00e1rcia Machado, que \u00e9 pr\u00f3-reitora de Extens\u00e3o da Universidade Federal do Cear\u00e1 e PhD em Sa\u00fade P\u00fablica, tem trabalhado com crian\u00e7as no centro das pol\u00edticas p\u00fablicas e ressalta a import\u00e2ncia de testar os programas antes de pensar em escala. Em comunidades de Fortaleza, a pesquisadora est\u00e1 buscando por estrat\u00e9gias que ajudem a resgatar o v\u00ednculo da fam\u00edlia com a crian\u00e7a. Ela tem descoberto que orientar as m\u00e3es a beijar seus filhos todos os dias, abra\u00e7ar e olhar nos olhos, al\u00e9m de dicas sobre como brincar como as crian\u00e7as, t\u00eam melhorado tanto a autoestima da m\u00e3e quanto as trocas de afeto e cuidado. O trabalho conta com visitas de agentes comunit\u00e1rios, que distribuem um guia de orienta\u00e7\u00e3o para essas m\u00e3es, e com envio de mensagens de texto via celular para as fam\u00edlias, com dicas e conselhos sobre como lidar com as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Ela ressalta, por\u00e9m, que desenvolver pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 como seguir receita de bolo. Cada comunidade tem necessidades espec\u00edficas e reage de forma diferente \u00e0s iniciativas, ent\u00e3o, \u00e9 crucial testar os programas antes de colocar em pr\u00e1tica. \u201c\u00c9 preciso pensar tanto em efetividade quanto em impacto. N\u00f3s n\u00e3o temos a pr\u00e1tica de testar antes para saber se \u00e9 fact\u00edvel adotar uma interven\u00e7\u00e3o em larga escala. Quando n\u00e3o se faz isso, o risco \u00e9 imenso\u201d, diz M\u00e1rcia Machado. \u201cH\u00e1 uma decep\u00e7\u00e3o muito grande por parte da popula\u00e7\u00e3o, que tinha criado um entusiasmo, e um desperd\u00edcio do dinheiro p\u00fablico\u201d, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<p>A especialista tamb\u00e9m salienta que, apesar das peculiaridades de cada fam\u00edlia, \u00e9 poss\u00edvel implementar pol\u00edticas de larga escala. \u201cA escalabilidade \u00e9 poss\u00edvel, sim, e os testes mostram que \u00e9 poss\u00edvel adaptar projetos para diferentes regi\u00f5es e culturas, respeitando as formas como as redes se articulam. O teste \u00e9 importante para criar essas adapta\u00e7\u00f5es de projetos, que j\u00e1 t\u00eam uma experi\u00eancia adquirida\u201d, diz M\u00e1rcia Machado.<\/p>\n<p>A busca por impacto se tornou neg\u00f3cio em alguns lugares do mundo, com agentes do mercado financeiro criando ferramentas que possibilitem o investimento. A gerente de parcerias para o setor privado do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Luciana Aguiar, cita o exemplo dos social impact bonds, que s\u00e3o como t\u00edtulos que condicionam os retornos ao n\u00edvel de impacto proporcionado por uma iniciativa, muitas vezes desenvolvida pelo setor privado.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma forma de pensar num direcionamento do setor privado para o atendimento ao interesse p\u00fablico. Isso quer dizer que o setor p\u00fablico vai perder em termos de retorno? N\u00e3o, quer dizer que se abriram novas oportunidades de neg\u00f3cios muito mais alinhadas com a perspectivas de impacto social\u201d, diz Luciana Aguiar. Alguns desses t\u00edtulos j\u00e1 est\u00e3o sendo emitidos em projetos pilotos no Brasil e a l\u00f3gica \u00e9 simples: quanto maior o impacto, maior o retorno.<\/p>\n<p>Fonte: Revista Exame<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, 59% das crian\u00e7as de fam\u00edlias com renda superior a cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos frequentam creches, e 9% est\u00e3o em busca de uma vaga. 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