{"id":11627,"date":"2020-05-15T08:41:19","date_gmt":"2020-05-15T11:41:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/?p=11627"},"modified":"2020-05-18T15:32:54","modified_gmt":"2020-05-18T18:32:54","slug":"pais-deveriam-interromper-trabalho-para-dar-atencao-a-filhos-na-quarentena-diz-especialista-em-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/2020\/05\/15\/pais-deveriam-interromper-trabalho-para-dar-atencao-a-filhos-na-quarentena-diz-especialista-em-infancia\/","title":{"rendered":"Pais deveriam interromper trabalho para dar aten\u00e7\u00e3o a filhos na quarentena, diz especialista em inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as, especialmente as pequenas, parecem ser um dos grupos que t\u00eam sua sa\u00fade menos afetada pelo novo coronav\u00edrus. E, no entanto, elas podem estar entre as que mais v\u00e3o sentir os seus efeitos no longo prazo, no decorrer de anos. O motivo \u00e9 que o estresse socioecon\u00f4mico e a imprevisibilidade da pandemia atual t\u00eam o potencial de desgastar seu sistema biol\u00f3gico de tal modo que aumentam a incid\u00eancia futura de doen\u00e7as como diabetes, problemas cardiovasculares e problemas de sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Quem explica isso \u00e9 o pesquisador americano Philip Fisher, diretor do Centro de Neuroci\u00eancia Translacional da Universidade de Oregon (EUA), onde estuda formas de mitigar os efeitos de adversidades vividas nos primeiros anos de vida. Fisher \u00e9 tamb\u00e9m membro s\u00eanior do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard.<\/p>\n<p>&#8220;Esta experi\u00eancia est\u00e1 obviamente colocando uma enorme quantidade de estresse adicional sobre as crian\u00e7as, sobre seus pais e na rela\u00e7\u00e3o entre ambos. Ouvimos isso n\u00e3o s\u00f3 de fam\u00edlias mais vulner\u00e1veis, mas tamb\u00e9m de fam\u00edlias que t\u00eam mais recursos. O desconhecido, por si s\u00f3, \u00e9 estressante para todos&#8221;, diz Fisher \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Nosso sistema biol\u00f3gico de resposta ao estresse \u00e9 bem preparado para lidar com per\u00edodos de curta dura\u00e7\u00e3o, mas pouco adaptado para per\u00edodos longos ou que t\u00eam um car\u00e1ter t\u00e3o desconhecido como o atual, prossegue Fisher. &#8220;N\u00e3o estamos biologicamente bem preparados para per\u00edodos que exigem uma ativa\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica desse sistema. E o que vemos acontecer \u00e9 um desgaste no corpo, inclusive no bem-estar f\u00edsico e mental. (&#8230;) Nosso corpo sente que t\u00eam de ficar em n\u00edvel alto de alerta o tempo todo.&#8221;<\/p>\n<p>Nas crian\u00e7as, cujo sistema biol\u00f3gico ainda \u00e9 imaturo, isso pode levar ao estresse t\u00f3xico, que provoca mudan\u00e7as qu\u00edmicas no corpo e desencadeia os problemas de sa\u00fade de longo prazo mencionados acima.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Pais t\u00eam de se cuidar&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Diante de circunst\u00e2ncias t\u00e3o dif\u00edceis como as atuais para fam\u00edlias de todo o mundo, o que fazer para mitigar os efeitos sobre as crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Uma primeira forma de minimizar o estresse infantil \u00e9 as fam\u00edlias conseguirem criar algum tipo de rotina pr\u00f3pria, dentro das limita\u00e7\u00f5es atuais (e sem se cobrar em excesso). Isso porque, \u00e0 medida que as circunst\u00e2ncias ficam mais previs\u00edveis, as crian\u00e7as conseguem se organizar internamente em torno delas e aumentar sua resili\u00eancia, reduzindo a ativa\u00e7\u00e3o do sistema de estresse, diz Fisher.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tamb\u00e9m acho que os pais precisam cuidar de si mesmos. Muitos est\u00e3o se esquecendo disso. Voc\u00ea n\u00e3o pode s\u00f3 focar nas coisas estressantes, s\u00f3 trabalhar e cuidar das crian\u00e7as o tempo todo. O seu bem-estar tamb\u00e9m influencia o bem-estar dos filhos&#8221;, prossegue o pesquisador.<\/p>\n<p>&#8220;Em tantas conversas que eu tenho com os pais, eles dizem se sentir culpados, porque est\u00e3o fazendo coisas que antes n\u00e3o permitiam, como deixar seus filhos usar aparelhos eletr\u00f4nicos por mais tempo. Mas est\u00e1 tudo bem fazer isso agora. Devemos ser gentis com n\u00f3s mesmos, al\u00e9m de sermos gentis com os demais.&#8221; Isso significa ter algum tempo sozinho e dividir os cuidados das crian\u00e7as, se for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Fisher defende tamb\u00e9m que as pessoas se sintam \u00e0 vontade em dizer aos colegas de trabalho que v\u00e3o precisar de pausas no trabalho e nas reuni\u00f5es virtuais para atender as necessidades imediatas das crian\u00e7as, principalmente as pequenas &#8211; que ter\u00e3o mais dificuldades em entender por que seus pais passam horas diante de uma tela trabalhando, sem lhes dar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Todos devem poder se sentir confort\u00e1veis em dizer &#8216;preciso parar agora e lidar com meu filho&#8217;, sem ter de pedir desculpas. \u00c9 preciso enxergar isso como algo necess\u00e1rio para manter o equil\u00edbrio&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p>&#8220;Atender as crian\u00e7as no curto prazo pode ter impacto no longo prazo. Ser\u00e1 menor a chance de elas ficarem disputando a sua aten\u00e7\u00e3o ou de ficarem carentes. Ver o pedido de aten\u00e7\u00e3o como um chamado que voc\u00ea precisa escutar e devolver &#8211; reconhecer a presen\u00e7a delas e validar seus sentimentos, mesmo que s\u00f3 dizendo &#8216;vejo que voc\u00ea est\u00e1 frustrada que a mam\u00e3e ou o papai est\u00e1 no telefone&#8217; &#8211; costuma desescalar (crises de birra) e fazer uma grande diferen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Pesquisa mostra fam\u00edlias mais estressadas e crian\u00e7as, mais agitadas<\/strong><\/p>\n<p>Por fim, existe o impacto de algo que nem sempre est\u00e1 sob o controle das fam\u00edlias: as redes de apoio e coopera\u00e7\u00e3o comunit\u00e1rias, mesmo que virtuais neste momento.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 estudos mostrando isso na \u00e9poca da epidemia de ebola (no oeste da \u00c1frica). Os pa\u00edses africanos que tinham comunidades mais conectadas entre si foram os que tiveram comunidades que recuperaram mais rapidamente seu bem-estar. Nas comunidades mais isoladas, as dificuldades (p\u00f3s-pandemia) duraram mais tempo&#8221;, explica Fisher.<\/p>\n<p>Por isso, Fisher \u00e9 parte de uma equipe que est\u00e1 enviando question\u00e1rios a fam\u00edlias americanas em quarentena para entender quais ser\u00e3o suas necessidades mais urgentes e quais servi\u00e7os podem ajud\u00e1-las.<\/p>\n<p>Na primeira semana, resultados preliminares de 150 fam\u00edlias apontam que elas viram aumentar consideravelmente seu n\u00edvel de estresse. No question\u00e1rio, uma minoria dizia que seus filhos estavam agitados e manhosos antes da pandemia. Agora, com as crian\u00e7as confinadas em casa, sem ir \u00e0 escola e sob circunst\u00e2ncias mais estressantes, a maioria dos entrevistados disse que as crian\u00e7as estavam mais agitadas e manhosas.<\/p>\n<p>Um dos objetivos da pesquisa \u00e9 criar uma base estat\u00edstica que ajude pesquisadores a mapear os impactos da pandemia nas fam\u00edlias &#8211; o ineditismo da situa\u00e7\u00e3o atual faz com que seja dif\u00edcil tra\u00e7ar paralelos com outras situa\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas anteriores. O mais prov\u00e1vel, acredita Fisher, \u00e9 que a pandemia cause efeitos semelhantes aos vividos por popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es extremas, como refugiados ou v\u00edtimas de per\u00edodos prolongados de fome.<\/p>\n<p>&#8220;Como n\u00e3o passamos por nada parecido antes, n\u00e3o sabemos exatamente como esse tipo de evento afetar\u00e1 as crian\u00e7as e seu bem-estar&#8221;, explica Fisher. &#8220;Temos experi\u00eancias que servem de refer\u00eancia, como desastres naturais, escassez prolongada de alimentos e guerras que provocam o deslocamento de pessoas, mas nunca antes em uma escala global.&#8221;<\/p>\n<p>Nessas situa\u00e7\u00f5es, mesmo quando o evento em si acaba &#8211; quando o conflito cessa, por exemplo -, os efeitos de longo prazo persistem nas crian\u00e7as, porque seu sistema de estresse passou tanto tempo ativado que tem dificuldades em readaptar-se \u00e0 normalidade.<\/p>\n<p>E disso deriva a import\u00e2ncia de as crian\u00e7as terem ao seu redor adultos presentes e responsivos, que possam minimizar esse impacto e evitar que o estresse ultrapasse os limites toler\u00e1veis pelo corpo.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 professores da educa\u00e7\u00e3o infantil est\u00e3o bastante preocupados em como vai ser a volta \u00e0s aulas &#8211; o quanto as crian\u00e7as ter\u00e3o mudado, quais necessidades ter\u00e3o diante do que podem ter passado, tendo vivido com pais que podem estar tristes pela perda de pessoas ou estressados por perder renda&#8221;, aponta Fisher.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 tantas formas como esta pandemia afeta o tecido do nosso bem-estar. Temos de estar cientes de que o efeito pode ser de longo prazo para todos. (&#8230;) E as crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o quem est\u00e1 ficando mais doentes agora, mas, de muitas formas, s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis a tudo ligado \u00e0 pandemia &#8211; porque n\u00e3o t\u00eam nenhum tipo de controle sobre suas circunst\u00e2ncias e porque podem ter que lidar com as consequ\u00eancias por mais tempo que todo o mundo.&#8221;<\/p>\n<p>Fisher espera que a situa\u00e7\u00e3o extrema que vivemos hoje sirva para embasar mudan\u00e7as de longo prazo nas estruturas de apoio oferecidas \u00e0s fam\u00edlias com crian\u00e7as e na disponibilidade de cuidados infantis acess\u00edveis e de qualidade para todos &#8211; d\u00e9ficits encontrados tanto nos EUA quanto no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Se focarmos nisso agora e pensarmos em como fazer mudan\u00e7as, as coisas podem melhorar, em vez de apenas retornar ao est\u00e1gio de como eram antes da pandemia.&#8221;<\/p>\n<p>FONTE: BBC BRASIL<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as, especialmente as pequenas, parecem ser um dos grupos que t\u00eam sua sa\u00fade menos afetada pelo novo coronav\u00edrus. 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