{"id":3776,"date":"2010-10-13T07:54:06","date_gmt":"2010-10-13T10:54:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/educacao\/?p=3776"},"modified":"2010-10-13T07:54:06","modified_gmt":"2010-10-13T10:54:06","slug":"ler-para-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/2010\/10\/13\/ler-para-que\/","title":{"rendered":"Ler para qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p>Que livro escolher para a indica\u00e7\u00e3o em sala de aula? Essa \u00e9 uma das quest\u00f5es mais estudadas na pedagogia. O aluno precisa ser um part\u00edcipe ativo nessa escolha, uma vez que hoje a grande preocupa\u00e7\u00e3o da escola moderna \u00e9 com o que fazer com o conhecimento e n\u00e3o apenas na passagem dele.<\/p>\n<p>Indico aqui um texto publicado na Revista Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica, do autor Alexandre Amorim. Ele faz um balan\u00e7o entre a literatura indicada com tempo e hor\u00e1rio definido pela escola e o que realmente as crian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o capazes de absorver e transformar em conhecimentos. \u00c9 um texto leve e com muitas reflex\u00f5es para pedagogos e pais. Vamos ler?<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Ler para qu\u00ea?\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><strong><em>Alexandre Amorim<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>Desde que a pedagogia passou a se preocupar efetivamente com o aluno (e n\u00e3o apenas com o conte\u00fado da mat\u00e9ria e com a passagem de conhecimento, sem se importar com a qualidade desse conhecimento), existe uma quest\u00e3o inc\u00f4moda nas salas de aula: o livro a ser escolhido para leitura.<\/em><\/p>\n<p><em>Inc\u00f4moda pelos dois lados, do professor e do aluno. Entre a tradi\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel dos sistemas de ensino e a comum neglig\u00eancia do aluno, o professor se esfor\u00e7a para escolher uma literatura ao mesmo tempo interessante e dentro dos modelos educacionais. Porque o modelo a ser seguido deve levar em considera\u00e7\u00e3o duas ideias ao mesmo tempo decadentes e resistentes: o vestibular e a import\u00e2ncia dada \u00e0 chamada \u201cliteratura cl\u00e1ssica\u201d. <\/em><\/p>\n<p><em><a rel=\"attachment wp-att-3777\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/educacao\/ler-para-que\/080903_leitura\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-3777\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2010\/10\/080903_leitura-300x173.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"173\" \/><\/a>O professor, ainda que dotado da maior boa vontade, aos poucos nota que os livros indicados pelo sistema educacional n\u00e3o s\u00e3o exatamente os livros que motivariam seus alunos a seguir lendo e se interessando por literatura. Assim, crian\u00e7as de doze ou treze anos s\u00e3o chamadas a encarar O Mulato ou O Corti\u00e7o, respirar uma dura realidade que est\u00e1 longe da vida deles e enfrentar uma linguagem que os espanta quando apresentada tamb\u00e9m como portugu\u00eas. Todo educador sabe que o universo de um aluno est\u00e1 em expans\u00e3o e que esse universo precisa ser preenchido.<\/em><\/p>\n<p><em>A cultura n\u00e3o pode ser apenas o que o sujeito alcan\u00e7a, mas tamb\u00e9m o que constitui a \u00e9tica e a est\u00e9tica da sociedade em que esse sujeito vive. Por isso, os livros de Alu\u00edsio Azevedo, Jos\u00e9 de Alencar, Lima Barreto, M\u00e1rio de Andrade, Drummond ou de qualquer autor n\u00e3o precisam ser esquecidos ou evitados, nem devem ser impostos sem levar em considera\u00e7\u00e3o o preparo intelectual e afetivo de quem os l\u00ea.<\/em><\/p>\n<p><em>A not\u00edcia de que um livro deve ser lido at\u00e9 uma determinada data e de que nessa data haver\u00e1 um teste sobre o livro geralmente cai sobre uma turma como uma bomba de aborrecimento e desinteresse. Ouvem-se os protestos de que nunca se ouviu falar de tal autor (mesmo que seja Shakespeare ou Machado de Assis), ouve-se a temida frase \u201cpara que ler isso a\u00ed? Eu quero fazer engenharia, isso n\u00e3o vai me ajudar em nada\u201d e, por fim, ouve-se o suspiro baixo do professor, quase desistindo de dar aula e pensando em se tornar bolsista em um projeto de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva no CNPq. <\/em><\/p>\n<p><em>As demonstra\u00e7\u00f5es de desinteresse s\u00e3o recheadas de ignor\u00e2ncia e de falta de vis\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o humanista em que nossa civiliza\u00e7\u00e3o se baseia desde a Gr\u00e9cia Antiga. Mas n\u00e3o podemos deixar de considerar a vis\u00e3o do aluno, ainda que obliterada por preconceitos. O importante \u00e9 notar que, nessa vis\u00e3o, existe, sim, uma for\u00e7a importante que desloca o interesse e a vontade de ler para o ostracismo: a completa falta de contextualiza\u00e7\u00e3o do livro na vida do aluno.<\/em><\/p>\n<p><em>Existe uma agenda a ser cumprida pelo professor. O aluno precisa ser informado de que existem movimentos liter\u00e1rios (mesmo que esses movimentos tenham se provado mais did\u00e1ticos do que factuais), precisa pelo menos conhecer algumas p\u00e1ginas de nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria. Como essa agenda \u00e9 formulada e por que determinados livros s\u00e3o escolhidos nas redes p\u00fablicas \u00e9 um mist\u00e9rio para a grande maioria dos mortais, professores inclu\u00eddos. <\/em><\/p>\n<p><em>Como n\u00e3o h\u00e1 tempo ou meios de criticar ou ao menos reclamar do processo, o professor chega \u00e0 turma com a tarefa \u00e1rdua de vender o peixe que ele nem ao menos pescou. Da\u00ed a se criar uma boa expectativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele livro e \u2013 principalmente \u2013 da\u00ed a se tentar conscientizar a turma de que aquele livro \u00e9 o ideal para ser lido naquele momento vai uma dist\u00e2ncia enorme, quase t\u00e3o grande quanto a dist\u00e2ncia entre o simbolismo de Cruz e Sousa e a conta de Twitter do aluno que vai fazer vestibular para medicina.<\/em><\/p>\n<p><em>Temos, ent\u00e3o, uma equa\u00e7\u00e3o interessante: um professor cansado de seguir tarefas premeditadas por pedagogos a que ele n\u00e3o tem acesso, alunos incultos e com pouca vontade de mudar esse status e um tempo t\u00e3o pequeno em sala de aula que mal daria para estudar um conto da Carochinha. <\/em><\/p>\n<p><em>Matematicamente, \u00e9 uma inequa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que suas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguem chegar a uma equival\u00eancia. E se, no come\u00e7o deste par\u00e1grafo, eu classifiquei a equa\u00e7\u00e3o de interessante, posso compreender perfeitamente quem a considere desanimadora. Talvez a \u00fanica maneira de resolv\u00ea-la seja mesmo tentar buscar o prazer que a literatura pode dar.<\/em><\/p>\n<p><em>Acreditando no prazer l\u00fadico que a arte pode nos trazer, vejo a escolha de um livro a ser estudado em uma sala de aula como algo maior do que apenas sua interpreta\u00e7\u00e3o gramatical e de conte\u00fado. Um livro pode ser visto como ferramenta de ensino e compreens\u00e3o da l\u00edngua, o que s\u00f3 o valoriza ainda mais.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, se vamos usar O Corti\u00e7o como leitura obrigat\u00f3ria, por que n\u00e3o contextualizar sua hist\u00f3ria e a moral envolvida nele? Por que n\u00e3o simular em sala o que sempre repetimos aos alunos, que um livro \u00e9 resultado de uma experi\u00eancia de vida e que alimenta a vida de quem o l\u00ea? <\/em><\/p>\n<p><em>A complexa rela\u00e7\u00e3o de trabalhadores simples, que convivem entre diferen\u00e7as entre as paredes de uma casa de c\u00f4modos, j\u00e1 \u00e9 o bastante para criar uma minipe\u00e7a, uma pequena hist\u00f3ria a ser dramatizada em sala de aula. Uma dramatiza\u00e7\u00e3o que ajuda bastante o adolescente a entender melhor o livro e a compreender por que aquela hist\u00f3ria pode ser enriquecedora em sua vida, mesmo que ele v\u00e1 fazer vestibular para, digamos, Administra\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p><em>Se o aluno se pergunta sobre a raz\u00e3o de ler, o prazer de compreender e vivenciar dramaticamente uma hist\u00f3ria j\u00e1 o ajuda a perceber que ler \u00e9 um prop\u00f3sito em si mesmo. As consequ\u00eancias da leitura (cultura, desenvoltura na l\u00edngua, boa nota no vestibular etc.) s\u00e3o isso mesmo, meras consequ\u00eancias.<\/em><\/p>\n<p><em>Jogos sobre a leitura, ou mesmo hist\u00f3rias criadas a partir do tema do livro a ser analisado, s\u00e3o maneiras de inserir o leitor em potencial no mundo daquela obra. Se um texto \u00e9 cheio de mes\u00f3clises e palavras que n\u00e3o s\u00e3o usadas desde o s\u00e9culo XIX, pode-se criar um dicion\u00e1rio das palavras mortas ou uma brincadeira em que todos esses termos seriam subvertidos, reinventados.<\/em><\/p>\n<p><em>A obriga\u00e7\u00e3o de ler um texto n\u00e3o significa que esse texto deve ser lido de uma forma ou de outra. Literatura \u00e9, antes de tudo, o estudo de uma express\u00e3o art\u00edstica, e como tal deve ser vista com a liberdade que a poesia traz em si.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cLeitura obrigat\u00f3ria\u201d \u00e9 um termo por si s\u00f3 desanimador. Nada obrigat\u00f3rio soa muito bom. Mas deixar que ela se torne apenas isso, uma leitura obrigat\u00f3ria, \u00e9 relegar a literatura a uma mediocridade a que ela n\u00e3o merece pertencer. Por isso, \u00e9 preciso um pouco mais do que apenas dar o t\u00edtulo do livro e a data da prova para que os alunos se interessem em expandir seu pr\u00f3prio universo.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0A arte \u00e9 inerentemente l\u00fadica, n\u00e3o h\u00e1 por que perder essa caracter\u00edstica t\u00e3o sedutora. A pr\u00f3xima vez que um aluno perguntar \u201cler isso para qu\u00ea?\u201d, o professor deve responder com uma aula em que o livro seja o centro das aten\u00e7\u00f5es. Porque ler \u00e9, sim, assunto central de nossas vidas.<\/em><\/p>\n<p><em>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.educacaopublica.rj.gov.br\/biblioteca\/portugues\/0035.html\">http:\/\/www.educacaopublica.rj.gov.br\/biblioteca\/portugues\/0035.html<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que livro escolher para a indica\u00e7\u00e3o em sala de aula? Essa \u00e9 uma das quest\u00f5es mais estudadas na pedagogia. 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