{"id":8645,"date":"2015-02-07T06:45:43","date_gmt":"2015-02-07T09:45:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/educacao\/?p=8645"},"modified":"2015-02-07T06:45:43","modified_gmt":"2015-02-07T09:45:43","slug":"falta-de-agua-forca-36-milhoes-de-latino-americanos-escolher-entre-necessidades-basicas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/2015\/02\/07\/falta-de-agua-forca-36-milhoes-de-latino-americanos-escolher-entre-necessidades-basicas-2\/","title":{"rendered":"Falta de \u00e1gua for\u00e7a 36 milh\u00f5es de latino-americanos a escolher entre necessidades b\u00e1sicas"},"content":{"rendered":"<p>Aos 40 anos, a boleira Maria Dilv\u00e2nia Lima nunca tomou um banho de chuveiro. Duas vezes por semana, ela se junta a sete colegas para assar bolos em uma associa\u00e7\u00e3o de mulheres de uma pequena cidade do nordeste brasileiro.<\/p>\n<p>Nenhuma receita leva \u00e1gua. \u201cSubstitu\u00edmos por polpa de frutas ou leite\u201d, conta ela, orgulhosa. Nos dias de produ\u00e7\u00e3o normal, 25 quitutes (de coco e mandioca, entre outros sabores) saem de uma pequena cozinha para serem vendidos aos vizinhos.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, por\u00e9m, tem sido dif\u00edcil manter a produ\u00e7\u00e3o. Por causa da seca que h\u00e1 tr\u00eas anos maltrata o semi\u00e1rido, o assentamento rural onde vive n\u00e3o recebe chuva suficiente para encher as cisternas das casas. Pior: fora a \u00e1gua trazida pelo Ex\u00e9rcito a cada semana, n\u00e3o h\u00e1 outra fonte de abastecimento, o que obriga as mulheres de Cara\u00fabas (Rio Grande do Norte) a tomar decis\u00f5es cada vez mais dif\u00edceis no dia a dia.<\/p>\n<p>\u201cA \u00e1gua \u00e9 necess\u00e1ria tanto para lavar as vasilhas quanto para a obra de amplia\u00e7\u00e3o da nossa cozinha. Estamos deixando de gastar para n\u00e3o faltar em casa, para a fam\u00edlia e o rebanho\u201d, comenta Dilv\u00e2nia. Como as vizinhas, ela diariamente sai cedo de casa para encher as 10 latas d\u2019\u00e1gua a que os moradores t\u00eam direito.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua, n\u00e3o h\u00e1 bolos nem renda para o grupo. As fam\u00edlias acabam dependendo quase exclusivamente do pagamento do Bolsa Fam\u00edlia, do Garantia Safra (que protege os agricultores em caso de perdas) e da aposentadoria, tr\u00eas dos principais benef\u00edcios concedidos pelo governo brasileiro.<\/p>\n<p><strong>\u00c1gua cinza<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria ilustra um desafio que 748 milh\u00f5es de pessoas enfrentam em todo o mundo, 36 milh\u00f5es s\u00f3 na Am\u00e9rica Latina. A falta d\u2019\u00e1gua significa que, diariamente, essas pessoas precisam escolher entre preparar comida ou lavar a lou\u00e7a, entre tomar banho ou regar a horta.<\/p>\n<p>Com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o problema da falta de chuvas \u2013 e de abastecimento \u2013 tende a piorar nas regi\u00f5es mais \u00e1ridas do mundo. \u201cO nordeste brasileiro sofre, particularmente, os impactos das secas relacionadas com o fen\u00f4meno El Ni\u00f1o, que podem se tornar mais frequentes em um planeta 4\u00b0C mais quente\u201d, informa a vers\u00e3o latino-americana do relat\u00f3rio Diminuir o Calor, do Banco Mundial.<\/p>\n<p>Tantas limita\u00e7\u00f5es obrigam qualquer projeto de fornecimento de \u00e1gua a tamb\u00e9m ensinar a popula\u00e7\u00e3o a usar o l\u00edquido da forma mais eficiente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia para as fam\u00edlias de Cara\u00fabas \u00e9 que, entre setembro e dezembro deste ano, a vila finalmente ter\u00e1 abastecimento regular, por meio de uma adutora que puxar\u00e1 a \u00e1gua do po\u00e7o localizado a 5km da vila.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 poss\u00edvel levar \u00e1gua encanada \u00e0s 43 fam\u00edlias do assentamento, permitir a elas cuidar das pequenas planta\u00e7\u00f5es em seus quintais, vender o excedente na feira. E as doceiras v\u00e3o poder continuar suas atividades\u201d, empolga-se Ana Guedes, gerente executiva do projeto de desenvolvimento Rio Grande do Norte Sustent\u00e1vel, que une o governo do estado ao Banco Mundial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os moradores aprender\u00e3o a aproveitar at\u00e9 o l\u00edquido do banho e da descarga, chamado de \u201c\u00e1gua cinza\u201d pelos especialistas na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, essa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o que as regi\u00f5es mais ricas do Brasil, como S\u00e3o Paulo, v\u00eam aprendendo a duras penas, pois a seca e a falta d\u2019\u00e1gua deixaram de ser um problema exclusivo do campo e do Nordeste do Brasil.<\/p>\n<p><strong>O fim de um peso<\/strong><\/p>\n<p>Iniciativa semelhante, conclu\u00edda em 2010, j\u00e1 havia levado acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel para 53 mil fam\u00edlias em v\u00e1rios munic\u00edpios do Rio Grande do Norte. O impacto social foi imediato e significativo.<\/p>\n<p>As mulheres dessas cidades \u2013 antes respons\u00e1veis por buscar a \u00e1gua em enormes latas \u2013 se livraram do fardo e puderam passar mais tempo fazendo atividades remuneradas ou brincando com os filhos. Estudo feito em 20 comunidades mostrou que, como resultado, elas tiveram aumento de 30% na renda familiar.<\/p>\n<p>\u201cMesmo com os investimentos j\u00e1 realizados, a demanda por \u00e1gua ainda \u00e9 uma necessidade para diversas fam\u00edlias na \u00e1rea rural\u201d, comenta F\u00e1tima Amazonas, especialista em desenvolvimento rural do Banco Mundial. Ela acrescenta que o novo projeto tamb\u00e9m atuar\u00e1 na recupera\u00e7\u00e3o ambiental de \u00e1reas degradadas e em capacita\u00e7\u00f5es para os agricultores.<\/p>\n<p>Essas possibilidades animam a dona de casa Jane Fernandes, 27 anos, m\u00e3e de duas filhas. Todos os dias, ela gasta pelo menos uma hora e meia indo e voltando da cisterna do assentamento, abastecida pelo Ex\u00e9rcito. \u201cMeus sonhos: que eu termine meus estudos para dar uma vida melhor \u00e0s meninas e que essa \u00e1gua chegue\u201d, conta.<\/p>\n<p>Jane, como outros milh\u00f5es de latino-americanos, tamb\u00e9m sonha tomar um banho de chuveiro.<\/p>\n<p><strong>Fonte:\u00a0<\/strong>ONU Brasil<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 40 anos, a boleira Maria Dilv\u00e2nia Lima nunca tomou um banho de chuveiro. 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