{"id":9716,"date":"2016-05-05T07:30:05","date_gmt":"2016-05-05T10:30:05","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/educacao\/?p=9716"},"modified":"2016-05-05T07:30:05","modified_gmt":"2016-05-05T10:30:05","slug":"falta-material-didatico-especifico-nas-escolas-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/2016\/05\/05\/falta-material-didatico-especifico-nas-escolas-indigenas\/","title":{"rendered":"Falta material did\u00e1tico espec\u00edfico nas escolas ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p>Ir para a escola e assistir aulas em outro idioma, n\u00e3o conhecer a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, aprender a hist\u00f3ria de outro povo e ter exemplos estranhos \u00e0 realidade em que se vive \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que parece irreal. No entanto, \u00e9 assim que s\u00e3o educadas muitas crian\u00e7as e jovens ind\u00edgenas. Os \u00faltimos dados do Censo Escolar de 2015, do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), mostram que pouco mais da metade, 53,5%, das escolas ind\u00edgenas t\u00eam material did\u00e1tico espec\u00edfico para o grupo \u00e9tnico.<\/p>\n<p>De acordo com especialistas, n\u00e3o s\u00e3o raras as situa\u00e7\u00f5es em que os ind\u00edgenas n\u00e3o t\u00eam acesso a materiais na pr\u00f3pria l\u00edngua, que utilizam produtos elaborados para outra etnia que n\u00e3o a sua, ou mesmo que aprendem com livros que trazem, para facilitar a li\u00e7\u00e3o, elefantes e girafas, animais completamente desconhecidos na Amaz\u00f4nia, por exemplo.<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas s\u00e3o 0,47% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, 817.963 habitantes, dos quais 502.783 vivem na zona rural e 315.180 em \u00e1reas urbanas, mostram os resultados preliminares do Censo Demogr\u00e1fico feito pelo IBGE em 2010. Pertencem a cerca de 305 etnias e falam 274 l\u00ednguas.<\/p>\n<p>&#8220;A educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena apresenta os mesmo desafios [de inclus\u00e3o escolar, desempenho e evas\u00e3o] da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, com grau de dificuldade ainda maior pela especificidade de atendimento a essas popula\u00e7\u00f5es. O grande n\u00famero de diferentes grupos ind\u00edgenas coloca uma dificuldade adicional&#8221;, diz a superintendente do programa Todos Pela Educa\u00e7\u00e3o, Alejandra Meraz Velasco. &#8220;Certamente, a desigualdade n\u00e3o aparece apenas nesses itens, a qualidade da educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 comprometida como um todo&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Desde 2010, o uso de material did\u00e1tico espec\u00edfico para esse grupo \u00e9tnico cresce com pequenas oscila\u00e7\u00f5es, segundo levantamento do Todos pela Educa\u00e7\u00e3o, com base nos dados do MEC. Nesse ano,\u00a0 50,5% das escolas tinham material did\u00e1tico espec\u00edfico. O percentual chegou a 56,7% em 2013. Em 2014, no entanto, houve queda &#8211; 50,6% das escolas tinham esse material.<\/p>\n<p>Materiais de outra etnia<br \/>\nSem material did\u00e1tico espec\u00edfico, os estudantes da aldeia Sowaint\u00ea, em Rond\u00f4nia, usam livros da etnia tupinamb\u00e1, da Bahia. &#8220;S\u00e3o contextos bastante diferentes, cada povo tem sua hist\u00f3ria e cultura, n\u00e3o somos iguais. Fazer material did\u00e1tico s\u00f3 para uma ou outra n\u00e3o \u00e9 certo, acabamos trabalhando a hist\u00f3ria de outro povo, n\u00e3o a nossa&#8221;,\u00a0 diz Ivonete Saban\u00ea. Com 29 anos, ela \u00e9 professora do 4\u00ba e 5\u00ba anos na aldeia.<\/p>\n<p>Ivonete decidiu lecionar para atender \u00e0s necessidades de sua comunidade. Hoje, \u00e9 aluna do curso de licenciatura em educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica intercultural para povos ind\u00edgenas na Universidade Federal de Rond\u00f4nia (Unir). Juntamente com os alunos, ela montou um livro com desenhos e textos sobre a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio povo. Agora, quer transformar a experi\u00eancia em material did\u00e1tico para ser trabalhado na aldeia. &#8220;Serve para depois, quando os mais velhos n\u00e3o estiverem mais aqui, [os mais jovens] entenderem toda a hist\u00f3ria do povo, porque ela estar\u00e1 registrada. Eles poder\u00e3o repassar para as novas gera\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m aprofundar, procurar saber mais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda h\u00e1 muita necessidade de produzir v\u00e1rios tipo de materiais. Quando um povo decide trabalhar seu conhecimento oral na forma de escrita, precisa de v\u00e1rios materiais. Primeiro da alfabetiza\u00e7\u00e3o e depois da sequ\u00eancia dessa forma\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o doutor em lingu\u00edstica Joaquim Mana Hunikuin. Ele nasceu na aldeia Praia do Carapan\u00e3, no Acre, e hoje trabalha em Rio Branco, como t\u00e9cnico da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do estado.<\/p>\n<p>&#8220;Vejo que os povos t\u00eam a mesma necessidade&#8221;, diz, &#8220;Povos falantes que querem produzir o seu material did\u00e1tico precisam ter esse conhecimento t\u00e9cnico cient\u00edfico para analisar a pr\u00f3pria l\u00edngua e definir a l\u00edngua a ser usada na escola. Do material que vem de fora, se aprende a l\u00edngua portuguesa&#8221;.<\/p>\n<p>Ele comenta que h\u00e1 livros que chegam \u00e0s aldeias que n\u00e3o condizem com a realidade da popula\u00e7\u00e3o. &#8220;H\u00e1 livros que v\u00eam de fora, h\u00e1 imagens desconhecidas. &#8220;Na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, as crian\u00e7as n\u00e3o conhecem elefante, girafa. Mesmo n\u00e3o entendendo a l\u00f3gica desses personagens, a ideia \u00e9 aprender a ler e escrever a l\u00edngua portuguesa&#8221;.<\/p>\n<p>Joaquim Hunikuin informa que h\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o no estado de produzir materiais espec\u00edficos, mas o contexto econ\u00f4mico n\u00e3o est\u00e1 favor\u00e1vel e n\u00e3o h\u00e1 recursos para a edi\u00e7\u00e3o desses materiais.<\/p>\n<p>A coordenadora do Laborat\u00f3rio de L\u00ednguas Ind\u00edgenas da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), Ana Suelly Arruda C\u00e2mara Cabral, chama a aten\u00e7\u00e3o para outra quest\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o de professores. &#8220;Material did\u00e1tico somente n\u00e3o adianta. Os professores t\u00eam que ter forma\u00e7\u00e3o adequada para usar esses materiais. Uma escola pode ter muitos materiais para ensino da l\u00edngua nas escolas ind\u00edgenas, mas se n\u00e3o tiver treinamento, se os professores n\u00e3o souberem como fazer, n\u00e3o adianta ter material, que n\u00e3o vai servir para a educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nDe acordo com o MEC, o \u00edndice de escolas com oferta de materiais did\u00e1ticos espec\u00edficos oscila, por um lado, devido ao aumento de escolas ind\u00edgenas a cada ano. Em 2012, de acordo com o Censo Escolar, eram 2.954 escolas; em 2013, 3.059; em 2014, 3.056; e em 2015, 3.085. Por outro lado, &#8220;a tiragem desses materiais, em muitos casos, \u00e9 pequena&#8221;, diz a pasta.<\/p>\n<p>O MEC acrescenta que os materiais did\u00e1ticos e paradid\u00e1ticos t\u00eam se caracterizado por ser de autoria ind\u00edgena e produzidos em contextos de forma\u00e7\u00e3o de professores ind\u00edgenas no magist\u00e9rio intercultural de n\u00edvel m\u00e9dio e nas licenciaturas interculturais ind\u00edgenas. &#8220;De modo geral, os materiais produzidos ainda se destinam ao letramento e aos anos inicias do ensino fundamental, havendo grande lacuna para os anos finais e o ensino m\u00e9dio&#8221;.<\/p>\n<p>Para o minist\u00e9rio, o grande desafio \u00e9 ampliar a oferta de toda a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica nas escolas ind\u00edgenas, tendo como estrat\u00e9gia a forma\u00e7\u00e3o de professores nas licenciaturas interculturais ind\u00edgenas, que habilitam os docentes nos anos finais do ensino fundamental e no ensino m\u00e9dio. Essas licenciaturas, de acordo com o MEC, s\u00e3o desenvolvidas em 20 institui\u00e7\u00f5es de ensino superior p\u00fablicas e habilitaram, at\u00e9 2015, 1.961 professores ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ir para a escola e assistir aulas em outro idioma, n\u00e3o conhecer a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, aprender a hist\u00f3ria de outro povo e ter exemplos estranhos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23,24,3,4,201,266,25,27,28,116],"tags":[],"class_list":["post-9716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ceara","category-cursos","category-dicas-de-atividades","category-educacao","category-educacao-alimentar","category-educacao-familiar","category-educadores","category-escolas","category-estatuto-da-crianca-e-do-adolescente","category-politicas-publicas"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9716"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9716\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}