{"id":9770,"date":"2016-07-01T07:22:58","date_gmt":"2016-07-01T10:22:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/educacao\/?p=9770"},"modified":"2016-07-01T07:22:58","modified_gmt":"2016-07-01T10:22:58","slug":"estudo-masculinidade-e-nao-violencia-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/2016\/07\/01\/estudo-masculinidade-e-nao-violencia-no-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"Estudo Masculinidade e N\u00e3o Viol\u00eancia no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p>A constante exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia urbana durante a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia contribui para a reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia na fase adulta, inclusive dom\u00e9stica e de g\u00eanero. \u00c9 o que conclui o estudo <em>Masculinidade e N\u00e3o Viol\u00eancia no Rio de Janeiro<\/em>, publicado no dia 19 de maio, pelo Instituto Promundo em parceria com o programa Global Safe and Inclusive Cities (Cidades Seguras e Inclusivas, em tradu\u00e7\u00e3o literal).<\/p>\n<p>Foram entrevistadas 1.151 pessoas entre 2013 e 2016, de 18 a 59 anos, em duas \u00e1reas da cidade do Rio de Janeiro: a sul, onde as taxas de homic\u00eddio s\u00e3o mais reduzidas, e a norte, onde essas taxas s\u00e3o mais elevadas. Na etapa qualitativa foram feitas 56 entrevistas com homens e familiares, de 18 a 56 anos, que tomaram trajet\u00f3rias de n\u00e3o viol\u00eancia, incluindo ex-traficantes, policiais, ativistas e as respectivas parceiras.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia dentro de casa aparece no estudo como fator crucial para a perpetra\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia na fase adulta. Mais de 64% dos homens que declararam ter sido expostos \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica durante a inf\u00e2ncia tinham praticado viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas, 70% tinham praticado viol\u00eancia f\u00edsica na rua e quase 30% haviam feito uso de viol\u00eancia sexual. As entrevistadas expostas \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica eram significativamente mais propensas a usar a viol\u00eancia urbana f\u00edsica e verbal em alguma ocasi\u00e3o, aponta a pesquisa.<\/p>\n<p>Mais de 80% dos homens haviam sofrido pelo menos duas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia antes dos 18 anos. Na fase adulta, o uso da viol\u00eancia urbana foi cometido pela maioria: cerca de 65% dos homens da regi\u00e3o sul e 57,3% da norte. A viol\u00eancia contra parceiras \u00edntimas, viol\u00eancia sexual e p\u00fablica foram mais praticadas nos bairros com maiores \u00edndices de homic\u00eddio. Mais de 46% dos homens que moravam na regi\u00e3o norte e 38,7% dos que moravam na regi\u00e3o sul relataram ter usado viol\u00eancia contra pessoas \u00edntimas. Na zona norte, 17% dos homens relataram ter perpetrado viol\u00eancia sexual contra uma mulher que n\u00e3o a sua parceira. Na zona sul esse percentual foi 9,2%.<\/p>\n<p>Um dos entrevistados, o ativista Jailson de Souza e Silva, fundador do Observat\u00f3rio de Favelas, disse que ele e os quatro irm\u00e3os conseguiram romper com a viol\u00eancia vivida em casa. \u201cMeu pai quando bebia era muito agressivo, violento. Era militar e s\u00f3 andava com revolver e punhal. A resposta de todos n\u00f3s foi de romper com essa trajet\u00f3ria de viol\u00eancia, somo cinco homens muito pac\u00edficos\u201d, disse. \u201cAgora, \u00e9ramos uma fam\u00edlia muito unida, estruturada. Minha m\u00e3e, tia e av\u00f3 souberam lidar com essa situa\u00e7\u00e3o [de viol\u00eancia] de uma forma n\u00e3o violenta. Nasci em favela, mas quando era garoto, na d\u00e9cada de 1960, Mangueirinha [zona norte], n\u00e3o era um espa\u00e7o marcado pela viol\u00eancia e isso faz diferen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Para Jailson, a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia nas favelas, com altos n\u00fameros de viol\u00eancia, contribui para\u00a0 reproduzir e refor\u00e7ar a viol\u00eancia dentro e fora de casa. \u201cMuitas ambiente naturaliza determinadas manifesta\u00e7\u00f5es agressivas, as pessoas acabam incorporando-a achando que aquilo faz parte do cotidiano. O machismo, preconceito contra nordestinos, racismo s\u00e3o outras formas de viol\u00eancia naturalizadas em alguns territ\u00f3rios\u201d.<\/p>\n<p>A vulnerabilidade e a precariedade da inf\u00e2ncia, bem como situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que sofreram, eram os elementos chave que explicaram a entrada do tr\u00e1fico na vida dos entrevistados. Um dos entrevistados, n\u00e3o identificado por motivos de seguran\u00e7a, contou que a perda dos pais foi fundamental para a entrada no tr\u00e1fico. \u201cCom 11 anos perdi minha m\u00e3e, com uns 14 ou 15 perdi o meu pai, da\u00ed j\u00e1 conheci o tr\u00e1fico. J\u00e1 influ\u00eancia de estar fumando maconha, de estar com certos amigos entre aspas. A\u00ed meu pai morreu e eu fui indo, indo, indo, indo e quando eu fui ver eu estava envolvido. Sem pai, sem m\u00e3e, sem trabalho, o jeito era ir para o tr\u00e1fico\u201d.<\/p>\n<p>Um morador da favela do Vidigal, zona sul, descreveu como as crian\u00e7as s\u00e3o seduzidas pelo tr\u00e1fico devido \u00e0 proximidade com os adultos envolvidos no crime. \u201cVoc\u00ea est\u00e1 ali, conversando, jogando bolinha de gude ou soltando pipa, ou qualquer outra coisa, com um monte de moleques. A\u00ed passa aquele bonde de 40 cabe\u00e7as, com fuzis para o alto, com muito dinheiro. \u2018E a\u00ed, vai ali comprar uma pizza pra gente\u2019, \u2018O troco \u00e9 seu.\u2019 Pronto, voc\u00ea ganhou o moleque\u201d, disse o entrevistado. \u201cUma vez ou outra, \u2018qual \u00e9? Quer dar um tiro?\u2019, \u2018n\u00e3o\u2019, \u2018quer dar um tiro?\u2019, A\u00ed voc\u00ea, p\u00e1, p\u00e1, p\u00e1. P\u00f4, \u00e9 emocionante. Qualquer crian\u00e7a, voc\u00ea se sente o Rambo. Esse bandido tamb\u00e9m \u00e9 vitima e um dia fizeram isso com ele\u201d.<\/p>\n<p>Morador do Complexo da Mar\u00e9, identificado como H, de 23 anos, falou do fasc\u00ednio que filhos de traficantes exerciam por terem o que a maioria dos meninos da comunidade n\u00e3o tinha. \u201cA gente para poder ter umas dez bolinhas de gude, a gente tinha que ficar uma semana pedindo bolinha de gude emprestada para tentar jogar e conquistar as outras. Os moleques chegavam com garrafas de bolinha de gude\u201d, lembrou. \u201c&#8217;Est\u00e1 com uma garrafa de bolinha de gude! Ele \u00e9 filho de ciclano, \u00e9 irm\u00e3o de ciclano\u2019. Claro um moleque de 7, 10 anos, com uma garrafa de bolinha de gude ele \u00e9 o bam-bam-bam\u201d.<\/p>\n<p>A paternidade surgiu como fator central de mudan\u00e7a dos entrevistados que declararam ter seguido trajet\u00f3ria de n\u00e3o viol\u00eancia.\u00a0 Outros fatores para a mudan\u00e7a citados foram: conex\u00e3o a c\u00edrculos de conviv\u00eancia ou apoio social, n\u00edveis de escolaridade dos homens foram alguns fatores citados para a mudan\u00e7a, entre outros. Os policiais entrevistados disseram que procuraram ajuda psicol\u00f3gica nos servi\u00e7os de apoio da Pol\u00edcia Militar.\u00a0 Ex-traficantes entrevistados disseram que o movimento de mudan\u00e7a para atitudes n\u00e3o violentas foi influenciado pela ajuda de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais na assist\u00eancia na sa\u00edda do tr\u00e1fico de drogas, por press\u00e3o ou apoio familiar para o abandono do tr\u00e1fico ou por eventos e riscos traum\u00e1ticos, como morte de amigos.<\/p>\n<p>Uma das coordenadoras da pesquisa, Alice Taylor,\u00a0 disse que uma das novidades do estudo \u00e9 apontar casos de sucesso na preven\u00e7\u00e3o, que combinam atividades socioeducativas e apoios psicol\u00f3gicos a homens jovens nos territ\u00f3rios marcados pela viol\u00eancia. \u201cMuito se gasta com policiamento e pol\u00edticas repressivas, mas s\u00e3o muito poucos os recursos para incentivar e apoiar as media\u00e7\u00f5es de conflito entre jovens, ajud\u00e1-los a sair do tr\u00e1fico, por exemplo. H\u00e1 projetos no Brasil que oferecem a oportunidade de homens de falar sobre a viol\u00eancia sofrida na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia e muitos desses homens t\u00eam conseguido tra\u00e7ar uma trajet\u00f3ria de n\u00e3o viol\u00eancia ou de menos viol\u00eancia\u201d, disse.<\/p>\n<p>Alice tamb\u00e9m destacou a import\u00e2ncia de se trabalhar nas escolas o questionamento das normas de g\u00eanero\u00a0 que legitimam posturas violentas associadas \u00e0 masculinidade. \u201cProgramas nesse sentido tem tido resultados positivos na diminui\u00e7\u00e3o de atitudes favor\u00e1veis a viol\u00eancias. Nossas experi\u00eancias e diversas pesquisas mostram que \u00e9 poss\u00edvel \u201d, disse. \u201cPol\u00edticas sobre viol\u00eancia urbana e seguran\u00e7a p\u00fablica geralmente t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com interven\u00e7\u00f5es policiais e mais policiamento, que s\u00e3o importantes, mas precisamos olhar para al\u00e9m da pol\u00edcia e promover estrat\u00e9gias mais eficazes\u201d.<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A constante exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia urbana durante a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia contribui para a reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia na fase adulta, inclusive dom\u00e9stica e de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23,4,266,25,27,28,13,116,240],"tags":[],"class_list":["post-9770","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ceara","category-educacao","category-educacao-familiar","category-educadores","category-escolas","category-estatuto-da-crianca-e-do-adolescente","category-pais-e-filhos","category-politicas-publicas","category-saude-publica"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9770","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9770"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9770\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9770"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9770"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9770"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}