{"id":9785,"date":"2016-07-28T07:06:48","date_gmt":"2016-07-28T10:06:48","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/educacao\/?p=9785"},"modified":"2016-07-28T07:06:48","modified_gmt":"2016-07-28T10:06:48","slug":"a-demanda-dos-jovens-e-por-uma-gestao-mais-democratica-das-unidades-de-ensino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/educacao\/2016\/07\/28\/a-demanda-dos-jovens-e-por-uma-gestao-mais-democratica-das-unidades-de-ensino\/","title":{"rendered":"A demanda dos jovens \u00e9 por uma gest\u00e3o mais democr\u00e1tica das unidades de ensino"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos meses, estudantes secundaristas das escolas p\u00fablicas de todo o Brasil t\u00eam ocupado as escolas que frequentam, lutando por reivindica\u00e7\u00f5es diversas. Entre elas, a maior participa\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que muitos se queixam de n\u00e3o ser ouvidos pela dire\u00e7\u00e3o nos mais diferentes assuntos relativos ao ambiente escolar do qual fazem parte. A demanda dos jovens \u00e9 por uma gest\u00e3o mais democr\u00e1tica das unidades de ensino e das redes e secretarias que as coordenam. Especialistas no tema s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que a participa\u00e7\u00e3o, da forma com se d\u00e1 hoje, est\u00e1 longe de ser ideal.<\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 participar? Esse \u00e9 o problema. Num exemplo simples: ir a um casamento \u00e9 participar do casamento mas esse participante n\u00e3o \u00e9 ouvido, n\u00e3o decide nada e tem de se acomodar ao que est\u00e1 posto. Esta \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o que os dirigentes desejam: figurantes sem efetiva participa\u00e7\u00e3o \u2013 pais, familiares e estudantes s\u00e3o convidados a assistir uma encena\u00e7\u00e3o. Quando come\u00e7am a realmente dar opini\u00f5es, demandar ou criticar, s\u00e3o recha\u00e7ados, ignorados e at\u00e9 humilhados. Nenhum dirigente deseja a presen\u00e7a de quem participa de verdade ou amea\u00e7a quebrar a rotina de suas a\u00e7\u00f5es\u201d, critica\u00a0Katia Siqueira de Freitas, pedagoga e professora da Universidade Cat\u00f3lica de Salvador e que j\u00e1 atuou no Programa de Forma\u00e7\u00e3o Continuada de Gestores em Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (UFBA\/ISP\/MEC) e no Programa de Apoio aos Dirigentes Municipais de Educa\u00e7\u00e3o (Pradime).<\/p>\n<p>Segundo Katia, os fatos atuais mostram que o jovem brasileiro deseja participar da escola e ser protagonista no cen\u00e1rio educacional nacional. \u201cA escola precisa entender o momento dos estudantes e acat\u00e1-los com respeito e carinho, ouvi-los, escutar e dialogar com eles. O jovem deseja participar e ser atuante\u201d, afirma. \u201cEmpoderar, ouvir, conversar de igual para igual e conversar sem reprimir s\u00e3o solu\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Hyrla Tucci Leal, professora-assistente da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP) e especialista em gest\u00e3o escolar, afirma que a gest\u00e3o democr\u00e1tica pressup\u00f5e a ruptura com os paradigmas tradicionais que a escola costumava seguir e prev\u00ea espa\u00e7os din\u00e2micos de intera\u00e7\u00e3o de saberes e delega\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>\u201cComo se observa nos \u00faltimos meses, a mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil se deu por v\u00e1rios fatores: falta de di\u00e1logo com os respons\u00e1veis pelas medidas tomadas em Educa\u00e7\u00e3o, falta de parceria com a comunidade escolar e social e de seus agentes envolvidos, falta de negocia\u00e7\u00f5es com os respons\u00e1veis pelas escolas e falta de transpar\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s propostas de reestrutura\u00e7\u00e3o. Os alunos desejam ser ouvidos\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Segundo ela, a partir do momento em que a Lei de Diretrizes e Bases (LDB n\u00ba 9394\/96) foi implantada, tornou-se uma exig\u00eancia legal a transforma\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o escolar autorit\u00e1ria numa gest\u00e3o democr\u00e1tica que conceda autonomia pedag\u00f3gica, administrativa e financeira, constru\u00edda cont\u00ednua e coletivamente. \u201cPor\u00e9m, h\u00e1 um desequil\u00edbrio de poder no compartilhamento de solu\u00e7\u00f5es de problemas que envolvem os estudantes e que nos remete tamb\u00e9m \u00e0 falta da gest\u00e3o democr\u00e1tica e compartilhada na escola. Sem construir pontes com os alunos e outros membros da comunidade escolar, os protestos dever\u00e3o continuar, pois o espa\u00e7o livre de discuss\u00f5es est\u00e1 colocado e h\u00e1 necessidade urgente de chamar os jovens a assumir parcerias em rela\u00e7\u00e3o aos problemas que surgem e suas respectivas solu\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Para o professor\u00a0Jo\u00e3o Ferreira de Oliveira, professor da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) e especialista em gest\u00e3o escolar, os alunos n\u00e3o podem ser vistos como receptores passivos de tudo o que a escola faz. &#8220;A democracia \u00e9 um passaporte para garantir que todos tenham condi\u00e7\u00f5es de construir uma vida digna e sem participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 como isso acontecer&#8221;, diz. &#8220;O salto de qualidade na nossa Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai se dar sem a participa\u00e7\u00e3o dos alunos. Nosso maior desafio \u00e9 envolv\u00ea-los nisso, mantendo um di\u00e1logo para que deem valor para essa gest\u00e3o democr\u00e1tica.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Dados<\/strong><br \/>\nO tema da gest\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 novo e \u00e9 considerado pelos especialistas em Educa\u00e7\u00e3o como um dos maiores entraves da \u00e1rea. Tanto que consta no atual Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE), vigente desde 2014, na meta 19: \u201cassegurar condi\u00e7\u00f5es, no prazo de 2 anos, para a efetiva\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o democr\u00e1tica da Educa\u00e7\u00e3o, associada a crit\u00e9rios t\u00e9cnicos de m\u00e9rito e desempenho e \u00e0 consulta p\u00fablica \u00e0 comunidade escolar, no \u00e2mbito das escolas p\u00fablicas, prevendo recursos e apoio t\u00e9cnico da Uni\u00e3o para tanto\u201d. Entre as estrat\u00e9gias para o cumprimento da meta, algumas se destacam por mencionar a participa\u00e7\u00e3o dos estudantes e da comunidade escolar. \u00c9 o caso da estrat\u00e9gia 19.1, que estabelece a cria\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o para a gest\u00e3o democr\u00e1tica nas escolas; da 19.6, que aumenta a participa\u00e7\u00e3o da sociedade na constru\u00e7\u00e3o do projeto pol\u00edtico pedag\u00f3gico e, principalmente, da 19.4, que visa o fortalecimento dos gr\u00eamios e associa\u00e7\u00f5es de pais e mestres (APMs).<\/p>\n<p>No entanto, o Brasil, carece de dados oficiais que mostrem, na pr\u00e1tica, se a gest\u00e3o das unidades de ensino \u00e9 realmente democr\u00e1tica. S\u00e3o poucas as estat\u00edsticas dispon\u00edveis. Entre elas, est\u00e1 a porcentagem da participa\u00e7\u00e3o da comunidade na gest\u00e3o educacional, que mostra quantos munic\u00edpios possuem Conselho Municipal de Educa\u00e7\u00e3o com representante de pais e alunos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), por meio da Pesquisa de Informa\u00e7\u00f5es B\u00e1sicas Municipais (Munic), 80,3% (ou 4.471 cidades) dos mun\u00edcipios brasileiros t\u00eam essa representatividade, sendo o Sudeste a regi\u00e3o com a maior m\u00e9dia (83,2%) e o Norte, com a pior (65,8%). Entre as prefeituras que afirmam n\u00e3o ter representantes, seis sequer possu\u00edam conselho, \u00f3rg\u00e3o indispens\u00e1vel para que efetive uma gest\u00e3o verdadeiramente democr\u00e1tica (entenda melhor <a href=\"http:\/\/www.todospelaeducacao.org.br\/reportagens-tpe\/30478\/848-das-cidades-brasileiras-tem-conselho-municipal-de-educacao\" target=\"_blank\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse dado, o Pa\u00eds s\u00f3 disp\u00f5e da porcentagem de escolas de 9\u00ba ano com alunos nos conselhos escolares, medida a cada dois anos pelo question\u00e1rio da Prova Brasil. Os dados da \u00faltima edi\u00e7\u00e3o mostram que 79% delas afirmam ter alunos nos conselhos.<\/p>\n<p>Para Hyrla, a quest\u00e3o da gest\u00e3o de democr\u00e1tica \u00e9 hist\u00f3rica, uma vez que muitos jovens s\u00f3 passam a dar mais valor \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o quando entram na universidade, pela exig\u00eancia do mercado de trabalho. \u201cA meu ver, somente quando a escola reconhecer o jovem como indiv\u00edduo de potencialidades e talentos e o seu curr\u00edculo for mais interessante e transmitido de forma din\u00e2mica \u00e9 que vai conseguir maior aten\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o dos seus alunos. Quando as rela\u00e7\u00f5es forem ressignificadas para eles, a escola ter\u00e1 sentido. O conhecimento de novas pr\u00e1ticas educativas far\u00e1 a grande diferen\u00e7a para o jovem\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ela explica que os mecanismos existentes hoje, como o gr\u00eamio e o conselho escolar, n\u00e3o s\u00e3o usados de forma plena. \u201cA maioria das escolas ainda n\u00e3o foi capaz da sua constru\u00e7\u00e3o como o espa\u00e7o desejado de participa\u00e7\u00e3o. Ainda h\u00e1 outros mecanismos de participa\u00e7\u00e3o para os alunos, tamb\u00e9m em fase de constru\u00e7\u00e3o ou de discuss\u00e3o, entre os quais, os conselhos de classe diferenciados, as reuni\u00f5es para resolu\u00e7\u00e3o de problemas de sala de aula, junto aos pais e \u00e0 comunidade, a luta pela autonomia progressiva da escola e a participa\u00e7\u00e3o e envolvimento dos alunos em todas as fases de aprendizado por meio de debates e oficinas significativos\u201d, sugere.<\/p>\n<p>Fonte: Todos Pela Educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos meses, estudantes secundaristas das escolas p\u00fablicas de todo o Brasil t\u00eam ocupado as escolas que frequentam, lutando por reivindica\u00e7\u00f5es diversas. 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