{"id":1087,"date":"2015-08-27T12:41:06","date_gmt":"2015-08-27T15:41:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/?p=1087"},"modified":"2015-08-27T12:41:06","modified_gmt":"2015-08-27T15:41:06","slug":"literatura-novo-conto-do-livro-de-ronaldo-correia-de-brito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/2015\/08\/27\/literatura-novo-conto-do-livro-de-ronaldo-correia-de-brito\/","title":{"rendered":"[LITERATURA] Novo conto do livro de Ronaldo Correia de Brito"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/08\/11923198_1007547786000897_3358257196114607845_n.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-1088\" alt=\"11923198_1007547786000897_3358257196114607845_n\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/08\/11923198_1007547786000897_3358257196114607845_n-550x550.png\" width=\"600\" height=\"500\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Veja abaixo o primeiro conto do novo livro de Ronaldo Correia de Brito, <em>O amor das sombras<\/em>, da editora Alfaguara.<br \/>\nO nome do conto \u00e9 <em><strong>Noite<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o acharam os corpos.<br \/>\nMariana decidiu ficar surda a qualquer not\u00edcia do afogamento.<br \/>\n\u2014 O que voc\u00ea falou?<br \/>\n\u2014 Os dois ainda n\u00e3o foram encontrados.<br \/>\n\u2014 O barulho de caminh\u00f5es n\u00e3o me deixa ouvir nada. Quando acaba essa obra?<br \/>\n\u2014 Acho que nunca. Faltou dinheiro e reduziram os servi\u00e7os \u00e0 metade. Tamb\u00e9m, o que roubam!<br \/>\n\u2014 Ah! Na seca de 32 foi a mesma coisa. Vinha comida pros retirantes e o administrador vendia. Nosso pai falava que muita gente ficou rica e outros morreram de fome.<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o apenas os caminh\u00f5es e tratores, percorrendo a estrada de barro, que fazem alvoro\u00e7o e levantam p\u00f3 vermelho. As motos tamb\u00e9m zunem em suas idas e vindas, deixando uma nuvem escura atr\u00e1s delas.<br \/>\n\u2014 Evandro est\u00e1 inconsol\u00e1vel e culpa Ros\u00e1rio.<br \/>\n\u2014 Pobrezinha.<br \/>\n\u2014 Deixou de vigiar a filha um minuto. Um minuto, ela repete chorando. Distraiu-se com a televis\u00e3o. Quando correu pra janela, s\u00f3 escutou a moto. Os dois j\u00e1 iam longe.<br \/>\n\u2014 S\u00e3o os cavalos do c\u00e3o essas motos.<br \/>\nMariana faz desenhos com os dedos na poeira sobre o tampo da mesa de jantar.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o se chateie comigo, limpo dez vezes por dia e est\u00e1 sempre suja. \u00c9 como as rolhas de cera dos seus ouvidos, o m\u00e9dico remove e cria novamente.<br \/>\n\u2014 Ah! Pensa que eu ligo pra mouquice? Em velho aparece tudo o que n\u00e3o presta. Olhe a casa. N\u00e3o adianta consertar, qualquer dia vai cair em cima de n\u00f3s duas.<br \/>\nOt\u00edlia resmunga e caminha a esmo pela sala.<\/p>\n<p>Chega-se \u00e0 casa erguida h\u00e1 quase duzentos anos, subindo uma fileira de degraus. A cal branca das paredes, os arcos amarelos em torno de portas e janelas, a pintura azul nas madeiras, tudo adquiriu o mesmo tom barrento, parecendo sujeira. De nada adianta mant\u00ea-la fechada, o p\u00f3 desce pelas telhas, cobrindo o assoalho e os m\u00f3veis. Foi Evandro quem sugeriu transformar a casa num museu, logo ap\u00f3s a morte do av\u00f4. Em Mariana, os anos n\u00e3o gastaram a jocosidade. Ironiza que os visitantes, al\u00e9m de examinarem as tralhas in\u00fateis, arrumadas aleatoriamente sem nenhuma cataloga\u00e7\u00e3o museogr\u00e1fica, tamb\u00e9m podem conhecer duas velhas dinossauras: ela e a irm\u00e3 Ot\u00edlia.<br \/>\n\u2014 Venha comigo ao terra\u00e7o!<br \/>\n\u2014 Pra qu\u00ea?<br \/>\n\u2014 V\u00e3o abrir as comportas da barragem.<br \/>\n\u2014 Evandro mandou fazer isso?<br \/>\n\u2014 Mandou.<br \/>\n\u2014 Se papai estivesse vivo, n\u00e3o deixava.<br \/>\n\u2014 \u00c9 a filha do nosso sobrinho, coitada. Todo mundo acredita que os dois ficaram presos na lama.<br \/>\n\u2014 Eu duvido que estejam l\u00e1.<br \/>\n\u2014 Como tem certeza? Mariana desconversa.<br \/>\n\u2014 S\u00f3 vi a barragem sem \u00e1gua na seca de 58. Voc\u00ea lembra?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o d\u00e1 pra esquecer.<br \/>\n\u2014 Mam\u00e3e chorava muito, como se o corpo dela tamb\u00e9m secasse. Um \u00fatero que carregou e alimentou vinte e tr\u00eas filhos. Sempre achei que mam\u00e3e comparava a barriga crescendo com o a\u00e7ude ganhando \u00e1gua. Ela sentava numa cadeira, ali no terra\u00e7o, e contemplava o espelho d\u2019\u00e1gua. De tardezinha, na hora mais triste do dia. Por que ficamos melanc\u00f3licos quando o sol vai embora?<br \/>\n\u2014 Nunca pensei nisso.<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea \u00e9 jovem, n\u00e3o pensa muita coisa.<br \/>\n\u2014 Eu, jovem?<br \/>\nOt\u00edlia ri.<\/p>\n<p>As duas sentam num banco de ferro e assistem quando os trabalhadores abrem as comportas. Evandro comanda os homens, dando ordens aos gritos. V\u00e1rias motos param, os motoristas dos caminh\u00f5es diminuem a marcha. Olham os jorros d\u2019\u00e1gua e n\u00e3o compreendem o desperd\u00edcio em plena seca.<br \/>\nAs ca\u00e7ambas carregam barro, areia, brita, pi\u00e7arra e cimento. Tubos gigantes chegam em carretas, quebrando galhos de \u00e1rvores, atropelando raposas e c\u00e3es.<br \/>\nConstru\u00edda num tempo em que o transporte se fazia em lombo de animais, carro\u00e7as e autom\u00f3veis pequenos, sem cal\u00e7amento de pedra ou asfalto, a estrada n\u00e3o suporta o peso dos caminh\u00f5es e afunda em diversos lugares. Alguns buracos se transformam em crateras, provocando acidentes. As obras recome\u00e7am e param, os trabalhadores chegam e v\u00e3o embora, deixando as marcas de sua passagem. Os vales e a floresta em torno parecem ter sido bombardeados, n\u00e3o havendo esperan\u00e7a de que a guerra termine algum dia. Fazem a transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco, o Velho Chico, um rio a cada ano mais doente e fragilizado, j\u00e1 n\u00e3o dando conta de tantas usinas e projetos de irriga\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o homem que adoece. Os rios tamb\u00e9m sofrem mazelas.<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea diz cada uma. Papai admirava suas pilh\u00e9rias e me pedia: Ot\u00edlia, seja inteligente como sua irm\u00e3. Ora, ora. Intelig\u00eancia se nasce com ela. \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n\u2014 Criei-me no meio de homens. Depois de mim, nasceram sete machinhos. Se eu n\u00e3o fosse esperta, eles acabavam comigo.<br \/>\n\u2014 Duvido.<br \/>\n\u2014 Quando sa\u00edam pra ca\u00e7ar, eu ia junto. Atirava melhor do que eles. Nunca perdi um tiro. Amansava cavalo igual a qualquer homem. S\u00f3 nunca me deixavam frequentar os cabar\u00e9s, mas sabia o nome das putas, quem era a paix\u00e3o de cada um dos manos. Alcides fez loucuras por uma tal de Lindalva. Nosso pai mandou ele servir ao Ex\u00e9rcito, em Fortaleza, pra ver se arrancava a mulher da cabe\u00e7a. Ficou t\u00e3o bonito na farda. Lembra? Sempre esque\u00e7o, voc\u00ea \u00e9 a mais nova, nasceu depois das trag\u00e9dias. N\u00e3o consenti que Evandro exibisse a fotografia no museu, onde nos exp\u00f5e junto com as tralhas sem utilidade. A casa perdeu a fun\u00e7\u00e3o de morada. Evandro podia ter esperado que n\u00f3s duas morr\u00eassemos. Pelo menos isso.<br \/>\n\u2014 Pare de reclamar do nosso sobrinho!<br \/>\n\u2014 Ah! Voc\u00ea n\u00e3o esconde sua prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a anoitecer e nem metade das \u00e1guas foi drenada. Os trabalhos com as m\u00e1quinas foram suspensos, como se todos dependessem do que ir\u00e3o encontrar na lama do a\u00e7ude. O jovem que conduzia Rafaela na moto operava guindastes. As escavadeiras se movimentam sem tr\u00e9gua nos \u00faltimos dias. Tentam recuperar os meses perdidos. Uma sucess\u00e3o de embargos atrasou as obras. Os jornais e a tv n\u00e3o param de denunciar a corrup\u00e7\u00e3o praticada por pol\u00edticos, empreiteiras, diretores de minist\u00e9rios e burocratas. A pol\u00edcia federal invade apartamentos, prende acusados, algema, coloca em carros e leva \u00e0s pris\u00f5es. No dia seguinte surgem novos esc\u00e2ndalos, outros nomes de governadores, senadores, deputados, empres\u00e1rios, e at\u00e9 de ju\u00edzes.<br \/>\nCom as m\u00e1quinas desligadas, o sil\u00eancio \u00e9 quebrado apenas pelos gritos de Evandro e o estrondo da \u00e1gua escorrendo. Mal se escuta o vento agitando a copa das \u00e1rvores e uma voz perdida, aqui e acol\u00e1. Todos esperam o desfecho da busca. E se n\u00e3o estiverem ali? H\u00e1 quem jure ter visto quando os dois se precipitaram em alta velocidade, como se uma for\u00e7a sobrenatural os empurrasse para dentro do a\u00e7ude. Quem faria isso? O fiscal da empreiteira amea\u00e7a descontar as horas paradas dos funcion\u00e1rios. Ningu\u00e9m liga para ele, os olhos vidrados nas \u00e1guas, que baixam lentamente. Algu\u00e9m manobra um trator, levando-o at\u00e9 a parede da barragem. Num ponto estrat\u00e9gico, acende os far\u00f3is e ilumina o cen\u00e1rio.<br \/>\nUm jorro escapa pelo sangradouro e cai de grande altura sobre lajedos.<br \/>\n\u2014 Vamos entrar. Se os dois estiverem a\u00ed, s\u00f3 ser\u00e3o encontrados de manh\u00e3.<br \/>\n\u2014 Bem antes disso.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o podemos ajudar em nada. Somos duas in\u00fateis.<\/p>\n<p>Mariana retoma o fio partido das lembran\u00e7as. As trag\u00e9dias familiares se repetem em ciclos, sazonais como as chuvas e os ver\u00f5es. \u00c9 normal que seja assim numa fam\u00edlia numerosa, com repetidos casamentos entre primos, tios e sobrinhas. Numa mesma cama, dois corpos engendraram vinte e tr\u00eas descendentes, machos e f\u00eameas, que tamb\u00e9m se deitaram noutras alcovas ou moitas obscuras, gerando dezenas de outros filhos leg\u00edtimos ou bastardos. O p\u00eanis miraculoso de Benedito Limaverde Pinheiro e o \u00fatero inesgot\u00e1vel de Margarida Limaverde Pinheiro n\u00e3o descansavam nunca. Os primeiros filhos, Mariana e Alcides, nasceram no mesmo ano, com a diferen\u00e7a de apenas onze meses. Os dois se consideravam g\u00eameos alimentados em placentas diferentes. Um tempo m\u00ednimo os havia separado, por sorte, por azar, nunca sabiam, desejavam apenas reaver esse tempo, ficarem juntos todas as horas.<br \/>\n\u2014 Alcides morreu no acidente de trem, quando vinha de f\u00e9rias do quartel. Antes papai tivesse deixado ele se casar com a rapariga. Dizem que ela sempre foi uma boa mo\u00e7a, ainda n\u00e3o tinha completado quinze anos quando se perdeu. O pai levou a pobrezinha pela m\u00e3o e entregou a Ed\u00eania. Falou que lugar de mo\u00e7a perdida s\u00f3 podia ser o cabar\u00e9. Hor\u00e1cio trouxe um retrato de Lindalva com outras catorze meninas, todas vestidas de branco, arrumadas como se fossem desfilar numa festa de debutantes. Dava pena ver. Podia ser qualquer uma de n\u00f3s.<br \/>\n\u2014 Felizmente essas coisas n\u00e3o existem mais.<br \/>\n\u2014 Ainda existem, s\u00f3 mudaram os nomes.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m apaga os far\u00f3is do trator, durante poucos minutos, mas volta a acend\u00ea-los. Evandro se enerva, fala alto. O motorista amea\u00e7a ir embora. Assustadas, as duas mulheres silenciam e escutam.<\/p>\n<p>\u2014 Alcides era t\u00e3o bonito, a pele branca sem um sinal. Montava cavalo e corria no meio do mato. Os garranchos e espinhos tinham receio de ferir tanta perfei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o arranhavam seu corpo. No Ex\u00e9rcito, obrigaram que raspasse a cabeleira preta e lisa, que eu tanto amava. Se n\u00e3o lavasse os cabelos com sab\u00e3o amarelo, de dois em dois dias, eles ficavam ensebados como o das mulheres que usam \u00f3leo de coco. Quando trouxeram o corpo, ajudei mam\u00e3e a banh\u00e1-lo e vesti-lo. N\u00e3o havia ferimentos graves, nem sei de que ele morreu, talvez com o impacto dos vag\u00f5es, ningu\u00e9m conseguiu explicar direito. Mam\u00e3e chorava, mas eu n\u00e3o derramei uma l\u00e1grima naquele dia. Choro desde ent\u00e3o. Quis me despedir do corpo que vi nu tantas vezes, quando tom\u00e1vamos banho nos riachos e nas nascentes, como duas irm\u00e3s ou dois irm\u00e3os.<br \/>\nRi tristonha e pensa um instante.<br \/>\n\u2014 Mentira, n\u00f3s sab\u00edamos que um era homem e o outro mulher, e essa diferen\u00e7a nos aproximava.<br \/>\n\u2014 Vamos entrar, Mariana. Esfriou.<br \/>\n\u2014 Espere um pouco. Acabo de compreender por que n\u00e3o desejo ouvir a hist\u00f3ria de minha sobrinha-neta. Sinto inveja de Rafaela. Ela foi mais corajosa do que eu, embora tenha se arrependido de sua coragem, quando j\u00e1 estavam fugindo.<br \/>\n\u2014 Se for verdade o que as pessoas falam.<br \/>\n\u2014 Existem tantos caminhos pra escapar da Santa F\u00e9. Tinham de escolher a estrada da barragem?<br \/>\nAlgu\u00e9m grita, surge um alvoro\u00e7o, mas todos retornam aos seus observat\u00f3rios.<br \/>\n\u2014 Tamb\u00e9m sentia inveja dessa menina.<br \/>\n\u2014 Ot\u00edlia&#8230;<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea morava no Recife. Aconteceram coisas estranhas, nunca lhe falei.<br \/>\n\u2014 Eu imagino.<\/p>\n<p>O a\u00e7ude foi constru\u00eddo pelo bra\u00e7o de muitos trabalhadores. Benedito Limaverde Pinheiro se orgulhava da engenharia perfeita, ele mesmo desenhara os croquis da obra. Anos levantando as paredes, preparando o sangradouro, desviando o curso de riachos. A propriedade sempre tivera nascentes, mas Benedito percebia uma diminui\u00e7\u00e3o no jorro das fontes, a cada ano. As primeiras engenhocas de espremer a cana eram movidas a \u00e1gua ou tracionadas por bois. Mais tarde, foram substitu\u00eddas pelos motores a diesel. Quando chegou a energia el\u00e9trica, os engenhos j\u00e1 estavam quase todos de fogo morto. A cultura da rapadura, da cacha\u00e7a e do a\u00e7\u00facar entrou em decad\u00eancia. A popula\u00e7\u00e3o cresceu, desmataram os p\u00e9s de serra, os brejos e a chapada. O planeta ficou quente. As pequenas nascentes secaram, as grandes diminu\u00edram a vaz\u00e3o em mais da metade. Os recursos que pareciam inesgot\u00e1veis entraram em colapso. Benedito se queixava de que havia gente demais no planeta, esquecia de quanto ele contribu\u00edra para o aumento da popula\u00e7\u00e3o. Sua descend\u00eancia j\u00e1 ultrapassava uma centena de pessoas, quase todas vivendo da mesma terra.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Vamos entrar. N\u00e3o quero assistir o espet\u00e1culo deplor\u00e1vel. Olho pro a\u00e7ude se esvaziando e \u00e9 como se eu mesma sangrasse. E se todo esse desperd\u00edcio for in\u00fatil?<\/p>\n<p>Entram na casa e fecham a porta. As duas vivem trancadas a maior parte do tempo. Ot\u00edlia confessa seu medo de ladr\u00f5es e malfeitores, Mariana alega proteger-se da poeira. Nos hor\u00e1rios em que o museu abre, dois sobrinhos recebem as rar\u00edssimas visitas, sempre com agenda marcada. Ot\u00edlia e Mariana aproveitam o intervalo de tempo em que se sentem protegidas e caminham pelo jardim, olham a levada d\u2019\u00e1gua descendo a serra, inspecionam as obras da adutora como se fossem engenheiras. Os sobrinhos fazem um relat\u00f3rio da fam\u00edlia e dos acontecimentos na cidade. Repetem o que elas j\u00e1 ouviram no notici\u00e1rio da r\u00e1dio local e na televis\u00e3o. Ot\u00edlia \u00e9 esperta e bisbilhoteira. A m\u00e3e comentava que os vinte e dois filhos nascidos antes dela consumiram as subst\u00e2ncias do \u00fatero materno, sobrando quase nada para a filha mais nova crescer e engordar, compensando-se a falta com um excesso de energia. Nas fam\u00edlias numerosas, os irm\u00e3os mais velhos tornam-se padrinhos dos menores, \u00e0s vezes assumem o lugar do pai ou da m\u00e3e. Isto acontecera entre as duas irm\u00e3s separadas por uma diferen\u00e7a de vinte e cinco anos.<br \/>\nOt\u00edlia prepara um mingau de aveia, enquanto Mariana caminha pela casa. O sobrinho Evandro tornara-se dono de boa parte das terras no s\u00edtio Santa F\u00e9, permitindo que as duas tias velhas continuassem morando no lugar onde nasceram, confinadas a um quarto, \u00e0 sala de jantar e \u00e0 cozinha. Nos finais de semana, quando a fam\u00edlia se re\u00fane para churrascos e banhos de piscina \u2014 outra novidade de Evandro \u2014, as duas sentem-se acuadas. Preferem o barulho dos tratores escavando e plantando tubula\u00e7\u00f5es aos meninos se atirando na \u00e1gua clorada, \u00e0s vozes gritando nos celulares, e ao som de carros, numa conviv\u00eancia obrigat\u00f3ria com irm\u00e3os, irm\u00e3s, cunhados, cunhadas, sobrinhos de primeiro, segundo e terceiro graus, todos a subir e descer as escadas de madeira que levam ao s\u00f3t\u00e3o, trazendo quinquilharias das salas improvisadas em museu, perguntando para que servem.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o sei, esqueci, despacha-se Mariana.<br \/>\nBonachona, Ot\u00edlia brinca com as crian\u00e7as, monta os beb\u00eas em selas arrumadas sobre cavaletes, d\u00e1 gritinhos, acode algu\u00e9m na cozinha para ensinar uma receita da m\u00e3e. No final da tarde, os que moram longe v\u00e3o embora, os de perto ajudam a arrumar a bagun\u00e7a deixada pelos visitantes e depois se recolhem. Sozinhas, as duas irm\u00e3s se movimentam entre as paredes que enxergaram sem nitidez ao abandonarem o \u00fatero materno, trocando-o por um mundo que agora lhes parece incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Os membros da fam\u00edlia evoluem em idade e n\u00famero nas fotos expostas por corredores e salas. Jovem, solteiro e sem bigode, o pai foi retratado sozinho. Casado, segurando a esposa Margarida pela m\u00e3o, contempla sem timidez a m\u00e1quina \u00e0 frente deles. De p\u00e9, com as m\u00e3os sobre o espaldar de uma cadeira, parece ignorar a primog\u00eanita Mariana, no colo materno, com os bracinhos erguidos para cima. Tornam-se quatro na fotografia com o beb\u00ea Alcides, vestindo um tim\u00e3o de batizado. Benedito tem sempre o mesmo olhar firme para a m\u00e1quina, a express\u00e3o igualzinha \u00e0 da filha Mariana. A fam\u00edlia cresce em filhos e mais filhos, uma sucess\u00e3o deles com roupas extravagantes, chupetas na boca, cord\u00f5es de ouro no pesco\u00e7o, cueiros, rendas, bicos, bordados, chap\u00e9us masculinos e femininos, poses, olhos abertos e fechados, cadeiras, bancos, mais gente, a primeira gera\u00e7\u00e3o de netos, os bisnetos, a foto em que Margarida j\u00e1 n\u00e3o aparece e, por \u00faltimo, a grande panor\u00e2mica em que se exibem os tataranetos e o centen\u00e1rio Benedito Limaverde Pinheiro. Evandro mandou desenhar no computador uma silhueta com n\u00fameros e, logo abaixo, os nomes da imensa prole. No futuro, todos poder\u00e3o se reconhecer, enquanto permanecerem vivos.<br \/>\nMariana empertiga o corpo magro e alto, ajusta os \u00f3culos e procura em cada um dos retratos o rosto mais amado: o de seu irm\u00e3o Alcides. At\u00e9 os dezenove anos ele fez parte da fam\u00edlia, quando foi arrancado do conv\u00edvio dos pais e irm\u00e3os como um corpo estranho. Os partos de Margarida Limaverde eram normais, nenhum a f\u00f3rceps, mas alguns de seus filhos sofreram uma suc\u00e7\u00e3o pela morte, igualzinho faziam agora as retroescavadeiras, arrancando rochas plantadas no ch\u00e3o. Primeiro Alcides, de olhar firme e vasta cabeleira negra. Como d\u00f3i v\u00ea-lo repetir-se a cada ano mais belo, numa sequ\u00eancia aparentemente l\u00f3- gica, se n\u00e3o fosse a interrup\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria. Alcides desaparece, quando Ot\u00edlia ainda nem havia nascido. O choro nunca consolou Mariana, nem as rezas da m\u00e3e, nem as tentativas de Hor\u00e1cio ocupar o lugar vazio em torno da mesa. A casa j\u00e1 ficara silenciosa no dia em que ele viajou a Fortaleza e de l\u00e1 retornou apenas para morrer no caminho. Um sil\u00eancio que as outras vozes da fam\u00edlia jamais conseguiram preencher, deixando Mariana com a surdez dos son\u00e2mbulos. Nem a voz doce de Jaime, Jaiminho, s\u00e9timo na sucess\u00e3o de homens at\u00e9 que a m\u00e3e parisse outra menina, nem a fala cantada do rapaz conseguia penetrar seus ouvidos. Mariana tamb\u00e9m ficou cega \u00e0 tristeza do irm\u00e3ozinho feminino e fr\u00e1gil, que decidira ser padre e foi morar em Fortaleza, num semin\u00e1rio com janelas interditadas ao mar. Ap\u00f3s tr\u00eas anos de reclus\u00e3o, seu confessor aconselhou-o a passar um tempo em casa, avaliando a voca\u00e7\u00e3o para a vida religiosa. Um fogo interior consumia a vitalidade e as carnes do pequeno seminarista. Seria paix\u00e3o? Por qual objeto? Chegou deprimido, usando uma batina preta que jamais despia, mesmo no calor intenso. A m\u00e3e sup\u00f4s que estivesse tuberculoso e obrigou-o a uma dieta de gemadas, leite fresco, banhos de sol pela manh\u00e3 e ambientes arejados. Jaime preferia ficar recluso num sobrado ao lado da capela da Santa F\u00e9, onde um tio padre vivera seus \u00faltimos anos de velhice. Tornou-se cada dia mais silencioso, praticando jejum, penit\u00eancias e rezando sem parar. O pai temeu pelo seu ju\u00edzo, eram comuns os casos de loucura na fam\u00edlia, por conta de casamentos consangu\u00edneos. Benedito era primo leg\u00edtimo de Margarida e seu genitor fora casado com uma sobrinha. Num meio- -dia de sol forte, quando os p\u00e1ssaros n\u00e3o cantam e o gado busca a sombra das \u00e1rvores, Jaime pegou uma garrafa de querosene, o mesmo que usava para acender o candeeiro em suas leituras noturnas, e se dirigiu a um riacho seco. Preparou um leito de areia, a mesma usada para levantar a casa dos pais e dar os acabamentos, molhou o corpo com o querosene, deitou na cama improvisada e ateou-se fogo. As pessoas que o encontraram carbonizado disseram que sua determina\u00e7\u00e3o em morrer era tamanha que seu corpo nem revolvera a areia em torno dele, permanecendo firme no suic\u00eddio martirizado.<br \/>\nAproximando os olhos das fotografias, Mariana procura distinguir o infeliz Jaime. S\u00f3 agora ela percebe a opacidade no rosto do irm\u00e3o, uma sombra envolvendo sua minguada pessoa, parecendo que desde sempre ele estivera morto. Arrepia-se com a descoberta, recua e se ampara num consolo enfeitado com jarros de lou\u00e7a. Por bem pouco n\u00e3o quebra uma das pe\u00e7as, o que certamente provocaria o furor do sobrinho Evandro. Pensa em gritar pela irm\u00e3, ocupada com a janta na cozinha. Mas Ot\u00edlia viveu sempre t\u00e3o alheia aos fantasmas, feliz no seu mundinho de mo\u00e7a velha sem mem\u00f3ria. S\u00f3 conheceu tempos dif\u00edceis na fam\u00edlia, a divis\u00e3o da propriedade ap\u00f3s a morte da m\u00e3e, a fal\u00eancia do engenho, a venda das terras para saldar d\u00edvidas contra\u00eddas por filhos degenerados. \u00c9 melhor deix\u00e1-la em paz com sua felicidade aparente. Com certeza ela se esmera no jantar, cozinha bem, n\u00e3o aceita um simples mingau por refei\u00e7\u00e3o da noite. Mariana apura o ouvido. L\u00e1 fora continua a busca pelos corpos.<\/p>\n<p>Rafaela fugiu com Felipe um dia depois que teve alta do hospital, onde ficara internada uma semana. Ros\u00e1rio encontrara a filha desacordada no banheiro, com um leve ferimento na face. Em cima da mesinha de cabeceira, achou seis cartelas de ansiol\u00edticos, vazias. Rafaela tentara se matar ingerindo sessenta comprimidos. O rem\u00e9dio era usado pela m\u00e3e desde que fizera um tratamento cir\u00fargico para c\u00e2ncer de mama. Ficara com a sequela de um bra\u00e7o edemaciado, e com limita\u00e7\u00e3o dos movimentos e da for- \u00e7a. Ros\u00e1rio n\u00e3o conseguiu levantar a filha. Morava numa casa grande e velha, constru\u00edda acima do sobrado museu, num terreno cheio de fruteiras improdutivas, que o marido n\u00e3o aceitava podar, nem derrubar. Apesar de serem os principais donos da Santa F\u00e9, a morada deprimia pelo aspecto soturno. Os \u00fanicos tons de alegria eram dados por uma fonte correndo barulhenta e pelo curral de ovelhas. Ao entardecer, quando os urubus pousavam nos eucaliptos do quintal, lembravam agentes funer\u00e1rios em fraques pretos. Rafaela estudava na cidade e n\u00e3o morava com os pais. Envergonhava-se por ser filha tempor\u00e3, nascida quando Evandro e Ros\u00e1rio j\u00e1 passavam dos quarenta, parecendo seus av\u00f3s, agora que completara vinte e dois anos.<br \/>\nDepois de lavarem o est\u00f4mago de Rafaela por meio de uma sonda nasog\u00e1strica, ela foi internada tr\u00eas dias na uti e mais cinco num quarto. O ex-noivo largou o escrit\u00f3rio de advogado, permanecendo a maior parte do tempo no hospital. Garantiu a Evandro e a Ros\u00e1rio que ainda amava a filha deles com a mesma devo\u00e7\u00e3o de antes. Era como se nada houvesse acontecido. Os pais adoravam o futuro genro e confiavam que a filha trabalharia ao seu lado, quando se formasse. Rafaela n\u00e3o respondeu sim ou n\u00e3o \u00e0 proposta de reatar o noivado e regressou \u00e0 casa no s\u00edtio, como se tivesse morrido. Uma prima solid\u00e1ria ao sofrimento de Evandro e Ros\u00e1rio desvendou a trama amorosa em que a mo\u00e7a se envolvera. Aproveitando-se do isolamento na uti, ela pediu o smartphone da garota e mostrou aos pais a troca de mensagens e fotos pelo WhatsApp entre Rafaela e um tratorista da adutora, chamado Felipe.<br \/>\nJunto a uma foto no p\u00f4r do sol, tendo a serra ao fundo, os dizeres incompreens\u00edveis: meninos \u00e0 beira da estrada s\u00e3o anjos que agitam espadas de luz. Depois uma foto de capacete, numa motocicleta, e outra com a camisa erguida e presa aos dentes, deixando o abdome \u00e0 mostra, numa pose grosseira em que a m\u00e3o direita segura os genitais por cima da cal\u00e7a jeans. E a frase: tudo isto \u00e9 seu. Noutra imagem aparece de olhar suave e jeito de menino abandonado. Abaixo, a postagem: eu ultimamente s\u00f3 tenho pensado em voc\u00ea. Por \u00faltimo, a fotografia onde ele surge deitado numa cama, vestindo apenas cueca, em pose sensual e com o corpo inteiramente depilado, at\u00e9 mesmo nos p\u00e9s e nas m\u00e3os. As sobrancelhas tamb\u00e9m foram aparadas e desenhadas. Antes de arremessar o smartphone contra o ch\u00e3o, Evandro jurou que acabaria com o tratorista. Culpou a esposa por n\u00e3o educar a filha de forma decente. N\u00e3o entendia como ela largara um noivo de futuro por um pe\u00e3o de estrada e amea\u00e7ou mant\u00ea-la em c\u00e1rcere privado at\u00e9 que o rapazinho tivesse desaparecido de sua vida.<br \/>\nO engenheiro chefe das obras de transposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o soube informar o paradeiro de Felipe e garantiu que ele era um excelente funcion\u00e1rio. Tinha vinte e um anos, aos quinze se juntara com uma garota de treze, com quem tivera um filho. Viera de Pernambuco atr\u00e1s de emprego. Todos os pe\u00f5es sabiam do namoro e davam for\u00e7a ao rapaz, porque achavam excitante um cara pobre e sem estudo ganhar uma garota rica, bonita e instru\u00edda. Evandro exigiu a demiss\u00e3o sum\u00e1ria do tratorista, amea\u00e7ando embargar a obra ou fazer coisas piores. Conhecia gente que por uns trocados acabava com a vida de qualquer bandidozinho. De nada adiantou o chefe de obras argumentar que n\u00e3o se tratava de um bandido, mas de um trabalhador respons\u00e1vel e qualificado como tratorista. O engenheiro prometeu que se Felipe ainda aparecesse \u2014 do que ele duvidava \u2014, seria imediatamente transferido para outro estado.<\/p>\n<p>\u2014 Mariana, atenda \u00e0 porta!<br \/>\n\u2014 Est\u00e3o chamando? Juro que n\u00e3o ouvi.<br \/>\n\u2014 Faz tempo que batem.<br \/>\n\u2014 Fiquei surda de vez. Preciso voltar ao otorrino.<br \/>\n\u2014 Antes disso, veja quem \u00e9.<br \/>\nMariana se dirige a uma porta lateral, por onde os da fam\u00edlia costumam entrar.<br \/>\n\u2014 Quem \u00e9?<br \/>\n\u2014 Sou eu, tia, Noemi.<br \/>\n\u2014 Ah, Noemita.<br \/>\nGrita para dentro.<br \/>\n\u2014 \u00c9 Noemita, Ot\u00edlia.<br \/>\n\u2014 E o que est\u00e1 esperando? Abra a porta e mande ela entrar.<br \/>\n\u2014 Paci\u00eancia, j\u00e1 vai.<br \/>\nCom dificuldade, retira duas travas, destranca alguns ferrolhos e por \u00faltimo d\u00e1 voltas na chave.<br \/>\n\u2014 Tia, boa noite! J\u00e1 est\u00e3o dormindo essa hora? V\u00e3o perder a novela?<br \/>\n\u2014 Ah! Boa noite. Estava distra\u00edda, olhando os cacarecos. N\u00e3o sei por que as pessoas guardam tanta coisa. Entre. E seu marido?<br \/>\n\u2014 L\u00e1 no a\u00e7ude.<br \/>\nNoemi pertence \u00e0 segunda gera\u00e7\u00e3o de sobrinhos, que herdaram quase nada, talvez um lote de terra para erguer uma casa. Trabalha num cart\u00f3rio da vila, casou com um primo e os dois d\u00e3o assist\u00eancia \u00e0s velhas.<br \/>\n\u2014 Tia Ot\u00edlia, ainda na beira do fogo?<br \/>\n\u2014 Chegou em boa hora. Coma com a gente.<br \/>\n\u2014 J\u00e1 jantei.<br \/>\n\u2014 Janta de novo. Aposto que n\u00e3o comeu bolinho de milho.<br \/>\n\u2014 Os da senhora eu n\u00e3o recuso.<br \/>\nAs tr\u00eas sentam em torno da mesa empoeirada, ocupando apenas a cabeceira. Ot\u00edlia serve os pratos. Mariana pergunta pelo mingau e a irm\u00e3 diz que ficou para antes de se deitarem. A noite \u00e9 longa, muitas vezes acordam com fome e esperam o dia raiar para se levantarem e comer alguma coisa.<br \/>\n\u2014 Acharam os dois corpos agarrados. Rafaela enforcava o rapaz.<br \/>\nAs irm\u00e3s suspendem as colheres que levam \u00e0 boca e s\u00f3 agora percebem o alvoro\u00e7o l\u00e1 fora, quebrando o sil\u00eancio da noite. Ot\u00edlia afasta o prato para longe e n\u00e3o cont\u00e9m o choro.<br \/>\n\u2014 Pobrezinha da Ros\u00e1rio, ela agora morre de vez, lamenta Mariana.<br \/>\n\u2014 E tio Evandro? Parece um louco, correndo de um lado para outro. Eu sei que a senhora n\u00e3o gosta dele, porque tomou a casa de seu pai, mas d\u00e1 pena. Ainda tinha esperan\u00e7a que fosse mentira. O homem jurou ter visto quando os dois se arremessaram nas \u00e1guas. Tamb\u00e9m garante que foi Rafaela quem puxou a moto pro a\u00e7ude.<br \/>\nOt\u00edlia n\u00e3o se cont\u00e9m e grita.<br \/>\n\u2014 Tia, calma.<br \/>\n\u2014 Calma, calma, \u00e9 s\u00f3 o que pedem a gente. N\u00e3o sabem falar outra coisa. Se fosse seu marido voc\u00ea ficava calma?<br \/>\n\u2014 Ot\u00edlia, cuidado com o que diz.<br \/>\n\u2014 Rafaela podia ser minha filha.<br \/>\nMariana olha a irm\u00e3 com severidade.<br \/>\n\u2014 Mas n\u00e3o \u00e9. Mesmo que voc\u00ea tenha desejado.<br \/>\nNoemi n\u00e3o compreende a conversa entre as duas mulheres. Imagina estarem caducando. Do lado de fora chegam mais vozes, gritos, choro. Cachorros ladram quando passa uma ambul\u00e2ncia com a sirene ligada. Os far\u00f3is acesos de motos, caminh\u00f5es e tratores atravessam as frestas das portas e janelas, os telhados altos.<br \/>\n\u2014 Querem ir ver?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o, responde Ot\u00edlia chorosa.<br \/>\nMariana contempla os retratos nas paredes, antes de falar.<br \/>\n\u2014 J\u00e1 enterrei mortos em excesso. Rafaela escapou do suic\u00eddio para morrer afogada. Que destino.<br \/>\nNoemi relata que os dois foram resgatados na parte mais funda do a\u00e7ude. Mesmo recobertos de lama, percebia-se a incha\u00e7\u00e3o e a cor arroxeada dos corpos. Rafaela se entran\u00e7ara em Felipe como os cip\u00f3s nas \u00e1rvores, os bra\u00e7os enovelados em torno de seu pesco\u00e7o.<br \/>\n\u2014 Ele era t\u00e3o bonito, parecia um pr\u00edncipe. Moreno claro e sorridente. Um dia pediu \u00e1gua em nossa casa. Sem camisa eu pude ver que se depilava. Por que os homens fazem isso, tia? Eu n\u00e3o gosto. Homem \u00e9 homem.<\/p>\n<p>Mariana j\u00e1 n\u00e3o escuta uma \u00fanica palavra da sobrinha. Lembra que, numa das secas no Cear\u00e1, criaram campos de concentra\u00e7\u00e3o para isolar os retirantes, homens, mulheres e crian\u00e7as famintos, as cabe\u00e7as raspadas contra os piolhos, alguns vestidos em sacos de farinha com buracos para enfiar o pesco\u00e7o. A ordem do governo e dos cidad\u00e3os ricos era segregar os miser\u00e1veis em currais cercados de varas e arame farpado, pr\u00f3ximos \u00e0s estradas de ferro. Havia sete campos no Cear\u00e1. O do Crato fora programado para receber cinco mil pessoas, mas chegou a isolar cerca de vinte mil. Quase todos morriam de fome ou doen\u00e7a e eram enterrados em covas rasas, at\u00e9 quarenta corpos no mesmo valado, sobrepostos de quatro em quatro. Os cachorros e os urubus revolviam a terra e devoravam a carni\u00e7a. Os agricultores e pecuaristas percorriam os isolamentos e contratavam os homens mais fortes a troco de uma refei\u00e7\u00e3o por dia. Os de sorte levavam a mulher e os filhos junto. Chegaram a ser tr\u00eas vezes mais numerosos que o restante da popula\u00e7\u00e3o do estado. Encurralavam sete mil retirantes em quadril\u00e1teros de quinhentos metros e davam a eles um pequeno farnel de rapadura, charque, farinha e caf\u00e9, quase sempre estragado.<br \/>\nQuando Benedito Limaverde Pinheiro trouxe as cinco fam\u00edlias para a Santa F\u00e9, a esposa Margarida elogiou sua generosidade crist\u00e3. Mariana demorou a compreender que o seu estimado pai n\u00e3o passava de um coronel latifundi\u00e1rio como tantos outros do cariri cearense. Lembrava-se agora de uma menina magricela e de olhos grandes. A m\u00e3e permitia que circulasse pela casa e brincasse de pedrinhas com a filha. Ao servirem alguma comida, os olhos da crian\u00e7a se tornavam ainda maiores e se enchiam de l\u00e1grimas. Um dia elas foram ver o a\u00e7ude secando, os peixes morrendo na lama. A menina perguntou a Mariana por que ela n\u00e3o pescava os peixes, cozinhava e comia. Mariana sorriu da pergunta e esqueceu-a at\u00e9 encontrarem a menina afogada no resto de \u00e1gua e lama do a\u00e7ude, entre os peixes apodrecidos.<br \/>\nTr\u00eas anos depois choveu.<br \/>\n\u2014 Um dia n\u00f3s seremos apenas retratos nas paredes.<br \/>\n\u2014 \u00c9 sobre Rafaela que a senhora fala?<br \/>\n\u2014 \u00c9 sobre tudo o que essa casa esconde. H\u00e1 pouco eu olhava os tachos, as conchas de mexer a garapa e o mel, as formas de moldar as rapaduras, as malas de couro em que eram transportadas para a feira, constatando que tudo isso n\u00e3o vale mais nada. Benedito e Margarida trabalharam para encher nossas vidas de luxo, pouco se importando com o sacrif\u00edcio dos trabalhadores, dos seus filhos e netos, deles pr\u00f3prios. Valeu a pena o esfor\u00e7o?<br \/>\n\u2014 Nunca pensei nisso minha irm\u00e3, s\u00f3 trabalho. E dou trabalho aos outros.<br \/>\n\u2014 \u00c0s vezes eu penso: se tio Evandro aceitasse que o tempo mudou, teria deixado Rafaela namorar com Felipe. E os dois estariam vivos.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim. Se fosse, Alcides tamb\u00e9m n\u00e3o teria morrido, nem Jaime, nem tantos outros da fam\u00edlia. Por que n\u00e3o ateamos fogo na casa? Dessa maneira nos livramos do passado. Todos acham melhor transform\u00e1-la num museu, guardar o que n\u00e3o faz sentido.<br \/>\n\u2014 Tia!<br \/>\n\u2014 Ah!<br \/>\n\u2014 A senhora est\u00e1 amargurada. Foram as mortes.<br \/>\n\u2014 Pode ser.<br \/>\nQuando tudo parece terminado, Ot\u00edlia se lembra de acender o fogo.<br \/>\n\u2014 Vou passar um caf\u00e9.<\/p>\n<p>A ambul\u00e2ncia passa de volta, a sirene ligada. Certamente leva os corpos ao Instituto de Medicina Legal. O barulho recrudesce, escutam-se gritos, algu\u00e9m d\u00e1 ordens para os homens voltarem ao trabalho. Haver\u00e1 ser\u00e3o noturno.<\/p>\n<p>Noemi sente pena das tias e resolve contar alguma hist\u00f3- ria que as deixe alegres.<br \/>\n\u2014 Lembram que a av\u00f3 Margarida sonhava casar um filho com alguma mo\u00e7a da fam\u00edlia Nunes?<br \/>\n\u2014 Isso \u00e9 antigo demais, nem sei de onde voc\u00ea arrancou essa hist\u00f3ria.<br \/>\n\u2014 O casamento aconteceu.<br \/>\n\u2014 Foi? Ningu\u00e9m me contou, reclama Ot\u00edlia.<br \/>\n\u2014 Disseram que as tias s\u00e3o antiquadas para certas coisas.<br \/>\n\u2014 Antiquadas, n\u00f3s duas? Escute, Ot\u00edlia.<br \/>\n\u2014 Casou-se Geraldo, um bisneto.<br \/>\n\u2014 Geraldo? Desde quando ele gosta de mulher?<br \/>\n\u2014 Casou com Leandro, um bisneto de dona D\u00e1lia.<br \/>\nAs duas velhas se espantam, depois riem \u00e0s gargalhadas, esquecendo os que choram.<br \/>\n\u2014 Assinaram a uni\u00e3o civil est\u00e1vel, com direito a festa, alian\u00e7a e beijo no final. Querem ver as fotos? Publicaram no Facebook.<br \/>\n\u2014 Quero ver, sim.<br \/>\n\u2014 Ot\u00edlia, se contenha!<br \/>\nA sobrinha n\u00e3o consegue acessar a Internet, mas promete copiar algum retrato para as tias. Chamam \u00e0 porta, \u00e9 o marido de Noemi. Ela se despede apressada e sai para o tumulto.<\/p>\n<p>Enquanto Ot\u00edlia lava a lou\u00e7a do jantar, Mariana confere se os ferrolhos, as fechaduras e as traves das portas e janelas se encontram fechados. L\u00ea num calend\u00e1rio que se trata de uma noite sem lua. Depois das gargalhadas com a fofoca do casamento, sente uma profunda tristeza. Pressente que n\u00e3o conseguir\u00e1 dormir naquela noite. Mentiu para Ot\u00edlia e Noemi, conhecia a hist\u00f3ria da infeliz Rafaela, recebeu-a mais de uma vez para conversarem e aconselhou-a a seguir o cora\u00e7\u00e3o. Nunca imaginou que a jovem n\u00e3o teria coragem de enfrentar os pais. A morte pesa em sua alma como a fotografia dos irm\u00e3os ausentes. Olha os arm\u00e1rios abarrotados de lou\u00e7as, cristais e pratarias, tudo velho e sem utilidade como ela pr\u00f3pria. Pela primeira vez nas recentes horas de ang\u00fastia confessa que preferia ter morrido no lugar de Rafaela. Assim, n\u00e3o agonizaria duas vezes. E se atear fogo na casa, deixando-se queimar dentro dela, igualzinho ao que fez seu irm\u00e3o Jaime? E Ot\u00edlia? Pediria que ela sentasse l\u00e1 fora, embaixo de um oitizeiro, assistindo as labaredas e a fuma\u00e7a subirem ao c\u00e9u baixo da serra.<br \/>\n\u2014 Levo seu mingau para a cama?<br \/>\n\u2014 Ah! Leve. E um copo d\u2019\u00e1gua, tamb\u00e9m.<br \/>\nSempre Ot\u00edlia a arranc\u00e1-la das cismas.<\/p>\n<p>Mariana caminha \u00e0 frente at\u00e9 o quarto, o mesmo que os pais ocupavam, onde fizeram amor e geraram filhos, trazidos ao mundo em meio ao cheiro de alfazema e \u00e0 fartura dos velhos tempos. Caminhando um pouco atr\u00e1s, Ot\u00edlia apaga as luzes no trajeto, semelhante a um guardi\u00e3o das almas que seguem ao inferno. Sobre a c\u00f4moda, ela arrumou as tigelas com o mingau, colheres, uma quartinha d\u2019\u00e1gua e dois copos. Mariana fica indecisa em entrar no quarto. Ot\u00edlia pergunta o que ela tem. Nada, responde, e pensa na longa jornada noite adentro.<br \/>\nAfasta o mosquiteiro empoeirado de uma cama de casal, onde sempre dormiu sozinha, e se deita sem fazer a \u00faltima refei\u00e7\u00e3o e sem trocar de roupa. Ot\u00edlia se acomoda numa cama estreita, bem pr\u00f3xima \u00e0 da irm\u00e3. Filetes de luz atravessam o escuro, aleatoriamente. As trajet\u00f3rias dos raios brilhantes dependem de como se deslocam os caminh\u00f5es e os tratores, com seus far\u00f3is acesos. Um barulho cont\u00ednuo nega a exist\u00eancia do sil\u00eancio, o bem mais precioso daquelas paragens, num passado distante.<\/p>\n<p>O tempo escorre vagaroso para as duas mulheres.<\/p>\n<p>\u2014 Ot\u00edlia, voc\u00ea est\u00e1 dormindo?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o.<br \/>\n\u2014 Se importa de vir pra minha cama?<br \/>\n\u2014 Est\u00e1 com medo?<br \/>\n\u2014 Sinto coisa bem pior.<br \/>\n\u2014 Pode me dizer o que \u00e9?<br \/>\n\u2014 Venha pra junto de mim. Com esse barulho, n\u00e3o vai me escutar de longe.<br \/>\nOt\u00edlia apanha o travesseiro, o len\u00e7ol, afasta o v\u00e9u sujo e se deita ao lado da irm\u00e3.<br \/>\n\u2014 O que deu em voc\u00ea?<br \/>\n\u2014 Remorso. Aconselhei Rafaela a fugir com Felipe. Ela n\u00e3o amava o advogado velho e rico.<br \/>\n\u2014 Nem precisa dizer, eu j\u00e1 desconfiava.<br \/>\nOt\u00edlia come\u00e7a a chorar.<br \/>\n\u2014 E em voc\u00ea, o que deu?<br \/>\n\u2014 Rafaela podia ser minha filha.<br \/>\n\u2014 Pare de falar tolice, somos duas solteironas.<br \/>\n\u2014 Eu sei, voc\u00ea sempre me lembra disso.<br \/>\nUm trator cava o terreno bem pr\u00f3ximo ao terra\u00e7o, remove pedras, d\u00e1 a impress\u00e3o de que ir\u00e1 entrar na casa. Uma claridade forte ilumina as duas mulheres.<br \/>\n\u2014 Tive a minha chance quando era jovem e deixei fugir. N\u00e3o sou t\u00e3o corajosa como o pai falava. Nem voc\u00ea.<br \/>\n\u2014 Eu?<br \/>\n\u2014 Pensa que n\u00e3o sei das coisas? Sou quase surda, mas enxergo dobrado. N\u00e3o lamente, sua chance tamb\u00e9m passou.<br \/>\nOt\u00edlia procura conter os solu\u00e7os, cobrindo o rosto com o len\u00e7ol. Os homens desligam as m\u00e1quinas, fazem uma tr\u00e9gua para o caf\u00e9. No sil\u00eancio repentino, escutam- -se o vento e os pios de uma coruja.<br \/>\nOt\u00edlia aconchega-se \u00e0 irm\u00e3.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o fazia um m\u00eas que vest\u00edamos luto fechado por Alcides, quando decidi conhecer Lindalva. Ela era a \u00fanica mulher do mundo de quem eu sentia inveja. Est\u00e1 me ouvindo?<br \/>\n\u2014 Estou.<br \/>\n\u2014 Quase n\u00e3o acho a casa alugada por um comerciante rico de outra cidade. Ele vinha de quinze em quinze dias. Aproveitei uma aus\u00eancia do amante pra fazer minha visita. Achei a casinha mais limpa do que o nosso sobrado, tudo bonito e no lugar. N\u00e3o menti, disse quem eu era. Lindalva percebeu o meu luto e achou-me parecida com Alcides. Vestia uma roupa discreta, usava os cabelos longos soltos. Achei-a bem mais bonita do que no retrato. Lembrei-me do nosso irm\u00e3o. Ele cantava uma guar\u00e2nia com os versos \u201c\u00edndia seus cabelos nos ombros ca\u00eddos, negros como a noite que n\u00e3o tem luar\u201d. Ca\u00ed no choro ao me recordar da m\u00fasica. Faltou for\u00e7a em minhas pernas e eu me sentei. Lindalva foi \u00e0 cozinha e trouxe \u00e1gua com a\u00e7\u00facar. Sentia-se envergonhada por receber uma mo\u00e7a de fam\u00edlia ilustre, temia que as pessoas falassem mal de mim. Disse que n\u00e3o me importava com essas besteiras, sempre fora livre para fazer o que tinha vontade. Ela n\u00e3o compreendeu que uma mulher pudesse ser livre e n\u00e3o ser prostituta. Falei o quanto desejava conhec\u00ea-la, descobrir por que meu irm\u00e3o se apaixonara t\u00e3o perdidamente, a ponto de ser mandado para outra cidade, o que resultou na sua morte. Lindalva come\u00e7ou a chorar e pediu que eu n\u00e3o a culpasse, sempre achara que s\u00f3 trazia infelicidade \u00e0s pessoas. Num impulso me abracei com ela, apertei-a contra meu peito e comecei a cheirar seu pesco\u00e7o, os cabelos, o busto, as axilas, buscando o perfume de Alcides, uma lembran\u00e7a f\u00edsica do irm\u00e3o t\u00e3o desejado. Lindalva n\u00e3o compreendeu meu comportamento, deve ter pensado coisas horr\u00edveis de mim. Ca\u00ed numa poltrona e chorei sem controle. A pobrezinha tentava me acalmar, fechou a porta e a janela da rua, temia que os vizinhos bisbilhotassem. Trouxe gotas de aguardente alem\u00e3 numa ta\u00e7a com \u00e1gua, mas n\u00e3o bebi. Ficamos um tempo em sil\u00eancio, eu sentada com a cabe\u00e7a entre as coxas e ela de p\u00e9 \u00e0 minha frente, sem saber o pr\u00f3ximo passo a dar. De repente, entrou num quarto e voltou com um retrato de Alcides, o \u00faltimo que ele havia tirado no Ex\u00e9rcito. O irm\u00e3o sorria tranquilo, o cabelo cortado baixo, o alto da cabe\u00e7a escondido por um quepe. Eu n\u00e3o despregava os olhos da foto, parecia ter reavido Alcides.<br \/>\n\u2014 Tome, ela disse. Voc\u00ea amou esse homem bem mais do que eu.<br \/>\n\u2014 Depois tirou do pesco\u00e7o um cord\u00e3o fino de ouro, com uma medalhinha de porcelana, esse que uso sempre. P\u00f4s o trancelim em minha m\u00e3o e sentou ao lado. Ganhara o presente de Alcides, no dia em que se despediram. Senti uma grande ternura pela menina expulsa de casa, encostei a cabe\u00e7a em seu peito e solucei at\u00e9 me acalmar.<br \/>\nMariana termina a hist\u00f3ria e se abra\u00e7a \u00e0 irm\u00e3. Ot\u00edlia n\u00e3o se cont\u00e9m e chora. Alguns trabalhadores param junto aos degraus do sobrado, acendem cigarros e se afastam conversando. Um deles assobia alto.<\/p>\n<p>Os homens ligam novamente os tratores e os caminh\u00f5es. Um som infernal abafa as vozes das mulheres, restaurando a paz do barulho, aquela em que nada se escuta.<br \/>\nMudas, as irm\u00e3s acompanham os filetes de luz dan\u00e7ando no telhado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com informa\u00e7\u00f5es do Suplemento Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Veja abaixo o primeiro conto do novo livro de Ronaldo Correia de Brito, O amor das sombras, da editora Alfaguara. 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