{"id":1618,"date":"2016-11-18T15:06:42","date_gmt":"2016-11-18T18:06:42","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/?p=1618"},"modified":"2016-11-18T15:06:42","modified_gmt":"2016-11-18T18:06:42","slug":"conto-brisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/2016\/11\/18\/conto-brisa\/","title":{"rendered":"[Conto] Brisa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1620 size-medium\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2016\/11\/large-4-300x299.jpg\" alt=\"large-4\" width=\"300\" height=\"299\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2016\/11\/large-4-300x299.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2016\/11\/large-4-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2016\/11\/large-4-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2016\/11\/large-4.jpg 500w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00e1bado a noite sempre \u00e9 uma lenda. Para onde ir num dia em que todos costumam sair com suas companhias, suas fam\u00edlias, amigos, paqueras, rolos, amantes? Ele gostava de fazer algo a noite, mas tinha nojo das companhia dos outros, nojo da companhia de outros, queria apenas a companhia de um, isso lhe bastava. N\u00e3o queria ver sorrisos, abra\u00e7os, alegrias, gente tirando fotos. Queria a cidade, o mundo, tudo s\u00f3 para ele. Isso era um problema, um problema que ali\u00e1s, nunca conseguiu superar, nem os meses e meses de terapia deram jeito. N\u00e3o era nada de s\u00edndrome do p\u00e2nico ou fobia, aquilo era dele, da sua personalidade, do seu eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nSombrio, meio dark, meio freak, n\u00e3o seria modinha nem essas coisas que as pessoas costumam se auto definir, ele era assim, nasceu assim e sem sombra de d\u00favidas, iria morrer assim. Tinha s\u00e9rios problemas com s\u00e1bados, inclusive os domingos que lembrava das tardes com a fam\u00edlia, os almo\u00e7os com amigos, com a turma. Vivia enclausurado, numa redoma de vidros, era como aquele home do esqueleto de vidro do filme da Am\u00e8lie Poulain, o filme preferido de sua vida. Ele n\u00e3o saia, n\u00e3o tinha contatos no celular, n\u00e3o tinha redes sociais, apenas existia, n\u00e3o vivia, era mais um no meio de milh\u00f5es e milh\u00f5es de humanos.<br \/>\nOlhou para o celular e n\u00e3o vinha nenhum n\u00famero a mente, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m para ligar e dizer somente um \u201coi\u201d ou um \u201co que vai fazer essa noite?\u201d, ent\u00e3o decidiu que iria fazer festa ali mesmo, no apartamento de vinte e quatro metros quadrados que tinha comprado com o dinheiro que tinha conseguido ap\u00f3s trabalhar anos em uma firma que n\u00e3o lhe trazia boas recorda\u00e7\u00f5es, apenas m\u00e1goas e medos, frustra\u00e7\u00f5es, sentimentos ruins e dores insanas.<br \/>\nOlhou em volta e decidiu pegar uma garrafa de vodca que ele tinha comprado n\u00e3o fazia nem duas semanas. Constatou que era a \u00faltima garrafa que continha \u00e1lcool, se acabasse iria ter que se contentar com os vidros de perfumes franceses que comprara na sua \u00faltima viagem \u00e0 Fran\u00e7a. Era, ele estava desse jeito, se n\u00e3o tivesse bebida alco\u00f3lica ele bebia o que fosse derivado da subst\u00e2ncia, fosse perfumes ou simplesmente \u00e1lcool puro e t\u00f3xico.<br \/>\nAbriu a garrafa, fez um suco com as laranjas amarelas que tinha comprado na sua \u00faltima ida ao mercado e pegou a \u00faltima carteira de cigarros que tinha. Botou um som no celular mesmo e ficou na sala, pensando na vida que n\u00e3o vivia, nos amores que n\u00e3o amava, nas amizades que desperdi\u00e7ava por seu orgulho e por sua personalidade forte e fria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nFumou fundo. No primeiro trago, pensou como ele estaria daqui h\u00e1 dez anos, com mais idade, quase velho, quem iria cuidar dele na velhice? N\u00e3o tinha parentes, muito menos pessoas pr\u00f3ximas. Se tivesse um coma alco\u00f3lico ali na sua pr\u00f3pria sala de estar e morresse, ningu\u00e9m iria dar falta, o corpo apodreceria e a\u00ed sim que viria o porteiro do condom\u00ednio e os curiosos e ele seria enterrado como um z\u00e9 ningu\u00e9m, um indigente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nNo segundo trago pensou como seria a sua vida se tivesse um companheiro. Um amor para chamar de seu, uma perna para encontrar na hora de dormir. Um contato para ligar ap\u00f3s um dia estressante de trabalho, ficou ali sonhando, sonhando e sonhando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nNo terceiro trago decidiu que queria uma coisa mais forte. Ent\u00e3o procurou entre as suas coisas, entre as tralhas e quinquilharias do seu quarto e achou dentro de uma caixa de f\u00f3sforos customizada que tinha o rosto de Frida Kahlo, as ervas, a planta que o fazia sentir bem. Tamb\u00e9m eram as \u00faltimas que ele tinha. Fez um baseado gordo, preparou tudo e fumou, tragou fundo e soltou a fuma\u00e7a em c\u00e2mera lenta, aos poucos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nColocou no celular a m\u00fasica de uma banda que vinha escutando ultimamente e fumou at\u00e9 ficar s\u00f3 os restos do cigarro de maconha. Bebeu o litro de vodca quase num s\u00f3 f\u00f4lego. Abriu a janela, a brisa veio forte, num impacto estridente. Estava vendo a rua movimentada, com seus carros para l\u00e1 e para c\u00e1, com gente passando, com festas acontecendo, com fam\u00edlias reunidas, com bares, boates e restaurantes e puteiros e saunas todas lotadas de gente vivendo, o que ele n\u00e3o fazia, o que ele n\u00e3o vivia. Sentiu a brisa, contou para si mesmo os versos da m\u00fasica que tocava no fundo e pulou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nD\u00e9cimo andar, morte na certa. Nos trinta segundos de tempo, a porta ganha batidas e sua campainha toca. Era seu ex amor que tinha acabado de chegar, arrombou a porta e visualizou a sala, que s\u00f3 tinha a aus\u00eancia do outro que tinha acabado de se jogar. Viu a janela da varanda aberta para a noite fria que fazia l\u00e1 fora e constatou que s\u00f3 tinha uma brisa e um corpo estendido no ch\u00e3o, no meio da cal\u00e7ado da avenida. Era tarde demais para voltar atr\u00e1s, a presen\u00e7a chegou atrasada, agora tinha que se contentar com as perguntas da pol\u00edcia, dos curiosos e ficar sentindo aquela brisa que o outro sentiu do lado de fora e dentro de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">Texto: Eduardo Sousa| Imagem: Internet<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e1bado a noite sempre \u00e9 uma lenda. 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