{"id":562,"date":"2015-03-09T09:00:06","date_gmt":"2015-03-09T12:00:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/?p=562"},"modified":"2015-03-09T09:00:06","modified_gmt":"2015-03-09T12:00:06","slug":"em-linhas-tortas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/2015\/03\/09\/em-linhas-tortas\/","title":{"rendered":"Em linhas tortas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/03\/large-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-563 aligncenter\" alt=\"large (1)\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/03\/large-1.png\" width=\"480\" height=\"372\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/03\/large-1.png 480w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/03\/large-1-300x233.png 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/03\/large-1-120x93.png 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>C\u00e9u nublado. \u00a0Sair \u00e0s dez da manh\u00e3 para ir no supermercado embaixo de chuva n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o legal quanto parece. Primeiro: tem chuva e depois tem chuva de novo. Tomo o caf\u00e9 com leite que fiz apressadamente, \u00a0 na m\u00e3o direita a x\u00edcara com o caf\u00e9, na esquerda o \u00faltimo cigarro que tenho. Pego o meu guarda chuva e saio em rumo \u00e0s compras(comida). \u00a0Me acordei pensando que estava em Veneza, ou Monmartre, mas estava mesmo aqui, nessa cidadezinha tropical que de vez em quando chove e quando chove inunda tudo, as ruas, as casas e o meu cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>A senhora manobra as sacolas das compras nas duas m\u00e3os, \u00a0o camel\u00f4 grita insistentemente para as pessoas comprarem os seus dvd&#8217;s \u00a0e cd&#8217;s piratas. Vejo as quitandas na rua, tem morangos, bananas, mam\u00e3os, caj\u00fas, mangas, tudo sortido, vejo tudo que gosto menos o que ainda quero gostar. \u00a0O sinal p\u00e1ra, uma moto avan\u00e7a o sinal, ops, cuidado, ia sendo quase atropelado. Estou desatento hoje, procurando n\u00e3o sei o qu\u00ea. Cad\u00ea esse supermercado que n\u00e3o alcan\u00e7o? Ainda faltam mais quatro quadras pra chegar l\u00e1, cruzes, d\u00f3 das minhas pernas. \u00a0Meu guarda-chuva \u00e9 soprado pelo vento forte, vai desabar mais \u00e1gua l\u00e1 de cima, desconfio. Cachorros e gatos desfilam pela avenida, uma avenida que tem de tudo, se parece mais com a Feira de Caruaru, mas n\u00e3o \u00e9, \u00e9 aqui mesmo.<\/p>\n<p>Em meio a todo mundo, \u00e0 todas as frutas, gatos e cachorros, camel\u00f4s e sei l\u00e1 o qu\u00ea mais, n\u00e3o o vejo, n\u00e3o consigo encontr\u00e1-lo daqui. Nenhum sinal. Nenhum sinal daquele ar misterioso, daquelas m\u00e3o possivelmente geladas, da barba de tr\u00eas dias por fazer, nada da presen\u00e7a, s\u00f3 sua aus\u00eancia est\u00e1 ali. Onde est\u00e1 voc\u00ea nesse domingo mais ou menos? Est\u00e1 deitado na sua cama de colcha verde escutando Mozart? Ou \u00e9 Guns Roses mesmo? \u00a0Est\u00e1 comendo laranja e escrevendo alguma resenha de um livro? O Di\u00e1rio de Anne Frank, n\u00e3o n\u00e3o, Morangos Mofados? Ah, j\u00e1 sei A Cidade Sitiada? Tamb\u00e9m n\u00e3o? Poxa, ent\u00e3o n\u00e3o sei. Desisto de acertar.<\/p>\n<p>Meus devaneios crescem a cada medida que me aproximo do \u00a0supermercado. Faltam duas quadras, tenho esperan\u00e7a de encontrar voc\u00ea. Ali\u00e1s, \u00e9 somente na \u00faltima quadra que quase sempre, encontro voc\u00ea, quase sempre. Espero que hoje, que agora, seja esse quase sempre. \u00a0Mas n\u00e3o, n\u00e3o foi dessa vez. Chego no ent\u00e3o supermercado, entro meio absorto, as pessoas olham pra mim como se eu tivesse feito algo de muito grave, como se tivesse matado algu\u00e9m. Na verdade matei, matei desde o come\u00e7o do ano, o meu amor pr\u00f3prio, coitadinho, foi de uma tacada s\u00f3, mas disso, ningu\u00e9m sabia, s\u00f3 eu e o finado. \u00a0Pego a cesta e vou atr\u00e1s dos produtos que vim comprar: biscoito salgado de alho, suco de uva, sorvete de creme, arroz e macarr\u00e3o integral e um bom ketchup, para misturar na pipoca de microondas que pretendo fazer mais tarde, se eu chegar em casa&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9, ultimamente estou assim, nada de planos, nada de futuro, s\u00f3 o presente, por isso nem sei se chego em casa. Meus amigos dizem que sou muito pessimista, paran\u00f3ico, louco, adoidado, mas n\u00e3o sou. Antes fazia muitos planos, isso \u00e9 verdade, hoje, je ne sais pas o que \u00e9 isso. Je sais, voc\u00ea sabe. \u00a0A qualquer hora posso trope\u00e7ar nesse piso \u00famido do supermercado e cair, bater a cabe\u00e7a na rodinha do carrinho da mo\u00e7a ao lado e morrer instantaneamente&#8230;. Mas acredito que n\u00e3o ser\u00e1 assim. N\u00e3o \u00e9 o que acontece. Chega a minha vez de passar as compras no caixa, pago, pego a nota fiscal, dou muito obrigado a mo\u00e7a e vou embora.<\/p>\n<p>Se tiver muita sorte ainda posso te encontrar na volta. Ser\u00e1? Ser\u00e1 se vai rolar um encontro casual ou foi um desencontro proposital desse destino que teima em andar em linhas tortas? Pois \u00e9, nem sinal de destino, estou \u00e0 deriva, nem destino tenho mais, \u00e9 foda. \u00a0Na volta pra casa, vejo meninas de mais ou menos cinco anos brincando de amarelinha na chuva, que felicidade, por um momento essa brincadeira me trouxe de volta lembran\u00e7as infantis, ah que \u00a0saudade dos tempos, saudades&#8230;<\/p>\n<p>Te vi. Voc\u00ea passou pelas meninas brincando, voc\u00ea saiu da casa em frente ao supermercado. Ser\u00e1 sua casa? A casa de sua m\u00e3e, seu namorado? D\u00e1 refor\u00e7o escolar? Ou vinha da casa de um amigo? N\u00e3o sei e nem teria a coragem e a pretens\u00e3o de te perguntar. Hoje, realmente o destino est\u00e1 meio tr\u00f4pego. Sempre que te vejo, nem que seja de relance, \u00e9 na ida e agora estoy te viendo na vuelta, \u00a0n\u00e3o est\u00e1 me olhando no rosto, estou vendo tua nuca, estou atr\u00e1s de ti, \u00a0uns dez passos de diferen\u00e7a. Queria que voc\u00ea desse meia volta e virasse para mim, me chamasse para subir pra algum lugar, me levar pra onde tu fosses, mas n\u00e3o, isso n\u00e3o vai acontecer, t\u00e1 escrito, eu sou o diretor.<\/p>\n<p>Teu guarda chuva vermelho \u00e9 bonito. Combina com tua \u00a0cal\u00e7a bege e teus chinelos marrons. Essa camisa longa cinza est\u00e1 a cor do c\u00e9u de hoje. Tua nuca com fios de cabelos castanhos correm e embelezam o dia, teus passos, tr\u00eamulos iguais aos meus, me encantam. Vem c\u00e1, t\u00f4 aqui, olha pra mim, estou atr\u00e1s de ti. Olha, mira, veja! Nada acontece.<\/p>\n<p>Estou te seguindo? N\u00e3o, estou indo pra casa, mas porque voc\u00ea est\u00e1 indo na mesma dire\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o volta, esbarra em mim, me derruba, pede desculpas, \u00a0me convence de me levar pra tua casa pra colocar o papo em dia, pra escutar Gal Costa ou Manu Chao, vem eu aceito, n\u00e3o precisa ter vergonha. \u00a0Chega! Chega de loucuras, de poss\u00edveis di\u00e1logos, de pensamentos torpes, bestas, que n\u00e3o levam a nada. Esto chegando em casa, faltam duas ruas, \u00e9 a\u00ed que o destino, o bendito acontece.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vira, me olha e abre um sorriso lindo, o mais lindo que eu j\u00e1 vi, me chama, \u00a0grita o meu nome. \u00a0Olho com olho, pupila com pupila, desejo com desejo. Vou atravessar a rua, mas&#8230; L\u00e1 vem um carro, um ve\u00edculo vermelho da cor da tua blusa, com fum\u00ea em todas as partes&#8230; Batida. Eu caio. As compras rolam pelo ch\u00e3o. O suco abre, se mistura com o sorvete, eu estendido no ch\u00e3o, as pessoas se aproximando, voc\u00ea ficando cada vez mais longe, at\u00f4nito. inacredit\u00e1vel&#8230; \u00c9 voc\u00ea mesmo, est\u00e1 vindo me ver, n\u00e3o tenho como responder, \u00e9 chegado a hora, n\u00e3o era pra eu ter ido hoje ao supermercado, ali\u00e1s, hoje n\u00e3o \u00e9 quinta-feira, \u00e9 domingo, do p\u00e9 de cachimbo, \u00a0tudo foi escrito, em linhas totalmente \u00a0tortas, paralelas. Eu fecho o olho, agora escuto a tua voz, que liga desesperadamente pro um nove dois, socorro, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais preciso.<\/p>\n<p>Te lan\u00e7o o \u00faltimo olhar, um olhar eterno, close nos seus olhos castanhos claros, agora plano geral: eu ca\u00eddo na rua,as pessoas ao redor, voc\u00ea com um celular na m\u00e3o e do meu lado, em meio ao tr\u00e2nsito ca\u00f3tico da avenida, n\u00e3o h\u00e1 mais nada que se possa fazer, tchau, vou embora, t\u00e1 na hora, o destino escreveu o nosso encontro, o encontro que eu tanto esperava, \u00a0escreveu aos garranchos, em linhas tortas&#8230; \u00e9 o fim&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto: Eduardo Sousa || Imagem: Internet<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; C\u00e9u nublado. \u00a0Sair \u00e0s dez da manh\u00e3 para ir no supermercado embaixo de chuva n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o legal quanto parece. 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