{"id":611,"date":"2015-04-05T11:50:31","date_gmt":"2015-04-05T14:50:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/?p=611"},"modified":"2015-04-05T11:50:31","modified_gmt":"2015-04-05T14:50:31","slug":"a-maca-no-escuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/2015\/04\/05\/a-maca-no-escuro\/","title":{"rendered":"A Ma\u00e7a no Escuro"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/04\/clarice-lispector-a-maca-no-escuro-13957-MLB214471797_7589-F.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-612 aligncenter\" alt=\"clarice-lispector-a-maca-no-escuro-13957-MLB214471797_7589-F\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/04\/clarice-lispector-a-maca-no-escuro-13957-MLB214471797_7589-F-550x820.jpg\" width=\"550\" height=\"820\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>(\u2026) A amizade \u00e9 muito bonita mesmo. Mas o amor \u00e9 mais. Eu n\u00e3o podia ter amizade por um homem que eu tinha amado. (p. 206)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em \u201cA ma\u00e7\u00e3 no escuro\u201d, Clarice Lispector conta a hist\u00f3ria de Martim, um homem que foge na noite, se refugia num hotel e depois numa fazenda, pois pensa que havia matado a esposa. Completamente corporal, sentimos toda a agonia f\u00edsica de Martim durante essa fuga. O corpo \u00e9 o artificie da escritura de Clarice durante todo o romance. O ambiente \u00e9 o das sensa\u00e7\u00f5es, do pensamento, n\u00f3s vamos construindo o nosso entendimento aos poucos. Um livro denso, como costuma ser Clarice com a sua literatura psicol\u00f3gica. Nota- se claramente que esse livro foi o precursor de \u201cA paix\u00e3o segundo G.H.\u201d (1965), a protagonista (aquela que comeu uma barata) e a forma de narrar \u00e9 muito parecida com \u201cA ma\u00e7\u00e3 no escuro\u201d, inclusive usando express\u00f5es iguais ou similares, como as \u201ccoisas sem nome\u201d, coisas que os narradores de ambos livros n\u00e3o conseguem nomear, sensa\u00e7\u00f5es que parecem n\u00e3o ter nome. Martim est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do Brasil e foge na escurid\u00e3o, anda de olhos fechados h\u00e1 duas semanas, desde que sua casa foi incendiada. Clarice escreveu esse livro quando morava no exterior entre Torquay (Inglaterra) e Washington (EUA).<br \/>\nEste \u00e9 o quarto romance de Clarice Lispector, \u201cA ma\u00e7\u00e3 no escuro\u201d (1961) \u00e9 dividido em tr\u00eas cap\u00edtulos: \u201cComo se faz um homem\u201d, \u201cNascimento de um her\u00f3i\u201d e \u201cA ma\u00e7\u00e3 no escuro.<\/p>\n<p>No primeiro capitulo, Martim aboliu a palavra \u201cculpa\u201d do seu entendimento e a substituiu pela palavra \u201cato\u201d. N\u00e3o se arrependeu de ter cometido um crime, que ele substituiu pela express\u00e3o \u201co grande pulo\u201d, considerou uma vit\u00f3ria. Agora o \u00fanico inimigo que tinha eram os outros e n\u00e3o a si pr\u00f3prio:<\/p>\n<p><em><strong>Sim. naquele instante de espantada vit\u00f3ria o homem de repente descobrira a pot\u00eancia de um gesto. O bom do ato \u00e9 que ele nos ultrapassa. Em um minuto Martim fora transfigurado pelo seu pr\u00f3prio ato. Porque depois de duas semanas de sil\u00eancio, eis que ele muito naturalmente passara a chamar seu crime de \u2018ato\u2019. (p. 36)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas arrependeu- se em seguida de tal pensamento. A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que Martim \u00e9 uma esp\u00e9cie de psicopata, tenta justificar e perdoar o seu ato para poder continuar vivendo. Mas n\u00e3o \u00e9 isso, afinal os psicopatas s\u00e3o desprovidos de qualquer moralidade, s\u00e3o frios e n\u00e3o t\u00eam empatia pelo outro. Algu\u00e9m que comete um ato muito ruim, geralmente sente o peso da culpa, como se estivesse sujo, indigno, mas com Martim isso n\u00e3o acontece, \u00e9 bem ao contr\u00e1rio, o mal funciona como uma esp\u00e9cie de purifica\u00e7\u00e3o. Clarice entrou no pensamento de algu\u00e9m que se achava assassino, o narrador- onisciente nos conta tudo:<\/p>\n<p><em><strong>Desta hora em diante teria a oportunidade de viver sem fazer o mal porque j\u00e1 o fizera: ele era agora um inocente. (p. 42)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Morto de fome e de sede, Martim encontra uma fazenda pela rota de sua fuga e a dona Vit\u00f3ria acaba por contrat\u00e1- lo por casa e comida. Fazenda n\u00e3o, um s\u00edtio decadente. As sensa\u00e7\u00f5es do primeiro encontro gera um combate de percep\u00e7\u00f5es entre os envolvidos, que demanda uma s\u00e9rie de conhecimentos pr\u00e9vios sobre a nossa percep\u00e7\u00e3o do outro. Vit\u00f3ria e a herm\u00e9tica prima Ermelinda moravam juntas, essa veio de visita e ficou:<\/p>\n<p><em><strong>\u2018O que \u00e9 que faz com que eu, n\u00e3o fazendo nenhum ato de maldade, seja a ruim? e Ermelinda, n\u00e3o fazendo um ato de bondade, seja boa?\u2019 O mist\u00e9rio das coisas serem como n\u00f3s sabemos que elas s\u00e3o (\u2026) (p.72)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ermelinda passou a inf\u00e2ncia toda doente e virou uma adulta irrespons\u00e1vel, como se todos tivessem que estar \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, como se o passado triste a desse carta branca para procrastinar. Ermelinda adora uma \u201cvagabundagem\u201d, tem medo do escuro, fala sem dizer nada e \u00e9 um pouco esp\u00edrita. Vit\u00f3ria \u00e9 obrigada a carregar esse \u201cpeso morto\u201d, assim sente Vit\u00f3ria. A mo\u00e7a Ermelinda apaixona- se por Martim. \u00c9 magistral a descri\u00e7\u00e3o das sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas que Clarice faz da paix\u00e3o no corpo da mulher. (p. 90) Ermelinda, a prima indesejada. Mas Martim, o homem de olhos azuis e \u201csobrancelhas baixas\u201d gosta \u00e9 da mulata fogosa que trabalha na fazenda. Martim estabelece uma rela\u00e7\u00e3o com Vit\u00f3ria de total subservi\u00eancia. Ele obedece as mil ordens de Vit\u00f3ria e nada mais. Vit\u00f3ria \u00a0o espreme, quer saber o segredo do homem, mas esse aguenta tudo e n\u00e3o revela. Martim achava as duas primas chatas e Ermelinda feia, \u201cuma adolescente envelhecida\u201d. O cavalgar junto com Vit\u00f3ria numa montanha com o vento batendo o fez enxergar a Vit\u00f3ria e a si mesmo. Quem sabe o in\u00edcio de um amor, principalmente consigo pr\u00f3prio. Foi a\u00ed que ele come\u00e7ou a se encontrar.<\/p>\n<p>No segundo cap\u00edtulo (p. 126), Martim sente- se feliz e tem a necessidade de comunicar- se. As lembran\u00e7as da sua vida anterior v\u00eam \u00e0 tona, lembra do seu filho. Ermelinda continua insistindo em conquistar Martim, que tenta ignor\u00e1- la quando ela come\u00e7a com as suas sandices:<\/p>\n<p><em><strong>(\u2026) voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 doida. \u00c9 que voc\u00ea vive muito isolada e j\u00e1 n\u00e3o sabe mais o que se conta aos outros e o que n\u00e3o se conta. (p. 130)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Clarice faz longas descri\u00e7\u00f5es do mundo interior de Martim, que busca a sua \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d como ser humano depois do ato de matar. Foi quando Vit\u00f3ria falou no alem\u00e3o, o mesmo que estava trabalhando no hotel na noite do crime de Martim e agora ele desconfiava de Vit\u00f3ria, ser\u00e1 que ela conhecia o seu segredo?<\/p>\n<p>Agora \u00e9 a \u00e9poca de Martim arriscar tudo, como na adolesc\u00eancia:<\/p>\n<p><strong><em>Sim. A reconstru\u00e7\u00e3o do mundo. \u00c9 que o homem acabara de perder completamente a vergonha. N\u00e3o teve sequer pudor de voltar a usar palavras da adolesc\u00eancia: foi obrigado a us\u00e1- las pois a \u00faltima vez que tivera linguagem pr\u00f3pria fora na adolesc\u00eancia; adolesc\u00eancia era arriscar tudo- e agora ele estava arriscando tudo. (p. 140)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Essa reconstru\u00e7\u00e3o desse mundo \u00e9 o do seu mundo interior. A viagem psicol\u00f3gica de Martim o leva a sentir- se livre e a amar a vida que tem, a sua vida e o trabalho no s\u00edtio, encerrou a sua vida anterior e sentiu- se feliz.<\/p>\n<p>No terceiro cap\u00edtulo (p. 203), o desencanto de Ermelinda que amou, mas tinha deixado de amar; o encontro de Vit\u00f3ria com o alem\u00e3o. O desencanto tamb\u00e9m de Martim ao descobrir a cobi\u00e7a de uma crian\u00e7a que brincava tranquila montando tijolos e lhe exigia um presente, correu incr\u00e9dulo, com a sujeira da inoc\u00eancia, com o olhar da menina e retrocedeu no seu processo de reconstru\u00e7\u00e3o, viu-se a si mesmo, sujo. Clarice usa adjetivos que hoje s\u00e3o considerados politicamente incorretos, ser\u00e1 que ela os usaria hoje? Chama a menina de preta, a compara com uma prostituta, a menina \u00e9 m\u00e1. N\u00f3s conseguir\u00edamos sentir o mesmo horror que sentiu martim sem esse dado da cor da pele da crian\u00e7a. Por outro lado, literatura nunca tem que ser politicamente correta, na fic\u00e7\u00e3o pode tudo. A liberdade art\u00edstica est\u00e1 em primeiro lugar, mas que choca, choca.<\/p>\n<p>Martim \u00e9 chamado pelo prefeito de Vila Baixa e dois investigadores. Martim revela que n\u00e3o \u00e9 engenheiro e sim \u201cestat\u00edstico\u201d e s\u00f3 na p\u00e1gina 310, quase no final do romance descobrimos qual foi a motiva\u00e7\u00e3o do crime (que n\u00e3o vou contar) e a revela\u00e7\u00e3o de que a esposa n\u00e3o morreu s\u00f3 vem na p\u00e1gina 314, esse spoiler j\u00e1 est\u00e1 revelado em quase todas as resenhas e sinopses na internet, o que tira a gra\u00e7a da hist\u00f3ria e \u00e9 uma pena. Ler o livro todo sem saber desse detalhe fundamental tornaria a obra muito mais interessante, mas o estrago j\u00e1 est\u00e1 feito, ent\u00e3o vamos l\u00e1:<\/p>\n<p><strong><em>\u2013 Talvez o senhor fique triste, disse ent\u00e3o com ironia o investigador de fumo preto na lapela, mas ela n\u00e3o morreu. A assist\u00eancia chegou a tempo, e ainda conseguiu salvar a sua esposa.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Trechos destacados do livro:<\/p>\n<p><em><strong>(\u2026) Estar contente era um modo de amar. (p. 28)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>(\u2026) houve uma \u00e9poca que o mundo era liso como a pele de uma fruta lisa. (\u2026) A vida naquele tempo ainda n\u00e3o era curta. (p.44)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>(\u2026) Aquele homem possu\u00eda uma cara. Mas aquele homem n\u00e3o era a sua cara. (p. 67)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>(\u2026) O que tem que ser, tem muita for\u00e7a. (p.82)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>(\u2026) Meditar era olhar o vazio. (p. 90)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>(\u2026) Por uma obscura necessidade de preserva\u00e7\u00e3o, estava procurando recuperar no campo aquele minuto em que ela ousadamente aceitara amar aquele homem: procurava recuperar o minuto para destru\u00ed-lo. Mas, estonteada, talvez soubesse que tamb\u00e9m a necessidade de destruir amor era o pr\u00f3prio amor porque amor \u00e9 tamb\u00e9m luta contra o amor, e se ela o soube \u00e9 porque uma pessoa sabe. (p. 91-92)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto: Eduardo Sousa | Imagem: Internet<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; (\u2026) A amizade \u00e9 muito bonita mesmo. Mas o amor \u00e9 mais. 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