{"id":631,"date":"2015-04-16T11:51:32","date_gmt":"2015-04-16T14:51:32","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/?p=631"},"modified":"2015-04-16T11:51:32","modified_gmt":"2015-04-16T14:51:32","slug":"o-que-marcel-proust-fala-sobre-o-habito-da-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/2015\/04\/16\/o-que-marcel-proust-fala-sobre-o-habito-da-leitura\/","title":{"rendered":"O que Marcel Proust fala sobre o h\u00e1bito da leitura"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/74\/2015\/04\/marcel-proust-madeleine.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-632\" alt=\"marcel-proust-madeleine\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/74\/2015\/04\/marcel-proust-madeleine.jpeg\" width=\"296\" height=\"356\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O escritor franc\u00eas Marcel Proust em 1905, escreveu um pref\u00e1cio ao livro Sesame and Lilies (S\u00e9samo e os L\u00edrios), de John Ruskin. Publicado sob o t\u00edtulo Sur La lecture (Sobre a Leitura), o pref\u00e1cio acabou ganhando vida independente e se tornou um cl\u00e1ssico das reflex\u00f5es sobre o gesto de ler. O Entre Aspas separou para voc\u00ea alguns dos melhores momentos do texto, na tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Vogt (Editora Pontes, 1989).<\/p>\n<p>1. \u201cA leitura est\u00e1 no limiar da vida espiritual; ela pode nela nos introduzir, mas n\u00e3o a constitui\u201d.<\/p>\n<p>2. \u201cH\u00e1, contudo, certos casos, certos casos patol\u00f3gicos, por assim dizer, de depress\u00e3o espiritual para os quais a leitura pode tornar-se uma esp\u00e9cie de disciplina curativa e se encarregar, por incita\u00e7\u00f5es repetidas, de reintroduzir perpetuamente um esp\u00edrito pregui\u00e7oso na vida do esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p>3. \u201cOs livros desempenham ent\u00e3o um papel an\u00e1logo ao dos psicoterapeutas para certos neurast\u00eanicos\u201d.<\/p>\n<p>4. \u201cDa pura solid\u00e3o, o esp\u00edrito pregui\u00e7oso n\u00e3o pode tirar nada, pois \u00e9 incapaz de, sozinho, por em movimento a sua atividade criativa. (\u2026) A \u00fanica disciplina que pode exercer uma influ\u00eancia favor\u00e1vel sobre estes esp\u00edritos \u00e9, portanto, a leitura\u2026\u201d<\/p>\n<p>5. \u201cSem d\u00favida, a amizade, a amizade que diz respeito aos indiv\u00edduos, \u00e9 uma coisa fr\u00edvola, e a leitura \u00e9 uma amizade. Mas ao menos \u00e9 uma amizade sincera, e o fato de dirigir-se a um morto, a um ausente, lhe d\u00e1 qualquer coisa de desinteressada, quase tocante\u201d.<\/p>\n<p>6. \u201cTalvez n\u00e3o haja na nossa inf\u00e2ncia dias que tenhamos vivido t\u00e3o plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem viv\u00ea-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido\u201d.<\/p>\n<p>7. \u201cEra como se tudo aquilo que para os outros os transformava em dias cheios n\u00f3s desprez\u00e1ssemos como um obst\u00e1culo vulgar a um prazer divino: o convite de um amigo para um jogo exatamente na passagem mais interessante\u2026\u201d<\/p>\n<p>8. \u201c\u2026 a abelha ou o raio de sol que nos for\u00e7ava a erguer os olhos da p\u00e1gina ou a mudar de lugar, a merenda que nos obrigavam a levar e que deix\u00e1vamos de lado intocada sobre o banco, enquanto sobre nossa cabe\u00e7a o sol empalidecia no c\u00e9u azul; o jantar que nos fazia voltar para casa e em cujo fim n\u00e3o deix\u00e1vamos de pensar para, logo em seguida, poder terminar o cap\u00edtulo interrompido\u2026\u201d<\/p>\n<p>9. \u201c\u2026 tudo isso que a leitura nos fazia perceber apenas como inconveni\u00eancias, ela as gravava, contudo, em n\u00f3s, com uma lembran\u00e7a t\u00e3o doce (muito mais preciosa, vendo agora \u00e0 dist\u00e2ncia, do que o que l\u00edamos ent\u00e3o com tanto amor) que se nos acontece ainda hoje folhearmos esses livros de outrora, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o como simples calend\u00e1rios que guardamos dos dias perdidos, com a esperan\u00e7a de ver refletidas sobre as p\u00e1ginas as habita\u00e7\u00f5es e os lagos que n\u00e3o existem mais\u201d.<\/p>\n<p>10. \u201cQuem, como eu, n\u00e3o se lembra dessas leituras feitas nas f\u00e9rias, que \u00edamos escondendo sucessivamente em todas \u00e0quelas horas do dia que eram suficientemente tranquilas e inviol\u00e1veis para abrig\u00e1-las[?]\u201d.<\/p>\n<p>11. \u201cDe manh\u00e3, voltando do parque, quando todos \u2018tinham ido fazer um passeio\u2019, eu me metia na sala de jantar, onde, at\u00e9 a ainda distante hora do almo\u00e7o, ningu\u00e9m, sen\u00e3o a velha F\u00e9lice, relativamente silenciosa, entraria, e onde n\u00e3o teria como companheiros de leitura mais do que os pratos coloridos pendendo nas paredes\u2026\u201d<\/p>\n<p>12. \u201cJ\u00e1 era meio-dia, fazendo com que meus pais pronunciassem as palavras fatais: \u2018Venha, feche seu livro, vamos almo\u00e7ar\u2019\u201d.<\/p>\n<p>13. \u201cO que as leituras da inf\u00e2ncia deixam em n\u00f3s \u00e9 a imagem dos lugares e dos dias em que elas foram feitas\u201d.<\/p>\n<p>14. \u201cDepois a \u00faltima p\u00e1gina era lida, o livro tinha acabado. Era preciso parar a corrida desvairada dos olhos e da voz que seguia sem ru\u00eddo, para apenas tomar f\u00f4lego, num suspiro profundo\u201d.<\/p>\n<p>15. \u201cProcurei mostrar [\u2026] que a leitura n\u00e3o poderia ser assimilada a uma conversa\u00e7\u00e3o, mesmo com o mais s\u00e1bio dos homens; que a diferen\u00e7a essencial entre um livro e um amigo n\u00e3o \u00e9 a sua maior ou menor sabedoria, mas a maneira pela qual a gente se comunica com eles, a leitura, ao contr\u00e1rio da conversa\u00e7\u00e3o, consistindo para cada um de n\u00f3s em receber a comunica\u00e7\u00e3o de um outro pensamento, mas permanecendo sozinho, isto \u00e9, continuando a desfrutar do poder intelectual que se tem na solid\u00e3o e que a conversa\u00e7\u00e3o dissipa imediatamente\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto: Eduardo Sousa | Imagem: Internet<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; O escritor franc\u00eas Marcel Proust em 1905, escreveu um pref\u00e1cio ao livro Sesame and Lilies (S\u00e9samo e os L\u00edrios), de John Ruskin. 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