{"id":80,"date":"2014-12-15T08:00:12","date_gmt":"2014-12-15T11:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/?p=80"},"modified":"2014-12-15T08:00:12","modified_gmt":"2014-12-15T11:00:12","slug":"espera-vermelha-cor-de-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/2014\/12\/15\/espera-vermelha-cor-de-fogo\/","title":{"rendered":"Espera vermelha, cor de fogo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-81 aligncenter\" alt=\"large (3)\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-3.jpg\" width=\"400\" height=\"266\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-3.jpg 400w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-3-120x80.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele odiava esperar. E pior do que isso, esperava pelo que n\u00e3o vinha mais. Espera pelo duvidoso, pelo incerto, pela inc\u00f3gnita, pelo x da quest\u00e3o, era uma espera chata, cansativa, mas que todos os dias ele estava l\u00e1, na espreita , esperando pelo futuro t\u00e3o indecifr\u00e1vel que era o dele. A espera tinha haver com o telefone vermelho que ficava na sua sala de estar, chique, baseado nas decora\u00e7\u00f5es de Londres, depois da recente viagem que ele fizera. Entre as almofadas e os sof\u00e1s de couro cinza, estava o telefone com fio, vermelho, da cor do fogo, da cor da espera dele, que era infinita.<br \/>\nEstava mal, muito mal. Os amigos do trabalho o taxavam como louco, os seus familiares o chamavam de psic\u00f3tico, pelo simples fato dele falar s\u00f3 e sonhar s\u00f3 e rir s\u00f3 e fazer sexo s\u00f3, se \u00e9 que me entende. Tudo dele era s\u00f3, s\u00f3 ele e o seu eu, eu l\u00edrico e caneta, hist\u00f3ria e autor. A solid\u00e3o sempre fez parte de sua vida, at\u00e9 para nascer n\u00e3o precisou da ajuda de ningu\u00e9m, o m\u00e9dico nem teve muito trabalho, abriu as pernas da m\u00e3e e com apenas dois gritos com pouca for\u00e7a o tal saiu, veio ao mundo, nem chorou. Talvez tivesse previsto que gastaria suas l\u00e1grimas em outras ocasi\u00f5es, estas n\u00e3o iriam lhe faltar.<br \/>\nO rendimento no trabalho vinha ruim, na vida social ent\u00e3o, vinha pior ainda. N\u00e3o saia, n\u00e3o fazia supermercado, nem lia a cole\u00e7\u00e3o de Dostoi\u00e9vski e Kafka que se amontoavam na cabeceira da cama, n\u00e3o assitia os filmes de Tim Burton, que ficavam arrumadinhos e lindinhos na estante da sala, n\u00e3o fazia nada, s\u00f3 ficava em frente ao telefone, esperando pelo seu toque. Fez do carpete do ch\u00e3o a sua morada, e n\u00e3o queria mais sair. Esperava esperava e nada. Nada de toque, nada de liga\u00e7\u00e3o, nada de sinal. Nenhum sinal de vida, quanta maldade, pobre coitado.<br \/>\nA noite escura deu lugar ao sol, que com seus raios ultra violentos o atingiam com toda a for\u00e7a. Odiava o dia, \u00a0a luz era sua inimiga, o escuro era seu parceiro irm\u00e3o camarada. No preto, era homem, no branco, era fantasma. Ao acordar ligou para o chefe avisando que n\u00e3o iria trabalhar porque n\u00e3o tinha acordado bem disposto, estava com fortes dores na coluna, n\u00e3o era mentira, era verdade. As dores eram relativas \u00e0s suas investidas em frente ao telefone que nunca tocava, nunca. Pegou o jornal, leu as not\u00edcias do dia e pensou consigo mesmo: &#8220;enquanto uns se prendem \u00e0 internet ou ficam vidrados no celular, nas redes sociais, eu fico aqui, preso a um telefone com fio, sem poder sair de casa&#8221;.<\/p>\n<p>Isso essa a pura verdade: ele com seus vinte e cinco ou vintes seis anos de idade, preso ao passado, ao passado que por ironia do destino tinha sido um dia o seu presente. Tomou ch\u00e1 verde, comeu bolachas de sal e \u00e1gua e ficou deitado olhando para o teto branco de seu quarto. Resolveu fazer diferente naquele dia. N\u00e3o iria ficar em frente ao telefone na sala, ia ficar no quarto mesmo, se por acaso tocasse, sairia em disparada para atender e escutar a voz do outro lado do fone. E foi o que aconteceu.<br \/>\nEstava prestes a cair em um de seus sonos intermin\u00e1veis. A casa toda estava em sil\u00eancio, o \u00fanico barulho era do ar condicionado que jorrava vento frio pelo quarto. O telefone tocou. Triiiiim! O primeiro toque arregalou os seus olhos. Triiim! O segundo toque, lhe trouxe a realidade. Triiim! O terceiro, lhe deu medo. Triim! O quarto lhe atingiu em cheio. Triim! O quinto, lhe dilacerou. N\u00e3o teve a\u00e7\u00e3o para correr, para ir atender o telefone, suas pernas n\u00e3o o deixaram, ele ficou t\u00e3o abismado com o toque estrondoso que rompeu o sil\u00eancio que n\u00e3o levantou, ficou na cama, inerte, estupefato e caiu em sono profundamente. Acordou tr\u00eas dias depois. Olhou em volta do seu quarto, estava tudo do jeito que tinha deixado ao cair em estado de hiberna\u00e7\u00e3o. Viu as milhares de mensagens e telefones do seu celular, isso n\u00e3o lhe importava mais. Tinha tomado uma decis\u00e3o, n\u00e3o sairia mais de casa enquanto n\u00e3o atendesse aquele telefone.<br \/>\nE foi o que ele fez, durante os pr\u00f3ximos tr\u00eas meses, ficou esperando o telefonema e nada. Estava vegetativo. N\u00e3o tinha mais comida, nem \u00e1gua, nem nada, sua casa se tornara uma selva, onde um bicho \u00e1vido pela presa n\u00e3o faz nada ao n\u00e3o ser ca\u00e7ar. E ele estava na sua ca\u00e7a, ca\u00e7a ao mist\u00e9rio, ca\u00e7a ao duvidoso, nem eu mesmo, sei o que tanto lhe torturava. O tempo passou, os dias e as noites trocaram seus lugares, os bo\u00eamios saiam \u00e0 noite, os padres rezavam as missas, as beatas dormiam nas missas, as prostitutas ganhavam a vida, Caetano Veloso cantava suas m\u00fasicas normalmente , casais noivavam, separavam, reatavam ,acidentes aconteciam, o \u00f4nibus passava pelo ponto da avenida principal, os carros faziam motim por conta da falta de energia dos sem\u00e1foros e a vida seguia, s\u00f3 n\u00e3o para ele que de desgosto por n\u00e3o ter atendido ao telefone, morrera. Morrera na mais profunda tristeza e solid\u00e3o. Seu cad\u00e1ver se instaurou na sala, o odor ganhou as ruas da Paulista e o mundo. Depois de tudo isso, depois de quase um ano de espera por uma liga\u00e7\u00e3o, o telefone toca, toca repetidamente vinte e cinco vezes e mais uma vez e mais outra vez e mais uma e triiiim!. O telefone tocou, mas agora j\u00e1 era tarde demais&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ele odiava esperar. E pior do que isso, esperava pelo que n\u00e3o vinha mais. 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