{"id":84,"date":"2014-12-15T10:00:34","date_gmt":"2014-12-15T13:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/?p=84"},"modified":"2014-12-15T10:00:34","modified_gmt":"2014-12-15T13:00:34","slug":"mosca-da-minha-sopa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/2014\/12\/15\/mosca-da-minha-sopa\/","title":{"rendered":"A mosca da minha sopa"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-48.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-85 aligncenter\" alt=\"large (48)\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-48.jpg\" width=\"497\" height=\"750\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-48.jpg 497w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-48-300x453.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2014\/12\/large-48-120x181.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 497px) 100vw, 497px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bebidas. Noite e dia. Dia e noite. Era assim a vida e o cotidiano de Suzane, a prostituta da Rua do Ouvidor, como todos a conheciam. Era loura, magra, tinha mais ou menos 0.62 cm de cintura e gostava de Led Zeppeling e Rolling Stones. Se dizia agn\u00f3stica, mas quando passava l\u00e1 os seus perrengues com os clientes que n\u00e3o queriam pagar, ela olhava para o c\u00e9u e implorava o amor de um certo Deus, s\u00f3 ela sabia quem era esse.<\/p>\n<p>De dia passava o maior tempo fumando cigarro e bebendo cacha\u00e7a, vinho, gim, conhaque, tudo, todas as bebidas que voc\u00ea possa imaginar. Era Suzane, sendo Suzane. Com o temperamento forte de ga\u00facha, ela tinha os homens que queria e por conta disso cobrava, cobrava alto, muito alto,verdadeiros milh\u00f5es de cruzeiros, sim na \u00e9poca ainda eram os cruzeiros que fazia sucesso na tribo do Brasil. N\u00e3o tinha nenhuma ocupa\u00e7\u00e3o, era apenas mulher da vida, tinha o maior prazer de contar que ganhava a vida saindo com os casados-e-n\u00e3o-casados-e-gays-e-h\u00e9teros-e-bissexuais-e-mulheres, enfim, bastava chamar sua aten\u00e7\u00e3o, que sua l\u00edbido alertava pelo sexo e claro, pelo money.<br \/>\nSuzane, drogada, meretriz era simpatizante das boas coisas da vida. Sim, ela soube praticar bem a vida, por mais que n\u00e3o tivesse tanta experi\u00eancia assim , ela soube aproveitar como poucos a vida que algu\u00e9m lhe dera. Acredito que Suzane nasceu espont\u00e2nea, pois n\u00e3o gostava de ser dependente de ningu\u00e9m, nem mesmo de um ventre que lhe carregara durante nove meses, mas desta parte eu n\u00e3o falo, pois s\u00f3 conheci Suzane quando ela tinha dezoito anos, na flor da idade, como dizem por a\u00ed. Tudo em cima, os peitos fartos, o quadril redondo, a cor de neve, os cabelos naturais, sem nenhuma tinta, foi assim que me apaixonei pelo jeito riponga dela. Era enigm\u00e1tica, mas nem ela mesma sabia disso, era inocente, apesar dos pesares, era inocente de toda a vida.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 conheci Suzane de vista, uma vis\u00e3o linda imag\u00e9tica que eu tinha dela. Passava tarde da noite na Rua Ol\u00e1vio Bilac, onde ela costumava &#8220;trabalhar&#8221; e a via sentada, esperando por uma resposta da vida, por um cliente, tudo para comprar e bancar o seu v\u00edcio. Nunca a vi sem estar segurando uma garrafa de conhaque. Gostava de conhaques, caros, luxuosos, por isso, quando queria comprar um, fazia mais de quinze programas por dia. Quando acabava o expediente, comprava o seu conhaque e ia ser feliz em seu quitinete de dois c\u00f4modos. Uma sala-quarto-cozinha e um banheiro tr\u00eas por quarto.<br \/>\nPor ser cobrador de \u00f4nibus, sempre cheguei em casa tarde e sempre via Suzane rodando a bolsinha lindamente, sim, lindamente. Ela sabia ser sexy, sabia ser vulgar, sabia ser mulher e sabia ser prostituta, era multifacetada. Vou revelar para voc\u00eas que nesse dia parei para conversar com Suzane. Um di\u00e1logo meia boca, r\u00e1pido, mas que de imediato me revelou-a. Depress\u00e3o, alcoolismo, coca\u00edna, maconha, cigarro e saudade. Tudo isso fez parte da sua vida at\u00e9 o \u00faltimo momento em que foi achada morta por uma vizinha. O quartinho foi achado todo sujo de bebida, cinzas de cigarro, tomate, arroz, copos e ta\u00e7as, bitucas de maconha, tudo no ch\u00e3o. Na pequena mesa foi poss\u00edvel ver Suzane, a prostituta mais linda que eu j\u00e1 vi em minha vida com a cara num prato fundo de sopa. Morreu afogada em sua pr\u00f3pria comida, por estar completamente b\u00eabada, n\u00e3o raciocinou o momento e cabum! morreu. Fiquei triste e agora s\u00f3 me resta lembran\u00e7as e sonhos com a mosca da minha sopa, Suzane, que por quest\u00f5es matrimoniais e casuais nunca fora minha.<\/p>\n<p>Texto: Eduardo Sousa || Imagem: Internet<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Bebidas. Noite e dia. Dia e noite. 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