{"id":874,"date":"2015-06-17T14:34:51","date_gmt":"2015-06-17T17:34:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/entreaspas\/?p=874"},"modified":"2015-06-17T14:34:51","modified_gmt":"2015-06-17T17:34:51","slug":"platonicos-its","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/2015\/06\/17\/platonicos-its\/","title":{"rendered":"Plat\u00f4nicos-its"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/06\/535d951de5d34e0085372759831d4a27.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-875\" alt=\"535d951de5d34e0085372759831d4a27\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/entreaspas\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2015\/06\/535d951de5d34e0085372759831d4a27-550x365.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mundo \u00e9 todo cheio de post-its. A luz desse extraordin\u00e1rio conhecimento atingiu o meu terceiro olho em um momento de branco liter\u00e1rio. E mesmo que algum intruso invada o meu pequeno quarto e ache indecifr\u00e1vel aquele atropelo de pap\u00e9is espalhados por dois metros quadrados, a organiza\u00e7\u00e3o deles faz sentido. Faz total sentido.<\/p>\n<p>Na cabeceira, ao centro, acima da tela do computador, encaram-me diariamente os post-its que carregam os bancos em que tenho contas, suas ag\u00eancias, n\u00fameros e senhas. Tomam conta de mim e da minha vida financeira. Me d\u00e3o a (chave de) seguran\u00e7a que um pequeno rapaz de vinte e um anos procura e a esperan\u00e7a de que tudo vai dar certo quando eu ligar no fone f\u00e1cil. Praticamente meus paist-its.<\/p>\n<p>\u00c0 direita, como o nosso c\u00e9rebro, o lado organizado da minha parede. Alinhad\u00edssimos, est\u00e3o as contas fixas, os hor\u00e1rios das aulas de academia que pretendo fazer e nunca fa\u00e7o, calend\u00e1rio do ano com feriados, senhas das redes sociais \u2013 at\u00e9 aquelas em que fucei apenas uma vez por curiosidade ou impulso humano e nunca mais vou ligar, mandar mensagem, porque n\u00e3o interessou, n\u00e3o bateu aquela qu\u00edmica, sabe? Post-its sobre alguns cursos de idiomas, talvez ingl\u00eas ou franc\u00eas, ou para melhorar ainda mais o portugu\u00eas, estes s\u00e3o os que provavelmente s\u00f3 lan\u00e7amos olhares depois de desilus\u00f5es amorosas com os post-its da Pra\u00e7a do Ferreira. Os da direita s\u00e3o tediosos, mas necess\u00e1rios. Diariamente troco uma ideia com eles pra checar se posso adicionar mais um curso \u00e0 minha vida, se tem vaga na garagem, onde acho um bom serralheiro, qual l\u00e2mpada comprar pra substituir a que queimou no abajur da sala.<\/p>\n<p>\u00c0 esquerda \u2013 ah, como adoro! \u2013 s\u00e3o os meus projetos, os sonhos, o trabalho novo, o incerto, o desej\u00e1vel, o misterioso. Fotos sublimes de escritores(inspira\u00e7\u00f5es) em m\u00e1quinas de escrever, \u00a0 ideias desgrenhadas pra novas colunas, um poss\u00edvel livro, a pe\u00e7a de teatro e alguns projetos que meu cora\u00e7\u00e3o ainda vai se encarregar de realizar. Os de esquerda est\u00e3o sempre em transforma\u00e7\u00e3o, partindo, chegando. N\u00e3o ficam no mural por muito tempo, porque s\u00e3o vol\u00e1teis e inquietos e apaixonantes. J\u00e1 me acostumei, quando eles se v\u00e3o, abandonam buracos de percevejos pra causar saudade. Meus post-its de esquerda, tenho certeza, que fumam um beque de noite, ou pelo menos quatro cigarros Marlboro, enquanto assistem a algum show do Alabama Shakes no canal Bis.<\/p>\n<p>Sobre a mesa, expostos, exibidos, assanhados, prontos pra serem usados, os decadentes post-its amarelinhos, aqueles logados no post-tinder que descarto sem d\u00f3, como uma camiseta que custou dez reais e vai pra academia, pra cama, pra praia e pro ch\u00e3o, nunca pra um jantar de primeiro encontro. \u00c9 destacado do seu grupo ciente do inevit\u00e1vel destino: o lixo (ao menos) recicl\u00e1vel. Algu\u00e9m, espero, h\u00e1 de quer\u00ea-los como um dia eu quis. Por que n\u00e3o virar agenda com frases de poetas tipo Mario Quintana?<\/p>\n<p>Por fim, dentro de uma caixinha linda, quase perfumada de t\u00e3o rica, os post-its que ganhei do amigo com temas de bar, os que ganhei diretamente de Paris, com aquela pegada rom\u00e2ntico-renascentista. Esses guardo em um lugar especial. Nunca vou usar. Nunca vou mostrar pra ningu\u00e9m, porque n\u00e3o suportaria me desfazer de nenhum deles, caso o intruso da reda\u00e7\u00e3o me pedisse me-da-unzinho-s\u00e3o-t\u00e3o-lindos-voc\u00ea-j\u00e1-tem-tantos. Sou ciumento, possessivo, se quer a minha amizade, n\u00e3o se meta com esses post-its. Eles s\u00e3o aqueles em quem a gente esquece o olhar em cima, de vez em quando. Mas n\u00e3o exagera na contempla\u00e7\u00e3o pra n\u00e3o desgastar a beleza que existe em certas dist\u00e2ncias. Plat\u00f4nicos-its.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto: Eduardo Sousa | Imagem: Internet<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; O mundo \u00e9 todo cheio de post-its. 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