{"id":5050,"date":"2011-02-09T20:04:25","date_gmt":"2011-02-09T23:04:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/?p=5050"},"modified":"2011-02-09T20:04:25","modified_gmt":"2011-02-09T23:04:25","slug":"erro-medico-os-cirurgioes-em-epoca-de-trevas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/2011\/02\/09\/erro-medico-os-cirurgioes-em-epoca-de-trevas\/","title":{"rendered":"\u201cErro m\u00e9dico\u201d: os cirurgi\u00f5es em \u00e9poca de trevas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><em>Escrito por Roger Normando. membro titular do Col\u00e9gio Brasileiro de Cirurgi\u00f5es<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O cirurgi\u00e3o, ao longo de sua hist\u00f3ria, teve de exorcizar verdadeiros fantasmas. A come\u00e7ar pelo nome, pois nasceu como barbeiro-cirurgi\u00e3o dado a habilidade que detinha com a navalha. Depois veio a necessidade de combater a dor e a infec\u00e7\u00e3o, tendo em vista que a morte era sempre prevista quando se adoecia.<\/p>\n<p>Calar a dor cir\u00fargica seria curar o mais assustador dos sintomas e, ao mesmo tempo, dar o primeiro passo para aliviar a morte, o mais intrigante destino do homem. Neste per\u00edodo apocal\u00edptico, as opera\u00e7\u00f5es eram restritas \u00e0s amputa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nArrastavam-se os enfermos at\u00e9 o andar mais alto ou ao claustro dos por\u00f5es, para que o mundo exterior n\u00e3o ouvisse os gritos. Depois de amorda\u00e7ado e com os membros imobilizados, ou com v\u00e1rios brutamontes para conter a convuls\u00e3o de uma dor, o m\u00e9dico retirava o membro em menos de tr\u00eas minutos. A dor f\u00edsica acabava rapidamente, pois os cirurgi\u00f5es eram habilidosos no of\u00edcio, mas a mental permanecia pelo resto da vida. Foi \u00e9poca longeva e sofrida que, ap\u00f3s a descoberta da anestesia, em 1846, cedeu lugar a tempos novos.<\/p>\n<p>Mas um segundo desafio se aproximava: combater a infec\u00e7\u00e3o. Tal desafio sobrepujava a incessante necessidade de se lutar contra um miasma que acompanhava os m\u00e9dicos por desconhecerem as m\u00ednimas no\u00e7\u00f5es de contamina\u00e7\u00e3o. O obstetra h\u00fangaro Semmelweiss, tamb\u00e9m no ano de 1846, foi quem execrou esse miasma ao introduzir a lavagem das m\u00e3os, conhecida como assepsia. Posteriormente Joseph Lister demonstrou que o fenol era um efetivo agente anti-s\u00e9ptico. A soma das atitudes (assepsia + antissepsia) diminuiu significantemente a taxa de mortes por infec\u00e7\u00e3o puerperal. Quase 80 anos adiante, Alexander Flemming descobriu a penicilina e o combate \u00e0s infec\u00e7\u00f5es ganhou outro aliado: os antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nCom a dor controlada e a infec\u00e7\u00e3o pass\u00edvel de combate, a cirurgia passou a ganhar cen\u00e1rio luzente na sociedade, mas os ex-barbeiros n\u00e3o imaginaram que um a mais estava por vir: o chamado \u201cerro m\u00e9dico\u201d.<\/p>\n<p>O termo escancara os infort\u00fanios de uma profiss\u00e3o repleta de imperfei\u00e7\u00e3o e deixa uma nesga de revolta na sociedade, que passa a afiar a l\u00e2mina para cortar a alma do cirurgi\u00e3o. Fora de sua arena de defesa, a parte inerente \u00e0 natureza do risco, agora, muda de significado e passa a se chamar de \u201cerro\u201d diante do foro c\u00edvel, e a sociedade o interpreta como verdade verdadeira, tal como um dogma.<\/p>\n<p>T\u00eam agora os m\u00e1rtires da vida a conviv\u00eancia assombrosa com a perda da ternura de seus pacientes e o risco de tornar a profiss\u00e3o um mundo dos neg\u00f3cios, transformando a responsabilidade civil do cirurgi\u00e3o em algo confinante e vil, de modo a remet\u00ea-lo ao babil\u00f4nico c\u00f3digo Hamur\u00e1bi.<\/p>\n<p>Diante deste terceiro desafio, universidade, associa\u00e7\u00f5es e conselhos ter\u00e3o que blindar a \u00e9tica e a moral, pois estas n\u00e3o poder\u00e3o tomar rumos perniciosos e deixarem o exerc\u00edcio profissional \u00f3rf\u00e3o de Hip\u00f3crates e sob o risco de o C\u00f3digo de Defesa do Consumidor (CDC), com efeito, a planejar ao seu modo o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o. Querer\u00e1 o CDC ditar normas e impor pesados ressarcimentos para se criar a ind\u00fastria do dano?<\/p>\n<p>De onde ent\u00e3o veio essa vis\u00e3o horrenda do m\u00e9dico? \u201cDoutor Frankenstein\u201d de Mary Shelley \u00e9 o ep\u00edtome do m\u00e9dico fabricado pela sociedade e consagrado na cultura popular como s\u00edmbolo de perigo. Acontece que essa imagem n\u00e3o veio dos m\u00e9dicos, tampouco dos cientistas. Quem criou o monstro foi uma adolescente de 19 anos h\u00e1 quase dois s\u00e9culos. \u201cFrank\u201d seria ironia ou antipatia derivada da sociedade por n\u00e3o conseguirem compreender a ci\u00eancia? Seria esse erro de \u201cdispers\u00e3o estat\u00edstica\u201d a contra-senha que transforma os m\u00e9dicos em algozes para a sociedade? Ou seria a volta do miasma execrado por Semmelweis e cultivado Mary Shelley? Ou ainda: estar\u00edamos n\u00f3s por essa pajelan\u00e7a, reescrevendo a obra \u201cO M\u00e9dico e o Monstro? \u00a0<\/p>\n<p>Assim, pois, quem vai julgar a arte e a ci\u00eancia da cura cir\u00fargica na sua falibilidade inata, sabendo que a mesma sempre imputar\u00e1 \u00e0 sociedade, em suas benfeitorias, algum risco; em seus infort\u00fanios, muito mais acertos&#8230; Quem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">FONTE: <a href=\"http:\/\/portal.cfm.org.br\/\">http:\/\/portal.cfm.org.br\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito por Roger Normando. membro titular do Col\u00e9gio Brasileiro de Cirurgi\u00f5es O cirurgi\u00e3o, ao longo de sua hist\u00f3ria, teve de exorcizar verdadeiros fantasmas. A come\u00e7ar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":111,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-5050","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/users\/111"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5050"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5050\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}