{"id":6977,"date":"2012-01-20T14:27:15","date_gmt":"2012-01-20T17:27:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/?p=6977"},"modified":"2012-01-20T14:27:15","modified_gmt":"2012-01-20T17:27:15","slug":"cego-desde-os-9-anos-estudante-conquista-diploma-de-fisioterapia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/2012\/01\/20\/cego-desde-os-9-anos-estudante-conquista-diploma-de-fisioterapia\/","title":{"rendered":"Cego desde os 9 anos, estudante conquista diploma de fisioterapia"},"content":{"rendered":"<p>Por: \u00a0G1<\/p>\n<div id=\"attachment_6978\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a rel=\"attachment wp-att-6978\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/cego-desde-os-9-anos-estudante-conquista-diploma-de-fisioterapia\/cego\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6978\" class=\"size-full wp-image-6978\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-content\/uploads\/sites\/55\/2012\/01\/cego.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"425\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-content\/uploads\/sites\/55\/2012\/01\/cego.jpg 620w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-content\/uploads\/sites\/55\/2012\/01\/cego-300x206.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/fisioterapiaesaude\/wp-content\/uploads\/sites\/55\/2012\/01\/cego-120x82.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6978\" class=\"wp-caption-text\">Edson de Souza durante est\u00e1gio da faculdade de fisioterapia, retirando seus convites da formatura, dentro de um \u00f4nibus em S\u00e3o Paulo e em viagem com a esposa ao Cear\u00e1 (Foto: Ana Carolina Moreno\/G1\/Arquivo pessoal)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje o estudante paulista Edson de Souza, de 33 anos. Junto com seus colegas de faculdade, Edson vai receber o certificado de conclus\u00e3o do curso de fisioterapia da UniSant&#8217;Anna. A cola\u00e7\u00e3o de grau no Memorial da Am\u00e9rica Latina, em S\u00e3o Paulo. Uma rotina para jovens formando, nesse caso um exemplo de supera\u00e7\u00e3o, essa noite vai ser especial para esse jovem que ficou cego na d\u00e9cada de 80, aos nove anos de idade, e s\u00f3 em 2005 conseguiu concluir o ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;De 2002 para c\u00e1 eu tive uma grande mudan\u00e7a: sa\u00ed do zero para um bom est\u00e1gio, n\u00e3o tinha como me sustentar e de repente as coisas mudaram&#8221;, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Sem regalias<\/strong><br \/>\nMaria Eug\u00eania Mayr De Biase, coordenadora do curso de fisioterapia da UniSant&#8217;Anna, explicou que, embora parte da metodologia tenha sido adaptada \u00e0s necessidades especiais do estudante, o mesmo conte\u00fado era exigido de Edson. &#8220;Como \u00e9 que a gente vai fazer na parte pr\u00e1tica? Como ele vai fazer nos est\u00e1gios? Essa foi a primeira pergunta que fizemos. Com o tempo, a gente foi adequando&#8221;, afirmou Maria Eug\u00eania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De acordo com ela, Edson n\u00e3o foi reprovado em nenhum dos est\u00e1gios obrigat\u00f3rios. O estudante afirmou que, nas mat\u00e9rias te\u00f3ricas, mantinha m\u00e9dias em torno de 8,5.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;No primeiro ano eu gravava as aulas e quando elas terminavam eu ouvia de novo e reescrevia em braile a aula inteira. A\u00ed conseguia acompanhar, mas durante a aula ficava bem perdido&#8221;, explicou ele. Foram poucos os professores, de acordo com Edson, que n\u00e3o confiaram em seu potencial. Um dos momentos mais delicados aconteceu no primeiro dia do est\u00e1gio que ele fez na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). &#8220;A primeira coisa que disse pra mim quando comecei o est\u00e1gio foi que ele n\u00e3o conseguia me imaginar l\u00e1 dentro.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00f3s somos da reabilita\u00e7\u00e3o, aceitamos isso com mais facilidade, mas no primeiro impacto realmente a gente sempre acha que pode ser que n\u00e3o d\u00ea certo. Mas deu&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Maria Eug\u00eania De Biase, coordeadora<br \/>\ndo curso de fisioterapia da UniSant&#8217;Anna<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo Maria Eug\u00eania, o fato de Edson ter sido o primeiro aluno cego do curso exigiu que tanto ele quanto os professores aprendessem juntos uma maneira de contornar a limita\u00e7\u00e3o visual. Al\u00e9m de contar com uma ledora a partir do segundo ano, e de poder portar seu computador, equipado com software de leitura, na sala de aula, Edson fazia provas orais (diretamente para o professor, na aus\u00eancia da ledora, ou ditando as respostas para que ela as escrevesse).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos laborat\u00f3rios, os professores faziam as demonstra\u00e7\u00f5es no pr\u00f3prio corpo do estudante. Mesmo assim, alguns professores por vezes precisavam voltar ao in\u00edcio de suas exposi\u00e7\u00f5es, ao perceber que n\u00e3o haviam inclu\u00eddo informa\u00e7\u00f5es adequadas para que Edson pudesse entend\u00ea-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na disciplina que ensina os universit\u00e1rios a interpretar exames de raio-X e de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica, houve um dos impasses mais marcantes. A solu\u00e7\u00e3o encontrada pela ledora para que Edson pudesse fazer a prova era orientar a m\u00e3o do estudante com uma caneta para redesenhar as imagens. Durante as aulas, ela descrevia as imagens em voz alta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;N\u00f3s somos da reabilita\u00e7\u00e3o, aceitamos isso com mais facilidade, mas no primeiro impacto realmente a gente sempre acha que pode ser que n\u00e3o d\u00ea certo. Mas deu&#8221;, disse Maria Eug\u00eania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Do acidente \u00e0 rebeldia<\/strong><br \/>\nAos nove anos, enquanto corria pela cal\u00e7ada da rua em que vivia, em Rio Grande da Serra, na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, Edson bateu com a cabe\u00e7a na janela da casa de uma vizinha e sofreu descolamento nas duas retinas. &#8220;Nem foi uma pancada forte, mas foi certeira&#8221;, contou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Meus pais vieram do interior do Paran\u00e1, n\u00e3o tinham conhecimento de nada. Como o filho ficou cego, eles adotaram a superprote\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Edson de Souza<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos dois meses seguintes, ele foi perdendo gradativamente a vis\u00e3o, at\u00e9 ficar completamente cego. &#8220;Me tiraram da escola, parei na terceira s\u00e9rie&#8221;, contou o formando, filho de uma dom\u00e9stica e de um funcion\u00e1rio da Rede Ferrovi\u00e1ria Federal. Edson disse ter passado a d\u00e9cada seguinte dentro de casa. &#8220;Meus pais vieram do interior do Paran\u00e1, n\u00e3o tinham conhecimento de nada. Como o filho ficou cego, eles adotaram a superprote\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando completou 18 anos, o estudante diz que se rebelou contra a ideia de n\u00e3o ser autossuficiente, principalmente depois de ouvir as pessoas comentando sobre o que aconteceria com ele ap\u00f3s a morte dos pais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;Eu n\u00e3o queria mais ficar em casa, queria um internato, queria ir embora. De tanto eu tentar, minha prima me ajudou&#8221;, explicou ele, indicado a um oftalmologista que lhe deu o endere\u00e7o da Funda\u00e7\u00e3o Dorina Dowill.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo a institui\u00e7\u00e3o, todos os anos cerca de 1.500 deficientes de visuais de todas as idades s\u00e3o atendidos por aproximadamente 40 profissionais em um processo de reabilita\u00e7\u00e3o. No caso dos adultos, os cursos s\u00e3o voltados ao ensino do braile, orienta\u00e7\u00e3o em mobilidade e aulas de tarefas cotidianas, incluindo culin\u00e1ria e dicas para reconhecer as roupas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 2001, depois de um ano na fila de espera, Edson conseguiu uma vaga na funda\u00e7\u00e3o, aprendeu a ler e a escrever em braile e voltou a estudar em um supletivo. Ap\u00f3s terminar o ensino m\u00e9dio, conseguiu, com a ajuda da institui\u00e7\u00e3o, um emprego como auxiliar de c\u00e2mara escura no Hospital Edmundo Vasconcelos, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Primeiro funcion\u00e1rio cego<\/strong><br \/>\n&#8220;No in\u00edcio, a adapta\u00e7\u00e3o foi meio tensa, porque a gente n\u00e3o tinha nenhum funcion\u00e1rio com defici\u00eancia visual&#8221;, afirmou Elisete Tavares, gerente do Centro de Diagn\u00f3stico por Imagem do hospital e chefe de Edson. &#8220;A parte mais dif\u00edcil foi nossa com ele do que ele com a gente, porque o Edson tem o dom da adapta\u00e7\u00e3o, ele quer se superar a cada momento.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O auxiliar trabalha das 14h \u00e0s 22h revelando exames digitais e anal\u00f3gicos, tarefa que aprendeu &#8220;com uma facilidade incr\u00edvel&#8221; ap\u00f3s um curso espec\u00edfico, segundo Elisete. A supervisora do jovem contou que ele n\u00e3o falta ao trabalho nem quando h\u00e1 greve de \u00f4nibus ou metr\u00f4, e n\u00e3o usa a defici\u00eancia como impedimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m do emprego, Edson tamb\u00e9m encontrou sua esposa atrav\u00e9s da Funda\u00e7\u00e3o Dorina Nowill. Ele e Priscila, jovem de 29 anos com defici\u00eancia visual parcial, se conhecerem durante a reabilita\u00e7\u00e3o. &#8220;Ela \u00e9 otimista como eu, quer sempre se superar. Ela me completa&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os dois se casaram h\u00e1 cerca de quatro anos, pouco antes de decidirem cursar o ensino superior &#8211; ele em fisioterapia, ela em servi\u00e7o social. &#8220;Foi muito dif\u00edcil, porque eu estudava de manh\u00e3 e trabalhava \u00e0 tarde, e ela trabalhava de manh\u00e3 e estudava \u00e0 noite&#8221;, contou Edson.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Conquista<\/strong><br \/>\nDepois de conclu\u00edrem as respectivas faculdades, os dois decidiram experimentar uma aventura nova antes de iniciar uma nova etapa. &#8220;Contratamos um pacote e viajamos para o Cear\u00e1 no Natal&#8221;, disse Edson ao <strong>G1<\/strong> na sala da casa de dois andares que construiu com Priscila no Graja\u00fa, Zona Sul de S\u00e3o Paulo, rodeado de miniaturas, chaveiros e esculturas comprados durante a viagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De volta das f\u00e9rias, e prestes a se tornar oficialmente um fisioterapeuta, o rapaz agora tra\u00e7a novos desafios: fazer p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em ortopedia e conseguir um emprego em um hospital ou cl\u00ednica &#8220;em qualquer \u00e1rea da fisioterapia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como o leque do fisioterapeuta \u00e9 muito grande, acredito que ele tem total condi\u00e7\u00e3o de trabalhar e acredito no potencial dele&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Carina Baron,<br \/>\nprofessora de fisioterapia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo a professora Carina Baron, que supervisionou parte dos oito est\u00e1gios de cinco semanas que o estudante precisou cumprir nos dois \u00faltimos anos da faculdade, Edson pode trabalhar sem impedimento com ortopedia, massoterapia, neurologia, est\u00e9tica e na enfermaria de um hospital, entre outras \u00e1reas. &#8220;Como o leque do fisioterapeuta \u00e9 muito grande, acredito que ele tem total condi\u00e7\u00e3o de trabalhar e acredito no potencial dele de ser contratado.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Primeiro deficiente visual total formado na carreira pela UniSant&#8217;Anna, Edson agora integra um grupo bastante reduzido de fisioterapeutas brasileiros com algum tipo de limita\u00e7\u00e3o visual. Ele \u00e9 o primeiro fisioterapeuta com 100% de defici\u00eancia visual de que Wilen Heil e Silva, diretor do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito), tem not\u00edcia. &#8220;Conhe\u00e7o alguns, n\u00e3o muitos, com baixa vis\u00e3o, mas com 100% [de defici\u00eancia visual] n\u00e3o tive conhecimento&#8221;, afirmou. Na Funda\u00e7\u00e3o Dorina Nowill, h\u00e1 registro de um deficiente visual total com diploma na \u00e1rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O formando explica que a pouca quantidade de colegas na mesma condi\u00e7\u00e3o que ele \u00e9 um resultado da falta de abertura. &#8220;Tudo depende de oportunidade, n\u00e3o adianta julgar antes e dizer que a pessoa n\u00e3o consegue.&#8221;<\/p>\n<p>Veja video e met\u00e9ria completa: <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/vestibular-e-educacao\/noticia\/2012\/01\/cego-desde-os-9-anos-estudante-de-sp-conquista-o-diploma-de-fisioterapia.html\">http:\/\/g1.globo.com\/vestibular-e-educacao\/noticia\/2012\/01\/cego-desde-os-9-anos-estudante-de-sp-conquista-o-diploma-de-fisioterapia.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: \u00a0G1 Hoje o estudante paulista Edson de Souza, de 33 anos. 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