{"id":10388,"date":"2015-08-04T00:01:00","date_gmt":"2015-08-04T00:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/reporterentrelinhas.wordpress.com\/?p=36"},"modified":"2015-08-04T00:01:00","modified_gmt":"2015-08-04T00:01:00","slug":"da-janela-de-natercia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2015\/08\/04\/da-janela-de-natercia\/","title":{"rendered":"Da janela de Natercia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify\">O que \u00e9 que voc\u00ea quer com o sentimento de se expressar para o outro? A pergunta n\u00e3o foi feita pelo rep\u00f3rter, mas rasgada diante deste como um\u00a0desafio para\u00a0reflex\u00e3o. <em>&#8220;\u00c9 um sil\u00eancio? \u00c9 um compartilhamento de beleza? \u00c9 uma conscientiza\u00e7\u00e3o como ser humano? \u00c9 nada? \u00c9 dinheiro? Eu escrevo porque preciso silenciar&#8221;, <\/em>diz a escritora\u00a0Natercia Rocha, competindo com a\u00a0m\u00fasica urbana que entrava pelas janelas do apartamento. Com dois livros publicados, assume a escrita e a leitura como ref\u00fagio\u00a0no primeiro momento. Depois, tornam-se\u00a0parte da adapta\u00e7\u00e3o ao contexto<em>. &#8220;Ref\u00fagio n\u00e3o. Por que ref\u00fagio? Adapta\u00e7\u00e3o, do ajustamento&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A porta da sala j\u00e1 estava aberta quando cheguei, pontualmente, \u00e0s 14h daquela sexta-feira. O ambiente parecia ter\u00a0vida pr\u00f3pria. O r\u00e1dio ligado, muitos livros, quadros, desenhos, paredes riscadas. Ideias soltas, escritas \u00e0 m\u00e3o, criatividade no concreto. Franc\u00eas. <em>&#8220;Estudo os verbos assim&#8221;<\/em>, ri.\u00a0Entende-se que a for\u00e7a inventiva vem da janela lateral, com\u00a0o Santu\u00e1rio Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, no Centro de Fortaleza, como vista e o mar no horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Jornalista, com passagem pelas principais Reda\u00e7\u00f5es do Cear\u00e1, Natercia Rocha publicou &#8220;Rumo Norte&#8221; em 2008 &#8211; relan\u00e7ado tr\u00eas anos depois com o Pr\u00eamio Otac\u00edlio de Azevedo, de Reedi\u00e7\u00e3o. Um apanhado de fotografias e poemas, frutos do per\u00edodo em que foi correspondente no sert\u00e3o. Um olhar sens\u00edvel, de f\u00e1cil identifica\u00e7\u00e3o com um Brasil rico em vida na regi\u00e3o conhecida pela seca. &#8220;Contos de Ir Embora&#8221; (2014)\u00a0carrega f\u00f4lego pr\u00f3prio, com ilustra\u00e7\u00f5es de Audifax Rios (1946-2015) e manifesta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de Alves Aquino\u00a0&#8211; O Poeta de Meia-Tigela.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A fortalezense, criada em Juazeiro do Norte, conta nesta entrevista ao <strong>Rep\u00f3rter<\/strong>\u00a0<strong>Entre Linhas<\/strong>, os momentos pontuais de sua carreira como escritora. De reda\u00e7\u00f5es, que escrevia ainda na \u00e9poca de col\u00e9gio, passando pela experi\u00eancia jornal\u00edstica e chegando aos inspiradores eventos\u00a0que renderam as publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_98\" style=\"width: 606px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/natercia-rocha-por-celso-oliveira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-98\" class=\"size-full wp-image-98\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/natercia-rocha-por-celso-oliveira.jpg\" alt=\"Imagem: Celso Oliveira\" width=\"596\" height=\"350\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-98\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Celso Oliveira<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">A escrita acalma, faz uma catarse no pensamento. (&#8230;)\u00a0quanto mais eu fui tendo consci\u00eancia dessa miss\u00e3o de trabalhar a palavra escrita ou a imagem, eu vejo que \u00e9 um processo de entendimento do eu. &#8211; ROCHA, Natercia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Quando a escrita liter\u00e1ria entrou na sua vida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Natercia Rocha<\/strong>: Lembro que eu tive um professor de portugu\u00eas, em Juazeiro, ele\u00a0sempre me incentivava a escrever e eu vi que tinha uma sintonia, um sentimento bom. As reda\u00e7\u00f5es me davam aconchego. N\u00e3o sei como \u00e9 a vida das outras pessoas, mas nem sempre elas t\u00eam tanto aconchego,\u00a0tranquilidade e tanta harmonia no dia a dia, seja na inf\u00e2ncia ou na adolesc\u00eancia. A minha n\u00e3o foi das mais tranquilas. E esses momentos eram de muita felicidade. Lamento demais n\u00e3o ter guardado esses textos.\u00a0Agrade\u00e7o a Deus por ter morado em Juazeiro porque aquela realidade foi o aprendizado da minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Depois, entrei no Jornalismo, e quando voc\u00ea sai para escrever, voc\u00ea tem que ter um respeito pelas pessoas, pelas coisas, pelas situa\u00e7\u00f5es. Escrever \u00e9&#8230; Como degustar uma comida muito bem feita, refinada.\u00a0Quando escreve, voc\u00ea tem que inebriar o outro, fazer com que ele tenha prazer com aquela leitura. E como \u00e9 que voc\u00ea faz isso? Com a verdade do que est\u00e1\u00a0ao seu entorno, com a verdade dos seus sentimentos. H\u00e1 hist\u00f3rias, na fic\u00e7\u00e3o logicamente, que n\u00e3o precisam ser verdadeiras, mas elas precisam ser honestas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>&#8220;Rumo Norte&#8221; \u00e9 um apanhado de poemas e fotografias.\u00a0Quando voc\u00ea percebeu que tinha um livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Natercia<\/strong>: Em 2005 fui ser correspondente em Sobral. Eu escrevia as mat\u00e9rias e fotografava. Foi maravilhoso porque a\u00ed eu mergulhei, me dediquei muito. O jornal tinha um motorista e onde a gente passava eu pedia para parar e fotografava da estrada. Na c\u00e2mera, sempre trazia fotos de p\u00f4r do sol, de sertanejos, de natureza, chuvas, arco-\u00edris. Tinha uma realidade paralela naquele universo que podia ser bem dura. Junto \u00e0quela experi\u00eancia havia outro lado que talvez fosse o ref\u00fagio, a coisa mais po\u00e9tica mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os poemas vieram numa \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o de vida que precisava escrever em outras linguagens. Voc\u00ea faz a mat\u00e9ria e o teu sentimento t\u00e1 ali. E a\u00ed, vieram muitos poemas. Em 2008, vi que ali tinha um livro. Eu pedi demiss\u00e3o do jornal e fui passar nove meses em Jericoacoara. Havia um trabalho l\u00e1 e eu tamb\u00e9m ficava montando o livro. Foi um longo per\u00edodo de observa\u00e7\u00e3o, de ajuste e limpeza. Fiquei pensando como \u00e9 parecida a constru\u00e7\u00e3o de um texto, de um livro, com o trabalho de um escultor. Ele vai limpando at\u00e9 ficar visualizado direitinho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>E como foi o processo com\u00a0&#8220;Contos de Ir Embora&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/07\/contos-de-ir-embora-baixa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-51\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/07\/contos-de-ir-embora-baixa.jpg?w=214\" alt=\"Contos-de-Ir-Embora-baixa\" width=\"214\" height=\"300\" \/><\/a>Natercia<\/strong>: Comecei a escrever os contos em 2005 quando precisei\u00a0de um tempo de repouso, provavelmente pra fugir daquela realidade. Fiquei boa, voltei a trabalhar, passou. Em 2011, precisei parar novamente e retomei os contos. No ano seguinte, tive um computador que foi roubado e perdi tudo \u2013 tinha outro livro de poesias pronto tamb\u00e9m. Entraram no meu apartamento, com chave, e levaram os aparelhos eletr\u00f4nicos. A situa\u00e7\u00e3o mudou minha vida. \u00c9 muito ruim quando voc\u00ea n\u00e3o tem consci\u00eancia que pode perder um computador, ent\u00e3o voc\u00ea vai colocando muitas coisas, sua vida vai ficando dentro de um objeto. Foi uma li\u00e7\u00e3o pra mim, sabe? Porque minha vida realmente estava dentro de um objeto. Foi Deus dizendo \u201cmenos, muito menos\u201d. (Risos). Em 2013, recuperei alguns trechos nos e-mails, fui juntando e escrevendo de novo. O conto &#8220;O Di\u00e1rio de Alina Reyes&#8221; foi o que mais mudou. Eu quis diversificar a linguagem.<\/p>\n<p><strong>Qual o sentimento que fica depois que o livro est\u00e1 pronto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Natercia:<\/strong> Eu sou uma m\u00e3e t\u00e3o desnaturada! (Risos) Quando vejo pronto&#8230; Voc\u00ea j\u00e1 tem que ter outras coisas caminhando porque as contas n\u00e3o v\u00e3o parar de chegar no fim do m\u00eas. Quando ele fica pronto, voc\u00ea j\u00e1 caminhou tanto que \u00e9 s\u00f3 mais uma etapa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Em qual projeto voc\u00ea trabalha atualmente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Natercia:<\/strong> O projeto se chama &#8220;Da Janela Lateral&#8221;. Aqui no Centro de Fortaleza a\u00a0efervesc\u00eancia de gente \u00e9 muito grande. Eu vim morar aqui\u00a0por causa desse romantismo mesmo, dessa coisa antiga. Meu esp\u00edrito \u00e9 muito velho. Daqui de cima, a gente v\u00ea o\u00a0que acontece l\u00e1 embaixo e h\u00e1 um choque de realidade. Durante\u00a0a semana \u00e9 esse\u00a0fervor de gente, mas\u00a0no\u00a0fim de semana n\u00e3o tem ningu\u00e9m. E a\u00ed, eu comecei a fotografar.<\/p>\n<div id=\"attachment_91\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/img_20150717_173939.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-91\" class=\"size-medium wp-image-91\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/img_20150717_173939.jpg?w=300\" alt=\"Recorte da vista \" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-91\" class=\"wp-caption-text\">Recorte da vista &#8220;da janela lateral&#8221;. Imagem: Rubens Rodrigues\/Instagram<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify\">Nesse tempo eu trabalhava muito fora, mas quebrei a perna e tive que ficar alguns dias deitada. Afastei a cama para perto da janela e comecei a fotografar o povo l\u00e1 debaixo. Peguei gosto. Vi como acontecia coisa, de madrugada, toda hora. A\u00ed virei <em>voeyer<\/em>, assim, no melhor sentido da palavra. E venho fazendo, tenho um banco de imagens de per\u00edodos diversos, desde 2008. Em 2011, que foi no mesmo per\u00edodo que finalizei os textos do &#8220;Contos de Ir Embora&#8221;, chamei uma amiga\u00a0e editamos\u00a0algumas imagens, uma coisa bem amadora ainda. Eu queria fazer um experimento, um piloto. O\u00a0projeto foi aprovado pelo edital &#8220;Que Fortaleza \u00e9 a Sua?&#8221;, da Vida das Artes, e\u00a0o curta-metragem est\u00e1 em fase de edi\u00e7\u00e3o. A maior\u00a0dificuldade \u00e9 deixar s\u00f3 10 minutos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>E por que registrar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Natercia:\u00a0<\/strong>Eu n\u00e3o sei qual foi o escritor que disse que \u201cse voc\u00ea quer conhecer o mundo, conhe\u00e7a sua aldeia\u201d, e \u00e9 bem isso mesmo, sabe? A diversidade do que acontece l\u00e1 fora\u00a0\u00e9 impressionante. Tem de tudo. As pessoas que n\u00e3o tem onde dormir&#8230; e voc\u00ea vai conhecendo at\u00e9 os moradores de rua. \u00c9\u00a0um\u00a0exerc\u00edcio de observa\u00e7\u00e3o. Foram muitos dias acordando \u00e0s 5 h da manh\u00e3, ou antes.\u00a0Essa rela\u00e7\u00e3o que a gente faz com as pessoas, voc\u00ea come\u00e7a a observar. Voc\u00ea n\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o direta, mas \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de&#8230; Poderia ser qualquer um de n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Vai virar livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Natercia:<\/strong> A ideia \u00e9 essa. Fazer um livro com as fotos, tem muita foto. Ainda n\u00e3o sei se quero usar texto, n\u00e3o sei se precisa. E\u00a0isso \u00e9\u00a0interessante porque \u00e9 como se fosse o sil\u00eancio dessa janela. De nunca ter ningu\u00e9m por perto quando t\u00f4 filmando. \u00c9 uma observa\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o mesmo. \u00c9 um processo da solid\u00e3o no melhor sentido. Da solicitude, do estar consigo e estender o olho para o outro. De que maneira? Escrevendo, filmando, fazendo a foto, me calando&#8230; Acho que j\u00e1 dou uma boa contribui\u00e7\u00e3o pro mundo.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em outra ocasi\u00e3o voc\u00ea me\u00a0falou que escrevia porque sentia uma ang\u00fastia. O que voc\u00ea quis dizer exatamente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Natercia<\/strong>: (Pausa) A escrita acalma, faz uma catarse no pensamento. Por muitas adversidades que j\u00e1 vivenciei, a escrita e a fotografia foram catalizadores. Fizeram transforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o que seja uma forma de desabafo, mas quanto mais eu fui tendo consci\u00eancia dessa miss\u00e3o de trabalhar a palavra escrita ou a imagem, eu vejo que \u00e9 um processo de entendimento do eu. Entende? \u00c9 um sil\u00eancio, \u00e9 o processo. Aquela coisa de que o interessante da viagem n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea chegar ao local, \u00e9 arrumar a mala, fazer todo o percurso. Porque n\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea v\u00e1 fazer psicologismo nos livros, n\u00e3o, nem tanto o produto final. O produto final \u00e9 voc\u00ea, \u00e9 cada um que escreve.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 que voc\u00ea quer com o sentimento de se expressar para o outro? 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