{"id":1879,"date":"2016-02-26T02:34:15","date_gmt":"2016-02-26T02:34:15","guid":{"rendered":"http:\/\/reporterentrelinhas.com.br\/?p=1879"},"modified":"2016-02-26T02:34:15","modified_gmt":"2016-02-26T02:34:15","slug":"a-danca-narrativa-de-comer-querer-ver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2016\/02\/26\/a-danca-narrativa-de-comer-querer-ver\/","title":{"rendered":"A dan\u00e7a narrativa de Comer Querer Ver"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify\">Quatro hist\u00f3rias, dois atores, um banco e uma lumin\u00e1ria. \u00c9 dessa forma que o espet\u00e1culo <strong>Comer, Querer, Ver<\/strong> come\u00e7a e segue sua\u00a0din\u00e2mica\u00a0narrativa. Com dire\u00e7\u00e3o de <strong>Yuri Yamamoto<\/strong>, os atores Ari Areia e Tavares Neto\u00a0costuram os quadros Elucubra\u00e7\u00f5es, Dois Mil e Desencontros, Carta de Amor e\u00a0a\u00a0\u00faltima cena, que d\u00e1 nome ao espet\u00e1culo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O texto transforma a previsibilidade\u00a0dos relacionamentos em instantes\u00a0potencializados, capazes de fazer qualquer espectador na plat\u00e9ia se identificar. <em>&#8220;S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es esgar\u00e7adas&#8221;<\/em>, desenha Ari. <em>&#8220;Ampliadas, quase caricaturadas mesmo&#8221;<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_1978\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1978\" class=\"alignnone size-full wp-image-1978\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2016\/02\/comer-querer-ver-1.png\" alt=\"Comer Querer Ver 1\" width=\"600\" height=\"399\" \/><p id=\"caption-attachment-1978\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Allan Taissuke<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify\">A pe\u00e7a marca o in\u00edcio do Outro Grupo de Teatro, nascido em 2011, que desde ent\u00e3o pesquisa quest\u00f5es pertinentes\u00a0\u00e0 sexualidade humana.\u00a0<em>&#8220;Muita gente passou a conhecer nosso trabalho a partir das montagens de <strong>Caio e L\u00e9o<\/strong> (2014) e <strong>Hist\u00f3rias Compartilhadas<\/strong> (2015)&#8221;<\/em>, lembra, <em>&#8220;mas a gente j\u00e1 vem trilhando esse caminho h\u00e1 quase cinco anos, desde os palcos dos festivais de esquetes&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Comer, Querer, Ver encerra temporada nestes s\u00e1bado, 27, e domingo, 28 de fevereiro, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz.\u00a0A produ\u00e7\u00e3o toma novo f\u00f4lego e, durante o m\u00eas de mar\u00e7o, vai compor a programa\u00e7\u00e3o do M\u00eas do Teatro, no Centro Drag\u00e3o do Mar de Arte e Cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Em entrevista ao <strong>Rep\u00f3rter Entre Linhas<\/strong>, Ari Areia discorre sobre os devaneios que levam aos textos, ao jogo de cena proposto pela dire\u00e7\u00e3o de Yamamoto e reconstitui as primeiras lembran\u00e7as no teatro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>A pe\u00e7a j\u00e1 come\u00e7a desconstruindo a narrativa com Elucubra\u00e7\u00f5es. Por que iniciar\u00a0com essa esquete?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ari Areia:<\/strong> Fora as quest\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o ligadas \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o dos figurinos durante a pe\u00e7a, \u00e9 simb\u00f3lico come\u00e7ar com Elucubra\u00e7\u00f5es, porque foi onde tudo come\u00e7ou. A gente surgiu enquanto Outro Grupo de Teatro com a estreia desse esquete no palco do Drag\u00e3o do Mar, durante a programa\u00e7\u00e3o do VIII Festival de Esquetes da Cia Acontece\u00a0(2011).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Como surgiram esses questionamentos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ari:<\/strong> Maravilhosa essa dramaturgia, n\u00e9? \u00c9 do Yuri Yamamoto esse texto. Tem um ar despretensioso, mas \u00e9 certeiro, genial. Um texto absolutamente todo montado s\u00f3 com perguntas, seis laudas de perguntas encarrilhadas, e a \u00fanica frase que n\u00e3o \u00e9 uma interroga\u00e7\u00e3o est\u00e1 na negativa. Elucubra\u00e7\u00e3o \u00e9 aquele momento entre o &#8216;sonolento&#8217; e o &#8216;apagado&#8217; que a gente fica antes de dormir e a mente vai organizando a enxurrada de pensamentos e imagens com que se deparou durante o dia. \u00c9 uma viagem. Incomoda, no come\u00e7o, depois vai acomodando e, de repente, t\u00e1 jogando o p\u00fablico de um lado para o outro&#8230; Uma dire\u00e7\u00e3o cir\u00fargica tamb\u00e9m, precisa, sem excessos, com pouqu\u00edssima movimenta\u00e7\u00e3o, ator praticamente est\u00e1tico. O texto, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 o que a cena pede, coube ao int\u00e9rprete apenas encontrar o jeito de sustentar, encontrar a cad\u00eancia, a respira\u00e7\u00e3o certa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Elucubra\u00e7\u00f5es j\u00e1 foi apresentado separadamente. As hist\u00f3rias foram escritas para Comer Querer Ver?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ari:<\/strong>\u00a0Elucubra\u00e7\u00f5es\u00a0(escrito por\u00a0Yuri), e Dois Mil e Desencontros\u00a0(por Ari)\u00a0foram montados a partir da forma\u00e7\u00e3o do grupo. Carta de Amor\u00a0(de\u00a0Karl Vanentin), e Comer Querer Ver (tamb\u00e9m do Yuri), s\u00e3o remontagens. A Carta, eu fazia no espet\u00e1culo &#8216;S\u00f3 Eles O Sabem&#8217;\u00a0(2006), com dire\u00e7\u00e3o de Alexandra Marinho, mas era uma outra est\u00e9tica, outra proposta. O Yuri tinha visto, na \u00e9poca, e sugeriu que a gente desse uma trabalhada na cena para aproximar do desenho que est\u00e1vamos fazendo com o banco e a lumin\u00e1ria nos outros esquetes. A mesma coisa aconteceu com Comer. Esse texto foi montado pelo Grupo Bagaceira para participar de festivais de esquetes nos seus primeiros anos de carreira. A montagem original tinha em cena o pr\u00f3prio Yuri, junto com Rafael Martins e Rog\u00e9rio Mesquita. Havia mais material entre o que constru\u00edmos na \u00e9poca, mas a dire\u00e7\u00e3o optou por esses quatro quadros pelo desenho que propunham e, no caso da Carta, pela quebra no uso do Palco Italiano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Cada momento parte de situa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para qualquer pessoa. Para a arte, tudo \u00e9 material?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ari:<\/strong> S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es bem esgar\u00e7adas, n\u00e9? Ampliadas, quase caricaturadas mesmo. Mas t\u00eam umas possibilidades de identifica\u00e7\u00e3o bacana com p\u00fablico. Na semana de estreia dessa temporada, uma mo\u00e7a veio nos cumprimentar acompanhada do namorado, ao final da sess\u00e3o, e disse &#8220;a gente se viu muito, na cena&#8221; e apontou que ela era mais parecida com o personagem de um e o namorado mais parecido com o outro personagem. Isso sobre o texto Dois Mil e Desencontros, uma dramaturgia que por n\u00e3o dizer nada com nada, acaba falando muito. A coisa nunca \u00e9 apenas o que est\u00e1 posto em cena. N\u00e3o se resume a um di\u00e1logo trocado por dois homens. \u00c9 como os hipertextos, aquilo que \u00e9 levado ao palco ativa no p\u00fablico mil outras janelas e por a\u00ed vai. A obra acaba mesmo sempre aberta. E como mat\u00e9ria para esse jogo, a arte vai se valendo de tudo o que existe e (se n\u00e3o for suficiente) ela traz outros elementos \u00e0 exist\u00eancia para se fazer acontecer.<\/p>\n<div id=\"attachment_2007\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2007\" class=\"alignnone size-full wp-image-2007\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2016\/02\/comer-querer-ver-2.jpg\" alt=\"Comer Querer Ver 2\" width=\"600\" height=\"400\" \/><p id=\"caption-attachment-2007\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Allan Taissuke<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Os movimentos s\u00e3o uma das caracter\u00edsticas mais marcantes da pe\u00e7a. Por que apostar nessa &#8220;dan\u00e7a&#8221; dos atores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ari:<\/strong> \u00c9 uma assinatura da dire\u00e7\u00e3o. Tanto a movimenta\u00e7\u00e3o no palco, como a manipula\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rio tem um tra\u00e7o forte da m\u00e3o do Yuri. Nesse sentido, ele tamb\u00e9m est\u00e1 em cena com a gente nos adere\u00e7os e figurinos. No come\u00e7o, as pessoas comentavam dizendo que era muito forte, marcante, a encena\u00e7\u00e3o. Acho que hoje a gente j\u00e1 conseguiu deixar tudo mais org\u00e2nico, fluido. O Yuri sabe dar um desenho bonito \u00e0 cena e foi uma experi\u00eancia muito importante come\u00e7ar j\u00e1 com a encena\u00e7\u00e3o de uma figura t\u00e3o respeitada na cidade e no Pa\u00eds. E \u00e9 uma dan\u00e7a mesmo, n\u00e9? At\u00e9 quando a cena coloca os atores parados.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Qual a sua primeira lembran\u00e7a do teatro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ari:<\/strong> A primeira? Lembro, muito vagamente, de uma pe\u00e7a que a escola me levou para ver no Theatro Jos\u00e9 de Alencar nos tempos do prim\u00e1rio. Nem sei que idade eu tinha, tamb\u00e9m n\u00e3o lembro de nada do espet\u00e1culo. Mas quando entrei l\u00e1, muito tempo depois, adolescente, e olhei para os desenhos do teto, o lustre, as galerias, me veio \u00e0 lembran\u00e7a daquela experiencia de menino. O espet\u00e1culo para aquela crian\u00e7a tinha sido o Theatro. Sobre atuar, me lembro de experi\u00eancias do tempo de igreja. Teve esse tempo. Fazia conta\u00e7\u00f5es de hist\u00f3rias para crian\u00e7as e tinha uns textos adultos tamb\u00e9m, mais dram\u00e1ticos, apocal\u00edpticos. E eu at\u00e9 cantava (risos). Trago ainda uma solenidade de pisar no palco que me vem muito da\u00ed, eu acho. Uma rever\u00eancia. Depois eu entrei no curso de teatro do col\u00e9gio e foi dessa \u00e9poca que veio a primeira pe\u00e7a de teatro mesmo, &#8216;S\u00f3 Eles O Sabem&#8217; (2006), que a gente dizia na ficha-t\u00e9cnica &#8220;constru\u00edda a partir do encontro de 14 n\u00e3o-atores com uma n\u00e3o-diretora&#8221;. J\u00e1 faz 10 anos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>O\u00a0que voc\u00ea ainda guarda desse tempo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ari:<\/strong>\u00a0Duas coisas eu guardo desse tempo, tamb\u00e9m, at\u00e9 hoje.\u00a0A primeira \u00e9\u00a0uma frase sussurrada que a diretora-professora, minha amiga Alexandra Marinho, disse depois de uma sess\u00e3o, quando me viu conversar com uns amigos. &#8220;A gente nunca deve perguntar se as pessoas gostaram&#8221;. Uma aula em uma frase. E a outra, \u00e9 a ansiedade que me dava quando eu, estudante de ensino m\u00e9dio, via impresso aquele &#8220;n\u00e3o-atores&#8221; e me perguntava quando eu ia enfim poder dizer que sou um &#8220;ator&#8221;, ainda hoje eu me pergunto isso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>E o que mudou no seu modo de ver de l\u00e1 pra c\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Ari:<\/strong> &#8220;O modo de ver&#8230;&#8221; Bonito isso, n\u00e9? N\u00e3o acho que seja o caso de dizer que as experi\u00eancias espec\u00edficas com o teatro me fazem melhor que qualquer um. Seria o mais f\u00e1cil, talvez, mas \u00e9 rom\u00e2ntico demais pra esses meus quase 25 anos (risos). Vou te responder de forma menos fechada, acho que \u00e9 at\u00e9 mais bonito, como a tua pergunta. Lembro que os meus primeiros \u00f3culos de grau chegaram quando estava lendo <strong>Iracema<\/strong>, era paradid\u00e1tico na primeira s\u00e9rie do fundamental. Tem bastante tempo, mas eu lembro daquela tarde, daquele quarto, daquela experi\u00eancia. Eu li e n\u00e3o foi s\u00f3 por causa da prova. Aqueles \u00f3culos proporcionaram, de forma bem literal, uma experi\u00eancia est\u00e9tica. As experi\u00eancias est\u00e9ticas que a gente vai acumulando ao longo da vida s\u00e3o como esses primeiros \u00f3culos, e voc\u00eas me perdoem a met\u00e1fora piegas, mas se n\u00e3o for isso deve ser algo por a\u00ed. Elas mudam nosso &#8220;modo de ver&#8221;, contribuem com a constru\u00e7\u00e3o do nosso modo de entender, de compreender a realidade e at\u00e9 possibilitam formas de subverter a realidade (de modos que a &#8216;realidade&#8217; n\u00e3o seja entendida como \u00fanica e singular, e, que nesse sentido, h\u00e1 possibilidades de &#8216;ser&#8217; que est\u00e3o para al\u00e9m das normatividades impostas por este ou aquele campo do real). No meu caso, acho que a experi\u00eancia com o teatro ajudou a achar uma possibilidade de caminho bem interessante. Falam em salva\u00e7\u00e3o, ou perdi\u00e7\u00e3o, talvez, gra\u00e7as aos Deuses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quatro hist\u00f3rias, dois atores, um banco e uma lumin\u00e1ria. \u00c9 dessa forma que o espet\u00e1culo Comer, Querer, Ver come\u00e7a e segue sua\u00a0din\u00e2mica\u00a0narrativa. 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