{"id":243,"date":"2015-08-25T03:01:00","date_gmt":"2015-08-25T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/reporterentrelinhas.wordpress.com\/?p=243"},"modified":"2015-08-25T03:01:00","modified_gmt":"2015-08-25T03:01:00","slug":"o-dragao-da-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2015\/08\/25\/o-dragao-da-poesia\/","title":{"rendered":"O drag\u00e3o da poesia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify\">De onde vem a poesia? Para os mais rom\u00e2nticos, versar \u00e9 se declarar todos os dias. Os mais realistas\u00a0diriam que\u00a0\u00e9 um\u00a0instrumento de express\u00e3o poderoso contra a mesmice do cotidiano. O poeta Emerson Bastos, 30, assume que o &#8220;olhar sobre&#8221; j\u00e1 faz parte da poesia &#8211; um produto do meio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Quem costuma visitar o Centro Drag\u00e3o do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, provavelmente j\u00e1 conheceu o\u00a0personagem que apresenta seu trabalho como quem leva flores.\u00a0A s\u00e9rie de\u00a0livretos &#8220;Retratos de Dentro de Mim&#8221;, com tr\u00eas volumes publicados e o quarto (de dez) para sair, traz poemas escritos pelo cearense que atravessa Fortaleza de bicicleta para vender sua arte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Bastos abandonou o estresse dos empregos mais comuns, diga-se de passagem, para vender suas publica\u00e7\u00f5es.\u00a0<em>&#8220;Creio que a entrevista que voc\u00ea t\u00e1 fazendo comigo agora nem \u00e9 tanto pelo conte\u00fado do meu poema, \u00e9 mais porque eu sou um cara que vive de poesia. Eu sou um poeta profissional&#8221;.<\/em> Ele tem raz\u00e3o.\u00a0O poeta faz tudo sozinho.\u00a0E teve que aprender bastante\u00a0para se virar. <em>&#8220;Se eu tivesse meu livro numa livraria hoje eu n\u00e3o teria essa desenvoltura para lidar com as pessoas&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para o\u00a0cearense com sotaque do\u00a0interior de S\u00e3o Paulo,\u00a0onde foi morar aos sete meses, a poesia veio da m\u00fasica quando percebeu\u00a0que os compositores que mais gostava tinham suas pr\u00f3prias\u00a0refer\u00eancias liter\u00e1rias.\u00a0Aos 15, come\u00e7ou a escrever letras de m\u00fasica. Com o passar dos anos\u00a0passou a\u00a0produzir os pr\u00f3prios fanzines. <em>&#8220;N\u00e3o para sobreviver, mas pra comprar os CDs que gostava, pra comprar fanzine, camisetas de banda de rock e beber. Eu bebia muito&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nesta entrevista ao <strong>Rep\u00f3rter Entre Linhas<\/strong>, Emerson Bastos fala de aprendizados e mem\u00f3rias consequentes do\u00a0desafio de viver da pr\u00f3pria arte em Fortaleza. A\u00a0produ\u00e7\u00e3o do trabalho autoral &#8220;Relacionamentos Afetivos Romanticamente Pol\u00edticos&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 pauta.<\/p>\n<div id=\"attachment_253\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/emerson-bastos-por-emol.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-253\" class=\"size-full wp-image-253\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/emerson-bastos-por-emol.jpg\" alt=\"Imagem: Emol\" width=\"600\" height=\"403\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-253\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/ Emol<\/p><\/div>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Na poesia encontrei essa sa\u00edda para a fantasia, para a\u00a0brincadeira, para o voltar a sorrir&#8221;. &#8211; BASTOS, Emerson.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson Bastos:<\/strong>\u00a0Primeiramente, por que ler, n\u00e9? Porque a gente come\u00e7a lendo. Na leitura encontrei um ref\u00fagio, uma sa\u00edda da realidade, \u00e0s vezes t\u00e3o mon\u00f3tona. Na poesia encontrei essa sa\u00edda para a fantasia, para a\u00a0brincadeira, para o voltar a sorrir. Como eu brincava com meus brinquedos na inf\u00e2ncia, hoje brinco com as palavras. Escrevo, em primeiro lugar, pra exercitar essa brincadeira. \u00c9 divertido pra mim escrever. \u00c9 desafiador. Quanto forma, \u00e9 isso. Quanto conte\u00fado, procuro sempre falar das coisas que acredito, as minhas discord\u00e2ncias da sociedade, diante dos padr\u00f5es impostos que a gente j\u00e1 nasce dentro deles.\u00a0Mas tamb\u00e9m sobre meus amores, afetos&#8230; Quase tudo que eu consigo brincar, abstrair, eu escrevo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Em que momento voc\u00ea percebeu que passaria a vida fazendo isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:\u00a0<\/strong>Esse momento nasceu de forma inusitada.\u00a0Escrevo desde os 15, comecei escrevendo letras de m\u00fasica.\u00a0Montei uma banda aos 16 para participar de um festival, no col\u00e9gio, escrevi uma letra e os meninos colocaram a m\u00fasica. Comecei assim. Depois viajei muito.\u00a0F<span style=\"line-height:1.7em\">ui pra Goi\u00e2nia, trabalhei como motorista de \u00f4nibus, eletricista industrial, pintor de pr\u00e9dio trabalhei numa v\u00eddeo locadora, minha primeira realiza\u00e7\u00e3o profissional. Era tudo muito estressante. Decidi trabalhar com algo que sinta prazer e possa expressar meu posicionamento pol\u00edtico, que eu n\u00e3o me escravize,\u00a0que\u00a0seja completamente independente. Percebi que o que gosto mesmo \u00e9 de arte, tanto da poesia quanto da m\u00fasica.\u00a0<\/span><span style=\"line-height:1.7em\">N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser escritor e eu n\u00e3o tinha praticamente nada escrito. As coisas que escrevia eu joguei tudo fora&#8230;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> Eram coisas muito imaturas, panflet\u00e1rias, bobinhas. E a\u00ed eu pensei como sobreviveria disso, mas decidi: \u201ceu vou sobreviver disso nem que eu tenha que vender poesia na rua. Ah, eu vou vender poesia na rua!\u201d J\u00e1 foi a ideia inicial.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Por que o nome &#8220;Retratos de Dentro de Mim&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> S\u00e3o coisas muito minhas. N\u00e3o retrato pensamento alheio. S\u00e3o os meus amores, minhas viv\u00eancias, minhas dedu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Vai muito pela mem\u00f3ria afetiva?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>E qual a mem\u00f3ria mais forte que te inspirou?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> Falo muito sobre os meus relacionamentos amorosos, por mais que n\u00e3o dedique, n\u00e3o d\u00ea nome aos bois. Mas \u00e9 muito verdadeiro, pouca coisa \u00e9 fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_255\" style=\"width: 670px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/retratos-de-dentro-de-mim-1-2-e-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-255\" class=\"size-full wp-image-255\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/retratos-de-dentro-de-mim-1-2-e-3.jpg\" alt=\"Volumes 1, 2 e 3 dos livretos da s\u00e9rie \" width=\"660\" height=\"220\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-255\" class=\"wp-caption-text\">Volumes 1, 2 e 3 dos livretos da s\u00e9rie &#8220;Retratos de Dentro de Mim&#8221;<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>H\u00e1 previs\u00e3o para concluir a obra?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> N\u00e3o. \u00c9 um amadurecimento que n\u00e3o consigo calcular. J\u00e1 tenho os 11 poemas do quarto livreto, mas os deixo dentro de uma pasta, que todo dia eu abro e mexo em alguma coisa. Depois de uma semana que n\u00e3o mexo em nada, est\u00e1 pronto. O processo de finalizar algo \u00e9 dif\u00edcil, mas tem que ficar pronto. Mas isso n\u00e3o impede de mudar o poema. Os primeiros livretos tem pomas que mexi depois de publicado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>E seu projeto solo musical entra quando nisso tudo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> A ideia era viver de poesia e m\u00fasica. Comecei a compor. \u00c9 um processo mais dif\u00edcil porque n\u00e3o sou instrumentista, toco s\u00f3 viol\u00e3o. Eu componho, n\u00e3o tenho parceiro que possa fazer as m\u00fasicas bem elaboradas pra eu colocar as letras. \u00c9 um processo lento, mas j\u00e1 tenho as m\u00fasicas do primeiro \u00e1lbum prontas, agora t\u00f4 levantando dinheiro pra gravar. Encontrei um produtor pra fazer os arranjos, Mateus Brasil, \u00e9 multi-instrumentista, j\u00e1 gravamos cinco. Est\u00e3o dispon\u00edveis pra audi\u00e7\u00e3o no meu site.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Por que voc\u00ea escolheu o Drag\u00e3o do Mar\u00a0para vender sua arte?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> Por ser um centro cultural\u00a0j\u00e1 tem pessoas interessadas em arte, cinema, teatro, j\u00e1 tem uma abertura maior pra poesia. \u00c9 um lugar-chave. Tem os bares tamb\u00e9m. O Drag\u00e3o do Mar \u00e9 um lugar que gosto de estar. Aqui as pessoas me procuram. Deixam recado com os gar\u00e7ons&#8230; Virei uma est\u00e1tua viva do drag\u00e3o. (Risos).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>O Drag\u00e3o do Mar te inspira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> Sim, porque tem todo tipo de pessoas, das mais variadas classes sociais. Consigo vender pra um pol\u00edtico, empres\u00e1rio, e consigo ter contato com moradores de rua, conhecer pessoas que viajam pelo mundo inteiro de bicicleta vendendo artesanato.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Como \u00e9 o seu\u00a0processo criativo?<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_259\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/emerson-cd.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-259\" class=\"size-medium wp-image-259\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/08\/emerson-cd.jpg?w=300\" alt=\"Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/ Emol\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-259\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/ Emol<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> Assim, a poesia vem antes do poema. O &#8220;olhar sobre&#8221; j\u00e1 faz parte da poesia.\u00a0O meu momento m\u00e1ximo na arte \u00e9 o momento da cria\u00e7\u00e3o. Sozinho no meu quarto, cabe\u00e7a fervendo. Eu n\u00e3o me lembro de nada, ou me lembro, n\u00e9? (Risos) Junta tudo ali&#8230; N\u00e3o d\u00e1 pra descartar a vida, tudo o que voc\u00ea viveu faz parte. Depois que t\u00e1 feito o poema, n\u00e3o importa. N\u00e3o tenho apego nenhum, tanto que n\u00e3o registro. Meu poema \u00e9 livre para ser roubado. Pode colocar isso na entrevista! (Risos).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Voc\u00ea participou dos projetos (de incentivo \u00e0 \u00a0leitura) \u201cRecreio Liter\u00e1rio\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.wordpress.com\/2015\/08\/20\/no-ceara-escolas-da-rede-publica-recebem-projeto-de-incentivo-a-leitura\/\">Mais Leitura<\/a>\u201d. Qual a import\u00e2ncia da poesia e da m\u00fasica na educa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> \u00c9 fant\u00e1stico. Costumo dizer que meu relacionamento com a poesia come\u00e7ou no col\u00e9gio. Eu n\u00e3o gostava de leitura, sempre fui um p\u00e9ssimo aluno. Eu sempre tive muita dificuldade pra me concentrar em algo, at\u00e9 que um dia o exerc\u00edcio na aula era ler o poema &#8220;(Vou-me Embora Para) Pas\u00e1rgada&#8221;. Quando li foi aquela coisa, n\u00e9? Uma explos\u00e3o. Adorei! Foi a primeira coisa que gostei de ler no col\u00e9gio. Foi m\u00e1gico. Lembro que cheguei em casa, joguei a mochila, peguei a bicicleta e fui para a biblioteca p\u00fablica em Araraquara (SP) para pegar o\u00a0livro do Manuel Bandeira\u00a0com\u00a0aquele poema e conhecer outros. Foi o in\u00edcio, eu sabia que tinha poesia. Para mim, foi fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>E como \u00e9 trabalhar nesses projetos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Emerson:<\/strong> Acho de extrema import\u00e2ncia. Sou completamente aberto para participar de projetos em escolas p\u00fablicas. E tem mais gente fazendo isso, grupos de poetas, de gente que se dedica \u00e0\u00a0arte. Diretores que querem fazer essa parceria, \u00e9 f\u00e1cil, tem grupos que querem levar sarau para col\u00e9gios, muitas pessoas interessadas que sabe da import\u00e2ncia que a arte tem pra quem t\u00e1 em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:right\">Colaborou: Mariana Amorim<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De onde vem a poesia? Para os mais rom\u00e2nticos, versar \u00e9 se declarar todos os dias. 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