{"id":314,"date":"2015-09-08T04:04:37","date_gmt":"2015-09-08T04:04:37","guid":{"rendered":"https:\/\/reporterentrelinhas.wordpress.com\/?p=314"},"modified":"2015-09-08T04:04:37","modified_gmt":"2015-09-08T04:04:37","slug":"a-desconstrucao-do-reporter","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2015\/09\/08\/a-desconstrucao-do-reporter\/","title":{"rendered":"A desconstru\u00e7\u00e3o do Rep\u00f3rter"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify\">O come\u00e7o da hist\u00f3ria de um escritor \u00e9 quase sempre parecido. A\u00a0escrita costuma surgir na escola, resultado nas aulas de reda\u00e7\u00e3o. Inconscientemente, o h\u00e1bito aponta um caminho. Para muitos, leva ao jornalismo, que para alguns \u00e9 uma esp\u00e9cie de prepara\u00e7\u00e3o para a literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><em>&#8220;\u00c9\u00a0uma mistura de amar ler&#8221;<\/em>,\u00a0explica,<em>\u00a0&#8220;querer fazer algo daquele jeito, ter muitas ideias que morreram por falta de coragem para come\u00e7ar a escrever literatura e incentivo de gente bem-sucedida e que eu admiro&#8221;<\/em>. Ele identificou\u00a0a\u00a0necessidade de uma nova carreira quando o jornalismo come\u00e7ou a &#8220;afundar&#8221;. <em>&#8220;Enfrentei o monstro e n\u00e3o parei mais&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">F\u00e1bio M. Barreto j\u00e1 passou pelas principais reda\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, at\u00e9 que decidiu reconstruir sua vida no exterior. Estudou cinema em Los Angeles, \u00e9 escritor e roteirista,\u00a0mentor liter\u00e1rio no projeto <a href=\"http:\/\/www.escrevasuahistoria.com\/\">Escreva Sua Hist\u00f3ria<\/a>\u00a0e\u00a0tradutor profissional. Seu romance de estreia, &#8220;Filhos do Fim do Mundo&#8221; (2013), \u00e9 vencedor do Pr\u00eamio Argos de Literatura Fant\u00e1stica. N\u00e3o bastasse, chegou a ser o livro mais vendido no Brasil na categoria Suspense, na Amazon, e o segundo em Fic\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, no \u00faltimo m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/fc3a1bio-m-barreto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-317\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/fc3a1bio-m-barreto.jpg\" alt=\"F\u00e1bio M. Barreto\" width=\"600\" height=\"411\" \/><\/a>E os planos s\u00e3o muitos. Barreto est\u00e1 na fase final de\u00a0&#8220;Snowglobe&#8221;, seu novo romance, al\u00e9m de trabalhar em um roteiro de terror para o cinema e na adapta\u00e7\u00e3o de &#8220;Filhos do Fim do Mundo&#8221; para a TV. A tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;Lugar Nenhum&#8221;, de Neil Gaiman, foi entregue na \u00faltima semana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Nesta entrevista ao <strong>Rep\u00f3rter Entre Linhas<\/strong>, o autor, rep\u00f3rter de entretenimento desde 1996, discute o tal jornalismo, fala sobre a transi\u00e7\u00e3o\u00a0da carreira anterior\u00a0para viver como escritor\u00a0na terra do cinema e sobre seu premiado trabalho na literatura. <em>&#8220;Foi s\u00f3 quest\u00e3o de me ver inserido num lugar que vive do cinema, que leva o cinema a s\u00e9rio e que tem dinheiro para investir na arte&#8221;<\/em>.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Sabe, escrever \u00e9 um caminho, n\u00e3o uma finalidade. E esse caminho sempre envolve crescimento, aprendizado e provoca\u00e7\u00e3o. (&#8230;) N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil escrever, leva tempo, mas tudo \u00e9 sanado com dedica\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia da qualidade real do que voc\u00ea faz&#8221;. &#8211; BARRETO, F\u00e1bio M.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Comecei a acompanhar seu trabalho na revista Sci-Fi, e voc\u00ea tamb\u00e9m passou pelas maiores reda\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. Como foi a transi\u00e7\u00e3o do jornalismo para a carreira de escritor nos EUA?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Foi meio for\u00e7ada e abrupta. Quando o mercado come\u00e7ou, de fato, a afundar, as revistas come\u00e7aram a fechar com velocidade surpreendente. Metade das revistas da Editora Abril para quem eu contribu\u00eda fecharam, a outra parou de contratar freelancers por conta de cortes de custos. A\u00ed meus pr\u00f3prios contatos come\u00e7aram a ser demitidos e tudo foi ficando distante. Hoje em dia, os editores sequer respondem e-mails com ofertas de &#8220;freela&#8221;. Afinal, o que vale \u00e9 conhecer, ou n\u00e3o, o remetente. Essa nova gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 trazendo os amigos consigo, o que \u00e9 plenamente aceit\u00e1vel, ent\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entrar na panela de novo. Por conta disso, fui estudar cinema e roteiro. Fiz faculdade de cinema aqui em LA, comecei a escrever roteiros e a\u00ed percebi que j\u00e1 sabia o suficiente para me arriscar na literatura, afinal, \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de estrutura e ligar o ponto A ao ponto B, coisa que o cinema executa com perfei\u00e7\u00e3o. Em coisa de dois anos, migrei quase totalmente para a literatura, o roteiro e os bastidores dos dois mercados. Sempre gostei de editar e o editor nada mais \u00e9 do que um guia para o trabalho de gente talentosa. E meio que fazia tudo isso quando trabalhei como editor liter\u00e1rio e jornal\u00edstico, ent\u00e3o \u00e9 um novo jeito de fazer coisas velhas. Adoro, mas, assim como o jornalismo, paga pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Como surgiu a ideia para escrever &#8220;Filhos do Fim do Mundo&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Queria estrear com um romance impactante, arriscado e que mostrasse servi\u00e7o logo de cara. Sou muito chato com o que escrevo, demoro muito para acreditar que esse ou aquele trecho estejam bons, e arrisco muito. Escrevo fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e isso, por si, j\u00e1 \u00e9 um risco gigantesco, ent\u00e3o, tenho que for\u00e7ar os limites. Mesmo que isso deixe as pessoas desconfort\u00e1veis e insatisfeitas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/filhos-do-fim-do-mundo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-318\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/filhos-do-fim-do-mundo.jpg?w=209\" alt=\"filhos do fim do mundo\" width=\"209\" height=\"300\" \/><\/a>Sei l\u00e1, a arte \u00e9 assim. A arte precisa provocar, incomodar, fazer pensar. Odeio enlatados, ent\u00e3o fugi deles. Ao mesmo tempo, resolvi aplicar muito do aprendizado com roteiro na quest\u00e3o de estrutura e tentei algo bacana: um livro baseado em a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o em p\u00e1ginas e p\u00e1ginas de fluxo de consci\u00eancia, com o personagem revelando tudo que pensa. Gosto de pensar, mas sempre penso na relev\u00e2ncia das minhas a\u00e7\u00f5es. Como elas afetam minha vida? Qu\u00e3o importante elas foram no passado? Pense assim: voc\u00ea pode pensar por anos sobre tal assunto, mas, no final, o que conta&#8230; tudo que voc\u00ea pensou ou a a\u00e7\u00e3o resultante disso? O mundo l\u00e1 fora n\u00e3o sabe das suas raz\u00f5es, o mundo l\u00e1 fora vai julgar suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Coloquei tudo isso no papel, peguei um dos basti\u00f5es da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica &#8211; fim do mundo -, descobri qual seria meu medo mais aterrorizante e comecei a escrever. Foi mais ou menos assim. :p<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Voc\u00ea teve uma excelente estreia, tanto que o livro chegou a ser premiado. O que mudou na sua vida depois da publica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> A maior mudan\u00e7a foi ter me transformado num eterno divulgador e, sem querer, exemplo para muita gente. Isso acarreta em duas coisas, \u00e0s vezes gasto mais tempo vendendo o peixe do que construindo o pr\u00f3ximo barco. E tamb\u00e9m dedico um bom tempo a ajudar as outras pessoas, tanto que criei o curso www.escrevasuahistoria.com para poder ajudar as pessoas que sonham em ser escritoras, mas nunca tiveram o incentivo que eu tive e precisam da ajuda\/guia que eu sempre procurei, mas nunca achei, a escreverem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Sabe, escrever \u00e9 um caminho, n\u00e3o uma finalidade. E esse caminho sempre envolve crescimento, aprendizado e provoca\u00e7\u00e3o. Esse lance todo de ficar famoso, rico e tal \u00e9 balela para enganar gente desesperada. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil escrever, leva tempo, mas tudo \u00e9 sanado com dedica\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia da qualidade real do que voc\u00ea faz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Outra coisa que muda \u00e9 a compreens\u00e3o de que o pr\u00f3ximo livro sempre deve ser melhor, que a fama \u00e9 ilus\u00f3ria e que as p\u00e1ginas devem falar mais alto que voc\u00ea, mais alto que sua conta no Facebook e mais alto que seus seguidores no Youtube. Isso \u00e9 importante? Sim. Mas sem um bom livro, voc\u00ea s\u00f3 cria forma, n\u00e3o subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Por que se referir aos personagens ao que fazem, como uma caracter\u00edstica marcante, e n\u00e3o por nomes especificamente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Isso aconteceu para resolver um problema e cumprir uma demanda narrativa. Os nomes que escolhi n\u00e3o cabiam, de jeito nenhum. Nada parecia bom, a\u00ed fui estudar o motivo e a resposta foi a seguinte: aquela hist\u00f3ria era universal, ela n\u00e3o tinha um lugar espec\u00edfico, pois poderia acontecer em qualquer lugar, logo, se eu chamasse o protagonista de Pedro, isso informaria muito sobre o lugar de origem dele, assim como os demais.\u00a0Compreendendo o problema, veio a decis\u00e3o de retirar os nomes, o que aumentou o desafio do ponto de vista da reda\u00e7\u00e3o, mas eu sabia que era poss\u00edvel, afinal de contas, o Saramago havia feito isso com maestria em &#8220;Ensaio sobre a Cegueira&#8221;. &#8220;Filhos&#8221; n\u00e3o tem quase nada a ver com &#8220;Ensaio&#8221;, alias, foi at\u00e9 uma homenagem minha a um cara que me ensinou tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Como foi a recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico a essa din\u00e2mica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong>\u00a0Muita gente gostou, recebi muitas mensagens de gente que se sentiu transformada, questionando alguns aspectos da vida depois de ler, e que entendeu meu objetivo com aquela parte arriscada que comentei. Foi bacana. Por outro lado, e isso acontece com todo mundo, vieram pedradas, ofensas, pedidos de retirada do livro do mercado, gente detonando todas as minhas gera\u00e7\u00f5es por ter ficado &#8220;insatisfeita&#8221; com o final ou a quantidade de informa\u00e7\u00f5es oferecida. Tem de tudo. Voc\u00ea aprende a lidar com todas elas, afinal, tanto o elogio quanto a cr\u00edtica em excesso pode te colocar em caminhos duvidosos nos pr\u00f3ximos trabalhos. N\u00e3o sou perfeito e nem &#8220;o melhor escritor brasileiro de todos os tempos&#8221; &#8211; e acredite, ouvi isso &#8211; , mas tenho plena consci\u00eancia de que n\u00e3o sou lixo. \u00c9 preciso entender seu lugar nessa din\u00e2mica e, como em qualquer outra profiss\u00e3o, continuar trabalhando. E sempre melhorando, ou, pelo menos, mantendo o n\u00edvel do t\u00edtulo anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Por que o protagonista \u00e9 um rep\u00f3rter? Tem muito de voc\u00ea e de suas experi\u00eancias em reda\u00e7\u00f5es nele?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Bastante. Resolvi ecoar v\u00e1rias experi\u00eancias, aspira\u00e7\u00f5es nunca realizadas, sonhos, frustra\u00e7\u00f5es e um pouco daquela raiva embutida por algu\u00e9m que est\u00e1 vendo a profiss\u00e3o desaparecer. Escrevi &#8220;Filhos&#8221; quando o jornalismo come\u00e7ou a mostrar problemas, ent\u00e3o foi meu modo de lidar com esse fim da linha, de tentar entender como minhas a\u00e7\u00f5es haviam contribu\u00eddo, ou n\u00e3o, para eu estar entre as baixas do mercado e como as pr\u00f3ximas decis\u00f5es seriam compreendidas. A cena do Rep\u00f3rter tentando arrombar a porta do cockpit da Adaga \u00e9 a mais assustadora do livro, para mim, pois confrontei um grande medo ali. At\u00e9 que ponto um jornalista \u00e9 ego\u00edsta o suficiente de arriscar tudo \u00e0 sua volta para &#8220;conseguir a mat\u00e9ria\/o que quer&#8221;? Aquilo foi poderoso para mim e nem sei quantas pessoas notaram isso, mas livros s\u00e3o assim, cheios de gemas que fazem todo sentidos para uns e servem de batente de porta para outros. E ningu\u00e9m est\u00e1 errado na escolha, pois ela \u00e9 subjetiva mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/a-velha-casa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-320\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/a-velha-casa.jpg?w=188\" alt=\"a velha casa\" width=\"188\" height=\"300\" \/><\/a> <a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/o-cc3a9u-de-lilly.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-321\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/o-cc3a9u-de-lilly.jpg?w=188\" alt=\"o c\u00e9u de lilly\" width=\"188\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/a-invasora.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-319\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/a-invasora.jpg?w=188\" alt=\"a invasora\" width=\"188\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Voc\u00ea chegou a afirmar que est\u00e1 desenvolvendo roteiros para uma s\u00e9rie de TV baseada no livro. Como est\u00e1 esse processo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Ainda estamos em desenvolvimento. O canal que estava interessado inicialmente pulou fora e perdemos um outro membro da equipe, mas ele j\u00e1 foi substitu\u00eddo e voltamos \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o do roteiro. Tomei uma decis\u00e3o executiva de mudar todo o foco inicial e fazer uma hist\u00f3ria &#8220;inspirada&#8221; em &#8220;Filhos&#8221;, em vez de &#8220;baseada&#8221;. Ou seja, mesmo plano de fundo, din\u00e2micas diferentes. Acredito que tenhamos not\u00edcias at\u00e9 o final do ano, mas Hollywood \u00e9 assim. As coisas parecem estagnadas at\u00e9 que tudo acontece a toque de caixa e, plim, se torna realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Qual a influ\u00eancia do realismo fant\u00e1stico latino americano na literatura fant\u00e1stica brasileira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> No aspecto mais geral, n\u00e3o t\u00e3o grande. A Literatura Fant\u00e1stica Brasileira ainda bebe muito na fantasia cl\u00e1ssica e no que o G.R.R. Martin tem feito, al\u00e9m de se auto-influenciar com o trabalho do Vianco, Spohr e Draccon. O que os realistas fant\u00e1sticos fazia tem muito mais liga\u00e7\u00e3o com o que o Neil Gaiman faz, com o Stephen King (em algumas obras), e outros autores mais preocupados com a natureza especulativa da vida, com o que aconteceria se um determinado elemento fosse fant\u00e1stico\/fora do comum. A Fic\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica tamb\u00e9m vai para os extremos, tira tudo do lugar, inventa novos lugares, sempre tendo as demandas atuais como base, mas sempre passa muito longe dos realistas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Gosto de pensar que tenho um pouco dos realistas, mas acredito que minha m\u00e3o fique mais pesada do que deva e eu tenha a tend\u00eancia de transformar mais do que um ou dois elementos, mas n\u00e3o cabe a mim julgar. Talvez at\u00e9 por isso a Literatura Fant\u00e1stica ainda seja quase totalmente ignorada pela grande imprensa e execrada pelo meio acad\u00eamico, afinal, a gente escreve com ritmo, for\u00e7a e objetivos que v\u00e3o al\u00e9m da perfei\u00e7\u00e3o gramatical ou exacerba\u00e7\u00e3o dessa ou daquela escola de pensamento. Essa gera\u00e7\u00e3o atual conta hist\u00f3rias que o povo quer ler. Talvez nisso, os realistas e os Fant\u00e1sticos Brasileiros estejam em sintonia. Queremos fazer a diferen\u00e7a, ver o mundo por outra \u00f3tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Qual a import\u00e2ncia de lan\u00e7ar os contos na plataforma digital?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Gigantesca, pois mantenho o leitor abastecido enquanto outros romances n\u00e3o saem. Virou uma plataforma de sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Podemos esperar um livro com a colet\u00e2nea desse material?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Futuramente, sim. Por isso cada conto publicado at\u00e9 hoje tem um selo pr\u00f3prio. Pretendo lan\u00e7ar cada uma delas em formato de colet\u00e2nea quando, finalmente, encontrar uma editora parceira e pronta para trabalhar o meu material. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil desenvolver, embalar e vender Fic\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Especulativa no Brasil. Atualmente, apenas a Darkside e a Aleph sabem como fazer isso em grande escala. Tor\u00e7o para que outras sejam bem-sucedidas nessa empreitada, pois a produ\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 vasta e muito boa. Precisamos dar vaz\u00e3o e nem falo em causa pr\u00f3pria. Caras como Gerson-Lodi Ribeiro, Octavio Arag\u00e3o, Carlos Orsi e F\u00e1bio Fernandes deveriam ser publicados por diversas editoras, especialmente as grandes. A qualidade deles \u00e9 inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<div id=\"attachment_323\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/barreto-e-gaiman.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-323\" class=\"size-full wp-image-323\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/reporterentrelinhas.files.wordpress.com\/2015\/09\/barreto-e-gaiman.jpg\" alt=\"F\u00e1bio M. Barreto com o autor brit\u00e2nico Neil Gaiman\" width=\"580\" height=\"365\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-323\" class=\"wp-caption-text\">F\u00e1bio M. Barreto com o autor brit\u00e2nico Neil Gaiman<\/p><\/div>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\">Essa gera\u00e7\u00e3o atual conta hist\u00f3rias que o povo quer ler. Talvez nisso, os realistas e os Fant\u00e1sticos Brasileiros estejam em sintonia. Queremos fazer a diferen\u00e7a, ver o mundo por outra \u00f3tica&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Voc\u00ea acredita que todo escritor pode ser roteirista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> \u00c9 uma adapta\u00e7\u00e3o de formato. Se o cara se encaixar nele, claro. O roteiro \u00e9 econ\u00f4mico, dependente do encadeamento de ideias e dos di\u00e1logos e, acima de tudo, das a\u00e7\u00f5es. A\u00e7\u00f5es dizem tudo, pois, no cinema, voc\u00ea precisa &#8220;Mostrar n\u00e3o contar&#8221;. A literatura tem essa necessidade de falar muito, j\u00e1 o cinema, quanto menos puder ser dito e mais puder ser transmitido pela imagem, melhor. \u00c9 uma quest\u00e3o de objetivos de vida e de dedica\u00e7\u00e3o, pois o roteiro em si \u00e9 uma forma de arte cheia de min\u00facias. Mas, dentre todas as profiss\u00f5es, o escritor \u00e9 o que mais se encaixa na fun\u00e7\u00e3o de roteirista. E o Brasil precisa URGENTEMENTE de bons roteiristas. Quase ningu\u00e9m sabe escrever cinema com alto n\u00edvel por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Voc\u00ea aposta agora no jornalismo independente. Como est\u00e1 sendo essa nova caminhada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Bem dif\u00edcil. Fa\u00e7o pela dedica\u00e7\u00e3o e paix\u00e3o, e para tentar colocar comida na mesa, mas nenhum neg\u00f3cio se mant\u00e9m sem investimento. E, no modelo de neg\u00f3cios atual, as empresas s\u00f3 investem no seu neg\u00f3cio se voc\u00ea for famoso, tiver trilh\u00f5es de seguidores e um podcast engra\u00e7adinho. Espero que d\u00ea certo, mas cobrar diretamente por informa\u00e7\u00e3o funciona muito pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>O curso era realmente algo que voc\u00ea queria fazer ou foi uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>F\u00e1bio:<\/strong> Queria muito fazer desde 2012, mas tudo nele me assustava. N\u00e3o ter &#8220;relev\u00e2ncia&#8221; suficiente para fazer, nunca ter ensinado online (deu aula de ingl\u00eas por 3 anos no Brasil), n\u00e3o saber como monetiz\u00e1-lo e ter um medo absurdo de parecer arrogante na tela. Isso me apavora. Eu tenho um jeito bem direto e sincero. Escrevo como falo e falo como escrevo. Nunca fui muito de puxar o saco, ent\u00e3o, especialmente no Rapaduracast (podcast do portal Cinema com Rapadura), muita gente v\u00ea isso como arrog\u00e2ncia. Sei l\u00e1, tenho orgulho do meu trabalho, pois fa\u00e7o por merecer. Acredito que falta isso no brasileiro, sentir mais orgulho e trocar a tal &#8220;s\u00edndrome do cachorro pequeno&#8221; por essa coisa horr\u00edvel chamada orgulho. \u00c9 bom se valorizar. Te faz querer mais e avan\u00e7ar. Enfim, muitos medos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A\u00ed, comecei a estudar as novas formas e uma amiga me apresentou a uma s\u00e9rie de cursos online sobre outros assuntos, e pensei: \u00e9 agora. Peguei os rascunhos do conte\u00fado, falei com alguns jovens escritores no perfil que quero pegar, confirmei que mais ningu\u00e9m estava fazendo nisso &#8211; nem mesmo o Governo &#8211; e bati no peito para pegar essa responsabilidade: vou ajudar uma nova gera\u00e7\u00e3o! Ainda est\u00e1 no come\u00e7o, vamos ver qual ser\u00e1 o final dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevistamos o jornalista e escritor F\u00e1bio M. 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