{"id":3716,"date":"2017-03-05T20:55:34","date_gmt":"2017-03-05T23:55:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/?p=3716"},"modified":"2017-03-05T20:55:34","modified_gmt":"2017-03-05T23:55:34","slug":"o-lugar-da-velhice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2017\/03\/05\/o-lugar-da-velhice\/","title":{"rendered":"O Lugar da Velhice"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Ela j\u00e1 n\u00e3o caminha t\u00e3o confiante, repete as perguntas, esquece as respostas, troca os nomes e fala palavr\u00f5es com mais facilidade. A jovem senhora bagun\u00e7a a rotina, rebelde n\u00e3o aceita rem\u00e9dios, tampouco as fraldas para as incontin\u00eancias; teima em desobedecer regras que a fam\u00edlia tenta impor, logo ela que sempre foi dona da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A descri\u00e7\u00e3o pode ser de um parente pr\u00f3ximo, ou daquele vizinho que vimos escorrer os anos, talvez um conhecido de outra gera\u00e7\u00e3o que vai se aproximando do primeiro lugar na fila. Eu conto nos dedos uma por\u00e7\u00e3o e acredito que voc\u00ea tamb\u00e9m. Eles ocupam nossos espa\u00e7os em um amanh\u00e3, nesta \u201cprevis\u00edvel\u201d dan\u00e7a do destino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uns sofrem mais com o afastamento dos entes, outros se perdem entre a solid\u00e3o das casas de repouso, ou vivem sob a lembran\u00e7a de um parente t\u00e3o imagin\u00e1rio quanto real em seu sentir. Balbuciam coisas em sua tenra inoc\u00eancia, de volta ao casulo que lhes \u00e9 peculiar nesta temporada. Alguns resistem com mais lucidez, persistindo nesse disparate chamado velhice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tomando caf\u00e9 em uma tarde da semana e conversando sobre quest\u00f5es de fam\u00edlia, ouvi uma frase que vem me acompanhando estes dias: a velhice \u00e9 uma esp\u00e9cie de loucura. A senten\u00e7a ficou martelando na cabe\u00e7a e me fez pensar sobre o lugar da velhice em nossas vidas, se \u00e9 dif\u00edcil para n\u00f3s aceitar esta etapa, ou se nos cabe um peso imenso pela recusa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Certa tarde, por coincid\u00eancia (tal o sincronismo da vida), li um emocionante texto da jornalista Eliane Brum, no qual relatava a perda de seu pai amado e o qu\u00e3o doloroso foi o processo no hospital, sem poder se despedir dignamente ou acompanhar a passagem paterna. Eliane disse que &#8220;ao entrar num hospital para morrer, deixamos de pertencer a n\u00f3s mesmos&#8221; e lembrou que &#8220;o fim de uma vida \u00e9 ainda vida &#8211; e n\u00e3o morte&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como se n\u00e3o bastassem os descaminhos da velhice, ainda enfrentamos v\u00e1rios trope\u00e7os neste fim, que ainda \u00e9 vida, como diria Eliane. Uma fase que vem mesmo nos desafiar, misturar os planos e desfazer nossas certezas. Do lado de c\u00e1, enquanto n\u00e3o velhos (somente por hoje), assistimos o apagar da chama; do lado de l\u00e1, enquanto protagonistas no palco, eles se veem a merc\u00ea da interfer\u00eancia alheia, sentindo o corpo murchar, perdendo a autoria da vida. Lembro-me da minha V\u00f3 lamentando a apar\u00eancia da m\u00e3o, t\u00e3o cheia de manchas e enrugada, era como se a m\u00e3o n\u00e3o fosse dela. N\u00e3o reconhecia o pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 de dar nos nervos ver a vida assim, solta, sem controle. Os fios em curto circuito e a gente querendo remendar o que n\u00e3o tem conserto, o corpo vai envelhecer. Como ouviria naquela tarde de caf\u00e9, cedo ou tarde vamos entrar nesta esp\u00e9cie de loucura. Mas como atravessar tudo isso com dignidade, quando n\u00e3o raro perdemos a compostura e a paci\u00eancia? Recordo o que eu repetia para mim, enquanto via minha V\u00f3 definhar, apesar dos meus cuidados \u2013 \u201c\u00e9 preciso amor, muito amor\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ano passado assisti a um tocante document\u00e1rio, \u201cAlive Inside\u201d, que abordava a tem\u00e1tica. A pel\u00edcula mostrava o poder da m\u00fasica como recurso para resgatar a identidade dos idosos, principalmente daqueles que sofrem com a aus\u00eancia advinda do Alzheimer. Foi intenso ver a conex\u00e3o com aquelas pessoas, antes t\u00e3o absortas em seu mundo, tornarem-se vivas ap\u00f3s simples acordes da juventude. O vigor aflorava quando a m\u00fasica visitava os lugares esquecidos. Afinal, &#8220;o fim de uma vida \u00e9 ainda vida &#8211; e n\u00e3o morte\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No filme, um dos cientistas questiona quem somos n\u00f3s sem a nossa mem\u00f3ria e qual o lugar da velhice no mundo atual. De acordo com ele, os idosos s\u00e3o vistos como uma parte quebrada, ap\u00f3s o auge de uma vida adulta, sendo fundamental encontrar de novo o lugar deles no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O tal cientista apontava ainda para a ind\u00fastria da velhice e o dinheiro envolvido nesse mercado &#8211; lares de idosos, rem\u00e9dios, hospitais, planos de sa\u00fade \u2013 lembrando-nos do objetivo predominante desses recursos &#8211; esconder nossos idosos. De fato, n\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tico envelhecer, principalmente quando se tem a sa\u00fade t\u00e3o fragilizada. N\u00e3o d\u00e1 para tomar c\u00e1psulas milagrosas e fazer o espanto passar. \u201cOntem ela era t\u00e3o forte e hoje est\u00e1 acamada&#8230;\u201d Ouvimos essas l\u00e1stimas frequentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para atravessar essa \u201cloucura\u201d muitos varrem os tormentos para baixo do tapete. Mas a vida sempre cobra seu pre\u00e7o e a morte tamb\u00e9m. Quando o corpo se vai ficam os remorsos do que poderia ter sido e logo ser\u00e1 nossa vez na fila. Nos tornaremos protagonistas para qual plateia? \u00c9, o corpo pode ir, sempre vai, mas o que fica \u00e9 humanidade, sem contraindica\u00e7\u00e3o, a qualquer tempo, sem prazo de validade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela j\u00e1 n\u00e3o caminha t\u00e3o confiante, repete as perguntas, esquece as respostas, troca os nomes e fala palavr\u00f5es com mais facilidade. A jovem senhora bagun\u00e7a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":115,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[203,205,1879],"tags":[2245,2246,206,2247],"class_list":["post-3716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-coluna","category-cristina-fontenele","category-cronicas","tag-coluna","tag-cristina-fontenele","tag-cronica","tag-o-lugar-da-velhice"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/users\/115"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3716"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3716\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}