{"id":3903,"date":"2017-04-20T09:48:17","date_gmt":"2017-04-20T12:48:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/?p=3903"},"modified":"2017-04-20T09:48:17","modified_gmt":"2017-04-20T12:48:17","slug":"nao-existem-vidas-comuns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2017\/04\/20\/nao-existem-vidas-comuns\/","title":{"rendered":"N\u00e3o existem vidas comuns"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3904 aligncenter\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/04\/Eliane-Brum-na-Bienal-do-Livro-do-Ceara-300x289.jpg\" alt=\"\" width=\"344\" height=\"331\" \/><\/p>\n<p>\u201cA grande pergunta que move minha vida \u00e9 perceber como cada um inventa uma vida. N\u00e3o existem vidas comuns, nossos olhos \u00e9 que s\u00e3o domesticados.\u201d. Com a fala mansa, pausada, reflexiva, Eliane Brum foi habitando todos os presentes no audit\u00f3rio da XII Bienal Internacional do Livro do Cear\u00e1. Uma palestra despretensiosa de segunda-feira sobre como \u201ctoda pessoa constr\u00f3i uma vers\u00e3o da hist\u00f3ria a ser contada\u201d. Ouvi-la agu\u00e7ou os sentidos e abriu a alma.<\/p>\n<p>Jornalista, escritora premiada e uma profissional de sensibilidade peculiar, Eliane Brum foi ainda mais surpreendente ao vivo. Enquanto discorria sobre sua vida e profiss\u00e3o, tinha uma fala doce, fr\u00e1gil, que emocionava a plateia. \u00c0s vezes parecia que aquela mulher de vestes pretas ia quebrar, se partir em hist\u00f3rias mi\u00fadas com v\u00e1rios protagonistas. Mas Eliane era firme e seu relato preenchia a sala de aten\u00e7\u00e3o e tens\u00e3o, como aquelas vozes inebriantes que \u00e0s vezes colocamos para ouvir antes de dormir.<\/p>\n<p>Parecia haver floquinhos voando no ar, pude ver, enquanto todos prendiam a respira\u00e7\u00e3o para n\u00e3o perder um momento sequer, diante de um sil\u00eancio perturbador, diante da vida comum, \u201ca vida que ningu\u00e9m v\u00ea\u201d. O p\u00fablico se repartia por dentro para alcan\u00e7ar aquela imensid\u00e3o de relato.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m impactado, o jornalista, escritor e um dos curadores da Bienal, Lira Neto, mediava uma palestra que pareceu voar. Duas horas com ponteiros de vinte minutos. A vastid\u00e3o de Eliane extrapolava. \u201cEliane, voc\u00ea sabe que est\u00e1 nos emocionando, n\u00e3o \u00e9?\u201d, perguntava Lira.<\/p>\n<p>A escutadeira curiosa, como ela mesma se definiu, se disse habitada pelas diversas vozes das pessoas que se abrem para contar suas hist\u00f3rias, a cada vez que busca descobrir qual a delicadeza que torna a vida poss\u00edvel, mesmo com tanta viol\u00eancia ao redor.<\/p>\n<p>\u201cAs palavras t\u00eam um espa\u00e7o vital na minha vida.\u00a0Escrevo para n\u00e3o matar, escrevo para n\u00e3o morrer.\u201d, contou a autora explicando que n\u00e3o escreve para apaziguar ou encontrar respostas, mas para desacomodar. E o primeiro movimento passa por se desacomodar, despir-se de si, desabitar-se para ser habitado pelo outro. Ir o mais desabitado para vestir esse outro jeito de ser e estar no mundo, e s\u00f3 depois empreender o caminho de volta. Um processo que se faz essencialmente pela escuta, destacou ela.<\/p>\n<p>Um caminho perigoso, arriscado, esse tal encontro com o outro. N\u00e3o h\u00e1 garantias do que vamos descobrir do lado de l\u00e1. Enquanto todos buscam certezas, Eliane fala em inc\u00f4modo, em d\u00favidas. \u00c9 perturbador.<\/p>\n<p>A escutadeira da vida que ningu\u00e9m v\u00ea nos chamava para o olhar da delicadeza. Falou de morte, de tempo, do vazio, de cicatrizes e dos Brasis que ainda esperam por ser contados. Revelou sobre impot\u00eancias, e sobre os momentos de estanque no seu processo de escrita, per\u00edodo em que procurava conex\u00e3o entre os fatos observados e o que fazia sentido ser narrado. \u201cEscrever \u00e9 o poss\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 pouco nem \u00e9 muito, \u00e9 o poss\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>Suas palavras me chegam, me alcan\u00e7am, me embalam e acordam. Tenho tentado \u201cdesdomesticar\u201d os olhos, os sentidos, e me abrir para as hist\u00f3rias das vidas invis\u00edveis, que nunca s\u00e3o comuns. Desconstruir \u00e9 necess\u00e1rio, \u00e9 trabalhoso, mas \u201cn\u00e3o tem nada mais brutal do que estar \u00e0 margem da narrativa, ser invis\u00edvel.\u201d, nos ensinou a escritora, que entra gentilmente no universo do outro enquanto pede para as pessoas mostrarem o pr\u00f3prio mundo. \u201cMe conta&#8230;\u201d, \u00e9 seu ponto de partida.<\/p>\n<p>Eliane \u00e9 contundente e de um falar po\u00e9tico. Suas frases se encaixam com um lirismo que nos faz imaginar quanta viv\u00eancia cabe ali. Ela viu gente, abandono, dor, vazio, viu \u201cdesacontecimentos\u201d, como tantos de n\u00f3s. Por\u00e9m, sua narrativa \u00e9 resist\u00eancia em uma \u00e9poca de imediatismo, julgamentos sum\u00e1rios e \u00f3dios virtuais. Ela resgata o olhar do observador, que d\u00e1 tempo para a vida se revelar, sem pressupor as respostas, sem prescindir da aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eliane nos lembra de que n\u00e3o h\u00e1 vida banal, h\u00e1 vida, h\u00e1 desassossego. Testemunhas, personagens, narradores, somos partes do mesmo mosaico que se forma enquanto tentamos justificar a exist\u00eancia, diante de dias ca\u00f3ticos e pulsantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA grande pergunta que move minha vida \u00e9 perceber como cada um inventa uma vida. 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