{"id":4231,"date":"2017-07-23T11:52:53","date_gmt":"2017-07-23T14:52:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/?p=4231"},"modified":"2017-07-23T11:52:53","modified_gmt":"2017-07-23T14:52:53","slug":"o-brasil-precisa-muito-de-arte-neste-momento-diz-daniela-mercury","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2017\/07\/23\/o-brasil-precisa-muito-de-arte-neste-momento-diz-daniela-mercury\/","title":{"rendered":"&#8220;O Brasil precisa muito de arte neste momento&#8221;, diz Daniela Mercury"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4232\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4232\" class=\"size-large wp-image-4232\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/07\/daniela-mercury-foto-celia-santos-Rep\u00f3rter-entre-linhas-624x416.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" \/><p id=\"caption-attachment-4232\" class=\"wp-caption-text\">Daniela Mercury lan\u00e7ou, em 2015, seu primeiro \u00e1lbum inteiramente autoral: Vinil Virtual (Foto: C\u00e9lia Santos \/ Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Daniela Mercury<\/strong> conhece a import\u00e2ncia da pr\u00f3pria hist\u00f3ria para a m\u00fasica brasileira. Aos 51 anos, refer\u00eancia no <strong>ax\u00e9 music<\/strong>, com mais de duas d\u00e9cadas de carreira e can\u00e7\u00f5es enraizadas na mem\u00f3ria da cultura popular, faz da m\u00fasica um instrumento pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ela retornou a Fortaleza neste s\u00e1bado, 22, onde apresentou, pela primeira vez na capital cearense, o show Camarote da Rainha, no Iate Clube, entre as velas e o sol do Mucuripe. Em entrevista, publicada neste domingo, 23, no jornal <strong>O POVO.Dom<\/strong>, a artista dialoga sobre o processo criativo \u2014 que define como ca\u00f3tico \u2014 e se emociona ao falar da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brasileira, defendendo a necessidade de se buscar um Pa\u00eds melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Voc\u00ea lan\u00e7ou dois discos nos \u00faltimos dois anos. Qual \u00e9 o pr\u00f3ximo passo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Daniela Mercury &#8211; Eu sempre tenho v\u00e1rios projetos engajados, muitos desenhos. Meu repert\u00f3rio componho continuamente. Algumas can\u00e7\u00f5es vir\u00e3o, ainda que tenha uma turn\u00ea para cumprir. Eu vou emendando uma turn\u00ea na outra. Eu sou muito camale\u00f4nica. Cada lugar \u00e9 um show diferente. Acabei de vir de Portugal, onde fiz tr\u00eas shows diferentes. Eu vou distribuindo as m\u00fasicas de maneira que o show fique com a din\u00e2mica que o p\u00fablico gosta, pra ser curtido, pra gente ver e pra gente sobreviver, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Voc\u00ea participa desse processo do in\u00edcio ao fim?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Daniela &#8211; Eu n\u00e3o canso de criar. Eu participo de absolutamente tudo, inclusive dos figurinos. Defino cores, fa\u00e7o todos os roteiros, coreografia. Eu dirijo, pego trechos de coreografias e vou fazendo releituras. V\u00e1rias coreografias s\u00e3o de core\u00f3grafos convidados, mas enrique\u00e7o a movimenta\u00e7\u00e3o. Meu trabalho coreogr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 aleg\u00f3rico, n\u00e3o \u00e9 pra se repetir. \u00c9 para ver, \u00e9 conceitual. \u00c9 um carnaval conceitual. Eu sou int\u00e9rprete por acaso. \u00c9 maravilhoso ser um instrumento de cria\u00e7\u00e3o. A grande diferen\u00e7a \u00e9 a originalidade. \u00c9 dif\u00edcil ser original em um mundo com tantas cria\u00e7\u00f5es. \u00c9 tudo feito com muita observa\u00e7\u00e3o, muito trabalho. Viajo e olho tudo por todas as partes para encontrar uma forma de vestir essas linguagens, de ser particular no meu trabalho. \u00c9 isso que me faz ser uma artista respeitada porque eu dialogo com o mundo todo. N\u00e3o d\u00e1 pra enganar e fingir que t\u00e1 fazendo uma coisa que \u00e9 original e n\u00e3o ser. \u00c9 um trabalho s\u00e9rio. Muito divertido para quem v\u00ea e muito s\u00e9rio para quem faz. \u00c9 muito pautado em pesquisas e no meu pr\u00f3prio ser. Eu sou pensadeira, faladeira, lavadeira. Poetizo tudo. Vou recriando tudo, reconstruindo o que d\u00e1 e vou desembara\u00e7ando, me perdendo. Vou me entendendo. Meu processo \u00e9 ca\u00f3tico. Eu escrevo at\u00e9 no banheiro. A gra\u00e7a mesmo \u00e9 criar, fazer o que me der na telha na hora que tiver vontade. Se eu estiver no show e der na telha de cantar outra que n\u00e3o tem nada a ver com aquele momento, eu canto outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-4235\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/07\/Aguanambi282-Daniela-Mercury-300x530.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"530\" \/>E esse trabalho de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de se encontrar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Daniela &#8211; Eu n\u00e3o quero me encontrar nunca porque no dia em que eu me encontrar vai ser um t\u00e9dio. Eu n\u00e3o quero me saciar. A minha alma n\u00e3o vai se encontrar nunca \u2014 se \u00e9 que tenho alma ou s\u00f3 pensamento. Meu corpo n\u00e3o aguenta essa alma, n\u00e3o. Ela \u00e9 muito abusada. Uma vez me disseram que minha alma tinha 1.500 anos. Achei jovem! Minha alma tem que reencarnar, se n\u00e3o, n\u00e3o tem corpinho que aguente. N\u00e3o que eu seja especial, acho que todo mundo \u00e9 assim. A mente \u00e9 muito ampla. Mas \u00e9 legal perceber que, com esse caos de influ\u00eancias que est\u00e3o no meu inconsciente, eu acabo parindo obras que foram importantes para as pessoas. O que \u00e9 importante \u00e9 que a gente fa\u00e7a as pessoas felizes, que a gente empodere as pessoas e que elas se sintam representadas. Que a arte possa ser delas tamb\u00e9m. No disco <em>Vinil Virtual<\/em>, tem uma parte de <em>Am\u00e9rica do amor<\/em> e <em>Antropof\u00e1gicos S\u00e3o Paulistanos<\/em> que falo \u201ctua comida comi\/ tua l\u00edngua aprendi\u201d, e \u201ctudo que comi\/ tudo que bebi \u00e9 meu. Tudo que engoli sou eu\/ o que \u00e9 brasileiro ou estrangeiro \u00e9 meu\u201d no sentido de que eu posso me apropriar de qualquer coisa. N\u00f3s brasileiros somos assim. Vivemos em um Pa\u00eds imigrante de muitas consci\u00eancias culturais. O Nordeste \u00e9 a mulher do Brasil. \u00c9 a m\u00e3e. \u00c9 o inconsciente. \u00c9 quem mant\u00e9m a consci\u00eancia da gente. E as cidades grandes v\u00e3o tirando isso. O Brasil precisa muito de arte neste momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Daniela &#8211; Porque est\u00e1 muito triste. O Brasil t\u00e1 sombrio, atrapalhado. Atrapalharam a nossa vida, a gente n\u00e3o consegue mais trabalhar. Somos assaltados todo dia com not\u00edcias desagrad\u00e1veis. Isso tira a nossa f\u00e9. \u00c9 um freio para quem tava voando. A gente tava voando e nos derrubaram. Uma gera\u00e7\u00e3o como a minha que j\u00e1 passou por tantos perrengues, que passou inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia na ditadura, com infla\u00e7\u00e3o, a gente estava insatisfeito. A gente queria andar. Estamos tirando a sujeira de baixo do tapete e pensando como seguir de maneira mais verdadeira. O brasileiro precisa parar de tentar esconder as coisas, jogar seus direitos na cara, ser honesto, ser direto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Voc\u00ea sempre foi engajada em movimentos da sociedade. Este envolvimento \u00e9 necess\u00e1rio para o artista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Daniela &#8211; Eu n\u00e3o sou engajada, n\u00e3o. Eu sou o movimento. Eu sou formadora de opini\u00e3o. Eu sou artista e \u00e9 artista que faz o movimento. Voc\u00ea v\u00ea Caetano e Gil na Tropic\u00e1lia: eu oriento o Carnaval! Eu tamb\u00e9m t\u00f4 neste lugar de criadora. Eu estou no lugar da confus\u00e3o. No lugar de quem pensa, de quem se manifesta, de quem faz as pessoas refletirem, de quem tira a popula\u00e7\u00e3o do conforto, de quem cutuca. Eu tamb\u00e9m estou no lugar de quem faz sorrir quando tenho que estar, no lugar de quem abra\u00e7a e acolhe. O meu lugar n\u00e3o \u00e9 o de \u201cMaria vai com as outras\u201d. Eu sou a Maria que leva as outras, mesmo que isso custe a incompreens\u00e3o de muita gente. \u00c9 o jeito mesmo de lidar com a vida. Eu nasci ouvindo \u201c\u00e9 proibido proibir\u201d, sou filha de quem mandou ir na contram\u00e3o. A gente t\u00e1 sempre na contram\u00e3o do sistema, dos governos. N\u00f3s temos que estar no papel de criador, interventor. Foi preciso sair algu\u00e9m da lideran\u00e7a pra gente perceber onde \u00e9 que t\u00e1 a lideran\u00e7a. Quando temos um presidente ileg\u00edtimo, n\u00e3o temos representa\u00e7\u00e3o. Quando a gente acha que j\u00e1 fez o suficiente \u00e9 ruim. O Brasil tem pressa. N\u00e3o podemos deixar para os outros. Temos que ocupar este lugar de uma vez por todas. Nordestino sabe muito bem o que \u00e9 isso porque a gente vive com muito menos. Na democracia, estamos sempre com a migalha. A vida dentro do sistema capitalista \u00e9 muito mais dif\u00edcil. O brasileiro ainda n\u00e3o decidiu se \u00e9 socialista, capitalista ou se \u00e9 simplesmente cat\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Seu show \u00e9 pol\u00edtico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Daniela &#8211; O amor \u00e9 o maior ato pol\u00edtico que a gente tem pelo Pa\u00eds. A arte \u00e9 amor, \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o humana. O amor nos humaniza, personifica tudo. Ent\u00e3o, no momento em que a gente consegue efetivamente ser sincero na arte, nos reiteramos como pessoas culturais e pensantes. Isso j\u00e1 bastaria. Meus artistas s\u00e3o nobres vagabundos deste Pa\u00eds. Quem acha que o artista \u00e9 vagabundo, est\u00e1 certo. Porque artistas s\u00e3o livres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Mercury conhece a import\u00e2ncia da pr\u00f3pria hist\u00f3ria para a m\u00fasica brasileira. 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