{"id":4468,"date":"2017-09-20T10:49:10","date_gmt":"2017-09-20T13:49:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/?p=4468"},"modified":"2017-09-20T10:49:10","modified_gmt":"2017-09-20T13:49:10","slug":"memorias-a-mesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2017\/09\/20\/memorias-a-mesa\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias \u00e0 mesa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-4469 aligncenter\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/09\/Mem\u00f3rias-a-mesa-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"435\" height=\"290\" \/><\/p>\n<p>Recentemente li o livro \u201cEscola dos Sabores\u201d, de Erica Bauermeister. Ganhei de anivers\u00e1rio h\u00e1 pelo menos tr\u00eas anos. Estava ali, perdido na prateleira. Resgatei o presente sem pretens\u00e3o, mas a hist\u00f3ria foi me inundando de lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>A obra conta a trajet\u00f3ria de oito alunos que iniciam um curso de culin\u00e1ria no restaurante da protagonista Lilian. Uma mulher que, ainda crian\u00e7a, aprendeu a cozinhar como forma de resgatar a m\u00e3e depressiva devido \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do marido. O amor pela culin\u00e1ria fez Lilian descobrir mais. A chef percebeu que a comida pode curar o emocional das pessoas. Para mim, a leitura acabou se transformando em um enredo cativante e um percurso pelos meus afetos.<\/p>\n<p>Cada cap\u00edtulo vai desvendando os caminhos dos personagens e trazendo receitas e mem\u00f3rias. \u00c9 bem a\u00ed que a gente se flagra nas pr\u00f3prias recorda\u00e7\u00f5es, aquelas que passam pelo est\u00f4mago e impregnam o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fui levada aos per\u00edodos da inf\u00e2ncia, quando comi pela primeira vez pudim. Minha m\u00e3e abre a geladeira e diz &#8220;prova aqui&#8221;, oferecendo uma colher com um peda\u00e7o da iguaria. A mem\u00f3ria vem doce, com um misto de estranheza infantil pela textura mole que derretia gelada na boca.<\/p>\n<p>Sigo ent\u00e3o para os bolos de Coca-Cola, receita que aprendi vendo minha m\u00e3e batendo a massa na forma que era da minha bisav\u00f3. Uma travessa azul de cer\u00e2mica bem pesada, com o fundo gasto pelas colheres de madeira. A m\u00e3o girando ao misturar ovos, manteiga, farinha, sem saber ainda o que era uma batedeira. Cresci com bolo batidos \u00e0 m\u00e3o. Primeiro minha av\u00f3 com seu Lu\u00eds Felipe (o preferido dela), depois minha m\u00e3e e sua massa de Coca-Cola e, por fim, eu e os adorados bolos de chocolate.<\/p>\n<p>Da inf\u00e2ncia lembro principalmente das receitas doces, do pav\u00ea com biscoito champanhe, do doce de mam\u00e3o (inigual\u00e1vel) da Av\u00f3, do sorvete de abacate&#8230; E tamb\u00e9m dos per\u00edodos festivos.<\/p>\n<p>No livro, os alunos aprendem a saborear o significado do Dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as, cozinhando lentamente os pratos. L\u00e1 em casa, recordo os in\u00fameros natais, nos quais a ceia da meia noite era preparada durante todo o dia 24 de dezembro. O peru, que gastava quase um botij\u00e3o de g\u00e1s esperando o term\u00f4metro pular para fora ao indicar o fim do cozimento; a farofa temperada com os mi\u00fados da ave; o arroz branco soltinho decorado com passas e ervilha; a salada de batatas, cenoura, azeitona e maionese. E a sobremesa? Parecia obra de arte! Um mosaico de gelatinas multicores, cortadas em pequenos cubinhos e misturadas com leite condensado. Coisa de artista, coisa de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Seguindo na leitura, surge uma mem\u00f3ria especial. A feitura do caf\u00e9 da tarde! Uma cena que ainda parece poesia para mim, na minha casa e nos lares que visito. Todo santo dia, no meio de tarde, vejo minha av\u00f3 encostada na pia, a fuma\u00e7a subindo enquanto coava o caf\u00e9 no pano. O cheiro inundando a cozinha, a casa, a alma. \u00c9 de uma beleza singela que s\u00f3 os amantes do caf\u00e9 conseguem dimensionar.\u00a0\u00c9 atemporal.<\/p>\n<p>Olhando assim, nossa vida passa mesmo pelas mem\u00f3rias do est\u00f4mago, essa escola de sabores e afetos. Cresci com minha av\u00f3 colocando a mesa para comermos juntas, mesmo que s\u00f3 eu e ela, \u00e0s vezes n\u00f3s duas e meu primo, outras com alguma visita. Considero ainda m\u00e1gico o ato de p\u00f4r a mesa, dedicando tempo para uma refei\u00e7\u00e3o conjunta. Um h\u00e1bito que tem escasseado. Uma pena&#8230;<\/p>\n<p>O tempo moderno deixou as refei\u00e7\u00f5es mais r\u00e1pidas, autom\u00e1ticas e, muitas vezes, solit\u00e1rias. Comemos resolvendo problemas, engolimos enquanto trabalhamos, damos uma garfada de olho no rel\u00f3gio. Nem lembramos mais do card\u00e1pio, das hist\u00f3rias que v\u00eam junto com a prepara\u00e7\u00e3o dos pratos. Se antes colecion\u00e1vamos hist\u00f3rias, hoje nos falta mem\u00f3rias \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Por isso, defendo que, pelo menos uma vez ao m\u00eas, tenhamos aquele tempinho para uma mesa posta, para conversa jogada fora e talheres dispostos sem pressa. Uma mesa de caf\u00e9, almo\u00e7o, ou ainda um simples jantar com sopa. Ah, sopa! Outra boa recorda\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 na mesa que mastigamos as hist\u00f3rias que cabem no peito, dividimos nossas mem\u00f3rias e bebemos o sumo de uma vida simples e preciosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente li o livro \u201cEscola dos Sabores\u201d, de Erica Bauermeister. Ganhei de anivers\u00e1rio h\u00e1 pelo menos tr\u00eas anos. Estava ali, perdido na prateleira. 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