{"id":4995,"date":"2017-01-20T12:39:18","date_gmt":"2017-01-20T15:39:18","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/?p=3576"},"modified":"2017-01-20T12:39:18","modified_gmt":"2017-01-20T15:39:18","slug":"de-maos-dadas-com-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2017\/01\/20\/de-maos-dadas-com-o-amor\/","title":{"rendered":"De M\u00e3os Dadas com o Amor"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3578\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/01\/maos-dadas-3-300x150.png\" alt=\"De M\u00e3os Dadas com o Amor\" width=\"338\" height=\"169\" \/><\/p>\n<p>Dezembro passado, vi dois rapazes andando de m\u00e3os dadas pela cal\u00e7ada de uma avenida\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 movimentada da cidade. Era tardinha e a cena natural me lembrou da felicidade em assumir quem somos, quem amamos, a despeito do que os outros desejam escolher por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Viajo de r\u00e9veillon para o Uruguai e andar de m\u00e3os dadas com meu esposo atrai olhares. No in\u00edcio n\u00e3o reparei, mas ele comentou e ajustei a aten\u00e7\u00e3o. Era fato, as pessoas espiavam nossos dedos entrela\u00e7ados. Olhavam com estranheza. E estranhamento \u00e9 o que fui sentindo por dentro. Ser\u00e1 que est\u00e1vamos perturbando algum h\u00e1bito local?<\/p>\n<p>Em terras estrangeiras, me vi questionada diante de um ato t\u00e3o costumeiro (ou ser\u00e1 brasileiro?) &#8211; dar a m\u00e3o a quem amamos. Nesse mesmo pa\u00eds, onde \u00e9 comum os homens se cumprimentaram com dois beijinhos no rosto (vi homens beijarem homens e apenas sorrirem para a mulher), acharam curioso um casal caminhar de m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>Em Montevideu, onde tamb\u00e9m n\u00e3o vi pelas &#8220;calles&#8221; pessoas LGBT, um motorista nos alertou, &#8220;n\u00e3o \u00e9 visto com bons olhos&#8221;. Ao que respondemos, &#8220;mas aqui homens se beijam no rosto com naturalidade&#8230;&#8221;. Ouvimos: &#8220;Sim, beijam amigos. Mas se quiser ser outra coisa, precisa ir para fora do pa\u00eds, porque aqui o preconceito social \u00e9 grande&#8221;.<\/p>\n<p>Curioso, no Brasil n\u00e3o \u00e9 comum homem beijar amigo homem no rosto (h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es e costumes particulares \u00e9 verdade), mas os casais podem andar de m\u00e3os dadas (ainda podem?). E no Uruguai homem beija amigo, mas n\u00e3o se d\u00e1 a m\u00e3o para o amor. O que h\u00e1 de comum, infelizmente, \u00e9 o preconceito, mais ou menos velado de ambos os pa\u00edses. E a viol\u00eancia, essa est\u00e1 pela hora da morte no Brasil. Enquanto isso, s\u00f3 queremos andar de m\u00e3os dadas (casais, crian\u00e7as, amigos); que sufoco!<\/p>\n<p>Recordo agora passagem do livro da Martha Medeiros que me acompanhou nessa jornada &#8211; &#8220;Um Lugar na Janela 2 &#8211; Relatos de Viagem&#8221; \u2013 Ela diz: &#8220;Viajar \u00e9 apenas o tubo de oxig\u00eanio que nos permite mergulhar na nossa estranheza e inseguran\u00e7a, que nos obriga a lidar com a dificuldade de se expressar em outro idioma diferente e nos faz encontrar outros meios para nos traduzirmos (&#8230;) que nos faz compreender que h\u00e1 outros jeitos de cumprimentar as pessoas (&#8230;) outros deuses, outros modos de se vestir, outros sorrisos, outros ritmos &#8211; e essa incr\u00edvel universalidade aniquila nossa soberba e desperta insuspeitas virgindades em n\u00f3s, o que \u00e9 sempre rejuvenescedor.&#8221;<\/p>\n<p>Eu ali, no Uruguai, tentei traduzir esse outro meio de cumprimentar as pessoas, de expressar o amor, e me senti intrigada; recordei os rapazes de m\u00e3os dadas pelas ruas de Fortaleza. Ser\u00e1 que se sentiam estranhos \u00e0quela tarde, onde eu passava de carro e os avistei, quando nunca ir\u00e3o ouvir falar sobre mim? Davam as m\u00e3os, mas por dentro rangia o questionamento sobre seu direito de amar, de demonstrar afeto? Caminhavam rumo ao direito de ser quem s\u00e3o? J\u00e1 haviam atravessado o trecho escuro do medo?<\/p>\n<p>Latinos, n\u00f3s (brasileiros, uruguaios e tantos mais), de sentimentos t\u00e3o aflorados, mas ainda controversos em nossas demonstra\u00e7\u00f5es de amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dezembro passado, vi dois rapazes andando de m\u00e3os dadas pela cal\u00e7ada de uma avenida\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 movimentada da cidade. 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