{"id":5298,"date":"2018-01-20T15:44:53","date_gmt":"2018-01-20T18:44:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/?p=5138"},"modified":"2018-01-20T15:44:53","modified_gmt":"2018-01-20T18:44:53","slug":"bom-dia-com-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2018\/01\/20\/bom-dia-com-poesia\/","title":{"rendered":"Bom dia com Poesia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5139 alignnone\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/01\/Bom-dia-com-poesia-624x418.jpg\" alt=\"\" width=\"507\" height=\"340\" \/><\/p>\n<p>Um amigo iniciou um projeto muito interessante. \u201cFiz uma sele\u00e7\u00e3o de 30 poemas que gosto muito e decidi compartilhar com voc\u00eas\u201d, comunicou ele pelo WhatsApp, meio pelo qual come\u00e7ou a enviar \u00e1udios com poemas recitados. As mensagens come\u00e7aram em 11 de janeiro e, desde ent\u00e3o, tem sido um encantamento acordar ouvindo tamanha arte. O dia inicia com felicidade e um sorriso f\u00e1cil. E a interpreta\u00e7\u00e3o dele, que al\u00e9m de professor \u00e9 ator, d\u00e1 outra vida ao texto. O bom dia com poesia traz o magnetismo das palavras lidas.<\/p>\n<p>Na quinta, ouvi \u201cMat\u00e9ria de poesia\u201d, de Manoel de Barros. \u201cTodas as coisas que podem ser disputadas no cuspe e \u00e0 dist\u00e2ncia, servem para a poesia\u201d, ressoa na voz do meu amigo. \u201cTudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que voc\u00ea n\u00e3o pode vender no mercado como, por exemplo, o cora\u00e7\u00e3o verde dos p\u00e1ssaros, serve para poesia\u201d.<\/p>\n<p>Manoel, e meu amigo, vieram \u00e0quele dia me lembrar de perceber o belo nas banalidades e desimport\u00e2ncias. Manoel me descontr\u00f3i. Meu amigo me inspira. Eu, que fico a pensar sobre utilidade, sobre o prop\u00f3sito de tudo, n\u00e3o passo inc\u00f3lume ao poema, aos dizeres simples de uma profundidade visceral. E reparo na flor, no lixo, nos fios soltos quebrando a paisagem que n\u00e3o precisa de conserto. Sigo na quinta buscando o ordin\u00e1rio, minha mat\u00e9ria de poesia.<\/p>\n<p>Na sexta, o amigo recitou \u201cTodas as vidas\u201d, de Cora Coralina. \u201cVive dentro de mim a mulher do povo. Bem prolet\u00e1ria. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada\u201d. Fui ao trabalho ouvindo sobre aquelas in\u00fameras mulheres que habitam em mim, em n\u00f3s, em todas. A contida, a esperan\u00e7osa, a algoz, a destemperada, a cheia de planos, a obcecada, e quantas mais podemos encher nosso guarda-roupa, guarda-vidas, guarda-vestes.<\/p>\n<p>\u201cTodas as vidas dentro de mim: Na minha vida \u2013 a vida mera das obscuras\u201d, conclui Cora, colocando retic\u00eancias por dentro. N\u00e3o dou conta de quantas somos, nessa esquizofrenia harm\u00f4nica de quem vive recome\u00e7os. Cora vem bagun\u00e7ar as perucas, os acess\u00f3rios, dizendo que h\u00e1 mais, h\u00e1 muitas, h\u00e1 milhares sem vida escrita e sem prescri\u00e7\u00e3o. Somos as mulheres que queremos ser, por ora.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, escutei o trecho de \u201cO Guardador de Rebanhos\u201d de Alberto Caeiro, um dos heter\u00f4nimos de Fernando Pessoa. O poema fala sobre o \u201cMenino Jesus verdadeiro\u201d. \u201cTinha fugido do c\u00e9u, era nosso demais para fingir de segunda pessoa da Trindade. No c\u00e9u era tudo falso, tudo em desacordo, com flores e \u00e1rvores e pedras. No c\u00e9u tinha que estar sempre s\u00e9rio. E de vez em quando de se tornar outra vez homem\u201d.<\/p>\n<p>Penso sobre o divino que procuramos fora, dentro, nos outros. Nos padr\u00f5es que projetamos e sobre essa mania de classificar as coisas em gavetas. Uma seriedade chata ao inv\u00e9s da vida com leveza. Mas toda seriedade \u00e9 chata? N\u00e3o sei. Parece que a maioria pende para esse vi\u00e9s. Por\u00e9m, se at\u00e9 o \u201cmenino santo\u201d de Caieiro foi atr\u00e1s do riso, por que n\u00f3s mortais ainda n\u00e3o superamos a busca por genialidade?<\/p>\n<p>Nessas oitivas do meu amigo, trago sempre \u00e0 mem\u00f3ria a primeira vez que escutei versos lidos. Foi com Beth\u00e2nia declamando \u201cTodas as cartas de amor s\u00e3o rid\u00edculas\u201d, no CD Imita\u00e7\u00e3o da Vida (1997). O poema de \u00c1lvaro de Campos, outro heter\u00f4nimo de Pessoa, diz: \u201cAs cartas de amor, se h\u00e1 amor, t\u00eam de ser rid\u00edculas. Mas, afinal, s\u00f3 as criaturas que nunca escreveram cartas de amor, \u00e9 que s\u00e3o rid\u00edculas\u201d. A inigual\u00e1vel vers\u00e3o de Beth\u00e2nia deixou rastros.<\/p>\n<p>Ouvir poesia \u00e9 para mim uma experi\u00eancia sensorial. Vibra as entranhas, causa arrepios, permite incompreens\u00e3o. O amigo, que pelas manh\u00e3s tem compartilhado os gostos liter\u00e1rios comigo, vem me estimulando o encantamento. Desde ent\u00e3o, \u201cas coisas que n\u00e3o levam a nada t\u00eam grande import\u00e2ncia\u201d, como prescreve Manoel de Barros. E a poesia tem sido essa p\u00edlula di\u00e1ria para enxergar mais a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amigo iniciou um projeto muito interessante. \u201cFiz uma sele\u00e7\u00e3o de 30 poemas que gosto muito e decidi compartilhar com voc\u00eas\u201d, comunicou ele pelo WhatsApp,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":115,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[203,205],"tags":[1368,1369,1370,1371,1372,518,1373],"class_list":["post-5298","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-coluna","category-cristina-fontenele","tag-alberto-caeiro","tag-alvaro-de-campos","tag-cora-coralina","tag-fernando-pessoa","tag-manoel-de-barros","tag-maria-bethania","tag-poesia"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5298","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/users\/115"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5298"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5298\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5298"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}