{"id":6037,"date":"2018-03-09T14:17:02","date_gmt":"2018-03-09T17:17:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/?p=6037"},"modified":"2018-03-09T14:17:02","modified_gmt":"2018-03-09T17:17:02","slug":"conheca-daniel-ganjaman-o-homem-por-tras-dos-discos-de-criolo-sabotage-e-baianasystem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2018\/03\/09\/conheca-daniel-ganjaman-o-homem-por-tras-dos-discos-de-criolo-sabotage-e-baianasystem\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a Daniel Ganjaman, o homem por tr\u00e1s dos discos de Criolo, Sabotage e BaianaSystem"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fotos: Aur\u00e9lio Alves\/Especial para O POVO<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-6038\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/daniel-ganjaman-aur\u00e9lio-alves-740x493.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"493\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Daniel Ganjaman<\/strong> vai direto ao ponto. Seja no discurso afiado e atento \u00e0s din\u00e2micas que movem o Pa\u00eds, seja em seu trabalho na m\u00fasica. Nascido Daniel Sanches Takara, em S\u00e3o Paulo, o produtor de 39 anos tem alguns dos mais relevantes \u00e1lbuns da atualidade sob seu guarda-chuva, de <strong>Sabotage<\/strong> a <strong>BaianaSystem<\/strong>, sendo determinante na discografia do cantor e compositor <strong>Criolo<\/strong>. O paulistano, que tamb\u00e9m j\u00e1 produziu Momboj\u00f3 e Na\u00e7\u00e3o Zumbi, se prepara para trabalhar com o <em>rapper<\/em> ingl\u00eas <strong>Jevon<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Apaixonado pela m\u00fasica de <strong>Don L<\/strong> e <strong>Fernando Catatau<\/strong>, encontrou na cena local uma fonte de arte aut\u00eantica e musicalidade plural. E, no novo cen\u00e1rio, o ressurgir do compositor cearense. Ganja, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasico e engenheiro musical, esteve em Fortaleza na \u00faltima semana como um dos produtores e curadores do projeto P<strong>orto Drag\u00e3o Sessions<\/strong>. Ao <strong>Blog<\/strong>, ele fala sobre a m\u00fasica do Cear\u00e1, o fazer art\u00edstico no Brasil, pol\u00edtica e futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Voc\u00ea est\u00e1 na produ\u00e7\u00e3o do Porto Drag\u00e3o Sessions. Como est\u00e1 sendo esse processo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tenho j\u00e1 uma proximidade com artistas daqui que acho que veio em decorr\u00eancia da migra\u00e7\u00e3o de alguns m\u00fasicos pra S\u00e3o Paulo. Foi a\u00ed que eu comecei a ter um contato um pouco mais direto com o Fernando Catatau, o pr\u00f3prio Don L tamb\u00e9m. O come\u00e7o de tudo foi muito em fun\u00e7\u00e3o do Catatau e o pessoal do <strong>Cidad\u00e3o instigado<\/strong>, n\u00e9? Ent\u00e3o a cena daqui n\u00e3o \u00e9 exatamente novidade pra mim, mas \u00e9 \u00f3bvio que vindo pra c\u00e1, ficando mais tempo, consigo estar em contato com o que acontece de mais interessante na m\u00fasica cearense. T\u00e1 sendo uma experi\u00eancia incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No processo de sele\u00e7\u00e3o dos contemplados, eu e os outros curadores, ouvimos umas 140 bandas. O que impressionou todo mundo foi a quantidade de material de qualidade, de fato relevante.\u00a0Vivenciar isso aqui acaba sendo algo muito especial porque voc\u00ea n\u00e3o tem um contato \u00fanico com a m\u00fasica, n\u00e9? Vai muito al\u00e9m, uma coisa da atmosfera da cidade. Tudo isso influencia no que \u00e9 o resultado, no trabalho de cada artista singularmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Voc\u00ea consegue identificar um pouco do cheiro, do sotaque, do gosto, da cor, do calor, entendeu? Da praia. Tudo isso \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o que faz com que a m\u00fasica acabe tendo uma identidade muito forte, apesar de ser uma cena extremamente plural.\u00a0O Cear\u00e1 \u00e9 muito conhecido por ser celeiro de grandes instrumentistas e de compositores tamb\u00e9m da velha guarda. Agora voc\u00ea v\u00ea que isso resultou numa cena extremamente plural que eu to tendo a honra de estar inserido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Algu\u00e9m espec\u00edfico te chamou mais aten\u00e7\u00e3o nesse processo de curadoria?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Algu\u00e9m espec\u00edfico eu estaria sendo injusto. O <strong>Projeto Rivera<\/strong> eu j\u00e1 conhecia. Conheci quando fui fazer a curadoria do Festival de Ibiapaba. Fiquei muito impressionado n\u00e3o s\u00f3 pelo trabalho, mas tamb\u00e9m pela for\u00e7a de fazer a coisa acontecer. A organiza\u00e7\u00e3o deles como um time pra colocar aquilo pra andar. Isso foi muito impressionante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dos que eu n\u00e3o conhecia, me chamou muita aten\u00e7\u00e3o <strong>Casa de Velho<\/strong>. Achei incr\u00edvel. Os outros todos que foram selecionados, acho que a grande maioria eu j\u00e1 tinha tido contato de uma forma ou de outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/2018\/03\/05\/projeto-rivera-conta-como-foi-trabalhar-com-daniel-ganjaman-produtor-do-criolo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Projeto Rivera conta como foi trabalhar com Daniel Ganjaman<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O LPO, que tamb\u00e9m foi selecionado, \u00e9 de Sobral e t\u00e1 fora desse centro de artistas mais conhecidos do Cear\u00e1. \u00c9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de dar protagonismo a quem ainda n\u00e3o estava nesse eixo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-6040 size-medium\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/Ganjaman-est\u00fadio-Aur\u00e9lio-Alves-300x450.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" \/>Parte desse projeto tem tamb\u00e9m esse car\u00e1ter. Acho que sempre o crit\u00e9rio, seja ele qual for, vai ser subjetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No caso do LPO, teve uma coisa da gente ouvir e dizer: &#8220;Isso aqui \u00e9 muito interessante&#8221;. \u00c9 um menino que tem um lance acontecendo, musicalmente falando, ele t\u00e1 antenado com o que t\u00e1 rolando. \u00c9 important\u00edssimo dentro desse projeto ter artistas consagrados e que est\u00e3o chegando. Com a proje\u00e7\u00e3o que acredito que vai ter, cada um acaba puxando o outro. Algu\u00e9m que vai atr\u00e1s de ouvir <a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/2017\/09\/11\/faixa-faixa-projeto-rivera-comenta-disco-de-estreia-eu-vim-te-trazer-o-sol\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rivera<\/a>, <a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/2017\/08\/25\/faixa-faixa-selvagens-procura-de-lei-comenta-o-album-aprendendo-mentir\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Selvagens (\u00e0 Procura de Lei)<\/a> ou Daniel Groove, acaba batendo no LPO e curtindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>E como voc\u00ea enxerga a cena cearense?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Extremamente plural. \u00c9 uma cena bastante jovem, muita novidade. Voc\u00ea v\u00ea que t\u00e1 todo mundo muito antenado com o que t\u00e1 rolando. Ao mesmo tempo que tem essa pluralidade toda, cai numa identidade que n\u00e3o \u00e9 exatamente um ritmo, uma tem\u00e1tica de letra. \u00c9 uma coisa muito sutil, mas que tem uma caracter\u00edstica que \u00e9 reconhec\u00edvel em todas as bandas. Nem sei dizer ainda o que \u00e9, talvez no decorrer do processo todo eu consiga sintetizar isso melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Voc\u00ea sente que tem uma coisa muito cearense, que \u00e9 muito diferente de Recife, Salvador, que \u00e9 muito diferente do Bel\u00e9m, do Brasil todo. Voc\u00ea sabe que tem cores a\u00ed que s\u00e3o muito exclusivas. Est\u00e9ticas, atmosferas musicais, s\u00e3o muito exclusivas de cada lugar e o Cear\u00e1 tem isso um pouco impresso. \u00c9 uma coisa de valoriza\u00e7\u00e3o, da onda do compositor. Algo que ficou muito esquecido no final dos anos 1990, come\u00e7o dos anos 2000. Ficou tudo muito baseado no groove, na sonoridade, na est\u00e9tica sonora, e a composi\u00e7\u00e3o ficou um pouco e lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Quem do Cear\u00e1 voc\u00ea escuta e est\u00e1 sempre no seu radar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Don L, sou muito f\u00e3 dele. \u00c9, na minha opini\u00e3o, um dos melhores rappers do Brasil. O Cidad\u00e3o Instigado sou suspeito pra falar porque quando eu conheci, fui apresentar pro Rica e pro Tejo que eram meus companheiros no Instituto l\u00e1 em S\u00e3o Paulo, pra gente lan\u00e7ar o disco deles pelo nosso selo. Falei: &#8220;Isso aqui \u00e9 a melhor parada que t\u00e1 acontecendo na m\u00fasica atualmente&#8221;. Sou super f\u00e3. Acho o Catatau um dos melhores guitarristas do mundo, sacou? Ele \u00e9 incr\u00edvel! Gosto muito da linha de composi\u00e7\u00e3o, da autenticidade do trabalho. Quando conheci foi algo completamente inusitado, completamente diferente de tudo. Esses s\u00e3o os que tenho discos na minha cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos voc\u00ea produziu o disco do BaianaSystem, o \u00e1lbum p\u00f3stumo do Sabotage e o mergulho do Criolo no samba. De alguma forma, essa diversidade toda se conversa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como produtor, admiro muito produtores que conseguem passear por diferentes estilos sem necessariamente colocar algo que seja uma marca. \u00c9 engra\u00e7ado, n\u00e9? Porque hoje em dia, quando ou\u00e7o esses discos, eu consigo entender que eles t\u00eam algo em comum. Existe um lance que caracteriza uma produ\u00e7\u00e3o minha. \u00c0s vezes a pr\u00f3pria diversidade de estilos tem um pouco essa marca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu acho que o que tem de muito incomum entre esses trabalhos todos que voc\u00ea citou \u00e9 o jeito de trabalhar. \u00c9 o jeito de fazer m\u00fasica, de ir pra estrada, o jeito de divulgar, e dentro desse jeito eu coloco muita verdade. \u00c9 uma forma muito verdadeira, aut\u00eantica, de se movimentar. Esses artistas est\u00e3o entendendo que n\u00e3o existe mais uma cartilha a ser seguida e est\u00e3o entendendo cada um seu caminho, dando um passo de cada vez e crescendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O caso do BaianaSystem \u00e9 incr\u00edvel. O Baiana t\u00e1 abrindo portas pra toda uma cena de Salvador que t\u00e1 vindo tamb\u00e9m. Algo muito parecido com o que aconteceu com Recife. O Criolo quando chegou n\u00e3o era o momento que o rap estava muito em evid\u00eancia. E veio o <strong>Criolo<\/strong>, veio <strong>Emicida<\/strong>, veio <strong>Projota<\/strong>, veio <strong>Rashid<\/strong>. Existe uma movimenta\u00e7\u00e3o em torno desses artistas que obviamente tem a ver com a queda da grande ind\u00fastria e o emergir da ind\u00fastria independente, que tamb\u00e9m tem a ver com a Internet. \u00c9 toda essa discuss\u00e3o que faz com que as coisas tenham tomado uma \u00f3tima mais democr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Est\u00e1 mais f\u00e1cil hoje em dia de entender, o pr\u00f3prio p\u00fablico se conectar diretamente com o artista e entender se aquilo faz sentido pra ele ou n\u00e3o. Os interlocutores s\u00e3o cada dia menos necess\u00e1rios. As bandas est\u00e3o entendendo a forma de trabalhar, se adequando a isso e, de alguma forma, impondo seu jeito. E isso \u00e9 maravilhoso.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-6042\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/ganjaman-aur\u00e9lio-alves-740x493.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"493\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Quando conversei com o Criolo sobre o Espiral de Ilus\u00e3o, ele disse que o \u00e1lbum significa &#8220;se permitir a muita coisa&#8221;. Seu passeio nos g\u00eaneros t\u00eam um pouco disso tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No meu caso, como produtor, tenho que respeitar a verdade do artista. Para mim, o que \u00e9 o fator determinante se eu vou trabalhar com determinado artista \u00e9 se eu vou de fato contribuir. \u00c0s vezes, artistas que eu sou f\u00e3 me convidam e eu acabo negando por achar que n\u00e3o tenho como contribuir para aquele trabalho. Eu tenho um trip\u00e9 de pilares de sustenta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, est\u00e9tica e filos\u00f3fica que \u00e9 o <strong>punk<\/strong>, o <strong>skate<\/strong> e o <strong>rap<\/strong>. Foram tr\u00eas pontos que fizeram eu ser quem sou. O rap pelos samples de m\u00fasica cl\u00e1ssica ou oriental, indiana. O skate, se voc\u00ea pegar v\u00eddeos, existe todo um universo. O punk dialoga com os outros dois. Foi o que determinou como forma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo e abre espa\u00e7o pra todo esse passeio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/2017\/08\/25\/album-de-sambas-espiral-de-ilusao-e-sobre-se-permitir-diz-criolo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00c1lbum de sambas, \u2018Espiral de Ilus\u00e3o\u2019 \u00e9 sobre se permitir, diz Criolo<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>H\u00e1 pouco mais de cinco meses tramitava uma lei de criminaliza\u00e7\u00e3o do funk. O que esse tipo de ofensiva representa para quem produz m\u00fasica no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 a s\u00edntese do que a gente t\u00e1 vivendo nesse momento, um retrocesso galopante e perda de direitos fundamentais. Isso caracteriza censura. Vamos discutir qual \u00e9 a problem\u00e1tico em torno do funk? Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia, do olhar pedag\u00f3gico, vai achar do caralho o que t\u00e1 sendo dito em algumas m\u00fasicas. Mas voc\u00ea tem que entender o que est\u00e1 acontecendo, sabe? Esse \u00e9 o problema do Brasil atualmente, tentar cortar as coisas pelas beirada. Voc\u00ea n\u00e3o vai na espinha dorsal do problema, da problem\u00e1tica do Brasil. Que \u00e9 <strong>educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, direitos b\u00e1sicos que estamos perdendo<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 muito f\u00e1cil tratar as coisas assim. Voc\u00ea elimina os direitos b\u00e1sicos e come\u00e7a a ludibriar as pessoas para elas acharem que os problemas s\u00e3o as consequ\u00eancias. E as consequ\u00eancias s\u00e3o apenas consequ\u00eancias. Acho uma ideia absurda. At\u00e9 porque voc\u00ea nunca vai conseguir proibir de fato que a m\u00fasica deixe de ser produzida. \u00c9 uma ideia retr\u00f3grada, autorit\u00e1ria, diferente de tudo o que caminhou nos \u00faltimos anos. \u00c9 reflexo do retrocesso que a gente vive no Brasil e no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A m\u00fasica brasileira j\u00e1 teve um fator revolucion\u00e1rio, principalmente entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1980. H\u00e1 algum resqu\u00edcio disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Acho que a gente t\u00e1 prestes a viver um momento muito parecido por conta de tudo isso que a gente falou. Nos momentos de crise pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e filos\u00f3fica, s\u00e3o os momentos em que a arte se alimenta muito disso pra se recriar e servir como combust\u00edvel de contesta\u00e7\u00e3o para esse momento. Eu acredito que vamos viver isso agora, e vamos passar um per\u00edodo de m\u00e9dio a longo prazo em que talvez isso venha a ser a t\u00f4nica do momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Voc\u00ea tem um discurso pol\u00edtico contundente e estamos em ano de elei\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea enxerga esse momento que o Pa\u00eds atravessa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vejo como talvez o momento pol\u00edtico mais intenso, ca\u00f3tico e perigoso que a gente j\u00e1 passou na hist\u00f3ria desse Pa\u00eds. Tem uma s\u00e9rie de acontecimentos nos \u00faltimos tempos que est\u00e3o quase servindo como um aval para uma ala de pol\u00edticos brancos, homens, velhos, ricos e estabelecidos dentro de carreira pol\u00edtica no Brasil, fazerem o que bem entendem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando voc\u00ea consegue impedir uma presidente eleita sem que haja um crime de fato de responsabilidade; quando voc\u00ea impedir a candidatura do favorito numa corrida eleitoral por meio de um processo absolutamente question\u00e1vel; isso \u00e9 golpe, sacou? <strong>A gente t\u00e1 vivendo um golpe. E golpe n\u00e3o acontece de um dia para o outro.<\/strong> Em 1964 n\u00e3o acordaram um dia e falaram: \u201c\u00e9 golpe, virou ditadura militar\u201d. Essas coisas v\u00e3o acontecendo gradualmente. A gente t\u00e1 vivendo esse momento que \u00e9 extremamente perigoso, inclusive em fun\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as do que tinha naquele momento. Em 64 voc\u00ea n\u00e3o tinha muita possibilidade de propagar as informa\u00e7\u00f5es como hoje.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-6043\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/daniel-ganjaman-o-povo-online-740x493.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"493\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Estou esperando acontecer uma revolta gigantesca porque eu acho que o povo brasileiro anda muito passivo<\/strong>. Acho que o problema na verdade \u00e9 esse, tem uma passividade enorme frente a absurdos. E acho que a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 manipulada num grau a ser estudado, porque n\u00e3o tem como isso. Se voc\u00ea conseguir explicar at\u00e9 para um eleitor do (deputado, Jair) Bolsonaro o que est\u00e1 acontecendo, ele vai ver que \u00e9 um absurdo. O problema na verdade t\u00e1 sendo isso: <strong>as pessoas est\u00e3o cegas, surdas e loucas<\/strong>. As pessoas n\u00e3o conseguem se dar conta do que est\u00e1 acontecendo por conta da manipula\u00e7\u00e3o do interesse de poucos em detrimento da mis\u00e9ria de muitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>No meio disso tudo tem as redes sociais que acabam polarizando um pouco os debates. No ano passado, voc\u00ea publicou que estava saindo do Facebook, no seu perfil pessoal, afirmando que a plataforma era &#8220;socialmente nociva&#8221;. Voc\u00ea ainda percebe as redes sociais dessa forma?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Acredito que o Facebook t\u00e1 perdendo espa\u00e7o muito por conta disso. Eu n\u00e3o sa\u00ed por completo para divulgar os meus trabalhos. Eu sa\u00ed como rede social pessoal, onde eu expunha muito das minhas convic\u00e7\u00f5es para os meus amigos pessoais, minha rede de, sei l\u00e1, 1.500 pessoas. Eu comecei a perceber que o algoritmo do Facebook que faz voc\u00ea estar majoritariamente em contato com as pessoas da qual voc\u00ea est\u00e1 alinhado tem um papel muito nocivo porque faz com que voc\u00ea veja as diferen\u00e7as de uma forma muito radical, sendo que n\u00e3o \u00e9 esse o papo. Entendeu? Principalmente num momento de muita ilus\u00e3o, manipula\u00e7\u00e3o e ludibria\u00e7\u00e3o. A gente tem que entender que as diferen\u00e7as precisam ser debatidas para esclarecer o que est\u00e1 acontecendo, e o Facebook impede isso. Isso \u00e9 muito perigoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>De que forma esses debates pol\u00edticos atravessam seu trabalho musical?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Entendo pol\u00edtica desde a hora que eu acordo at\u00e9 a hora que eu vou dormir. Para mim, qualquer movimenta\u00e7\u00e3o que envolve o direito de ir e vir ou a minha liberdade, at\u00e9 onde vai a liberdade do pr\u00f3ximo, sabe? Esses clich\u00e9s que a gente entende como parte do conv\u00edvio social. Tudo isso fatalmente esbarra em rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Entendo que tudo que eu passo no dia a dia vai refletir no meu trabalho porque eu trabalho com arte. O meu trabalho vai ser influenciado at\u00e9 pela comida que eu como, at\u00e9 por um dia de praia, uma rela\u00e7\u00e3o pessoal mal resolvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A gente vive em um momento de uma t\u00f4nica pol\u00edtica muito forte. Eu entendo como sendo algo necess\u00e1rio nesse momento. Eu deixo de gostar de artistas dos quais eu vejo que politicamente divergem totalmente do que eu penso. N\u00e3o sei se \u00e9 um problema, n\u00e3o sei se \u00e9 uma qualidade. Ent\u00e3o estamos caminhando muito para esse momento. Cada dia mais voc\u00ea percebe que existem lados dessa hist\u00f3ria que politicamente chamam de direita e esquerda. Isso vai estar expl\u00edcito a cada dia que passa porque \u00e9 uma quest\u00e3o de interesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Tem uma palavra que t\u00e1 na minha cabe\u00e7a toda vez que eu tenho que analisar uma situa\u00e7\u00e3o da qual eu possa ter algum tipo de d\u00favida, que \u00e9 privil\u00e9gio<\/strong>. Acho que as pessoas precisam entender um pouco mais o que significa essa palavra e colocar isso como fator determinante das suas atitudes. Essa quest\u00e3o nunca foi t\u00e3o discutida no que se diz respeito a racismo, machismo, homofobia, transfobia. Todas essas quest\u00f5es esbarram no privil\u00e9gio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, que o Carnaval tomou uma propor\u00e7\u00e3o gigantesca, ouvi relatos de que foi muito mais tranquilo na quest\u00e3o de ass\u00e9dio porque isso est\u00e1 sendo discutido. Est\u00e1 escancarado. \u00c0s vezes at\u00e9 por motivos um pouco bagun\u00e7ados, mas est\u00e1 sendo falado. As pessoas est\u00e3o se aproveitando tamb\u00e9m desse discurso, mas est\u00e1 sendo discutido e isso \u00e9 positivo. <strong>Talvez n\u00f3s estejamos em um momento de plantio, de uma semente que vai ser fundamental pra daqui a 50 anos. Se n\u00e3o come\u00e7ar, a gente nunca vai chegar a lugar nenhum.<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-6046\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/entrevista-ganjaman-etc-o-povo-740x993.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"993\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fotos: Aur\u00e9lio Alves\/Especial para O POVO Daniel Ganjaman vai direto ao ponto. 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