{"id":6237,"date":"2018-03-20T21:10:24","date_gmt":"2018-03-21T00:10:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/?p=6237"},"modified":"2018-03-20T21:10:24","modified_gmt":"2018-03-21T00:10:24","slug":"chuva-de-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/2018\/03\/20\/chuva-de-memoria\/","title":{"rendered":"Chuva de mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-6240\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/foradaordem\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/reporterentrelinhas\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/woman-1807533_1920-300x182.jpg\" alt=\"\" width=\"371\" height=\"225\" \/><\/p>\n<p>Reza o ditado que o dia 19 de mar\u00e7o \u00e9 a esperan\u00e7a derradeira pelo inverno bom. N\u00e3o choveu neste feriado de S\u00e3o Jos\u00e9 em Fortaleza, mas teve aguaceiro de mem\u00f3ria pelas chuvas que passei.<\/p>\n<p>Umas das lembran\u00e7as que guardo com carinho s\u00e3o os banhos de chuva nas goteiras das telhas l\u00e1 de casa. Eu crian\u00e7a arrodeava o quintal no Parque Arax\u00e1 aos gritos de minha V\u00f3 anunciando que eu ia gripar. A \u00e1gua gelada, salobra, com gosto de terra que engrenhava os cabelos. Era o \u00e1pice da minha dana\u00e7\u00e3o, quando nem tinha tanto medo de rel\u00e2mpago.<\/p>\n<p>Numa madrugada em especial minha m\u00e3e decidiu se banhar na chuva. Fui atr\u00e1s das goteiras mais uma vez. Tremia os queixos, corria de ponta a outra na varanda de casa at\u00e9 o c\u00e9u dar tr\u00e9gua. Era uma chuva de crian\u00e7a, sem tempo, sem pressa, enquanto me sentia c\u00famplice de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Quando adolescente, as chuvas vinham em festas, colando a roupa no corpo, banhando os p\u00e9s cansados de dan\u00e7a. As sa\u00eddas viravam farra, os sapatos molhados ficavam imprest\u00e1veis, mas eram a marca incontest\u00e1vel da liberdade de virar a noite fora de casa.<\/p>\n<p>Um dos prazeres mundanos que ainda perdura \u00e9 ouvir a chuva l\u00e1 fora numa noite de cama quentinha. Ro\u00e7ar o p\u00e9 na colcha fria \u00e9 uma mania que nem todo mundo entende, mas uma sensa\u00e7\u00e3o de prazer que toma de conta. Inigual\u00e1vel. O barulho de \u00e1gua teimando fora de casa e voc\u00ea debaixo das cobertas com quem adora.<\/p>\n<p>No interior, a chuva e a falta dela tamb\u00e9m viram not\u00edcia. Basta um respingo para o mato tomar gra\u00e7a pelo verde. Vira esperan\u00e7a e fartura. Sobe aquele cheiro de terra molhada inconfund\u00edvel. Casamento da raposa que a gente cresce ouvindo. Aroma que chega antes mesmo dos pr\u00f3prios pingos, avisando que, logo logo, o c\u00e9u vai banhar o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>A gente vai crescendo e ficando com medo de chuva. Dizemos que atrapalha o correr da cidade no dia comum. Bagun\u00e7a os cabelos, adia os compromissos, dificulta o tr\u00e2nsito. Vira alagamento, tormenta, preocupa\u00e7\u00e3o. Tudo o mais fica lento com esse transbordar dos c\u00f3rregos indesejados.<\/p>\n<p>A \u00e1gua tem dessas coisas de revirar as mem\u00f3rias, de mexer com o previs\u00edvel, entranhar-se com a vida. Pinta um quadro bonito de ver, as gotas caindo do c\u00e9u, emba\u00e7ando os vidros, engrossando as po\u00e7as. \u00c1guas que v\u00eam a n\u00f3s sem pedir licen\u00e7a. Elas descem, derrubam, lavam, castigam, desprogramam, anunciam, festejam.<\/p>\n<p>S\u00e3o Jos\u00e9 agora s\u00f3 no pr\u00f3ximo ano. Os encontros com a chuva, por\u00e9m, continuar\u00e3o fortuitos, sem mandar aviso. Seguir\u00e3o driblando as predi\u00e7\u00f5es na terra do sol de ano inteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reza o ditado que o dia 19 de mar\u00e7o \u00e9 a esperan\u00e7a derradeira pelo inverno bom. 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