{"id":1056,"date":"2017-08-09T06:00:25","date_gmt":"2017-08-09T09:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1056"},"modified":"2017-08-09T06:00:25","modified_gmt":"2017-08-09T09:00:25","slug":"coluna-a-procura-da-poesia-doze-noturnos-da-holanda-de-cecilia-meireles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/08\/09\/coluna-a-procura-da-poesia-doze-noturnos-da-holanda-de-cecilia-meireles\/","title":{"rendered":"Coluna \u00c0 procura da poesia: Doze noturnos da Holanda, de Cec\u00edlia Meireles"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1057\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1057\" class=\"size-large wp-image-1057\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/cecilia-meireles-624x411.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"362\" \/><p id=\"caption-attachment-1057\" class=\"wp-caption-text\">Cec\u00edlia Meireles<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Por Talles Azigon (da p\u00e1gina Poesia Brasileira)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cOl\u00e1, menines\u2026\u201d Se essa <strong>coluna<\/strong> fosse um canal do youtube, certamente, iniciaria sempre dessa maneira. Amo youtube, amo essa possibilidade de falar diretamente com pessoas. Temos a leve impress\u00e3o de a youtuber estar falando diretamente conosco, somente conosco, quando muitas vezes sua audi\u00eancia pode ser de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>O livro de <strong>poemas<\/strong> \u00e9 bem parecido. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre de um a um, ou uma a um, ou um a uma, ou uma a uma. Geralmente, n\u00e3o temos mil personagens falando ou mil enredos. Um livro de <strong>poemas<\/strong> \u00e9 quase sempre um di\u00e1logo.<!--more--><\/p>\n<p>Em <em><strong>Doze noturnos da Holanda<\/strong><\/em>, a conversa \u00e9 sobre a noite, a bruma, a morte, o desbotamento, a n\u00e9voa, a escurid\u00e3o, o esmaecimento. Vamos esquecer a famosa <strong>Cec\u00edlia Meireles<\/strong> dos famosos poemas <strong>Motivo<\/strong>, <strong>Motivo da Rosa<\/strong>, <strong>Lua Adversa<\/strong>. Cec\u00edlia \u00e9 uma poeta t\u00e3o prof\u00edcua e diversa, escreveu obra t\u00e3o grandiosa, vasta, que chega ser uma injusti\u00e7a ficarmos com a <strong>Cec\u00edlia<\/strong> do jardim com flores.<\/p>\n<p><strong>Eu mesma n\u00e3o vejo quem sou, na alta noite,<\/strong><br \/>\n<strong>nem creio que SEJA: perduro em mem\u00f3ria,<\/strong><br \/>\n<strong>\u00e0 merc\u00ea dos ventos, das brumas nascidas<\/strong><br \/>\n<strong>nos dormentes lagos que ao luar se evaporam.<\/strong><\/p>\n<p>Nossa <strong>Cec\u00edlia<\/strong>, muito turista, foi fazer um <strong>rol\u00ea na Europa<\/strong>. Quando voltou publicou um livro \u00fanico, <em><strong>O Aeronauta<\/strong><\/em>, de duas partes, t\u00e3o distintas, que logo se partiram. A editora Global lan\u00e7ou os dois. Minha vers\u00e3o de<strong><em> Doze noturnos da Holanda<\/em><\/strong> \u00e9 de 2014 e ganhei (emprestada) do meu amigo &#8211; certamente um dos maiores colecionadores de livros de poemas do Cear\u00e1 &#8211; o tamb\u00e9m poeta Madjer de Souza Pontes. O <strong>livro<\/strong> \u00e9 bem fino, em cada <strong><em>Noturno<\/em><\/strong>, aparentemente, o tema \u00e9 o mesmo, por\u00e9m, conforme vamos nos acostumando com a escurid\u00e3o, as coisas dentro dela come\u00e7am a ganhar formas um pouco mais exatas e conseguimos distingui-las todas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1058\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/cecilia-meireles-poeta-624x347.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"306\" \/><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 muito mais noite do que sobre as torres e as pontes:<\/strong><br \/>\n<strong>e dela se avistam de outra maneira os longos prados sucessivos,<\/strong><br \/>\n<strong>o limo, as conchas, os fr\u00e1geis esqueletos, <\/strong><br \/>\n<strong>a crespa vaga paralisada em h\u00famus,<\/strong><br \/>\n<strong>despedida para sempre do mar\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Para ler esse <strong>livro<\/strong>, assim com boa parte dos <strong>livros<\/strong> de <strong>poemas<\/strong>, voc\u00ea vai precisar se propor \u00e0 experi\u00eancia, nesse caso em particular, voc\u00ea n\u00e3o vai ter um \u00e1lbum de frases impactantes para colocar no Facebook. S\u00e3o textos t\u00e3o brumosos, n\u00e3o \u00e9 a noite das luzes piscando, das festas espetaculares. Voc\u00ea vai se deparar com a noite cen\u00e1rio do filme de Dr\u00e1cula, a noite dos esquecidos, a noite dos afogados<\/p>\n<p><strong>Sem podrid\u00e3o nenhuma,<\/strong><br \/>\n<strong>jazer\u00e1 um afogado nos canais de Amsterd\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>E eu sei quando ele caiu nessas \u00e1guas dolentes.<\/strong><br \/>\n<strong>Eu vi quando ele come\u00e7ou a boiar por esses l\u00edquidos caminhos.<\/strong><br \/>\n<strong>Eu me debrucei para ele, da borda da noite,<\/strong><br \/>\n<strong>e falei-lhe sem palavras nem ais,<\/strong><br \/>\n<strong>e ele me respondia t\u00e3o docemente,<\/strong><br \/>\n<strong>que era felicidade esse profundo afogamento<\/strong><\/p>\n<p>Em m\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es pode surgir o interrogat\u00f3rio inevit\u00e1vel, e sim, essa coluna tem como objetivo maior oferecer motivos para ler os livros de poemas indicados, ou mesmo outros livros de poemas, por que? Responderei. As nossas sensa\u00e7\u00f5es parecem que t\u00eam fome. Precisamos oferecer alimento para nossos estados de esp\u00edrito. E<em><strong> Doze noturnos da Holanda<\/strong> <\/em>pode ser um excelente alimento pensando nesse sentido. Esse <strong>livro<\/strong> parece que diminui a temperatura em uns oito graus, diminui as luzes, diminui o som, oferece comida pro nosso sil\u00eancio e dentro desses poemas somos convidados a rezar 12 mist\u00e9rios da noite<\/p>\n<p><strong>A noite levava-me t\u00e3o alto<\/strong><br \/>\n<strong>que os desenhos do mundo se inutilizavam.<\/strong><br \/>\n<strong>Regressavam as coisas \u00e0 sua inf\u00e2ncia e ainda mais longe,<\/strong><br \/>\n<strong>devolvidas a uma pureza total, a uma excelsa clarivid\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea se propor a essa experi\u00eancia, ter\u00e1 entrado em uma grande aventura medieval, uma novela de cavalaria &#8211; por\u00e9m sem espadas, sem personagens, sem atos her\u00f3icos, sem drag\u00f5es, sem feiti\u00e7os, beb\u00eas abandonados que na verdade eram reis. Dentro desse <strong>livro<\/strong> voc\u00ea vai ler s\u00f3 as paisagens, vai perceber como elas s\u00e3o mais importantes e diferentes umas das outras do que voc\u00ea pensava que fossem. Paisagem ap\u00f3s paisagem, \u201cdescegando\u201d seus olhos de acontecimento, desdobrando para voc\u00ea intimidade do mundo escondido nas trevas da noite.<\/p>\n<p><strong>Homem, objeto, fato, sonho<\/strong><br \/>\n<strong>tudo \u00e9 o mesmo, em subst\u00e2ncia de areia,<\/strong><br \/>\n<strong>tudo s\u00e3o paredes de areia, como neste solo inventado:<\/strong><br \/>\n<strong>mar vencido, fauna extenuada, flora dispersa,<\/strong><br \/>\n<strong>tudo se corresponde:<\/strong><br \/>\n<strong>zune o caramujo na onda com o mesmo som do l\u00e1bio de amor<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lana Del Rey - West Coast\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oKxuiw3iMBE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Depois da leitura dessa <strong>Cec\u00edlia<\/strong> &#8211; quase g\u00f3tica suave &#8211; conte c\u00e1 pra gente: voc\u00ea j\u00e1 leu algum livro da Cec\u00edlia? Conhecia esse livro?<strong><em> Doze noturnos<\/em><\/strong> \u00e9 uma boa pedida para momentos silenciosos, mas pode ser muito bem acompanhado por algum disco da Landa Del Rey, por que n\u00e3o, poesia \u00e9 algo sempre novo.<\/p>\n<p><strong>*Talles Azigon<\/strong> \u00e9 poeta, editor e produtor cultura. J\u00e1 publicou os livros Tr\u00eas Golpes D&#8217;\u00c1gua e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curi\u00f3 e do banho na Sabiaguaba. \u00c0 procura da poesia \u00e9 uma coluna semanal com coment\u00e1rios e indica\u00e7\u00f5es de livros, autores e poemas.\u00a0Leia mais poetas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Talles Azigon (da p\u00e1gina Poesia Brasileira) \u201cOl\u00e1, menines\u2026\u201d Se essa coluna fosse um canal do youtube, certamente, iniciaria sempre dessa maneira. 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