{"id":1066,"date":"2017-08-10T05:00:19","date_gmt":"2017-08-10T08:00:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1066"},"modified":"2019-07-16T14:41:52","modified_gmt":"2019-07-16T17:41:52","slug":"leia-a-cronica-o-ontem-amarrotado-da-escritora-ayla-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/08\/10\/leia-a-cronica-o-ontem-amarrotado-da-escritora-ayla-andrade\/","title":{"rendered":"Leia a cr\u00f4nica &#8216;O ontem amarrotado&#8217;, da escritora Ayla Andrade"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1067\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1067\" class=\"size-large wp-image-1067\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/cronica-ayla-andrade-jessica-gabriele-lima-624x701.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"618\" \/><p id=\"caption-attachment-1067\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: J\u00e9ssica Gabrielle Lima<\/p><\/div>\n<p><strong>Por Ayla Andrade*<\/strong><br \/>\n<strong>Ayla Andrade \u00e9 escritora, cronista e pedra de atiradeira. Escolhe palavras para alimentar o dia e, a partir de agora, colabora com o Leituras da Bel escrevendo cr\u00f4nicas quinzenalmente. Leia <em>O ontem amarrotado<\/em>, primeira produ\u00e7\u00e3o de Ayla exclusiva para o blog:<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei quanto a voc\u00eas, leitores, mas eu quando vejo, jogada na sarjeta, uma pe\u00e7a de <strong>vestu\u00e1rio<\/strong> de um vivente qualquer me ponho a pensar como o diabo.<\/p>\n<p>Como essa pe\u00e7a veio parar aqui? Quer dizer, a pessoa sai de casa vestido, camisa, cal\u00e7a, sapatos, penteado, tudo belo e sei l\u00e1 como, num trope\u00e7o, num solu\u00e7o, cai uma pe\u00e7a e l\u00e1 fica? \u00c9 assim? <!--more--><br \/>\nTalvez minha surpresa advenha de eu mesma nunca ter perdido uma pe\u00e7a assim ao relento. Sim, j\u00e1 deixei por a\u00ed, em casa de outrens, alguns itens da <strong>vestimenta<\/strong> depois de uma festa, entre solu\u00e7os e trope\u00e7os\u2026 voc\u00eas sabem do que estou falando, n\u00e9?<\/p>\n<p>Mas nesse caso, \u00e9 assim. Uma da tarde, t\u00f4 eu andando e p\u00e1, beira da cal\u00e7ada, uma blusa cigana, amarrotada, cheia de areia. Noite, tcham, um p\u00e9 de sand\u00e1lias, daquelas de amarrar na perna, as embiras todas soltas. Madrugas, eu no solu\u00e7o, e zum, um short jeans com os bolsos pra fora e quase do avesso, abandonado.<\/p>\n<p>Deve ser minha po\u00e9tica para as coisas infindas que me atrai a esse mundo do guarda-<strong>roupa<\/strong> deixado pra tr\u00e1s. \u00c1s vezes, muitas vezes, paro e fico a admirar a pe\u00e7a ali largada, entre os semblantes de lixo e restos, a cidade acontecendo e imagino as cenas. Algo que sirva \u00e0 minha imagina\u00e7\u00e3o glutona e pueril sobre como explicar aquele descuido com a <strong>roupa<\/strong>, que \u00e9 quase pele, de algu\u00e9m que n\u00e3o conhe\u00e7o, deixada pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Tenho preocupa\u00e7\u00f5es como \u201ce se era a saia preferida da mo\u00e7a?\u201d, \u201ce se era uma blusa de estima\u00e7\u00e3o do pai j\u00e1 falecido?\u201d \u201ce se a irm\u00e3 mais velha tinha emprestado os t\u00eanis com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o perd\u00ea-los?\u201d. Me ponho sempre a doer&#8230; Depois, depois com o caminhar, deixando eu tamb\u00e9m a pe\u00e7a para tr\u00e1s, me doendo menos, ganhando dist\u00e2ncia, percebo que a despeito do desmazelo da <strong>roupa<\/strong> esquecida pode haver tamb\u00e9m a vontade de perder-se, de abrir m\u00e3o, de estar leve, nu, despido. Tudo isso posto naquela imagem de um traje em desuso.<\/p>\n<p>Chego em casa, a cabe\u00e7a ainda em profus\u00e3o, criando cenas explicativas, imaginando rostos, di\u00e1logos e vejo a <strong>roupa<\/strong> voando de algum carro, planando at\u00e9 tocar o ch\u00e3o, onde agora repousa. H\u00e1 mesmo uma leveza de esquecimento em deixar pra tr\u00e1s o que nos esconde o peito, o que nos amarra os p\u00e9s, o que nos limita o ser, o que nos constrange em forma e o que na noite passada era o ontem.<\/p>\n<p>O ontem que, posto na <strong>roupa<\/strong>, se esquece de pronto.<\/p>\n<p><strong>Ayla Andrade<\/strong><br \/>\n<strong>Fortaleza, 9 de setembro de 2017<\/strong><\/p>\n<p><strong>*Ayla Andrade \u00e9 assistente social, cronista, contista e amante do cotidiano. Ela j\u00e1 publicou o livro <em>Mais feliz dos sil\u00eancios<\/em> (Editora Subst\u00e2nsia, 2014) e publicou contos em algumas antologias, entre elas <em>Encontos e desencontos<\/em>, <em>Antologia Massanova<\/em>\u00a0e <em>O cravo roxo do Diabo: o conto fant\u00e1stico no Cear\u00e1<\/em>.<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/open.spotify.com\/episode\/4E8R7dk8mj2RWMTjLKAn54?si=AIAkIfjXTk-6877U64qXDA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ayla Andrade* Ayla Andrade \u00e9 escritora, cronista e pedra de atiradeira. 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