{"id":1089,"date":"2017-08-23T06:00:48","date_gmt":"2017-08-23T09:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1089"},"modified":"2017-08-23T06:00:48","modified_gmt":"2017-08-23T09:00:48","slug":"coluna-procura-da-poesia-um-livro-de-horas-de-emily-dickinson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/08\/23\/coluna-procura-da-poesia-um-livro-de-horas-de-emily-dickinson\/","title":{"rendered":"Coluna \u00c0 Procura da Poesia: Um livro de Horas, de Emily Dickinson"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1090\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1090\" class=\"size-large wp-image-1090\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/Emily-Dickinson-624x416.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" \/><p id=\"caption-attachment-1090\" class=\"wp-caption-text\">Emily Dickinson<\/p><\/div>\n<p>Muitas s\u00e3o as mentiras escutadas durante nossa vida. Escutadas e repetidas. Dentre ela temos uma: <strong>poesia<\/strong> \u00e9 coisa de menina. \u00c9 fato, hoje, as <strong>mulheres<\/strong> s\u00e3o as maiores consumidoras de <strong>literatura<\/strong>. Contudo, durante muito tempo, a nossa cultura machista as legou somente a esse posto: consumidoras. N\u00e3o estou dizendo que essa \u00e9 uma coloca\u00e7\u00e3o menos importante. Precisamos muito de pessoas comprando e lendo. Ou qual sentido teria o existir da <strong>literatura<\/strong>? Por\u00e9m, <strong>literatura<\/strong> s\u00f3 presta de verdade se for um direito de todas e todos, assim como todas as coisas da vida.<!--more--><\/p>\n<p>Durante um bom tempo, as <strong>mulheres<\/strong> n\u00e3o ganhavam aten\u00e7\u00e3o alguma no mercado liter\u00e1rio. Elas n\u00e3o poderiam ser editoras, livreiras e muito menos escritoras. Mas \u00e9 a insubmiss\u00e3o a verdadeira energia revolucion\u00e1ria desse nosso planetinha machista. Por isso, muitas, muitas <strong>mulheres<\/strong> n\u00e3o se permitiram estar fora nem da literatura, nem da vida.<\/p>\n<p>Uma dessas ador\u00e1veis insubmissas \u00e9 <strong>Emily Dickinson<\/strong>. Nascida nos Estados Unidos de 1830, escreveu e viveu sua vasta poesia, buscava public\u00e1-la, n\u00e3o obtendo muito sucesso, nem por isso deixou de produzir. Fazia e costurava \u00e0 m\u00e3o pequenos encadernados com sua obra, que distribu\u00eda a parentes e pessoas pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>Posteriormente, ap\u00f3s sua morte, passou a ser uma das poetas\/poetisas mais lidas nos EUA, tendo seus versos, trancafiados por tanto tempo nas gavetas de seu quarto, espalhados, traduzidos, divulgados por muitos outros pa\u00edses e idiomas.<\/p>\n<p>Ano passado um filme, <em><strong>A quiet passion<\/strong><\/em>, excelente por sinal, retratou muito bem um tanto de sua vida e de sua poesia:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A QUIET PASSION Trailer | Festival 2016\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eKJpx8FYp54?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Eu, Talles Azigon, conheci a <strong>Emily Dickinson<\/strong> atrav\u00e9s de um poema traduzido por Manuel Bandeira<\/p>\n<p><strong>Morri pela beleza, mas apenas estava<\/strong><br \/>\n<strong>Acomodada em meu t\u00famulo,<\/strong><br \/>\n<strong>Algu\u00e9m que morrera pela verdade,<\/strong><br \/>\n<strong>Era depositado no carneiro pr\u00f3ximo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Perguntou-me baixinho o que me matara.<\/strong><br \/>\n<strong>\u2013 A beleza, respondi.<\/strong><br \/>\n<strong>\u2013 A mim, a verdade, \u2013 \u00e9 a mesma coisa,<\/strong><br \/>\n<strong>Somos irm\u00e3os.<\/strong><\/p>\n<p><strong>E assim, como parentes que uma noite se encontram,<\/strong><br \/>\n<strong>Conversamos de jazigo a jazigo<\/strong><br \/>\n<strong>At\u00e9 que o musgo alcan\u00e7ou os nossos l\u00e1bios<\/strong><br \/>\n<strong>E cobriu os nossos nomes.<\/strong><\/p>\n<p>Foi paix\u00e3o! Os pensamentos, os coment\u00e1rios, as pinturas com os versos que Emily vai criando durante sua obra \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 encantador. \u00c9 musical, envolvente! Sendo um belo modo para quem n\u00e3o est\u00e1 muito acostumado ao g\u00eanero poesia iniciar sua grande aventura nesse n\u00e3o reino, nessa anarquia chamada universo dos poemas.<\/p>\n<p>Mais de 1.700 poemas escritos, uma festa para n\u00f3s leitores, um problema para as editoras: como apresentar <strong>Emily Dickinson<\/strong>? <strong>Angela-Lago<\/strong> &#8211; ilustradora, escritora e tradutora brasileira &#8211; nos deu um grande presente. Escolheu alguns dos in\u00fameros poemas de <strong>Dickinson<\/strong>, agrupou em <em><strong>Um Livro de Horas<\/strong> <\/em>(livro de ora\u00e7\u00f5es para momentos diversos) e os ilustrou com bordado de iluminuras.<\/p>\n<p>Fant\u00e1stico, fabuloso, lindo. Um livro, para quem puder adquirir, incr\u00edvel para se ter na estante, para se ler, reler, tomar um caf\u00e9 lendo, mostrar pras amigues, tirar fotinhas e colocar no instagram, mandar para as paqueras. \u00c9, sem d\u00favidas, o livro &#8211; pensando livro como objeto de arte, nele todo e em si &#8211; mais belo da minha prateleira.<\/p>\n<div id=\"attachment_1091\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1091\" class=\"size-large wp-image-1091\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/Emily-Dickinson-a-quiet-passion-624x350.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"308\" \/><p id=\"caption-attachment-1091\" class=\"wp-caption-text\">Cena do filme<\/p><\/div>\n<p>A configura\u00e7\u00e3o escolhida por <strong>Angela-Lago<\/strong>, de transformar alguns dos poemas da poeta\/poetisa em rezas diversas para horas diversas, encaixa-se t\u00e3o naturalmente, parecendo at\u00e9, e isso n\u00e3o \u00e9 todo antologista e organizador de livros de textos escolhidos capaz de fazer, que os poemas nasceram para ter essa organiza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>Para a hora a suportar<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nossa por\u00e7\u00e3o de noite suportar,<\/strong><br \/>\n<strong>Nossa por\u00e7\u00e3o de amanhecer tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\n<strong>Nosso vazio, com \u00eaxtase ocupar.<\/strong><br \/>\n<strong>Ou ao nosso vazio, o d\u00e9sdem.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma estrela aqui, outra ali.<\/strong><br \/>\n<strong>Alguma se extravia.<\/strong><br \/>\n<strong>Aqui n\u00e9voa, n\u00e9voa al\u00e9m,<\/strong><br \/>\n<strong>Depois, dia!<\/strong><\/p>\n<p><strong>Emily<\/strong> escreve sobre as coisas que pode tocar. Ela age como se fosse uma pintora que, ao inv\u00e9s de utilizar-se de tintas e pinc\u00e9is, utiliza-se das palavras e vai montando verdadeiros poemas-quadros em que a natureza &#8211; magn\u00edfica, exata, concreta, plaus\u00edvel &#8211; pode ser sorvida pelas pontas dos nossos olhos:<\/p>\n<p><strong>Para a hora da tristeza sem raz\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>A abelha- de mim \u2013 n\u00e3o tem medo,<\/strong><br \/>\n<strong>A borboleta eu conhe\u00e7o<\/strong><br \/>\n<strong>A gente toda da mata<\/strong><br \/>\n<strong>Se alegra quando apare\u00e7o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os rios riem mais alto assim que chego.<\/strong><br \/>\n<strong>E brinca a brisa mais louca ent\u00e3o.<\/strong><br \/>\n<strong>Ai meus olhos, por tua n\u00e9voa prata?<\/strong><br \/>\n<strong>Por qu\u00ea, \u00f4 dia de ver\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Esse jeito, por\u00e9m, de falar de materialidades em um poema, como uma tarde triste de um ver\u00e3o qualquer com suas abelhas, borboletas e riachos, \u00e9 tido como algo negativo por alguns cr\u00edticos. Mesmo motivo de cr\u00edticas para uma outra poeta\/poetisa, brasileira, de nome Cec\u00edlia, tamb\u00e9m ter sido algumas vezes alvo de indaga\u00e7\u00f5es. Mas, quem vai negar a profundidade de uma borboleta cortando uma tarde quente? Ou, o silvo de um riacho entre pedras?<\/p>\n<p>Talvez, e esse pode ser um dos motivos de um bom n\u00famero de pessoas n\u00e3o serem afeitas aos poemas, nossas almas sejam t\u00e3o embrutecidas ao ponto de ser ameno um espet\u00e1culo t\u00e3o profundo e profuso como a vida.<\/p>\n<p><strong>Para a hora em que me chamarem de louca<\/strong><\/p>\n<p><strong>Muita loucura \u00e9 sabedoria divina<\/strong><br \/>\n<strong>Para um olho inteligente. <\/strong><br \/>\n<strong>Muita sabedoria, pura loucura.<\/strong><br \/>\n<strong>Mas, como sempre, <\/strong><br \/>\n<strong>A maioria domina:<\/strong><br \/>\n<strong>Se voc\u00ea concorda, \u00e9 boa gente.<\/strong><br \/>\n<strong>Se nega, um perigo sem cura.<\/strong><br \/>\n<strong>Melhor prender com corrente.<\/strong><\/p>\n<p>Reducionista seria legar a uma obra t\u00e3o vasta somente uma perspectiva. Tudo que tenho comentado, aqui nessa coluna, s\u00e3o possibilidades de leitura. Um poema \u00e9 uma feira livre e numa barraca s\u00f3 encontra-se pitangas, mangas, damascos e caj\u00e1s&#8230;<\/p>\n<div id=\"attachment_1092\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1092\" class=\"size-large wp-image-1092\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/angela-lao-624x468.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"413\" \/><p id=\"caption-attachment-1092\" class=\"wp-caption-text\">Angela-Lago, organizadora e tradutora do livro<\/p><\/div>\n<p>No <em><strong>Livro das Horas<\/strong><\/em> da <strong>Emily\/Angela-Lago<\/strong>, h\u00e1 muitos tons, pois essa foi a grande ideia da tradutora, ilustradora. Apresentar uma poeta\/poetisa em suas muitas nuances, por isso, passeando nos poemas voc\u00ea vai esbarrar em paisagens, divaga\u00e7\u00f5es sobre o divino, ang\u00fastias exist\u00eancias, coment\u00e1rios sobre a sociedade e, n\u00e3o poderia faltar, para nossa alegria, observa\u00e7\u00f5es sobre o amor.<\/p>\n<p><strong>Para a hora da paix\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>Diminutos rios \u2013 d\u00f3ceis a algum mar azul. <\/strong><br \/>\n<strong>Meu C\u00e1spio \u2013 Tu.<\/strong><\/p>\n<p>Caso voc\u00ea n\u00e3o tenha a oportunidade de ter acesso a essa edi\u00e7\u00e3o bel\u00edssima de <strong><em>Um livro de horas<\/em><\/strong>, n\u00e3o desista de ir conhecer a <strong>Emily Dickinson<\/strong>. H\u00e1 outros t\u00edtulos mais acess\u00edveis e baratos com a obra traduzida da autora, a poesia da s\u00e9ria e profunda <strong>Dickinson<\/strong>, ainda bem, pra sorte nossa.<\/p>\n<p><em>PS: uso poeta\/poetisa junto, pois n\u00e3o h\u00e1 consenso bem definido para o uso no feminino em l\u00edngua portuguesa dessa nomenclatura.<\/em><\/p>\n<p><em>PS1: estou grato pelo retorno recebido nessa nossa coluna \u00c0 procura da poesia. Continuem divulgando, compartilhando e nos contem como tem sido a experi\u00eancia com a leitura de livros de poemas.<\/em><\/p>\n<p>Abra\u00e7os po\u00e9ticos.<\/p>\n<p><strong>*Talles Azigon<\/strong> \u00e9 poeta, editor e produtor cultura. J\u00e1 publicou os livros Tr\u00eas Golpes D\u2019\u00c1gua e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curi\u00f3 e do banho na Sabiaguaba. \u00c0 procura da poesia \u00e9 uma coluna semanal com coment\u00e1rios e indica\u00e7\u00f5es de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas s\u00e3o as mentiras escutadas durante nossa vida. Escutadas e repetidas. 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