{"id":1127,"date":"2017-08-30T06:00:46","date_gmt":"2017-08-30T09:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1127"},"modified":"2017-08-30T06:00:46","modified_gmt":"2017-08-30T09:00:46","slug":"coluna-procura-da-poesia-quem-tem-medo-de-baudelaire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/08\/30\/coluna-procura-da-poesia-quem-tem-medo-de-baudelaire\/","title":{"rendered":"Coluna \u00c0 procura da poesia: Quem tem medo de Baudelaire?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1128\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/charles-baudelaire-624x468.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"413\" \/><\/p>\n<p><em><strong>Por Talles Azigon (da p\u00e1gina Poesia Brasileira)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quando o assunto \u00e9 poesia costumamos escutar alguns nomes recorrente. Rimbaund, Verlaine e, principalmente, <strong>Baudelaire<\/strong>. Esses nomes aparecem ligados a um movimento liter\u00e1rio chamado <strong>Simbolismo<\/strong>. Todos esses nomes t\u00eam forte influ\u00eancia para <strong>poetas<\/strong> Brasileiros &#8211; como Mario Quintana, Cec\u00edlia Meireles, Manuel Bandeira, Manoel de Barros.<!--more--><\/p>\n<p>Quem come\u00e7a a se interessar pelo g\u00eanero <strong>Poema<\/strong>, acaba indo de encontro a esses nomes da literatura francesa. At\u00e9 esse ponto tudo bem! por\u00e9m algumas informa\u00e7\u00f5es come\u00e7am a se misturar, a nos tontear, gerando algumas confus\u00f5es e, principalmente desist\u00eancia, por nossa parte em procurar ler\/entender a obra po\u00e9tica dessa galera<\/p>\n<p>Como temos por objetivo maior dissolver essas barreiras de afastamento da poesia, resolvi trazer algumas informa\u00e7\u00f5es para ajudar a lermos essas obras, mais especificamente a obra <em><strong>As flores do mal<\/strong><\/em>\u00a0tida como um dos maiores cl\u00e1ssicos da poesia ocidental.<\/p>\n<p>Surge a seguinte d\u00favida:<br \/>\n&#8220;- Talles, por que eu n\u00e3o entendendo esses poemas?&#8221;<\/p>\n<p><strong>\u201cpara o meu gosto a palavra n\u00e3o precisa significar \u2013 \u00e9 s\u00f3 entoar\u201d Manoel de Barros<\/strong><\/p>\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o maior de quem entra no mundo dos <strong>poemas<\/strong> \u00e9 n\u00e3o entender a tal \u201cmensagem\u201d. Esse desapontamento vem da escola. Lugar onde nos \u00e9 dado um poema em uma prova, ou em um exerc\u00edcio com perguntas como: qual o tema do <strong>poema<\/strong>?<\/p>\n<p>A\u00ed mora o perigo. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o precisamos entender um <strong>poema<\/strong>. Entender uma mensagem escrita nos estimula a continuar tentando desvendar outras mensagens. Entretanto, na natureza dos poemas encontramos muitas dimens\u00f5es, uma sens\u00edvel, uma l\u00fadica, uma lingu\u00edstica. Logo, e pode parecer clich\u00ea, primeiro voc\u00ea sente o <strong>poema<\/strong>, o que ele te causa: estranheza, impacto, tranquilidade, excita\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Literatura Fundamental 02 - As Flores do Mal - \u00c1lvaro Faleiro\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nM-z2vcjFWY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Depois se divirta com os poema, suas rimas ou n\u00e3o rima, o jogo de encaixe ou desencaixe contido nas palavras. Por fim, desvende o <strong>poema<\/strong>: o que h\u00e1 escondido naquelas palavras. Muitas das vezes quando um poeta fala fogo, o efeito \u00e9 \u00e1gua. Por isso nos confundimos, mas at\u00e9 a confus\u00e3o \u00e9 o um dos grandes lances no poema.<\/p>\n<p>&#8220;- Talles o que \u00e9 simbolismo, por que dizem que Baudelaire \u00e9 moderno se no Brasil Modernismo e Simbolismo s\u00e3o duas coisas diferentes?&#8221;<\/p>\n<p><strong>\u201cE como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno.\u201d Carlos Drummond de Andrade<\/strong><\/p>\n<p>Os acontecimentos s\u00e3o diferentes nos lugares diferentes. Isso realmente causa um grande n\u00f3 na cabe\u00e7a da gente, principalmente quando estamos no per\u00edodo da escola e precisamos saber deles para usarmos em provas.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, o que vamos entender por movimentos modernistas \u00e9 inaugurado justamente com o Simbolismo no livro<strong><em> As Flores do Mal<\/em><\/strong> do Baudelaire (na literatura).Ele \u00e9 moderno, pois quebrou um monte de paradigmas at\u00e9 ent\u00e3o estabelecidos. Antes desse <strong>livro<\/strong>, para a \u00e9poca, n\u00e3o era todas as palavras que poderiam estar dentro de um <strong>poema<\/strong>, nem todos os assuntos poderiam estar no poema, o poema tinha que falar de assuntos elevados, usar palavras elevadas, ser harm\u00f4nico, ser \u201cbelo\u201d.<\/p>\n<p><em><strong>As flores do mal<\/strong> <\/em>quebra esse tabu, usa assuntos mesquinhos, palavras escatol\u00f3gicas, compara\u00e7\u00f5es impens\u00e1veis, compara o amor com uma carca\u00e7a apodrecendo. Foi muito chocante, nem todo muito aceitou, foi uma ruptura. No Brasil, nosso simbolismo foi muito mais ligado a forma, do que a esse esp\u00edrito de ruptura.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, Talles, no romantismo j\u00e1 n\u00e3o faziam isso?&#8221;<\/p>\n<p>Sim e n\u00e3o. Quando as pessoas que estudam e sistematizam a literatura, elas fazem enquadramento de obras em determinados movimentos, elas levam em considera\u00e7\u00e3o forma, conte\u00fado e localiza\u00e7\u00e3o temporal, tra\u00e7ando uma esp\u00e9cie de linha. Fazer isso \u00e9 muito pass\u00edvel de questionamentos, e tudo bem. <strong>Literatura<\/strong> \u00e9 arte, todos os conhecimentos sobre artes podem ser questionados, revisitados, acrescidos, n\u00e3o h\u00e1 absolutismo quando falamos de arte.<\/p>\n<p>Estudar <strong>literatura<\/strong> baseado em movimentos \u00e9 complicado justamente por esse fator. O tempo n\u00e3o \u00e9 linear, muita gente \u00e9 esquecida e exclu\u00edda dos estudos liter\u00e1rios por motivos pol\u00edticos, sociais, de g\u00eanero. Ainda continuamos a usar esse m\u00e9todo por uma quest\u00e3o pedag\u00f3gica, por isso eu recomendo mais viver o livro e o\/a autor\/autora do que ficar pensando em movimento em que ele se insere ou n\u00e3o se insere.<\/p>\n<p>Com o tempo, caso voc\u00ea se interesse, busque textos\/v\u00eddeos explicando esses movimentos, saber essas informa\u00e7\u00f5es nos ajudam a penetrar as camadas dos significados de uma texto\/obra.<\/p>\n<p>Ufa! Muita informa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u00c9 assim mesmo, ningu\u00e9m escala uma montanha simplesmente dizendo <span style=\"color: #ff0000\"><strong>EU VOU ESCALAR UMA MONTANHA<\/strong><\/span>! Precisamos nos preparar, fisicamente, psicologicamente, ter equipamentos, condi\u00e7\u00f5es e clima favor\u00e1veis, mas quando se consegue escalar a vista, o prazer, a supera\u00e7\u00e3o, \u00e9 tudo t\u00e3o gratificante.<\/p>\n<p>O livro de nosso assunto come\u00e7a com esse poema :<\/p>\n<p><strong>Ao Leitor <\/strong><br \/>\n<strong>A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez <\/strong><br \/>\n<strong>Habitam nosso corpo e o esp\u00edrito viciam, <\/strong><br \/>\n<strong>E ador\u00e1veis remorsos sempre nos saciam, <\/strong><br \/>\n<strong>Como o mendigo exibe a sua sordidez.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fi\u00e9is ao pecado, a contri\u00e7\u00e3o nos amorda\u00e7a; <\/strong><br \/>\n<strong>Impomos alto pre\u00e7o \u00e0 inf\u00e2mia confessada, <\/strong><br \/>\n<strong>E alegres retornamos \u00e0 lodosa estrada, <\/strong><br \/>\n<strong>Na ilus\u00e3o de que o pranto as n\u00f3doas nos desfa\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Na almofada do mal \u00e9 Sat\u00e3 Trismegisto <\/strong><br \/>\n<strong>Quem docemente nosso esp\u00edrito consola, <\/strong><br \/>\n<strong>E o metal puro da vontade est\u00e3o se evoca <\/strong><br \/>\n<strong>Por obra deste s\u00e1bio que age sem ser visto.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 o diabo que nos move e at\u00e9 nos manuseia! <\/strong><br \/>\n<strong>Em tudo que repugna, uma j\u00f3ia encontramos; <\/strong><br \/>\n<strong>Dia ap\u00f3s dia, para o Inferno caminhamos, <\/strong><br \/>\n<strong>Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Assim como um voraz devasso beija e suga <\/strong><br \/>\n<strong>O seio murcho que lhe oferta uma vadia, <\/strong><br \/>\n<strong>Furtamos ao acaso uma car\u00edcia esguia <\/strong><br \/>\n<strong>Para esprem\u00ea-la qual laranja que se enruga.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Espesso, a fervilhar, qual um milh\u00e3o de helmintos, <\/strong><br \/>\n<strong>Em nosso cr\u00e2nio um povo de dem\u00f4nios cresce, <\/strong><br \/>\n<strong>E, ao respirarmos, aos pulm\u00f5es a morte desce, <\/strong><br \/>\n<strong>Rio invis\u00edvel, com lamentos indistintos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Se o veneno, a paix\u00e3o, o estupro, a punhalada <\/strong><br \/>\n<strong>N\u00e3o bordaram ainda com desenhos finos <\/strong><br \/>\n<strong>A trama v\u00e3 de nossos m\u00edseros destinos, <\/strong><br \/>\n<strong>\u00c9 que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em meio \u00e0s hienas, \u00e0s serpentes, aos chacais, <\/strong><br \/>\n<strong>Aos s\u00edmios, escorpi\u00f5es, abutres e panteras, <\/strong><br \/>\n<strong>Aos monstros ululantes e \u00e0s viscosas feras, <\/strong><br \/>\n<strong>No loda\u00e7al de nossos v\u00edcio ancestrais,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um h\u00e1 mais feio, mais in\u00edquo, mais imundo! <\/strong><br \/>\n<strong>Sem grandes gestos ou sequer lan\u00e7ar um grito, <\/strong><br \/>\n<strong>Da Terra, por prazer, faria um s\u00f3 detrito <\/strong><br \/>\n<strong>E num bocejo imenso engoliria o mundo;<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 o T\u00e9dio! &#8211; O olhar esquivo \u00e0 m\u00ednima emo\u00e7\u00e3o, <\/strong><br \/>\n<strong>Com pat\u00edbulos sonha, ao cachimbo agarrado. <\/strong><br \/>\n<strong>Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado <\/strong><br \/>\n<strong>&#8211; Hip\u00f3crita leitor, meu igual, meu irm\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o tenham medo de se sujar. Vamos adentrar um universo po\u00e9tico desencantado, onde poderemos contemplar nossa sordidez, nossa mesquinhez. Corre na biblioteca, na banca, na livraria, ou aqui mesmo pela internet. Vai juntando todas as d\u00favidas e considera\u00e7\u00f5es e pode ir perguntando e comentando por aqui<\/p>\n<p>Responder n\u00e3o sei se conseguirei, mas posso me comprometer que tentarei.<\/p>\n<p>Abra\u00e7os e at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>*Talles Azigon<\/strong> \u00e9 poeta, editor e produtor cultura. J\u00e1 publicou os livros Tr\u00eas Golpes D\u2019\u00c1gua e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curi\u00f3 e do banho na Sabiaguaba. \u00c0 procura da poesia \u00e9 uma coluna semanal com coment\u00e1rios e indica\u00e7\u00f5es de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Talles Azigon (da p\u00e1gina Poesia Brasileira) Quando o assunto \u00e9 poesia costumamos escutar alguns nomes recorrente. Rimbaund, Verlaine e, principalmente, Baudelaire. Esses nomes aparecem&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":1128,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[72,254,708,1101],"class_list":["post-1127","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poesia","tag-a-procura-da-poesia","tag-charles-baudelaire","tag-livro","tag-talles-azigon"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1127"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1127\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}