{"id":1142,"date":"2017-08-29T06:00:30","date_gmt":"2017-08-29T09:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1142"},"modified":"2017-08-29T06:00:30","modified_gmt":"2017-08-29T09:00:30","slug":"coluna-rubrica-porque-e-facil-ler-o-auto-da-compadecida-de-ariano-suassuna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/08\/29\/coluna-rubrica-porque-e-facil-ler-o-auto-da-compadecida-de-ariano-suassuna\/","title":{"rendered":"Coluna Rubrica: Porque \u00e9 f\u00e1cil ler o \u201cAuto da Compadecida\u201d, de Ariano Suassuna"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1143\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1143\" class=\"size-large wp-image-1143\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/o-auto-da-compadecida-624x419.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"369\" \/><p id=\"caption-attachment-1143\" class=\"wp-caption-text\">Cena do filme O auto da compadecida<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Por Tet\u00ea Macambira*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A rep\u00f3rter elogiou <strong>Suassuna<\/strong> pela ideia do gato que \u201cdescomia\u201d dinheiro e o dramaturgo logo respondeu que n\u00e3o era dele, n\u00e3o, mas a ideia ele tirara de um cordel de um cavalo que descomia dinheiro, e a rep\u00f3rter logo em seguida quis emendar elogiando pela ideia do enterro da cachorra, e novamente <strong>Ariano<\/strong> repete que era n\u00e3o era dele n\u00e3o, era de um outro cordel. Avexada, sem nem saber mais onde errar, a rep\u00f3rter dispara: \u201cAfinal o que foi que voc\u00ea fez?\u201d e <strong>Ariano<\/strong> sem nem titubear um s\u00f3 instante, ali, na bucha!: \u201cOra! eu ESCREVI a pe\u00e7a!\u201d.<!--more--><\/p>\n<p>E afinal de contas, por que <strong>Ariano Suassuna<\/strong> conseguiu essa fa\u00e7anha de, no Brasil e em pleno s\u00e9culo XX, ser reconhecido como <strong>dramaturgo<\/strong>? Bem, tem a facilidade de ter essa pe\u00e7a de <strong>teatro<\/strong> recebido uma vers\u00e3o estendida para a TV, e depois ter sido reduzida para um filme &#8211; e ambos, TV e cinema, t\u00eam um maior alcance p\u00fablico, sem d\u00favida nenhuma, o que conta muito para que as pe\u00e7as de teatro do <strong>Suassuna<\/strong> tenham ca\u00eddo no gosto do povo talvez se deva a dois fatores:<\/p>\n<p>1. A linguagem utilizada \u00e9 inspirada no cordel, g\u00eanero popular, facilitando a primeira incompreens\u00e3o do texto teatral, sedimentada na estrutura dial\u00f3gica (forma de di\u00e1logo), bem diferente dos textos narrativo e po\u00e9tico;<\/p>\n<p>2. que Ariano tenha feito teatro para teatro; sem ser nem did\u00e1tico tampouco panflet\u00e1rio. O que mais se v\u00ea, desde o tempo dos jesu\u00edtas, \u00e9 o teatro sendo usado como recurso pedag\u00f3gico e\/ou instrumento de manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E Ariano prima por um teatro que pretende contar hist\u00f3rias, divertir e emocionar ao mesmo tempo &#8211; teatro para teatro, simplesmente, sem nenhuma outra inten\u00e7\u00e3o educativa.<\/p>\n<p>Ter assistido \u00e0 miniss\u00e9rie na TV e ao filme faz com que as vozes do elenco ecoem na cabe\u00e7a enquanto leem-se as falas e sente-se a aus\u00eancia da Rosinha, personagem inserida para causar romance na telinha.<\/p>\n<p><em>(&#8230;) o autor gostaria de deixar claro que seu teatro \u00e9 mais aproximado dos espet\u00e1culos de circo e da tradi\u00e7\u00e3o popular do que do teatro moderno.<\/em><\/p>\n<p><strong>Estrutura antiga<\/strong><br \/>\n<strong>Suassuna<\/strong> resgata a ideia do CORO do teatro da Gr\u00e9cia antiga &#8211; um grupo de atores que narrava concomitantemente, quase uma locu\u00e7\u00e3o em off &#8211; s\u00f3 que utiliza a vers\u00e3o brasileira para o buf\u00e3o medievalesco, o nosso palha\u00e7o, que ganha ironias enquanto comenta a pe\u00e7a, e a cr\u00edtica \u00e0 igreja \u00e9 bem focada, quando h\u00e1 reuni\u00e3o entre o bispo, o frade, o padre e o sacrist\u00e3o:<\/p>\n<p><em>PALHA\u00c7O &#8211; E agora afasto-me prudentemente, porque a vizinhan\u00e7a desses grandes administradores \u00e9 sempre uma coisa perigosa.<br \/>\n<\/em><br \/>\nO palha\u00e7o passeia pela cena, ora aparecendo, ora desaparecendo e quando tem oportunidade, faz-se ouvir\u2026 embora logo seja calado\u2026 tal qual o povo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1144\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1144\" class=\"size-large wp-image-1144\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/08\/ariano-suassuna-624x391.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"345\" \/><p id=\"caption-attachment-1144\" class=\"wp-caption-text\">Ariano Suassuna<\/p><\/div>\n<p><strong>Falas que ficam<\/strong><br \/>\nCheia de frases de efeito, talvez a melhor seja a do Chic\u00f3, remetendo \u00e0 morte &#8211; tema, ali\u00e1s, recorrente em todo o texto, afinal, quem \u00e9 vivo morre.<\/p>\n<p><em>CHIC\u00d3 &#8211; (&#8230;) Cumpriu sua senten\u00e7a e encontrou-se com o \u00fanico mal irremedi\u00e1vel, aquilo que \u00e9 a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explica\u00e7\u00e3o que iguala tudo o que \u00e9 vivo num s\u00f3 rebanho de condenados, porque tudo o que \u00e9 vivo morre.<br \/>\n<\/em><br \/>\nE com o canga\u00e7o e a situa\u00e7\u00e3o de fome e desigualdade social, a morte \u00e9 uma tocaia eterna para cada um dos integrantes. E talvez, por isso boa parte da pe\u00e7a se passa no \u201cjulgamento do c\u00e9u\u201d, porque a morte \u00e9 iminente e espera-se, pelo menos, a justi\u00e7a divina.<\/p>\n<p><em>CHIC\u00d3 &#8211; (&#8230;) voc\u00ea sabe como esse povo rico \u00e9 cheio de agonia com os mortos. Eu, \u00e0s vezes, chego a pensar que s\u00f3 quem morre completamente \u00e9 pobre, porque com os ricos a agonia continua por tanto tempo depois da morte, que chega a parecer que ou eles n\u00e3o morrem direito ou a morte deles \u00e9 outra.<\/em><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fI89Wr-HXP4<\/p>\n<p><strong>A Compadecida<\/strong><br \/>\nNossa Senhora n\u00e3o poderia ter outro nome; surge quase que no fim da pe\u00e7a, invocada por uma jaculat\u00f3ria cheia de gra\u00e7a sertaneja recitada por Jo\u00e3o Grilo. E \u00e9 chamada por ter sido gente em vida, n\u00e3o filha de Deus, e por ser gente, ter mais compaix\u00e3o, agir como advogada dos r\u00e9us. E Maria vem maternal, compreensiva, compassiva &#8211; dando uma reviravolta no desfecho que prometia ser infernal. A defesa dela de cada um dos r\u00e9us peca por ser humano, demasiado humano, sabendo se p\u00f4r na pele do outro, tentando entender a dor alheia que teria inclinado ao erro. Talvez um convite do autor para que saibamos relevar os defeitos alheios conhecendo a motiva\u00e7\u00e3o do outro? Se n\u00e3o foi intencional, fica a dica. \ud83d\ude09<\/p>\n<p><strong>Romance ausente<\/strong><br \/>\nA Rosinha, para todos que viram o filme, \u00e9 uma aus\u00eancia que nem se faz sentir, porque h\u00e1 uma sucess\u00e3o de eventos ocorrendo que mal se d\u00e1 para se aperceber que falta a mocinha, a namorada de Chic\u00f3 e filha de Ant\u00f4nio Morais. Na pe\u00e7a, o major tem um filho que nem aparece em cena, apenas \u00e9 mencionado.<br \/>\nInteressante notar que mesmo sem uma dupla rom\u00e2ntica, sem um casal, a hist\u00f3ria evolui bem e sem trope\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Atemporalidade<\/strong><br \/>\nEspantoso que uma pe\u00e7a dos anos 50 do s\u00e9culo passado ainda tenha um p\u00fablico formid\u00e1vel e que compreende toda a estrutura. O que s\u00f3 refor\u00e7a o quanto a linguagem popular permanece viva.<\/p>\n<p><em>O Auto da Compadecida foi encenado pela primeira vez a 11 de setembro de 1956, no Teatro Santa Isabel, pelo Teatro Adolescente de Recife, sob dire\u00e7\u00e3o de Cl\u00eanio Wanderley (&#8230;)<br \/>\n<\/em><br \/>\nE esse registro est\u00e1 incluso em uma das primeiras p\u00e1ginas do livro, porque o teatro difere dos outros g\u00eaneros havendo o costume de se publicar o texto teatral apenas depois de ser encenado. Costume este n\u00e3o mais t\u00e3o seguido \u00e0 risca. Infelizmente, muitas das pe\u00e7as encenadas nunca foram publicadas.<\/p>\n<p><strong>Publica\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nO livro \u00e9 facilmente encontrado nas livrarias e\/ou sebos, da editora Agir. Tamb\u00e9m vendido em formato digital. A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da Agir traz uma ilustra\u00e7\u00e3o primorosa de capa remetendo \u00e0 arte popular da xilogravura e uma pequena fortuna cr\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Sentimento final<\/strong><br \/>\nO melhor dessa pe\u00e7a \u00e9 que ela n\u00e3o cansa o leitor nem tampouco apresenta dificuldades para quem nunca se aventurou em ler o g\u00eanero teatral. Leitura familiar, de censura livre e de f\u00e1cil aplica\u00e7\u00e3o para o presente, porque &#8211; infelizmente &#8211; o poder continua dividindo as classes sociais. Al\u00e9m da leitura fluida e divertida, sempre tem um qu\u00ea de inc\u00f4modo nos questionamentos do julgamento.\u00a0Afinal&#8230; quem merece ser julgado depois da morte se a vida j\u00e1 nos \u00e9 t\u00e3o dura?<\/p>\n<p><strong>*Tet\u00ea Macambira<\/strong> \u00e9 trabalhadora da palavra, pretende ler mais do que a vida permitiria porque o v\u00edcio das letras j\u00e1 lhe entranhou nas veias. E vem mui orgulhosamente participar deste blog no intuito de divulgar a frase Leiam teatro tamb\u00e9m! &#8211; e o convite est\u00e1 sendo feito a cada quinze dias neste mesmo canal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tet\u00ea Macambira* A rep\u00f3rter elogiou Suassuna pela ideia do gato que \u201cdescomia\u201d dinheiro e o dramaturgo logo respondeu que n\u00e3o era dele, n\u00e3o, mas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":1143,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[135,153,285,1029,1113],"class_list":["post-1142","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teatro","tag-ariano-suassuna","tag-auto-da-compadecida","tag-coluna","tag-rubrica","tag-tete-macambira"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1142","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1142"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1142\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1142"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1142"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1142"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}