{"id":1203,"date":"2017-09-12T08:15:51","date_gmt":"2017-09-12T11:15:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1203"},"modified":"2017-09-12T08:15:51","modified_gmt":"2017-09-12T11:15:51","slug":"coluna-rubrica-romeu-e-julieta-de-shakespeare-nunca-morrem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/09\/12\/coluna-rubrica-romeu-e-julieta-de-shakespeare-nunca-morrem\/","title":{"rendered":"Coluna Rubrica: Romeu e Julieta, de Shakespeare, nunca morrem"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer de Romeu + Julieta\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QdZ_54KT3AE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em><strong>Por Tet\u00ea Macambira*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Outro dia, contaram-me que viram, saindo do cinema onde passara <strong><em>Romeu + Julieta<\/em><\/strong>\u00a0(do Baz Luhrmann, 1996), um rapaz inconformado porque o casal de Verona havia morrido.\u00a0Ok. Ningu\u00e9m gosta de spoiler, mas querer assistir a qualquer vers\u00e3o de <em><strong>Romeu e Julieta, <\/strong><\/em>de William <strong>Shakespeare<\/strong>,\u00a0e n\u00e3o esperar que os dois morram tragicamente!<!--more--><br \/>\nO arqu\u00e9tipo mais cultuado do amor juvenil, do amor imposs\u00edvel permanece vivo em nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u201cO amor procura o amor como o estudante que para a escola corre:num instante. Mas,ao se afastar dele,o amor parece que se transforma em colegial refece.\u201d<br \/>\n<\/strong><br \/>\nTemos a mania do amor imposs\u00edvel, do amor inalcan\u00e7\u00e1vel; nenhuma boa hist\u00f3ria de amor \u00e9 do cotidiano de pagar contas, mas das agruras, das quizilas e trope\u00e7os que o amor sofre.<br \/>\nE <strong>Shakespeare<\/strong> (<strong>Shakes<\/strong>\u00a0para os \u00edntimos) sabia explorar o gosto popular como ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Essa atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel que temos pelo amor (eros) invi\u00e1vel a tal ponto que se aproxima da morte (Tanatos) n\u00e3o \u00e9 novidade no card\u00e1pio de narrativas que mais nos apetecem.<br \/>\n<strong>\u201cS\u00f3 ri de uma cicatriz quem nunca foi ferido.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1205\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/romeu-e-julieta-foto-624x352.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"310\" \/><\/p>\n<p>Que o digam <strong>P\u00edramo e Tisbe.<\/strong> Quem foi <strong>P\u00edramo e Tisbe<\/strong>? Resuminho aqui!:<br \/>\n<strong>P\u00edramo e Tisbe<\/strong> eram filhos de pais muito ricos na cidade onde viviam que se conheceram e resolveram se casar de boa vontade, por\u00e9m seus pais n\u00e3o permitiam por alguma mas n\u00e3o clara raz\u00e3o. Mas o amor consegue tudo e esses jovens descobriram uma fresta na parede, por onde se falavam diariamente, mas sem contato f\u00edsico.<\/p>\n<p>Um dia resolveram se encontrar, <strong>Tisbe<\/strong> foi ao local combinado, mas se deparou com uma leoa com a boca ensanguentada que acabara de sair da ca\u00e7a e foi beber \u00e1gua na fonte. <strong>Tisbe<\/strong> fugiu deixando cair seu v\u00e9u branco, que, mastigado pela leoa, encharcou-se de sangue.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o acontecimento, <strong>P\u00edramo<\/strong> chegou, mas n\u00e3o encontrou <strong>Tisbe<\/strong>, que estava escondida em uma caverna ali perto. <strong>P\u00edramo<\/strong> se assustou vendo o v\u00e9u da amada ensanguentado. Assustado com a &#8221;morte de <strong>Tisbe<\/strong>&#8221; sacou sua espada e feriu seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, se matando. <strong>Tisbe<\/strong>, assustada com o ocorrido, correu at\u00e9 <strong>P\u00edramo<\/strong> e o socorreu, pegou-o em seu colo e chorou. Com tamanha tristeza, se matou tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o?&#8230; essa hist\u00f3ria \u201clembra\u201d a de<strong> Romeu e Juju<\/strong>?&#8230; Mas <strong>Shakespeare<\/strong> n\u00e3o parafraseou de Ov\u00eddio, que escreveu essa historinha singela. Defendem os estudiosos que o nosso <strong>bardo ingl\u00eas<\/strong> deve ter se inspirado (isso naquele tempo, fosse hoje, seria pl\u00e1gio!) nos poemas de Arthur Brooke e Christopher Marlowe.<\/p>\n<div id=\"attachment_1204\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1204\" class=\"size-large wp-image-1204\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/romeu-e-julieta-624x408.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"360\" \/><p id=\"caption-attachment-1204\" class=\"wp-caption-text\">Cena do filme de 1996<\/p><\/div>\n<p>Mas isso nunca foi referendado pelo <strong>Shakespeare<\/strong>, ent\u00e3o\u2026 deixa quieto. Mas o fato \u00e9 que a hist\u00f3ria existia, as personagens existiam j\u00e1 com esses nomes. E a pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9: por que foi a vers\u00e3o de Shakespeare a que fez sucesso?<\/p>\n<h2>Receita de Shakespeare<\/h2>\n<p><strong>Shakespeare<\/strong> pode nos parecer muito artificial e dif\u00edcil de ler, tanto pela sua linguagem quanto pela constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de suas pe\u00e7as teatrais.<br \/>\nNo entanto, n\u00e3o podemos esquecer duas coisinhas daquela \u00e9poca:<\/p>\n<p>1 &#8211; Falavam de forma mais elaborada que n\u00f3s, hoje;<br \/>\n2 &#8211; A maioria dos atores era analfabeta, ent\u00e3o, era melhor para eles decorarem pe\u00e7as inteiras em versos do que em di\u00e1logo, simplesmente. A poesia sempre facilita o recurso mnem\u00f4nico (palavreado bonito para mem\u00f3ria).<\/p>\n<p>Outro fator que facilita a leitura dessa trag\u00e9dia \u00e9 que ela n\u00e3o \u00e9 100% tensa, n\u00e3o mant\u00e9m o leitor \u00e0 beira do precip\u00edcio (como em <strong><em>Hamlet<\/em><\/strong>, por exemplo), Will alterna momentos de humor e de trag\u00e9dia, enfatiza as personagens secund\u00e1rias e muito humanas do Merc\u00facio e da Ama.<\/p>\n<p>Sem falar que o casal protagonista exalta a \u201cReligi\u00e3o do Amor\u201d &#8211; ainda que tenha sido a recatada mo\u00e7a de fam\u00edlia, <strong>Julieta<\/strong>, quem tenha exigido como prova de amor verdadeiro de <strong>Romeu<\/strong> nada mais nada menos que o casamento. E isso depois de mal terem se falado naquela mesma noite!<\/p>\n<p>\u201cMe surpreende pensar que, com uma hist\u00f3ria meio <strong>Romeu e Julieta<\/strong> a gente conseguiu e ainda consegue superar todas as dificuldades e desafios, porque o amor fala mais alto no fim das contas.\u201d [<strong>William<\/strong> <strong>Shakespeare<\/strong>]\n<p>Ent\u00e3o, basicamente, para fazer uma pe\u00e7a gostosa e que se mantenha s\u00edmbolo de sucesso no decorrer dos s\u00e9culos \u00e9 simples:<\/p>\n<p><strong>Ingredientes<\/strong><br \/>\n<strong>1 &#8211; Hist\u00f3ria comum com final tr\u00e1gico<\/strong><br \/>\n<strong>2 &#8211; Jovens de lados opostos\u00a0(zero explica\u00e7\u00e3o dessa oposi\u00e7\u00e3o)<\/strong><br \/>\n<strong>2 &#8211; Personagens secund\u00e1rias engra\u00e7adas <\/strong><br \/>\n<strong>1 &#8211; Personagem bem-intencionada e neutra<\/strong><br \/>\n<strong>1 &#8211; Inimigo chato mas poderoso<\/strong><br \/>\n<strong>1 &#8211; Pitada de magia (ou algu\u00e9m j\u00e1 ouviu falar nessa po\u00e7\u00e3o que te faz entrar em catalepsia?)<\/strong><br \/>\n<strong>1 &#8211; Quiproqu\u00f3<\/strong><\/p>\n<p><strong>Modo de fazer<\/strong><br \/>\n<strong>Situe os dois jovens em uma mesma e improv\u00e1vel cena<\/strong><br \/>\n<strong>Crie um di\u00e1logo divertido e de duplo sentido entre eles<\/strong><br \/>\n<strong>Inverta a ordem natural (tipo quando a mo\u00e7a \u00e9 quem pede em cas\u00f3rio)<\/strong><br \/>\n<strong>Adicione conversas paralelas com as 2 personagens secund\u00e1rias engra\u00e7adas<\/strong><br \/>\n<strong>Cozinhe em fogo baixo com a personagem bem-intencionada e neutra<\/strong><br \/>\n<strong>Flambe uma das personagens engra\u00e7adas com o inimigo chato<\/strong><br \/>\n<strong>Acrescente uma pitada de magia e deixe desandar para criar o quiproqu\u00f3.<\/strong><br \/>\n<strong>Sirva os presuntos quentes e derretendo-se em l\u00e1grimas.<\/strong><\/p>\n<p>E assim<strong> Romeu e Julieta<\/strong> nunca morrem, de fato. Porque permanecem vivos na catarse que vivenciamos nas mais diversas vers\u00f5es da considerada melhor e mais popular trag\u00e9dia de <strong>William Shakespeare<\/strong>. T\u00e3o abrangente que j\u00e1 atraiu an\u00e1lises al\u00e9m das litero-teatrais, tal como a psicanal\u00edtica, feminista e homossexual, sem falar na inspira\u00e7\u00e3o que gerou outros livros como <strong><em>Inoc\u00eancia<\/em><\/strong>\u00a0de Visconde de Taunay, e filmes: <em><strong>Georges M\u00e9li\u00e8s<\/strong> <\/em>(cinema mudo), de George Cukor (1936),\u00a0<em><strong>Franco Zefirelli<\/strong><\/em> (1968) a do j\u00e1 citado Baz Luhrmann. Isso sem comentar muitas par\u00f3dias, inclusive em quadrinhos da Turma da M\u00f4nica.<\/p>\n<p>Um amor irreal que fez uma cidade na It\u00e1lia, Verona, virar roteiro tur\u00edstico com a est\u00e1tua em bronze do jovem casal e com a \u201c<strong>Casa da Julieta<\/strong>\u201d &#8211; com direito a balc\u00e3o, claro!<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje uma apresenta\u00e7\u00e3o teatral de <strong><em>Romeu e Julieta<\/em><\/strong>\u00a0atrai um grande p\u00fablico. Mesmo conhecendo o final tr\u00e1gico, pessoas se emocionam ainda ao vivenciar a morte do jovem casal. O que prova que nem sempre o spoiler estraga; depende da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>\u201cEstas alegrias violentas t\u00eam fins violentos<\/strong><br \/>\n<strong>Falecendo no triunfo, como fogo e p\u00f3lvora<\/strong><br \/>\n<strong>Que num beijo se consomem.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Entre no google, digite \u201c<strong>Romeu e Julieta<\/strong>\u201d no buscador. Olhe quantos links! Tanta gente falando sobre uma pe\u00e7a <strong>shakesperiana<\/strong> &#8211; inspirada em uma hist\u00f3ria da antiguidade grega &#8211; n\u00e3o pode ser de gra\u00e7a. Vale a pena ler. E mais recomend\u00e1vel ainda se for com a tradu\u00e7\u00e3o cuidadosa de B\u00e1rbara Heliodora, que era estudiosa de <strong>William Shakespeare<\/strong> e da l\u00edngua inglesa. Ela buscou respeitar o ritmo com que <strong>Shakespeare<\/strong> modulava o andamento de seu texto teatral, at\u00e9 porque ele era um autor popular, que nunca se incomodou de se apresentar em feiras e junto ao povo, que o adorava, talvez tamb\u00e9m por ele respeitar seu p\u00fablico usando uma linguagem que lhe fosse facilmente compreens\u00edvel.<\/p>\n<p><strong><em>Romeu e Julieta<\/em><\/strong>, indiscutivelmente a pe\u00e7a <strong>shakesperiana<\/strong> mais amada de todas, merece ser lida e n\u00e3o somente vista, pois\u00a0&#8220;Partir \u00e9 uma dor t\u00e3o doce que eu ficarei dizendo boa noite at\u00e9 amanh\u00e3&#8221;.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/homoliteratus.com\/o-que-romeu-e-julieta-nos-ensinam-sobre-o-amor\/\">Um artigo interessante pode ser encontrado aqui!<\/a><\/strong><\/p>\n<p><em><strong>*Tet\u00ea Macambira \u00e9 escritora, revisora e tradutora do franc\u00eas que lamenta Shakespeare n\u00e3o ter escrito em franc\u00eas.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tet\u00ea Macambira* Outro dia, contaram-me que viram, saindo do cinema onde passara Romeu + Julieta\u00a0(do Baz Luhrmann, 1996), um rapaz inconformado porque o casal&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":1204,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[288,368,632,683,708,916,1019,1020,1070,1113,1186],"class_list":["post-1203","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teatro","tag-coluna-rubrica","tag-dramaturgia","tag-julieta","tag-literatura","tag-livro","tag-peca","tag-romeu","tag-romeu-e-julieta","tag-shakespeare","tag-tete-macambira","tag-william-shakespeare"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1203","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1203"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1203\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1203"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1203"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1203"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}