{"id":1206,"date":"2017-09-13T06:30:36","date_gmt":"2017-09-13T09:30:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1206"},"modified":"2017-09-13T06:30:36","modified_gmt":"2017-09-13T09:30:36","slug":"leituras-da-bel-entrevista-eduardo-luz-professor-e-pesquisador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/09\/13\/leituras-da-bel-entrevista-eduardo-luz-professor-e-pesquisador\/","title":{"rendered":"Leituras da Bel entrevista: Eduardo Luz, professor e pesquisador"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1208\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1208\" class=\"size-large wp-image-1208\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/machado-de-assis-624x915.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"806\" \/><p id=\"caption-attachment-1208\" class=\"wp-caption-text\">Machado de Assis<\/p><\/div>\n<p>O entendimento rom\u00e2ntico que foi perpetuado sobre Helena ao longo da hist\u00f3ria sempre pareceu insatisfat\u00f3rio para Eduardo Luz, professor e pesquisador da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC). Nesta quarta-feira, 13, ele lan\u00e7a o livro\u00a0<strong>O romance que n\u00e3o foi lido: Helena, de Machado de Assis<\/strong>, publica\u00e7\u00e3o das Edi\u00e7\u00f5es UFC, resultado de pesquisa que desenvolve desde 2001. Na entrevista, Eduardo fala sobre as perspectiva para o estudo de <em><strong>Helena<\/strong> <\/em>e de outras obras machadianas, as leituras atuais e os planos para o futuro.\u00a0<!--more--><\/p>\n<h2>Leia a entrevista com Eduardo Luz<\/h2>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Em qual momento da vida surgiu seu interesse por Helena?\u00a0Quanto tempo demorou a pesquisa e quais as principais fases?<\/strong><br \/>\n<strong>Eduardo Luz &#8211;<\/strong> Em 2001, eu trabalhava no querido Col\u00e9gio Espa\u00e7o Aberto, preparando os alunos para o vestibular. <strong>Helena<\/strong> foi um dos livros que ficaram sob meus cuidados. Mesmo antes dessa \u00e9poca, o consensual entendimento rom\u00e2ntico desse romance j\u00e1 me parecia insatisfat\u00f3rio. Embora soubesse que seria dentro desse padr\u00e3o que as perguntas do concurso seriam formuladas \u2013 como de fato foram \u2013, eu procurava orientar meus alunos para novas perspectivas de leitura que se impunham a mim e que, por responsabilidade intelectual, eu deveria apontar-lhes. Naquele ambiente t\u00e3o pragm\u00e1tico, isso n\u00e3o foi tranquilo. E j\u00e1 faz longos dezesseis anos&#8230; Durante todo esse per\u00edodo, sempre esteve transitando por minhas ideias a de escrever o livro aqui em quest\u00e3o, que prop\u00f5e e pretende explicar uma nova recep\u00e7\u00e3o para o romance, emancipando-a daquela que se arrasta penosamente h\u00e1 141 anos.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211;\u00a0Qual o papel dos colegas de departamento e dos alunos do curso de Letras dentro da pesquisa?<\/strong><br \/>\n<strong>Eduardo Luz &#8211;<\/strong> A partir de 2012, na UFC, mantive um grupo de estudos sobre <strong>Helena<\/strong> e ofereci, pontualmente, a disciplina optativa Leituras do c\u00e2none ocidental, na qual os alunos e eu proced\u00edamos exclusivamente \u00e0 leitura atenta, densa, \u00e0 leitura linha a linha desse romance. O resultado da experi\u00eancia foi extraordin\u00e1rio: pouco a pouco, compreendemos haver em <strong>Helena<\/strong> uma estrutura narrativa extremamente complexa, e alguns aspectos logo se projetaram, \u00e0 espera de uma an\u00e1lise mais acurada. Um livro como o que fiz n\u00e3o se escreveria sem a contribui\u00e7\u00e3o das ideias dos alunos com quem trabalhei; seus insigths, resultantes de uma press\u00e3o interpretativa extrema, foram absolutamente imprescind\u00edveis para que fosse alcan\u00e7ado o texto machadiano em palimpsesto. No livro, agrade\u00e7o a eles, e n\u00e3o gostaria de perder esta oportunidade de lhes agradecer mais esta vez.<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Falta leitura &#8220;corpo a corpo&#8221; com os textos liter\u00e1rios na academia e na vida?<\/strong><br \/>\n<strong>Eduardo Luz &#8211;<\/strong> Fico tentado a lhe responder com outra pergunta: ser\u00e1 que ainda \u00e9 poss\u00edvel, nestes tempos de interconectividade generalizada, lermos \u201ccorpo a corpo\u201d? Sabemos que o homem evoluiu para a lentid\u00e3o, com seus \u201cneur\u00f4nios da demora\u201d, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 melhorar a sintetiza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m sabemos que o estado natural da mente humana \u00e9 de desaten\u00e7\u00e3o; \u00e9 preciso um grande esfor\u00e7o para n\u00e3o processarmos o est\u00edmulo da desaten\u00e7\u00e3o. Estudos de psic\u00f3logos, neurocientistas e educadores t\u00eam revelado que, quando estamos on-line, ingressamos num ambiente que promove a leitura descuidada, o pensamento acelerado e o aprendizado inconsistente; ou seja, a vida intern\u00e9tica n\u00e3o estimula nem recompensa a imers\u00e3o, a pausa e a contempla\u00e7\u00e3o, que habilitam a intelig\u00eancia da sensibilidade. Aguardemos um pouco mais, no entanto, a rea\u00e7\u00e3o do \u201cslow movement\u201d, dentro do qual est\u00e1 a \u201cslow reading\u201d, que nos reensina a perder tempo, a alcan\u00e7ar sentimentos est\u00e9ticos e a explorar cadeias l\u00f3gicas mais complexas, a partir da sua orienta\u00e7\u00e3o de leitura voluntariamente lenta.<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; O t\u00edtulo do livro \u00e9 &#8220;O romance que n\u00e3o foi lido&#8221;. Por qual raz\u00e3o ou raz\u00f5es isso aconteceu? N\u00f3s, leitores, tendemos a cair em leituras simplistas? <\/strong><br \/>\n<strong>Eduardo Luz &#8211;\u00a0<\/strong>O t\u00edtulo, reconhe\u00e7o, pode soar presun\u00e7oso. O que se pretendeu com ele, no entanto, foi repostar a resson\u00e2ncia das aprecia\u00e7\u00f5es de cr\u00edticos atuais e remotos, prestigiosos ou nem tento, que em nenhum momento imaginaram que a leitura de <strong>Helena<\/strong>, empreendida por eles, pudesse n\u00e3o ser a mais&#8230; machadiana. Essa \u201cpresun\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 inaceit\u00e1vel, porque rendeu censuras \u00e0 obra como estas: \u201ctrabalho de passagem\u201d, com \u201cenredo rocambolesco\u201d; obra-prima \u201cdo estilo n\u00e3o-me-toques\u201d; \u201cs\u00famula dos defeitos da primeira fase do romancista\u201d. Sobre este, a prop\u00f3sito, cravaram esses cr\u00edticos que \u201cainda n\u00e3o estava seguro de seus recursos\u201d e que, \u00e0 \u00e9poca em que escreveu a obra, \u201c[tateava] recursos expressivos e processos de estrutura\u00e7\u00e3o\u201d. Muitos machadianos de merecimento, portanto, desqualificaram <strong>Helena<\/strong> como se seu autor fosse o que jamais foi: descuidado, inconsistente, menor. Parece-nos que o desmerecimento desse romance se deve, em grande medida, a ele n\u00e3o ter sido lido com todos os cuidados que um texto de <strong>Machado<\/strong> exige.<\/p>\n<div id=\"attachment_1209\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1209\" class=\"size-large wp-image-1209\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/le-blanc-seing-1965-rene-magritte-624x775.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"683\" \/><p id=\"caption-attachment-1209\" class=\"wp-caption-text\">Le Blanc Seing, datado de 1965, de Magritte, estampa a capa do livro<\/p><\/div>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Como professores de n\u00edvel fundamental ou m\u00e9dio poderiam utilizar o livro na sala de aula?<\/strong><br \/>\n<strong>Eduardo Luz &#8211;<\/strong> Em <em><strong>Helena<\/strong><\/em>, <strong>Machado<\/strong> pilhou tr\u00eas trag\u00e9dias gregas e as torceu para compor um romance moderno, usando a t\u00e9cnica da emula\u00e7\u00e3o. Ao longo desse processo, explorou negocia\u00e7\u00f5es intertextuais complexas e reciclou pe\u00e7as do c\u00e2none. Para entendermos o processo compositivo de <strong>Machado<\/strong>, portanto, \u00e9 necess\u00e1rio um aparato liter\u00e1rio de que s\u00f3 costumam dispor alunos mais amadurecidos.<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211;\u00a0Como incentivar e abrir caminhos para que os novos leitores fa\u00e7am leituras mais profundas e detalhadas?<\/strong><br \/>\n<strong>Eduardo Luz &#8211;<\/strong> H\u00e1 v\u00e1rias entradas para a literatura, todas leg\u00edtimas, todas v\u00e1lidas. Antes de tudo, por\u00e9m, \u00e9 preciso respeitar o jovem leitor no seu processo de amadurecimento. Isso \u00e9 indispens\u00e1vel para inseri-lo no circuito de leituras mais profundas e mais detalhadas, como voc\u00ea disse. Os livros de <strong>Machado de Assis<\/strong>, por exemplo, s\u00e3o pacientes, n\u00e3o t\u00eam pressa de se mostrarem aos novos leitores; mas muitos professores, ainda que bem-intencionados, esses sim t\u00eam mostrado pressa em apresentar <strong>Machado<\/strong> a seus alunos. Essa precipita\u00e7\u00e3o faz perder tanto o novo leitor quanto o velho escritor. A vida \u00e9 curta (t\u00e3o curta que, ao longo dela, talvez n\u00e3o consigamos ler 5.000 livros), mas \u00e9 preciso ter paci\u00eancia, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o aos escritores matrizes.<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Quais os pr\u00f3ximos passos? Pretende estudar outros aspectos da obra ou outras obras machadianas?<\/strong><br \/>\n<strong>Eduardo Luz &#8211;<\/strong> Inicialmente, \u00e9 preciso deixar esse trabalho agir. Vamos ficar atentos \u00e0s respostas que lhe ser\u00e3o dadas. Depois, a tend\u00eancia \u00e9 retomarmos os tr\u00eas outros romances da chamada \u201cprimeira maneira\u201d de <strong>Machado<\/strong> (<em><strong>Ressurrei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em>, <em><strong>A m\u00e3o e a luva<\/strong><\/em> e <em><strong>Iai\u00e1 Garcia<\/strong><\/em>) e buscarmos as constantes neles dispon\u00edveis, com o fim de, assim, estarmos mais aparelhados para a descri\u00e7\u00e3o do<strong> Sistema Liter\u00e1rio Machado de Assis<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o<\/strong><br \/>\n<strong>Lan\u00e7amento O romance que n\u00e3o foi lido: Helena, de Machado de Assis<\/strong><br \/>\nAutor: Eduardo Luz<br \/>\nQuando: quarta-feira, 13, \u00e0s 18 horas<br \/>\nOnde: Audit\u00f3rio Jos\u00e9 Albano (Centro de Humanidades &#8211; \u00c1rea I &#8211; Benfica)<br \/>\nEntrada gratuita. Haver\u00e1 sorteio de exemplares<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O entendimento rom\u00e2ntico que foi perpetuado sobre Helena ao longo da hist\u00f3ria sempre pareceu insatisfat\u00f3rio para Eduardo Luz, professor e pesquisador da Universidade Federal do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[35],"tags":[399,416,555,649,683,708,731,930,1018],"class_list":["post-1206","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-literatura-brasileira","tag-eduardo-luz","tag-entrevista","tag-helena","tag-lancamento","tag-literatura","tag-livro","tag-machado-de-assis","tag-pesquisa","tag-romance"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1206","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1206"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1206\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1206"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1206"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1206"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}