{"id":1232,"date":"2017-09-21T08:50:46","date_gmt":"2017-09-21T11:50:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1232"},"modified":"2019-07-16T14:40:43","modified_gmt":"2019-07-16T17:40:43","slug":"leia-cronica-e-preciso-falar-com-os-estranhos-de-ayla-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/09\/21\/leia-cronica-e-preciso-falar-com-os-estranhos-de-ayla-andrade\/","title":{"rendered":"Leia a cr\u00f4nica &#8216;\u00c9 preciso falar com os estranhos&#8217;, da escritora Ayla Andrade"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1180\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1180\" class=\"size-large wp-image-1180\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/tumblr_n4plhap9XO1tq6aaco1_r1_1280-624x410.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"361\" \/><p id=\"caption-attachment-1180\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: J\u00e9ssica Gabrielle Lima<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Por Ayla Andrade*<\/strong><\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/umaescadaparaonada.blogspot.com.br\/2009\/03\/e-preciso-falar-com-estranhos.html\"><em><strong>\u00c9 preciso falar com estranhos<\/strong><\/em><\/a><br \/>\n<em><strong>Ela se explicou, na fila,<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>por que comprava o presunto mais barato:<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>&#8211; nesses dias \u00e9 preciso aproveitar as ofertas!<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>eu pensava que seu vestido florido, o cabelo em grampos tortos,<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>as unhas por fazer e o cheiro de guardado reservava<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>uma outra conversa.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>\u00c9 preciso falar com estranhos.<\/strong><\/em><\/p>\n<h2>A cr\u00f4nica<\/h2>\n<p>\u00c9 preciso falar com <strong>estranhos.<\/strong><\/p>\n<p>\u2026 tem isso de andar pela <strong>cidade<\/strong>. Tem gente que anda pela cidade porque assim se faz necess\u00e1rio. Tem gente que anda pra pensar. Tem gente que anda pra chegar. Tem gente que anda e para. Tem gente na cidade.<\/p>\n<p>E gente \u00e9 um tro\u00e7o engra\u00e7ado. Assim, parado, perdido no tempo, correndo, entre tantas outras gentes, ocupando cada peda\u00e7o de <strong>cidade<\/strong> \u00e0 vista.<!--more--><\/p>\n<p>Gente que a gente desconhece, que se v\u00ea em borr\u00f5es na rua. As caras quase todas iguais n\u00e3o fossem os maneios ou os coloridos das roupas. No Centro de Fortaleza \u00e9 poss\u00edvel vivenciar essa cena. Talvez no centro de qualquer <strong>cidade<\/strong>. Uma sobreposi\u00e7\u00e3o burlesca de bocas, olhos, m\u00e3os, vozes, pernas \u2013 pra que tanta perna, meu deus \u2013 j\u00e1 dizia Drummond quando perdeu o bonde e a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas eu, que nunca andei de bonde e guardo a esperan\u00e7a pra alguns raros momentos, acredito no breve instante entre mim e o desconhecido: falar com <strong>estranhos<\/strong>.<\/p>\n<p>Falar com <strong>estranhos<\/strong> me p\u00f5e, muitas vezes, numa aventura louca entre querer reinventar a verdade ou desabafar uma mentira.<\/p>\n<p>Me sinto tentada.<\/p>\n<p>Estou diante de um <strong>estranho<\/strong> e sibilo uma hist\u00f3ria qualquer sobre mim, sobre hoje, sobre mais tarde.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se meu of\u00edcio de escritora me desanda a cabe\u00e7a e o peito pra querer inventar sempre novas hist\u00f3rias (ou mentiras, sei l\u00e1). Pode ser falta de car\u00e1ter? Pode ser pela prosa contada? Pode ser timidez? Eu-n\u00e3o-sei. A complac\u00eancia do <strong>estranho<\/strong> com a minha renda de fatos inveross\u00edmeis ou meias verdades me intriga, me alimenta e vamos desalinhando o fio das conformidades e conven\u00e7\u00f5es que se d\u00e1 entre <strong>estranhos<\/strong> que acabam de se conhecer.<\/p>\n<p>\u00c1s vezes a conversa flui, sai de gra\u00e7a, risos\u2026 tudo meia verdade de mentiras bobas \u2013 sou manicure e vim aqui nessa loja comprar umas coisinhas \u2013 a pessoa pede opini\u00e3o, fala que tem vizinha manicure\u2026 a gente troca informa\u00e7\u00f5es de cores, marcas, pre\u00e7os\u2026 Se eu dissesse apenas a verdade ou se me fechasse em sorriso amarelo que conversa ter\u00edamos? &#8211; Ser\u00e1 que hoje chove? &#8211; Nossa que calor? &#8211; E essas frases de elevador que s\u00e3o de uma falta de paix\u00e3o pela vida que me atormentam a alma. N\u00e3o desejo pra ningu\u00e9m. Melhor ficar com as hist\u00f3rias criadas na hora onde o ponto de partida \u00e9 o sorriso mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Mas vejam bem, n\u00e3o ando por a\u00ed mentindo \u00e0 toa, como se defendesse a teoria da terra plana. A conversa com o \u201camigo\u201d rec\u00e9m-feito \u00e9 m\u00fatua. Ambos queremos conversar e muitas vezes os fatos s\u00e3o o menos importante. E penso que se for dada a verdade tal qual p\u00e3o na chapa \u00e9 porque j\u00e1 sa\u00edmos da condi\u00e7\u00e3o de <strong>estranhos<\/strong>.<\/p>\n<p>O ato de falar com <strong>estranhos<\/strong> e, ent\u00e3o, n\u00e3o sermos mais estranhos \u00e9 que \u00e9 a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de todo aquele borr\u00e3o de rosto, perna, vozes n\u00f3s somos menos dois\u00a0<strong>estranhos<\/strong> no mundo. Vale a mentira.<\/p>\n<p>No mais, \u00e9 preciso falar com os <strong>estranhos<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>*Ayla Andrade<\/strong> \u00e9 assistente social, cronista, contista e amante do cotidiano. Ela j\u00e1 publicou o livro <em><strong>Mais feliz dos sil\u00eancios<\/strong><\/em> (Editora Subst\u00e2nsia, 2014) e publicou contos em algumas antologias, entre elas <strong><em>Encontos e desenconto<\/em><\/strong>s, <em><strong>Antologia Massanova<\/strong><\/em> e <em><strong>O cravo roxo do Diabo: o conto fant\u00e1stico no Cear\u00e1<\/strong><\/em>. Ela escreve quinzenalmente para o Leituras da Bel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>https:\/\/open.spotify.com\/episode\/4E8R7dk8mj2RWMTjLKAn54?si=AIAkIfjXTk-6877U64qXDA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ayla Andrade* \u00c9 preciso falar com estranhos Ela se explicou, na fila, por que comprava o presunto mais barato: &#8211; nesses dias \u00e9 preciso&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":1180,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[159,258,324,430,683,688],"class_list":["post-1232","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica","tag-ayla-andrade","tag-cidade","tag-cronica","tag-escritora","tag-literatura","tag-literatura-cearense"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1232","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1232"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1232\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6401,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1232\/revisions\/6401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1232"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1232"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1232"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}