{"id":1242,"date":"2017-09-26T12:38:57","date_gmt":"2017-09-26T15:38:57","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1242"},"modified":"2017-09-26T12:38:57","modified_gmt":"2017-09-26T15:38:57","slug":"coluna-rubrica-lutar-como-orfeu-pela-sua-paixao-ou-aceitar-o-destino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/09\/26\/coluna-rubrica-lutar-como-orfeu-pela-sua-paixao-ou-aceitar-o-destino\/","title":{"rendered":"Coluna Rubrica: Lutar como Orfeu pela paix\u00e3o ou aceitar o destino?"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Orfeu - Trailer\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bVXL6C5yCD0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Por Tet\u00ea Macambira*<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Orfeu<\/strong> e <strong>Eur\u00eddice<\/strong> est\u00e3o apaixonadinhos e v\u00e3o se casar. Mas uma cobra pica Eur\u00eddice e ela morre. <strong>Orfeu<\/strong>, inconsol\u00e1vel e sem esquecer sua amada, toma sua lira e desce \u00e0 mans\u00e3o dos mortos para buscar sua amada. Canta e pede t\u00e3o docemente que consegue de <strong>Hades<\/strong>, senhor do reino dos mortos, para lhe devolver <strong>Eur\u00eddice<\/strong>. O resto dessa trag\u00e9dia remete \u00a0\u00e0 descren\u00e7a que temos no outro. <\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tamb\u00e9m temos em nossa produ\u00e7\u00e3o nacional um caso de amor imposs\u00edvel:<strong><em> Orfeu da Concei\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. Eram dois pombinhos que se arrulhavam docemente \u00a0juras de amor eterno no morro carioca e tiveram uma trag\u00e9dia, gra\u00e7as aos ci\u00fames de terceiros, \u00a0interrompendo-lhes o amor &#8211; e a tentativa de resolver a situa\u00e7\u00e3o a todo custo.<\/span><\/p>\n<p>Essa trag\u00e9dia carioca em tr\u00eas \u00a0atos foi escrita por Vin\u00edcius de Moraes, em 1954. Encenado pela primeira vez em 25 de setembro de 1956, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com cen\u00e1rios de ningu\u00e9m mais, ningu\u00e9m menos que Oscar Niemeyer e encenado pelo Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento &#8211; e foi a segunda vez que um elenco de atores negros ocupava um dos mais famosos palcos do Brasil.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E promessa cumprida, que acabou rendendo adapta\u00e7\u00e3o para o cinema: <strong><em>Orfeu Negro<\/em><\/strong>\u00a0(1959) com a dire\u00e7\u00e3o de Marcel Camus, ganhando a Palma de Ouro de Cannes e o Oscar pelo melhor filme estrangeiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E o filme rendeu: Barack Obama, em sua autobiografia, descreve a noite que foi com sua m\u00e3e assistir a esse filme. \u00a0A banda <strong>Arcade<\/strong> <strong>fire\u00a0<\/strong>utilizou-se de algumas cenas desse filme em seu clip <em><strong>Afterlife<\/strong><\/em>.<\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Radiohead - Weird Fishes\/Arpeggi (Scotch Mist)\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FcANFVcJeOM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o saciada a fonte, houve nova adapta\u00e7\u00e3o (desta vez, brasileir\u00edssima) da pe\u00e7a teatral para o cinema: <em><strong>Orfeu<\/strong><\/em>\u00a0(1999) sob a dire\u00e7\u00e3o de Cac\u00e1 Diegues, com Toni Garrido e Patr\u00edcia Fran\u00e7a vivenciando o amor imposs\u00edvel sob a m\u00fasica de Caetano Veloso.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\">NOTA: Todas as personagens da trag\u00e9dia devem ser normalmente representadas por atores da ra\u00e7a negra, n\u00e3o importando isto em que n\u00e3o possa ser, eventualmente, encenada \u00a0com atores brancos. Tratando-se de uma pe\u00e7a onde a g\u00edria popular representa um papel muito importante, e como a linguagem do povo \u00e9 extremamente mut\u00e1vel, em caso de representa\u00e7\u00e3o deve ser ela adaptada \u00e0s suas novas condi\u00e7\u00f5es. As letras dos sambas constantes da pe\u00e7a, com m\u00fasica de Ant\u00f4nio Carlos Jobim, s\u00e3o necessariamente as que devem ser usadas em cena, procurando-se sempre atualizar a a\u00e7\u00e3o o mais poss\u00edvel.<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A hist\u00f3ria ser contada na <strong>favela<\/strong>, na d\u00e9cada de 1950, era uma aud\u00e1cia. Mais audaciosa ainda por ser extremamente l\u00edrica, uma paix\u00e3o pelos morros e pelo carnaval &#8211; a grande festa popular.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1245\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/1000-23-624x619.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"546\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Sobre o Ato I<\/strong><br \/>\nDeliciosos momentos em que <strong>Eur\u00eddice<\/strong> e <strong>Orfeu<\/strong> trocam juras de amor, anseiam pelo dia seguinte, o do casamento deles. N\u00e3o tem como n\u00e3o se sorrir ao ler as ternurinhas trocadas, as rubricas indicando os afagos feitos e prometidos, separam-se, mas \u00e9 como se ainda estivessem juntos, de tal forma que um texto lindo demais \u00e9 o \u201cmon\u00f3logo de <strong>Orfeu<\/strong>\u201d, \u00a0elogiando a amada, mon\u00f3logo esse que j\u00e1 foi recitado por Maria Beth\u00e2nia \u00a0e que antecipa a m\u00fasica \u201cSe todos fossem iguais a voc\u00ea\u201d, uma lind\u00edssima can\u00e7\u00e3o de amor.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\">\u201cVai tua vida\/ Teu caminho \u00e9 de paz e amor\/ A tua vida\/ \u00c9 uma linda can\u00e7\u00e3o de amor\/<br \/>\n<\/span><\/em><em>Abre os teus bra\u00e7os e canta a \u00faltima esperan\u00e7a\/ Esperan\u00e7a divina\/ De amar em paz\u2026\u201d<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mira, uma &#8220;ex&#8221; de <strong>Orfeu<\/strong>, vem e tenta <strong>Orfeu<\/strong>, ensaia dissuadi-lo do casamento com Eur\u00eddice, mas ele resiste (*suspiro*). Hashtag chateada, ela sai furibunda e topa com Aristeu (que arrasta a asa para os lados da Eur\u00eddice), com quem confabula. Como resultado, Aristeu apunhala mortalmente Eur\u00eddice &#8211; na v\u00e9spera do casamento.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\">\u201cORFEU: Eu sou a m\u00e1goa, eu sou a tristeza, eu sou a maior tristeza do mundo!<br \/>\n<\/span><\/em><em><span style=\"font-weight: 400\">Eu sou eu, eu sou Orfeu!\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Sobre o Ato II<\/strong><br \/>\n<strong>Orfeu<\/strong>, inconformado, quer reclamar sua amada do mundo dos mortos, para tanto, desce. E \u00e9 carnaval no Inferno (o que n\u00e3o deixa de ser interessante: um inferno cat\u00f3lico em uma mans\u00e3o dos mortos grega). O Inferno \u00e9 uma escola de samba, em que \u00e9 feita a apresenta\u00e7\u00e3o dos instrumentos, t\u00edpicos do batuque de Carnaval.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 uma gloriosa batalha musical entre o viol\u00e3o de <strong>Orfeu<\/strong> e o batuque do Inferno, comandada por Plut\u00e3o (seria Hades, para os gregos). <\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\">\u201cPLUT\u00c3O: Em nome do diabo, diz o que queres, homem!<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400\">ORFEU: Eu quero Eur\u00eddice!\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_1246\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1246\" class=\"wp-image-1246 size-large\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/25set16d-624x290.png\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"256\" \/><p id=\"caption-attachment-1246\" class=\"wp-caption-text\">Ao centro: o Poetinha<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Sobre o Ato III<\/strong><br \/>\nVolta ao primeiro cen\u00e1rio, o morro. H\u00e1 coment\u00e1rios do povo sobre a triste situa\u00e7\u00e3o desoladora de Orfeu. Clio, m\u00e3e de <strong>Orfeu<\/strong>, est\u00e1 revoltada, uma m\u00e3e desesperada por ver seu filho t\u00e3o abatido. <\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\">\u201cCLIO (aos berros): Vaca!\/ Prostituta! Cadela! Vagabunda!\/<br \/>\n<\/span><\/em><em>Nasce de novo que \u00e9 pra eu te comer\/ Os olhos!<br \/>\n<\/em><em><span style=\"font-weight: 400\">Sem-vergonha! Descarada!\/ Nasce de novo, nasce!\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como no mito, as mulheres (bacantes), a\u00e7uladas por Mira, atacam enraivecidas Orfeu por ele manter-se fiel \u00e0 mem\u00f3ria de sua Eur\u00eddice, e em uma viol\u00eancia t\u00e3o sanguinolenta que acabam por matar Orfeu. \u201cComo um Lacoonte, Orfeu luta para desvencilhar-se da penca humana que o massacra. Depois, conseguindo libertar-se por um momento, foge coberto de sangue, com as mulheres no seu encal\u00e7o.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O final dessa pe\u00e7a nem chega, provavelmente, a ser um final, mas antes parece prometer uma continuidade. E essa continuidade \u00e9 a pr\u00f3pria vida, que segue.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\">\u201cCORO \u00a0&#8211; Juntaram-se a Mulher, a Morte a Lua\/ Para matar Orfeu, com tanta sorte\/<br \/>\n<\/span><\/em><em>Que mataram Orfeu, a alma da rua\/ Orfeu, o generoso, Orfeu, o forte.\/<br \/>\n<\/em><em><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m as tr\u00eas n\u00e3o sabem de uma coisa:\/ Para matar Orfeu n\u00e3o basta a Morte.\/<br \/>\n<\/span><\/em><em>Tudo morre que nasce e que viveu\/ S\u00f3 n\u00e3o morre no mundo a voz de Orfeu.\u201d<br \/>\n<\/em><em><span style=\"font-weight: 400\">Porque o que fica neste mundo \u00e9 o exemplo da vida que voc\u00ea deixar.<\/span><\/em><\/p>\n<h2><span style=\"font-weight: 400\">Pensando sobre Orfeu da Concei\u00e7\u00e3o<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lutar pelo que se acredita, pelo que se ama nem sempre \u00e9 um processo pac\u00edfico, pode atrair inveja, cobi\u00e7a e rea\u00e7\u00f5es opostas. No entanto, manter-se fiel a si mesmo, ainda que o destrua, \u00e9 o que constr\u00f3i uma vida digna de ser lembrada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que o Poetinha enfoca e extrai do mito talvez seja uma mensagem (subliminar?) \u00e0 resist\u00eancia negra &#8211; sempre necess\u00e1ria. Ou talvez n\u00e3o, apenas \u00e0 quest\u00e3o de manter-se digno de si mesmo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De qualquer forma, \u00e9 uma leitura em que se re\u00fanem poesia, narrativa e musicalidade extrema. Inclusive, muito aconselh\u00e1vel ler a pe\u00e7a ao som de uma das trilhas sonoras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Porque sempre \u00e9 importante lembrarmos o que queremos na vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>*Tet\u00ea Macambira<\/strong> \u00e9 escritora, tradutora, revisora, fot\u00f3grafa que nunca aprendeu a sambar.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tet\u00ea Macambira* Orfeu e Eur\u00eddice est\u00e3o apaixonadinhos e v\u00e3o se casar. Mas uma cobra pica Eur\u00eddice e ela morre. 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