{"id":1249,"date":"2017-09-27T06:30:46","date_gmt":"2017-09-27T09:30:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1249"},"modified":"2017-09-27T06:30:46","modified_gmt":"2017-09-27T09:30:46","slug":"coluna-literatura-e-mulher-svetlana-aleksievitch-e-a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/09\/27\/coluna-literatura-e-mulher-svetlana-aleksievitch-e-a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher\/","title":{"rendered":"Coluna Literatura e Mulher: Svetlana Aleksi\u00e9vitch e A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1250\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1250\" class=\"size-large wp-image-1250\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/literatura-e-mulher-624x376.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"331\" \/><p id=\"caption-attachment-1250\" class=\"wp-caption-text\">Svetlana Aleksi\u00e9vitch<\/p><\/div>\n<p><em><strong><br \/>\nPor Alessandra Jarreta*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cDizem: ah, mas mem\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o nem hist\u00f3ria, nem literatura. \u00c9 s\u00f3 a vida, cheia de lixo e sem a limpeza feita pelas m\u00e3os do artista. Nosso cotidiano est\u00e1 repleto da mat\u00e9ria-prima da fala. Esses tijolos est\u00e3o espalhados por todo lado. Mas os tijolos ainda n\u00e3o s\u00e3o o templo! Para mim \u00e9 tudo diferente&#8230; Justo ali, na calidez da voz humana, no reflexo vivo do passado, est\u00e1 escondida uma alegoria primitiva, e se desvela a intranspon\u00edvel tragicidade da vida. Seus caos e paix\u00e3o. Seu car\u00e1ter \u00fanico e insond\u00e1vel. Ali, eles ainda n\u00e3o foram submetidos a nenhuma elabora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o originais.\u201d\u00a0At\u00e9 ter a sua nomea\u00e7\u00e3o no Pr\u00eamio Nobel de Literatura em 2015, por sua \u201cescrita polif\u00f3nica, monumento ao sofrimento e \u00e0 coragem na nossa \u00e9poca&#8221; eu, assim como a maioria das pessoas, nunca tinha ouvido falar de <strong>Svetlana Aleksi\u00e9vitch<\/strong>. <!--more--><\/p>\n<p>Sua obra ainda n\u00e3o tinha sido publicada no Brasil, e o pouco que se encontrava sobre ela (que n\u00e3o estivesse em russo) dizia apenas que a autora era uma jornalista que gostava de criticar o governo. Foi feito tamb\u00e9m algum barulho a respeito da sua obra poder ou n\u00e3o ser considerada liter\u00e1ria, e se ela era merecedora do pr\u00eamio \u2013 vozes que foram logo abafadas at\u00e9 quase se calarem. Talvez elas tenham sentido o mesmo n\u00f3 no est\u00f4mago que eu senti quando li as primeiras p\u00e1ginas de <strong><em>Vozes de Tchern\u00f3bil<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Svetlana<\/strong>, hoje com 69 anos, nasceu em Stanislav (atual Ivano-Frankivsk) na Ucr\u00e2nia, mas cresceu na Bielorussia, como uma \u201cfilha da Vit\u00f3ria\u201d. Todas as pessoas a sua volta estiveram na guerra ou tiveram contato com ela em algum n\u00edvel, enchendo sua inf\u00e2ncia de hist\u00f3rias sobre batalhas e morte. Filha de dois professores, estudou jornalismo na Universidade de Minsk e trabalhou em jornais e escolas. <em><strong>A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher<\/strong><\/em>\u201d, seu primeiro livro, finalizado em 1983, passou dois anos parado em uma editora antes de ser publicado. A autora foi acusada de ser pacifista, naturalista e de sujar as imagens das hero\u00ednas, al\u00e9m de anti-comunista e ter uma vis\u00e3o anti-governo, chegando a quase perder seu emprego no jornal.<\/p>\n<p><em><strong>A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher<\/strong><\/em>\u00a0foi o segundo livro que li da autora e, apesar de <strong><em>Vozes de Tchern\u00f3bil<\/em><\/strong>\u00a0ter me feito chegar a solu\u00e7ar, foi o primeiro que mais me marcou. <strong>Tchern\u00f3bil<\/strong>, apesar de n\u00e3o compreender suas consequ\u00eancias t\u00e3o a fundo, era uma hist\u00f3ria que eu conhecia, enquanto a das meninas que pilotavam tanques e avi\u00f5es e combatiam no front, tendo por vezes a coragem que nenhum outro homem teria, era algo de que eu nunca tinha ouvido falar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nobel de Literatura, jornalista Svetlana Aleksi\u00e9vitch se encontra com leitores em S\u00e3o Paulo\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BIrQA9qqmW0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Uma das primeiras coisas que chamam a aten\u00e7\u00e3o quando se inicia a <strong>leitura<\/strong> \u00e9 a maneira como a autora monta o <strong>livro<\/strong>. Intercalando sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria com relatos da guerra (e o trabalho que teve para consegui-los), deixa a sensa\u00e7\u00e3o no leitor de estar caminhando nessa investiga\u00e7\u00e3o junto com ela. Voc\u00ea se sente l\u00e1, naquelas casas pequenas e frias, tomando um ch\u00e1 com uma senhora que perdeu a conta de quantas vidas salvou. Ou tirou.<\/p>\n<p>Aproximadamente 1 milh\u00e3o de mulheres lutaram pelo Ex\u00e9rcito Vermelho durante a segunda guerra mundial mas, como diz o titulo, a guerra n\u00e3o tem cara de mulher. S\u00e3o os homens que contam as hist\u00f3rias, orgulham-se de suas vit\u00f3rias, condecora\u00e7\u00f5es, recebem homenagens. E as mulheres? A garota que volta pra casa com duas Ordens da Gl\u00f3ria e v\u00e1rias medalhas \u00e9 tirada da cama pela m\u00e3e ainda cedinho, enquanto todos est\u00e3o dormindo &#8211; \u201cFilhinha, eu fiz uma trouxa para voc\u00ea. V\u00e1 embora&#8230; V\u00e1 embora&#8230; Suas duas irm\u00e3s menores ainda est\u00e3o crescendo. Quem vai querer casar com elas? Todo mundo sabe que voc\u00ea passou quatro anos no front, com homens&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Durante sete anos <strong>Svetlana<\/strong> reuniu os relatos dessas mulheres que contam 40 anos depois seus sentimentos de quando ainda eram adolescentes. Para nos fazer compreender melhor como funcionavam essas lembran\u00e7as, a autora conta quem eram as tr\u00eas pessoas que faziam parte daquela conversa: a pessoa que estava contando, quem ela era e ela. Essas senhoras que estiveram no front recordam como a guerra pode transformar um civil em militar em apenas tr\u00eas dias. As garotas, que antes se orgulhavam de seus longos cabelos tran\u00e7ados, passaram a usar cabelos curtos e carregavam armas maiores do que elas. Mentiam a idade, fugiam de casa para batalhar por um ideal. Como poderiam ficar em casa esperando quando o pa\u00eds precisava de toda ajuda poss\u00edvel?<\/p>\n<h2>Vamos ler\u00a0Svetlana Aleksi\u00e9vitch<\/h2>\n<div id=\"attachment_1251\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1251\" class=\"size-large wp-image-1251\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/09\/alessandra-jarreta-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-1251\" class=\"wp-caption-text\">Svetlana Aleksi\u00e9vitch<\/p><\/div>\n<p>O <strong>livro<\/strong> conta hist\u00f3rias de v\u00e1rios tipos de experi\u00eancias de guerra. Das garotas que lavavam os uniformes encharcados de sangue dos soldados \u00e0s garotas que se tornaram primeiras atiradoras de seus regimentos, \u00e0quelas que corriam pelo campo em busca dos membros amputados dos rapazes. <strong>Svetlana<\/strong> fala com uma sensibilidade po\u00e9tica sobre a dor da guerra, a sujeira, a fome. Ela d\u00e1 voz \u00e0s pessoas e acontecimentos que s\u00e3o apagados dos livros de hist\u00f3ria, como o sangue da menstrua\u00e7\u00e3o que suja a neve branca durante a marcha, pois o exercito n\u00e3o tinha prepara\u00e7\u00e3o alguma para receber garotas. E tamb\u00e9m das paix\u00f5es que aconteciam entre as batalhas, e de como as garotas transformavam seus sacos para bagagem em saias, e tentavam fazer cachinhos com o pouco cabelo que lhes restavam.<\/p>\n<p>Depois de escrever tanto sobre o sofrimento humano, a autora atualmente mudou um pouco o foco das suas pesquisas. Um dos seus livros mais recentes, <em><strong>The wonderful deer of the eternal hunt<\/strong><\/em>, fala sobre o amor. \u201cCheguei \u00e0 conclus\u00e3o que eu venho escrevendo livros sobre como as pessoas matam uma \u00e0s outras e como elas morrem. Mas isso n\u00e3o representa a totalidade da vida. Agora estou escrevendo sobre como as pessoas amam umas \u00e0s outras. E novamente fa\u00e7o as mesmas perguntas, mas desta vez sob a perspectiva do amor: quem somos n\u00f3s e qual \u00e9 o pa\u00eds em que vivemos. O amor \u00e9 o que nos traz ao mundo. Eu quero amar as pessoas, mesmo que esteja cada vez mais dif\u00edcil am\u00e1-las.\u201d<\/p>\n<p><strong>*Alessandra Jarreta \u00e9 estudante de Letras da UFC, mediadora dos clubes de Leitura Nordestina, Leia Mulheres, Leituras Feministas, Clube do quadrinho e Lendo Cl\u00e1ssicos. Escreve quinzenalmente para o Leituras da Bel sobre Mulher e Literatura.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alessandra Jarreta* \u201cDizem: ah, mas mem\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o nem hist\u00f3ria, nem literatura. \u00c9 s\u00f3 a vida, cheia de lixo e sem a limpeza feita&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":1250,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[62,90,287,683,708,808,1097],"class_list":["post-1249","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura-estrangeira","tag-a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulher","tag-alessandra-jarreta","tag-coluna-literatura-e-mulher","tag-literatura","tag-livro","tag-mulher","tag-svetlana-aleksievitch"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}