{"id":1282,"date":"2017-10-05T06:00:43","date_gmt":"2017-10-05T09:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1282"},"modified":"2017-10-05T06:00:43","modified_gmt":"2017-10-05T09:00:43","slug":"leia-cronica-que-ferida-doa-da-escritora-ayla-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/10\/05\/leia-cronica-que-ferida-doa-da-escritora-ayla-andrade\/","title":{"rendered":"Leia a cr\u00f4nica &#8220;Que a ferida doa&#8221;, da escritora Ayla Andrade"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1289\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1289\" class=\"size-large wp-image-1289\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/10\/tumblr_ncdv81xlq91tq6aaco1_1280-624x471.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"415\" \/><p id=\"caption-attachment-1289\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: J\u00e9ssica Gabrielle Lima<\/p><\/div>\n<p><strong>Por Ayla Andrade<\/strong><\/p>\n<p><em>Para Eduardo Brasil<br \/>\n<\/em>Sim, parecem tempos de guerra. A gente armado de certezas e entrincheiramento.<br \/>\nUm burburinho que se come a c\u00e9u aberto. Uma ang\u00fastia que se leva dentro da bolsa. Uma ansiedade que se veste pra ir ao trabalho. Um desespero que se l\u00ea na palma da m\u00e3o. Um cansa\u00e7o que se respira ao acordar. Um medo que se dorme por cima.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nEstamos acuados e vivendo a vida normalmente. Fazendo as tarefas cotidianas. Acuados e cravando a faca aonde nos permitem. Cravando a faca porque em tempos de guerra \u00e9 isso que se faz. E aonde nos permitem porque sobra pouco do inimigo para o acerto de contas. No geral, nem reconhecemos quem \u00e9 o inimigo. S\u00f3 cravamos a faca. Depois apreciamos, assustados, que a <strong>ferida<\/strong> doa.<\/p>\n<p>A gente trava com a dor da <strong>ferida<\/strong>. Engasga, entala, guarda no peito, mas n\u00e3o ingere, n\u00e3o absorve, n\u00e3o trata\u2026 (e \u00e9 pra isso que serve o trato digestivo!), mas a gente n\u00e3o sabe digerir. A gente mastiga, rumina, baba pelas beiradas da boca, mas n\u00e3o digere.<br \/>\nE a <strong>ferida<\/strong> vai e d\u00f3i na gente, mesmo que a faca esteja nas costas do outro. E ent\u00e3o, apreciamos, assustados, que a <strong>ferida<\/strong> doa. Estamos adoecidos.<\/p>\n<p><strong>Leia mais<\/strong><br \/>\n<strong><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/leia-a-cronica-coisas-infindas-da-escritora-ayla-andrade\/\">Leia a cr\u00f4nica \u2018Coisas Infindas\u2019, da escritora Ayla Andrade<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Cada gera\u00e7\u00e3o vive seus males sem necessariamente escolh\u00ea-los, mas de uma forma ou de outra, os males sempre nos acometem.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei eu, ao certo, que mal maior tem transformado nossa gera\u00e7\u00e3o nesse espet\u00e1culo de aprecia\u00e7\u00e3o de <strong>feridas<\/strong> expostas. De fato, n\u00e3o sei. Tenho conjecturas. Tenho catarses. Tenho espasmos. Tenho \u00falcera.<\/p>\n<p>Tenho atravessado a vida ou nossa gera\u00e7\u00e3o, com alguma sorte e certos privil\u00e9gios. Desse \u00faltimo me envergonho por vezes e na sorte tento o acalanto. Tento. Tento pra sentir a <strong>ferida<\/strong> doer menos e eu poder tamb\u00e9m atravessar a noite.<\/p>\n<p>Dizem que nas guerras as noites tornam-se imensas e fazem sumir as pessoas. Muitas pessoas. As que cravam facas e as que carregam <strong>feridas<\/strong>. Em tempos de guerra n\u00e3o h\u00e1 sono, n\u00e3o se dorme. Podia n\u00e3o haver noite. A noite carregada de poemas &amp; estrelas &amp; amores. Em tempos de guerra tais coisas s\u00e3o mais ou quase t\u00e3o escassas quanto p\u00e3o, que n\u00e3o nutre, mas se pode digerir. Mas a gente acha que o problema \u00e9 a noite e n\u00e3o os tempos de guerra. E segue cravando a faca e apreciando, assustados, que a <strong>ferida<\/strong> doa.<\/p>\n<p>De dia, quando o acalanto da sorte vem e, quando por vezes, os tempos de guerra apregoam tr\u00e9gua, tenho del\u00edrios e nos vejo como desertores, singrando pelos mares, libertos. Nada de c\u00e3ibras ou dorm\u00eancias.<\/p>\n<p>N\u00f3s aprendemos, em segredo, a lamber um a <strong>ferida<\/strong> do outro, mesmo que adoecidos, e ainda, com elas nos arrojamos. E no meu del\u00edrio atravessamos nossa gera\u00e7\u00e3o cantando as cantigas dos desertores para o que o barco siga em conson\u00e2ncia com nossa a travessia gigante, muito maior que os nossos sonhos possam alcan\u00e7ar. No entanto, sigamos, amigos, porque as <strong>feridas<\/strong> h\u00e3o de deixar cicatrizes, mas elas ser\u00e3o a prova de que juntos chegamos a conquistar o que \u00e9 nosso.<\/p>\n<h2>Ayla Andrade<br \/>\n<em>Outubro, 2017<\/em><\/h2>\n<p><strong>*Ayla Andrade \u00e9 assistente social, cronista, contista e amante do cotidiano. Ela j\u00e1 publicou o livro Mais feliz dos sil\u00eancios (Editora Subst\u00e2nsia, 2014) e publicou contos em algumas antologias, entre elas Encontos e desencontos, Antologia Massanova e O cravo roxo do Diabo: o conto fant\u00e1stico no Cear\u00e1.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ayla Andrade Para Eduardo Brasil Sim, parecem tempos de guerra. A gente armado de certezas e entrincheiramento. 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