{"id":1347,"date":"2017-10-17T06:00:29","date_gmt":"2017-10-17T09:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1347"},"modified":"2017-10-17T06:00:29","modified_gmt":"2017-10-17T09:00:29","slug":"coluna-rubrica-o-inferno-somos-nos-mesmos-e-sartre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/10\/17\/coluna-rubrica-o-inferno-somos-nos-mesmos-e-sartre\/","title":{"rendered":"Coluna Rubrica: O inferno somos n\u00f3s mesmos e Sartre"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1348\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1348\" class=\"size-large wp-image-1348\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/10\/Jean-Paul-Sartre-624x497.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"438\" \/><p id=\"caption-attachment-1348\" class=\"wp-caption-text\">Jean-Paul Sartre<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Por\u00a0 Tet\u00ea Macambira*<br \/>\n<\/strong><\/em>Vamos abrir as portas do Inferno!<br \/>\nSe voc\u00ea est\u00e1 associando o <strong>Inferno<\/strong> a um lugar mais quente do que o deserto do Atacama, com direito a fetiches hardcore com chicotes e toda a sorte de pe\u00e7as para tortura neomedievalescas ao som dissonante de gritos e berros de dores e supl\u00edcios, pode esquecer esse \u201cpara\u00edso\u201d para masoquistas de plant\u00e3o!<!--more--><\/p>\n<p>O <strong>Inferno<\/strong> de <strong>Sartre<\/strong> \u00e9 uma sala limpa, quente e com luz acesa sempre, onde as pessoas t\u00eam que conviver entre si e consigo mesmas. Parece simples, n\u00e9?&#8230; Mas \u00e9 como sempre digo: N\u00e3o h\u00e1 nada ruim o suficiente que &#8216;gente&#8217; n\u00e3o consiga piorar. E em \u201cHuis clos\u201d, as tr\u00eas personagens que dividem o palco sem intervalo (pe\u00e7a em um ato) e sem poderem se ausentar provam que tudo pode acontecer quando h\u00e1 pessoas conversando.<\/p>\n<p>\u201cHuis clos\u201d [em tradu\u00e7\u00e3o literal seria \u201ca portas fechadas\u201d, mas foi traduzido para o portugu\u00eas como \u201cEntre quatro paredes\u201d] \u00e9 uma pe\u00e7a teatral engajada no existencialismo, teoria filos\u00f3fica defendida pelo seu autor, <strong>Jean-Paul Sartre<\/strong>. Escrita durante a guerra e somente sendo encenada em 1944, no Th\u00e9\u00e2tre Vieux Colomber, sob a dire\u00e7\u00e3o de Raymond Rouleau, n\u00e3o poderia se desviar do momento hist\u00f3rico de sua cria\u00e7\u00e3o, portanto, a pe\u00e7a n\u00e3o deixa de ser, igualmente, um eco das experi\u00eancias da guerra, da ocupa\u00e7\u00e3o e da libera\u00e7\u00e3o que o autor presenciara &#8211; e uma personagem que representa essa hist\u00f3ria \u00e9 Garcin, jornalista pac\u00edfico, executado por deserdar o campo de batalha.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"S\u00c9RIE- Humano, Demasiado Humano (Jean Paul Sartre)\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uL4UVvN5C6g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Garcin, ali\u00e1s, \u00e9 a personagem que primeiro abre a porta dessa sala infernal, \u00e9 com ele que entramos nesse Inferno psicol\u00f3gico, principalmente com a chegada de Estelle e In\u00eas &#8211; esses tr\u00eas ir\u00e3o se revezar, entre si, nos pap\u00e9is de verdugo e v\u00edtima, uns dos outros. Porque o pior inferno n\u00e3o \u00e9 o local em si, mas as pessoas no lugar.<\/p>\n<h2>Os outros de Sartre<\/h2>\n<p>As pessoas est\u00e3o mortas e est\u00e3o no <strong>Inferno<\/strong>. Obviamente, n\u00e3o foram her\u00f3is em vida. Descobrir que Garcin era um covarde e traidor da p\u00e1tria, Estelle uma ad\u00faltera e infanticida, e In\u00eas uma l\u00e9sbica e suicida n\u00e3o \u00e9 o prato principal desse texto teatral, mas os di\u00e1logos que s\u00e3o constru\u00eddos, os mecanismos de manipula\u00e7\u00e3o com que as outras duas personagens interrogam um alvo por vez, em uma ciranda de jogo da verdade com suspeitas e acusa\u00e7\u00f5es cru\u00e9is. Toda essa descoberta do Outro e as rea\u00e7\u00f5es que provocam \u00e9 que s\u00e3o o ponto forte dessa obra.<\/p>\n<p><em>IN\u00caS: Morre-se sempre cedo demais &#8211; ou tarde demais. No entanto a vida est\u00e1 a\u00ed: liquidada. J\u00e1 foi passado o tra\u00e7o debaixo das parcelas, resta fazer a soma. Voc\u00ea nada mais \u00e9 do que a sua vida.<\/em><br \/>\n<em>A ideia mais forte que vem ao ler \u201cHuis clos\u201d \u00e9 como agir\u00edamos no lugar deles tr\u00eas? e tamb\u00e9m pode-se pensar que \u201cpecados\u201d cometemos para nos prendermos a uma situa\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel. E, por fim: a vida, a conviv\u00eancia com o Outro\u2026 isso j\u00e1 \u00e9 um Inferno.<\/em><br \/>\n<em>GARCIN: (..) Ent\u00e3o, isto \u00e9 que \u00e9 o inferno? Nunca imaginei\u2026 N\u00e3o se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha\u2026 Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno\u2026 s\u00e3o os Outros.<\/em><\/p>\n<p><strong>Bastidores<\/strong><br \/>\n<em>IN\u00caS: Morta! Morta! Morta! Nem a faca, nem o veneno, nem a forca. Est\u00e1 tudo acabado, compreende? E estamos juntos para sempre. (Ri)<\/em><br \/>\n<em>ESTELLE (numa gargalhada): Para sempre, meu Deus! Que engra\u00e7ado! Para sempre!<\/em><br \/>\n<em>GARCIN (que ri, olhando as duas): Para sempre!<\/em><br \/>\n<em> (Caem sentados cada qual sobre o seu sof\u00e1. Um longo sil\u00eancio. Deixam de rir e entreolham-se. Garcin ergue-se.)<\/em><br \/>\n<em>GARCIN: Pois \u00e9, continuemos!<\/em><\/p>\n<p>Sim, \u201ccontinuemos!\u201d, posto que tem que se continuar. E embora a maioria das pessoas leiamos de forma \u201crasa\u201d a frase \u201cO inferno s\u00e3o os outros\u201d enquanto uma releitura da vida cotidiana, <strong>Sartre<\/strong> pretendia ir al\u00e9m. O que ele pretendia dizer era que \u201cse as rela\u00e7\u00f5es com outra pessoa est\u00e3o tortas, viciadas, ent\u00e3o o outro ser\u00e1, logicamente, o inferno. Por qu\u00ea? Porque as outras pessoas s\u00e3o, no fundo, o que h\u00e1 de mais importante em n\u00f3s mesmos para que, assim, possamos melhor conhecer a n\u00f3s mesmos&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s nos julgamos de acordo com o que os outros podem pensar de n\u00f3s. Qualquer coisa que eu diga de mim mesmo, entrar\u00e1 no meio um pr\u00e9-julgamento de outra pessoa. O que significa que, se minha rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 ruim, acabo ficando dependente do que o outro pensa de mim. E dessa forma \u00e9 que estarei no <strong>Inferno<\/strong>. Existem muitas pessoas que est\u00e3o vivendo em um Inferno em vida por dependerem da opini\u00e3o alheia. Obviamente que n\u00e3o podemos viver sem manter rela\u00e7\u00f5es com as outras pessoas, na realidade, isso s\u00f3 demonstra a import\u00e2ncia capital de todas as outras pessoas para cada um de n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Uma segunda luz sob a qual se pode observar \u201cEntre quatro paredes\u201d \u00e9 o \u201cenvernizamento\u201d; de acordo com o pr\u00f3prio <strong>Sartre<\/strong>, \u201cmuitas pessoas se envernizam em uma s\u00e9rie de h\u00e1bitos e atitudes, pelos quais s\u00e3o julgados e sofrem com isso, mas mesmo assim n\u00e3o mudam. Essas pessoas est\u00e3o como mortas.\u201d<\/p>\n<p>Sabendo que o existencialismo ateu acredita que a vida em si n\u00e3o tem sentido e que , por isso, todo ser \u00e9 respons\u00e1vel em criar o sentido para a pr\u00f3pria vida, nada mais esperado que em \u201cEntre quatro paredes\u201d haja um desprezo pela acomoda\u00e7\u00e3o e in\u00e9rcia, que n\u00e3o permitiriam a escolha respons\u00e1vel pela liberdade (percept\u00edvel quando descobrem que a porta n\u00e3o est\u00e1 trancada, mas os tr\u00eas permanecem na sala infernal).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Box (2009) Official Trailer - Cameron Diaz, James Marsden Thriller Movie HD\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nSOjMkoBYYA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Um texto atual que j\u00e1 teve duas vers\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, uma em 1954 e outra em 1962 (sob o t\u00edtulo de <em><strong>No exit<\/strong><\/em>\u00a0[Sem sa\u00edda]); e uma adapta\u00e7\u00e3o televisiva em 1965. Al\u00e9m de ter inspirado os filmes estadunidenses <em><strong>The box<\/strong><\/em>\u00a0(2009, com Cameron Diaz) e <em><strong>Natureza selvagem<\/strong><\/em>\u00a0(2001, com Tim Robbins) &#8211; neste \u00faltimo a inspira\u00e7\u00e3o se d\u00e1 na ambienta\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-morte do protagonista; uma casa onde tem a eternidade para contar a sua hist\u00f3ria de vida.<\/p>\n<p>O livro j\u00e1 sofreu v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es, mas uma das mais consideradas \u00e9 a de Guilherme de Almeida, tradu\u00e7\u00e3o essa que foi repetida na edi\u00e7\u00e3o de capa dura da cole\u00e7\u00e3o \u201cTeatro vivo\u201d, lan\u00e7ado pela editora Abril Cultural. Leitura fluida, com indica\u00e7\u00f5es de cena resumidamente necess\u00e1rias, o texto tem um grande foco n\u00e3o na encena\u00e7\u00e3o, mas no texto, nas falas das personagens em si, o que facilita a leitura com a impress\u00e3o de estarmos acompanhando, como observadores, uma conversa entre outras tr\u00eas pessoas.<\/p>\n<p>E fica a sensa\u00e7\u00e3o final: como contar a nossa vida pela eternidade sem arrependimentos?<\/p>\n<p><strong>*Tet\u00ea Macambira \u00e9 escritora, tradutora, revisora e colabora quinzenalmente com o blog \u201cLeituras da Bel\u201d coma coluna Rubrica, na qual emite notas liter\u00e1rias sobre pe\u00e7as teatrais.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0 Tet\u00ea Macambira* Vamos abrir as portas do Inferno! 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