{"id":1386,"date":"2017-10-24T10:12:57","date_gmt":"2017-10-24T13:12:57","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1386"},"modified":"2017-10-24T10:12:57","modified_gmt":"2017-10-24T13:12:57","slug":"coluna-rubrica-o-pagador-de-promessas-e-dias-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/10\/24\/coluna-rubrica-o-pagador-de-promessas-e-dias-gomes\/","title":{"rendered":"Coluna Rubrica: O pagador de promessas e Dias Gomes"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Filme O Pagador de Promessas 1962 Completo.\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vUyDvdB-0u8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em><strong>Por Tet\u00ea Macambira*<\/strong><br \/>\nProsc\u00eanio<\/em><br \/>\n<em>ROSA: Pra que serve uma cruz?<\/em><br \/>\n<em>Que cada um tem que carregar a sua pr\u00f3pria cruz, \u00e9 ditado dos mais conhecidos. E sempre \u201cdamos um jeitinho\u201d: uma almofadinha no ombro, umas rodinhas na cruz, um mp3 recheado com a trilha sonora perfeita e o caminho mais ensombrado que tiver\u2026 e p\u00e9 na estrada!, vamos carregar a nossa cruz. Analogias modernosas \u00e0 parte, nosso bem-humorado, mordaz e brasileir\u00edssimo Dias Gomes tinha uma excelente no\u00e7\u00e3o do peso que uma cruz pode ter &#8211; e o quanto ela pode pesar aos outros ao redor de quem carrega sua cruz ciosa e teimosamente. Z\u00e9-do-Burro \u00e9 uma das personagens populares cuja inoc\u00eancia e honestidade l\u00edmpida ganha nossa r\u00e1pida afei\u00e7\u00e3o&#8230; e comisera\u00e7\u00e3o. Seus personagens populares geralmente representam fun\u00e7\u00f5es sociais bem distintas e a intera\u00e7\u00e3o entre elas \u00e9 de um equil\u00edbrio delicado e perigoso, podendo irromper a qualquer momento o t\u00eanue fio da civilidade. S\u00e3o essas rela\u00e7\u00f5es sutis que vivenciam um momento hist\u00f3rico mas, que acima da escrita da hist\u00f3ria sendo feita, s\u00e3o seres humanos em sua eterna problem\u00e1tica de conviv\u00eancia e (des)entendimento m\u00fatuos que ganham a boca de cena com as falas que, 50 anos depois, ainda fazem sentido &#8211; infelizmente, todo o sentido do mundo.<\/em><br \/>\n<em>BONIT\u00c3O: E desde quando trabalhar d\u00e1 direito a alguma coisa? <\/em><br \/>\n<em>Quem lhe meteu na cabe\u00e7a essas ideias? (olha-a de alto a baixo, desconfiado) <\/em><br \/>\n<em>Est\u00e1 virando comunista?<\/em><!--more--><\/p>\n<p><em>Cena<\/em><br \/>\n<em>Z\u00c9 (irritando-se): Eu tamb\u00e9m estou me querendo entender com o senhor e com todo mundo. Mas acho que ningu\u00e9m me entende. (&#8230;)<\/em><\/p>\n<p>Z\u00e9-do-Burro, acompanhado de sua esposa Rosa, cumpre a promessa, que fizera a santa B\u00e1rbara\/ Ians\u00e3, de carregar uma cruz tal qual a de Jesus pela cura milagrosa de seu burro Nicolau, percorrendo sete l\u00e9guas (1 l\u00e9gua = 4,82803 km) de seu interior at\u00e9 o altar da santa em Salvador. Mas (toda hist\u00f3ria tem um \u201cmas\u201d) o p\u00e1roco da igreja se recusa a receber a paga porque prometida em um terreiro. Al\u00e9m da situa\u00e7\u00e3o religiosa, adverte o autor na introdu\u00e7\u00e3o, o foco \u00e9 a intoler\u00e2ncia, a rigidez da ideia e a deturpa\u00e7\u00e3o do ocorrido pelos outros.<\/p>\n<p>O protagonista cresce em cena como um her\u00f3i inesperado e relutante, algu\u00e9m que tenta manter-se fiel aos pr\u00f3prios princ\u00edpios, sem &#8211; no entanto &#8211; perceber muito bem as armas da manipula\u00e7\u00e3o que come\u00e7am a agir com e em torno dele.<\/p>\n<p><em>REP\u00d3RTER: Repartir o s\u00edtio\u2026 Diga-me, o senhor \u00e9 a favor da Reforma Agr\u00e1ria?<\/em><br \/>\n<em>Z\u00c9 (sem entender): Reforma agr\u00e1ria?!&#8230; O que \u00e9 isso?<\/em><br \/>\n<em>REP\u00d3RTER: \u00c9 o que o senhor fez em seu s\u00edtio. Redistribui\u00e7\u00e3o das terras entre os lavradores pobres.<\/em><br \/>\n<em>Z\u00c9: E n\u00e3o estou arrependido, mo\u00e7o. Fiz a felicidade de bocado de gente e o que restou d\u00e1 pra mim e sobra.<\/em><br \/>\n<em>REP\u00d3RTER (anotando): \u00c9 a favor da Reforma Agr\u00e1ria.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_1387\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1387\" class=\"size-large wp-image-1387\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/10\/o-pagador-de-promessas-filme-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-1387\" class=\"wp-caption-text\">O pagador de promessas<\/p><\/div>\n<p>A quest\u00e3o religiosa n\u00e3o \u00e9 crucial, mas a intransig\u00eancia, o apego excessivo de ambas as partes &#8211; tanto da igreja quanto do penitente Z\u00e9-do-Burro &#8211; \u00e9 que fomentam o ponto nevr\u00e1lgico da situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. Cresce de tal forma que a igreja resolve amenizar sem parecer estar voltando atr\u00e1s em sua primeira decis\u00e3o retr\u00f3grada, mas rebate na teimosia do simples, que apenas quer cumprir a promessa feita na \u00edntegra: deixar a cruz DENTRO da igreja, no altar da santa, ele assume a responsabilidade de sua promessa e insiste em lev\u00e1-la at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p><em>MONSENHOR &#8211; (&#8230;) A fim de dar uma prova da toler\u00e2ncia da Igreja <\/em><br \/>\n<em>para com aqueles que se desviam dos c\u00e2nones sagrados\u2026<\/em><br \/>\n<em>Z\u00c9 (interrompendo): Padre, eu sou cat\u00f3lico. N\u00e3o entendo muita coisa do que dizem, <\/em><br \/>\n<em>mas queria que o senhor entendesse que eu sou cat\u00f3lico. <\/em><br \/>\n<em>Pode ser que eu tenha errado, mas eu sou cat\u00f3lico.<\/em><br \/>\n<em>MONSENHOR &#8211; Pois bem. Vamos lhe dar uma oportunidade. <\/em><br \/>\n<em>Se \u00e9 cat\u00f3lico, renegue todos os atos que praticou por inspira\u00e7\u00e3o do Diabo <\/em><br \/>\n<em>e volte ao seio da Santa Madre Igreja.<\/em><br \/>\n<em>Z\u00c9 (sem entender): Como, padre?!<\/em><\/p>\n<p>Essa teimosia, essa obstina\u00e7\u00e3o de Z\u00e9-do-Burro, surda aos ouvidos dos poderosos, recebe a puni\u00e7\u00e3o do sistema e acidentalmente (?) \u00e9 baleado. Respeitando sua fidelidade aos pr\u00f3prios princ\u00edpios, os capoeiras, igualmente representantes da massa popular, encerram a pe\u00e7a em mudez &#8211; s\u00f3 a cena \u00e9 que cresce na movimenta\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p><em>(&#8230;) Mestre Coca inclina-se diante de Z\u00e9-do-Burro, segura-o pelos bra\u00e7os, <\/em><br \/>\n<em>os outros capoeiras se aproximam tamb\u00e9m e ajudam a carregar o corpo. <\/em><br \/>\n<em>Colocam-no sobre a cruz, de costas, com os bra\u00e7os estendidos, <\/em><br \/>\n<em>como um crucificado. Carregam-no assim, como numa padiola, <\/em><br \/>\n<em>e avan\u00e7am para a igreja. (&#8230;) Intimidados, o Padre e o Sacrist\u00e3o recuam, <\/em><br \/>\n<em>a Beata foge e os capoeiras entram na igreja com a cruz, <\/em><br \/>\n<em>sobre ela o corpo de Z\u00e9-do-Burro. (&#8230;)<\/em><\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IqmUD0nbR9w<\/p>\n<h2><b>Dias Gomes<\/b><\/h2>\n<p>Dias Gomes iniciou-se cedo na literatura, como romancista e dramaturgo, mas foi\u00a0 <em><strong>O pagador de promessas<\/strong><\/em>\u00a0que lhe garantiu uma justa visibilidade, embora alguns cr\u00edticos considerem que ele, Dias Gomes, tenha sido o autor de uma \u00fanica pe\u00e7a, dado o seu relevo &#8211; o que \u00e9 injusto. Outras pe\u00e7as teatrais suas s\u00e3o t\u00e3o importantes quanto. \u201cO ber\u00e7o do her\u00f3i\u201d, por exemplo, que foi proibida \u00e0 \u00e9poca e depois levada \u00e0 TV com o nome de \u201cRoque santeiro\u201d, sucesso global.<\/p>\n<p>Pe\u00e7a em tr\u00eas atos, foi apresentada, pela primeira vez, no Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia, em 29 de julho de 1960, sob a dire\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio Rangel e tendo nos pap\u00e9is dos protagonistas Z\u00e9-do-Burro e Rosa, os atores Leonardo Vilar e Nat\u00e1lia Timberg. Obteve v\u00e1rios pr\u00eamios, no mesmo ano e em 1962 quando recebeu tamb\u00e9m a Palma de Ouro em Cannes, por sua vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica (mas com Gl\u00f3ria Menezes no papel de Rosa).<\/p>\n<p>Sendo objeto de estudo por v\u00e1rios \u00e2ngulos, quer seja o psicol\u00f3gico, o sociol\u00f3gico, o dram\u00e1tico ou o liter\u00e1rio, <em><strong>O pagador de promessas<\/strong><\/em>\u00a0\u00e9 um espet\u00e1culo ao qual n\u00e3o se pode sair impune ap\u00f3s sua leitura ou assistir-lhe. E, como o pr\u00f3prio autor diz, na \u201cNota do autor\u201d que precede a leitura da pe\u00e7a:<\/p>\n<p><em>\u201cO homem, no sistema capitalista, \u00e9 um ser em luta contra a engrenagem social que promove a sua desintegra\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que aparenta e declara agir em defesa de sua liberdade individual. Para adaptar-se a essa engrenagem, o indiv\u00edduo concede levianamente, ou abdica por completo de si mesmo. O Pagador de Promessas \u00e9 a est\u00f3ria de um homem que n\u00e3o quis conceder &#8211; e foi destru\u00eddo. Seu tema central \u00e9, assim, o mito da sociedade capitalista. Baseada no princ\u00edpio da liberdade de escolha, a sociedade burguesa n\u00e3o fornece ao indiv\u00edduo os meios necess\u00e1rios ao exerc\u00edcio dessa liberdade, tornando-a, portanto, ilus\u00f3ria. Claro, h\u00e1 tamb\u00e9m a intoler\u00e2ncia, o sectarismo, o dogmatismo, que fazem com que vejamos inimigos naqueles que, de fato, est\u00e3o do nosso lado. H\u00e1, sobretudo, a falta de uma linguagem comum entre os homens. Tudo isso tornando imposs\u00edvel a dignidade humana. S\u00e3o pe\u00e7as da engrenagem homicida.<\/em><\/p>\n<p><em>Como Z\u00e9-do-Burro, cada um de n\u00f3s tem suas promessas a pagar. A Deus ou ao Dem\u00f4nio, a uma Ideia. (&#8230;) E cada um de n\u00f3s tem pela frente o seu \u201cPadre Olavo\u201d. Ele n\u00e3o \u00e9 um s\u00edmbolo da intoler\u00e2ncia religiosa, mas de intoler\u00e2ncia universal. Veste batina, podia vestir farda ou toga. (&#8230;) O Pagador de Promessas n\u00e3o \u00e9 uma pe\u00e7a anticlerical &#8211; espero que isso seja entendido. Z\u00e9-do-Burro \u00e9 trucidado n\u00e3o pela Igreja, mas por toda uma organiza\u00e7\u00e3o social, na qual somente o povo das ruas com ele se confraterniza e a seu lado se coloca, (&#8230;). A invas\u00e3o final do templo tem n\u00edtido sentido de vit\u00f3ria popular e destrui\u00e7\u00e3o de uma engrenagem da qual, \u00e9 verdade, a Igreja, como institui\u00e7\u00e3o, faz parte. (&#8230;)<\/em><\/p>\n<p><em>Mas o que nos interessa n\u00e3o \u00e9 o dogmatismo crist\u00e3o, a intoler\u00e2ncia religiosa &#8211; \u00e9 a crueldade de uma engrenagem social constru\u00edda sobre um falso conceito de liberdade. Z\u00e9-do-Burro, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 um homem livre. Por defini\u00e7\u00e3o, apenas. O que nos importa \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o de que ele \u00e9 v\u00edtima &#8211; explora\u00e7\u00e3o que constitui tamb\u00e9m um dos alicerces da sociedade em que vivemos.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Para saber mais:<\/strong><br \/>\nGOMES, Dias, Cole\u00e7\u00e3o Dias Gomes &#8211; volume 1 &#8211; Os her\u00f3is vencidos: O pagador de promessas e O Santo Inqu\u00e9rito, coordena\u00e7\u00e3o de Antonio Mercado, fortuna cr\u00edtica por Anatol Rosenfeld e S\u00e1bato Magaldi, Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.<\/p>\n<p><strong><em>*Tet\u00ea Macambira \u00e9 escritora, tradutora, revisora e colabora quinzenalmente com o blog \u201cLeituras da Bel\u201d com a coluna Rubrica, na qual emite notas liter\u00e1rias sobre pe\u00e7as teatrais. E confessa, contritamente, que vive colocando rodinhas na pr\u00f3pria cruz.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tet\u00ea Macambira* Prosc\u00eanio ROSA: Pra que serve uma cruz? 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