{"id":1483,"date":"2017-11-22T05:00:36","date_gmt":"2017-11-22T08:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1483"},"modified":"2017-12-28T10:16:42","modified_gmt":"2017-12-28T13:16:42","slug":"coluna-literatura-e-mulher-octavia-butler-e-kindred","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/11\/22\/coluna-literatura-e-mulher-octavia-butler-e-kindred\/","title":{"rendered":"Coluna Literatura e Mulher: Octavia Butler e Kindred"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Octavia Butler on Charlie Rose- Part 1\/2\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/66pu-Miq4tk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em><strong>Por Alessandra Jarreta*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Para que serve a<strong> fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong>? Mais do que imaginar carros voadores e rob\u00f4s limpando a nossa sujeira, o g\u00eanero, tamb\u00e9m conhecido como sci-fi, existe para nos fazer refletir o presente e alertar sobre o futuro. Grandes livros como <strong><em>1984<\/em><\/strong>, de George Orwell, e <strong><em>O conto da Aia<\/em><\/strong>, de Margaret Atwood, alertam leitores para uma um terror ficcional que parece estar batendo \u00e0 porta &#8211; um aviso que continua necess\u00e1rio. Vislumbramos o futuro sem precisar estar l\u00e1, e isso nos d\u00e1 a chance de evitar que esse futuro aconte\u00e7a.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nViagens no tempo n\u00e3o s\u00e3o novidade na fic\u00e7\u00e3o. Bem conhecidas na literatura, no cinema, nos quadrinhos e na televis\u00e3o, vimos com a <em><strong>A m\u00e1quina do tempo<\/strong><\/em> e a <em><strong>Legi\u00e3o dos super-her\u00f3is<\/strong><\/em> as maravilhas (e os terrores) que o futuro nos aguarda. Esteja situado em governos ditatoriais ou para\u00edsos tecnol\u00f3gicos, geralmente acompanhamos um protagonista, um homem branco, tentando se camuflar, se inserir ou fugir. Mas o que aconteceria se esse protagonista fosse uma mulher, negra, e ela voltasse contra a sua vontade para o sul dos Estados Unidos no s\u00e9culo XIX, antes da Guerra Civil? E se ela em poucos segundos fosse considerada uma escrava e n\u00e3o tivesse como retornar?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a hist\u00f3ria que vai nos contar <strong>Kindred<\/strong>, livro in\u00e9dito da escritora americana <strong>Octavia Butler<\/strong>, publicada pela primeira vez no Brasil pela editora Morro Branco. No livro acompanhamos Dana, uma jovem escritora nos anos 1970, que no dia do seu anivers\u00e1rio, quando est\u00e1 de mudan\u00e7a para um novo apartamento com o marido, sente uma vertigem e volta para o passado, a tempo de salvar uma crian\u00e7a que est\u00e1 se afogando, e sem ter a menor ideia de como voltar pra casa.<\/p>\n<p><em>\u201cO garoto estava literalmente crescendo diante dos meus olhos \u2013 crescendo porque eu o vigiava e ajudava a mant\u00ea-lo a salvo. Eu era a pior guardi\u00e3 poss\u00edvel para ele \u2013 uma negra para cuidar dele numa sociedade que considerava negros sub-humanos, uma mulher para cuidar dele numa sociedade que nos considerava eternas crian\u00e7as.\u201d (Trecho do livro)<\/em><\/p>\n<p>Conhecida como a dama da fic\u00e7\u00e3o cientifica, <strong>Octavia Butler<\/strong> decidiu se tornar escritora aos 12 anos, depois de assistir \u201cDevil Girl from Mars\u201d (Garota demon\u00edaca de marte) e constatar que podia fazer coisa melhor. E depois de assistir ao filme escreveu o rascunho que serviria de base para a sua s\u00e9rie Patternist, ainda n\u00e3o publicada no Brasil. Seu pai faleceu quando tinha apenas 7 anos, e Octavia foi criada pela av\u00f3 e pela m\u00e3e, que trabalhava como empregada dom\u00e9stica. Apesar de ter vivido em uma comunidade racialmente integrada em Pasadena, na Calif\u00f3rnia, a jovem Butler logo teve que lidar com o racismo, vendo sua m\u00e3e entrar pela porta dos fundos das casas e ouvindo ofensas com frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>T\u00edmida, com dislexia e com 1,80m de altura, <strong>Octavia<\/strong> passava todo o tempo poss\u00edvel na biblioteca para evitar os bullies da escola, lendo e escrevendo. Sua m\u00e3e tamb\u00e9m lhe dava livros e revistas que as fam\u00edlias brancas jogavam fora, e seu gosto por hist\u00f3rias logo ganhou \u00eanfase na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tornando-se leitora voraz de revistas do g\u00eanero como <strong><em>Amazing Stories<\/em><\/strong>, <em><strong>Magazine of Fantasy &amp; Science Fiction<\/strong><\/em> e\u00a0\u00a0<em><strong>Galaxy<\/strong><\/em>. Apesar de avisada pela tia que \u201cnegros n\u00e3o podem ser escritores\u201d, e contrariando o desejo da m\u00e3e de ter uma filha secret\u00e1ria, Octavia , assim como Dana, arranjou uma sequ\u00eancia de empregos tempor\u00e1rios pouco desafiadores para poder acordar de madrugada e escrever, at\u00e9 poder larga-los e viver somente da escrita.<\/p>\n<div id=\"attachment_1485\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1485\" class=\"size-large wp-image-1485\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/11\/octavia-butler-624x351.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-1485\" class=\"wp-caption-text\">Octavia Butler<\/p><\/div>\n<p><strong>\u201cEntrevistador: Eu ouvi voc\u00ea falar sobre os trabalhos em f\u00e1bricas que voc\u00ea realizou antes de se ter estabelecido como escritora. Voc\u00ea disse que uma das poucas coisas boas sobre eles era que ningu\u00e9m exigia que voc\u00ea fosse agrad\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Octavia: Ou sorrir. Essa n\u00e3o \u00e9 a minha natureza, ent\u00e3o foi muito bom ser t\u00e3o mal-humorada quanto eu me sentia, porque estava me levantando cedo para escrever e depois trabalhar, e nas \u00faltimas horas do dia eu estava praticamente no autom\u00e1tico. Lembro-me de trabalhar em uma casa de correspond\u00eancia; Eu nem sei se esses lugares ainda existem. Eles tinham m\u00e1quinas e pessoas juntando peda\u00e7os de correio para publicidade. Era como uma linha de montagem em uma f\u00e1brica, apenas um pouco mais complicada. Voc\u00ea faz isso durante todo o dia at\u00e9 seus ombros desejarem desertar para outro corpo.\u201d (autora em entrevista)<\/strong><\/p>\n<p>Octavia Butler formou-se pela PCC com um diploma de tecn\u00f3loga em artes com foco em hist\u00f3ria, e teve a inspira\u00e7\u00e3o para escrever Kindred durante a faculdade, quando um colega envolvido com o movimento Black Power criticou gera\u00e7\u00f5es anteriores de afro-americanos por terem sido t\u00e3o servis aos brancos. Essa experi\u00eancia criou na autora o desejo de explicar em uma hist\u00f3ria como essa subservi\u00eancia era uma forma silenciosa e corajosa de sobreviver. Dana, durante sua estadia no passado, \u00e9 obrigada a agir como escrava e baixar a cabe\u00e7a para injusti\u00e7as, explora\u00e7\u00f5es, estupros e espancamentos, tentando n\u00e3o acabar morta amarrada em um tronco ou dentro da boca de um cachorro.<\/p>\n<p><em>\u201cAlgum dia eu fugiria de novo? Eu seria capaz?<\/em><br \/>\n<em>Eu me mexi, me contorci de alguma forma, deitando de lado. Tentei fugir dos meus pensamentos, mas eles ainda vinham.<\/em><br \/>\n<em>Est\u00e1 vendo como \u00e9 f\u00e1cil criar um escravo? eles diziam.\u201d (trecho do livro)<\/em><\/p>\n<p>Em 2005, <strong>Butler<\/strong> foi admitida no Hall Internacional da Fama de Escritores Negros da Universidade Estadual de Chicago. Escreveu s\u00e9ries de sucesso, romances e colet\u00e2neas de contos, tratando em suas obras temas como o afrofuturismo, a reconstru\u00e7\u00e3o do ser humano, ra\u00e7a e g\u00eanero e a cria\u00e7\u00e3o de comunidades alternativas. Faleceu aos 58 anos em 2006 devido a um derrame cerebral, e uma bolsa de estudos com seu nome foi criada para incentivar estudantes negros a participarem do Clarion West Writers Workshop e do Clarion Writers&#8217; Workshop, oficinas de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria onde Butler cresceu como escritora.<\/p>\n<div id=\"attachment_1486\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1486\" class=\"size-large wp-image-1486\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/11\/octavia-butler-autora-624x466.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"411\" \/><p id=\"caption-attachment-1486\" class=\"wp-caption-text\">A autora<\/p><\/div>\n<p><em>\u201cEu terei que ser uma escritora de sucesso. Meus livros ir\u00e3o para listas de mais vendidos, quer as editoras se esforcem ou n\u00e3o, quer eu receba adiantamento ou n\u00e3o, quer eu ganhe outro pr\u00eamio ou n\u00e3o. Ent\u00e3o que seja! Eu encontrarei o caminho para fazer isso acontecer. Meus livros ser\u00e3o lidos por millh\u00f5es de pessoas! Comprarei uma bela casa em um bairro bacana. Eu mandarei jovens negros e pobres para cursos de escrita. Ajudarei jovens negros e pobres a ampliar seus horizontes. Ajudarei jovens negros e pobres a entrarem para a faculdade. Ent\u00e3o que seja!\u201d (autora em entrevista)<\/em><\/p>\n<h2>Octavia Butler<\/h2>\n<p>Octavia Butler foi uma grande escritora e uma brilhante estrela no universo da fic\u00e7\u00e3o cientifica, um g\u00eanero que at\u00e9 hoje continua muito fechado para as mulheres. Espero poder ver mais obras da autora publicadas por aqui em breve.<\/p>\n<p><strong>*Alessandra Jarreta \u00e9 estudante de Letras da UFC, mediadora dos clubes de Leitura Nordestina, Leia Mulheres, Leituras Feministas, Clube do quadrinho e Lendo Cl\u00e1ssicos. Escreve quinzenalmente para o Leituras da Bel sobre Mulher e Literatura.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alessandra Jarreta* Para que serve a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica? 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