{"id":1529,"date":"2017-12-10T21:29:31","date_gmt":"2017-12-11T00:29:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=1529"},"modified":"2017-12-28T10:02:13","modified_gmt":"2017-12-28T13:02:13","slug":"40-anos-sem-clarice-lispector-cada-esfuzilante-silaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/12\/10\/40-anos-sem-clarice-lispector-cada-esfuzilante-silaba\/","title":{"rendered":"40 anos sem Clarice Lispector: cada esfuzilante s\u00edlaba"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_478\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-478\" class=\"size-large wp-image-478\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2016\/12\/clarice-624x374.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"330\" \/><p id=\"caption-attachment-478\" class=\"wp-caption-text\">Clarice Lispector<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Por <\/strong><\/em><em><strong>Charlene Ximenes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cMas a vida arrepiava-a, como um frio\u201d. Lembro de ter lido esse trecho, da prov\u00e1vel primeira vez que tive contato com Clarice Lispector, de quando li o conto Amor, em sala de aula. Eu era uma jovem cheia de reflex\u00f5es sobre si e que pouco ou quase nada compartilhava com os outros. Senti, de algum modo, que aquela mulher escrevia para mim, que me lia, que ao tentar se decifrar, decifrava-me, como se cada esfuzilante s\u00edlaba, cada palavra, pintasse um inating\u00edvel. Passei a viver verdades inventadas e, gradualmente, os livros de Clarice Lispector me escolheram. Sim, n\u00e3o me foi permitido decidir por eles, pois eles eram viscerais demais.<!--more--><\/p>\n<p>Passei a viver uma vida a vida, geralmente minha, nas madrugadas, lendo em voz alta livros sobre os mais variados assuntos, mas quando eu retornava, descobria ou redescobria alguma obra da Lispector, a sensa\u00e7\u00e3o era de di\u00e1logo, como se algu\u00e9m estivesse a me dar a m\u00e3o, confrontando-me sobre a falta de sentido da (minha) exist\u00eancia. Reconfortando-me sobre esse estreitamento que carrego no peito. Ler Clarice \u00e9 um al\u00edvio. Um sopro de vida. Uma busca por uma felicidade distante, quase clandestina.<\/p>\n<p>Saber que continuarei a ter perguntas que n\u00e3o possuir\u00e3o respostas me faz crer, mais que tudo, que tenho o direito ao grito. J\u00e1 cheguei a escrever poemas imediatamente depois de terminar um livro dela, n\u00e3o por eu ser poeta, mas para exercitar minha alma, pois \u00e9 sempre assim que me sinto depois do turbilh\u00e3o que sua escrita me causa no peito, com a alma arrebatada e o cora\u00e7\u00e3o em desordem. A sensa\u00e7\u00e3o do mergulho na literatura de Clarice \u00e9 dicot\u00f4mica, confusa e dial\u00e9tica, seus universos misturam-se, mas n\u00e3o se confundem.<\/p>\n<p>Alguns de seus livros s\u00e3o para mim como \u201cUma aprendizagem\u201d, e sei que retornarei para eles in\u00fameras outras vezes, mesmo sentindo qu\u00e3o doloroso foi para ela escrev\u00ea-los e \u00e9 para mim, escrever-me.<\/p>\n<h2>Clarice Lispector<\/h2>\n<p>Ler Clarice \u00e9, sobretudo, compreender que a solid\u00e3o faz parte daquele que sofre de vida. E de amor. Ler Clarice \u00e9 aprender que o encantamento pelos livros arrepia.<\/p>\n<p><strong>Charlene Ximenes \u00e9 historiadora, formada pela Universidade Estadual do Cear\u00e1, com especializa\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria do Brasil pela Universidade do Vale do Acara\u00fa. Formou-se tamb\u00e9m em Turismo, pelo Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia do Cear\u00e1. L\u00ea Clarice Lispector desde 2004.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Charlene Ximenes \u201cMas a vida arrepiava-a, como um frio\u201d. 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