{"id":294,"date":"2016-10-30T17:46:24","date_gmt":"2016-10-30T20:46:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=294"},"modified":"2016-10-30T17:46:24","modified_gmt":"2016-10-30T20:46:24","slug":"escritor-estevao-azevedo-fala-sobre-a-obra-de-raduan-nassar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2016\/10\/30\/escritor-estevao-azevedo-fala-sobre-a-obra-de-raduan-nassar\/","title":{"rendered":"Leituras da Bel entrevista: Estev\u00e3o Azevedo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_296\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-296\" class=\"wp-image-296 size-large\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2016\/10\/estev\u00e3o-azevedo-raduan-nassar-624x499.jpeg\" alt=\"Foto: Ivson Miranda\/Ita\u00fa Cultural\" width=\"550\" height=\"440\" \/><p id=\"caption-attachment-296\" class=\"wp-caption-text\">Estev\u00e3o Azevedo, escritor (Foto: Ivson Miranda\/Ita\u00fa Cultural)<\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #808080\"><em><strong>Por J\u00e1der Santana (jader.santana@opovo.com.br)<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000\"><strong>Raduan Nassar<\/strong><\/span> \u00e9 um autor de bibliografia enxuta. Al\u00e9m de<em><strong> Lavoura Arcaica<\/strong><\/em> (1975) e <em><strong>Um Copo de C\u00f3lera<\/strong> <\/em>(1978), publicou na d\u00e9cada de 1990 o volume de contos <strong><em>Menina a Caminho<\/em><\/strong>, lan\u00e7ado em celebra\u00e7\u00e3o aos 500 primeiros t\u00edtulos da Companhia das Letras. Em diferentes momentos de sua trajet\u00f3ria, publicou no exterior o ensaio <strong><em>A Corrente do Esfor\u00e7o Humano<\/em><\/strong> e o conto <strong><em>O Velho<\/em><\/strong>. Todos esses textos &#8211; e o conto in\u00e9dito <strong><em>Monsenhores<\/em> <\/strong>&#8211; est\u00e3o reunidos no volume lan\u00e7ado recentemente pela editora, um presente aos leitores em seu anivers\u00e1rio de 30 anos.<\/p>\n<p>Lidos em sequ\u00eancia, os textos do volume ilustram o vigor da prosa po\u00e9tica de <strong><span style=\"color: #008000\">Raduan<\/span> <\/strong>e sua capacidade de trabalhar em diversas camadas de significado. O escritor potiguar <span style=\"color: #800000\"><strong>Estev\u00e3o Azevedo<\/strong><\/span>, Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura em 2015 com <strong><em>Tempo de Espalhar Pedras<\/em><\/strong>, estudou a obra de <strong><span style=\"color: #008000\">Raduan<\/span> <\/strong>para mestrado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e \u00e9 autor da disserta\u00e7\u00e3o <strong><em>O Corpo Er\u00f3tico das Palavras: Um Estudo da Obra de Raduan Nassar<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p><!--more-->Na entrevista a seguir, <strong><span style=\"color: #800000\">Estev\u00e3o<\/span> <\/strong>fala sobre sua pesquisa e comenta a presen\u00e7a e relev\u00e2ncia dos conflitos morais e \u00e9ticos na obra do autor. Tamb\u00e9m aponta a exist\u00eancia de temas universais na produ\u00e7\u00e3o de <strong><span style=\"color: #008000\">Raduan<\/span> <\/strong>e a esp\u00e9cie de coer\u00eancia obsessiva que nasce dela. Por fim, explica o quanto reconhece do autor em sua pr\u00f3pria literatura.<\/p>\n<p><span style=\"color: #cc99ff\"><strong>Leituras da Bel:<\/strong><\/span> <span style=\"color: #808080\"><strong>Como voc\u00ea estudou<\/strong> <strong>Raduan<\/strong>?<\/span><br \/>\n<strong><span style=\"color: #800000\">Estev\u00e3o Azevedo:<\/span><\/strong> Eu fiz um estudo da obra completa antes dos in\u00e9ditos. Dos que sa\u00edram agora, um j\u00e1 tinha sido publicado em franc\u00eas, o conto O Velho. Analisei a partir do texto em franc\u00eas. Mas eu entrei na obra como um todo e fui ver o que encontrava.<\/p>\n<p><span style=\"color: #cc99ff\"><strong>Leituras da Bel:\u00a0<\/strong><\/span><strong><span style=\"color: #808080\">E o que voc\u00ea encontrou?<\/span><\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #800000\">Estev\u00e3o:<\/span><\/strong> Um eixo que encontrei foi o fato de que em Raduan os conflitos pol\u00edticos, \u00e9ticos, morais, as quest\u00f5es mais contextuais, referenciais, dizem respeito ao que est\u00e1 acontecendo no mundo. Sempre existe uma camada mais subterr\u00e2nea. O primeiro plano leva a um conflito er\u00f3tico, de poder entre homem e mulher. Existe o debate sobre a obra dele que pergunta se ela fala dos tempos de ditadura. E sim, ela fala, mas de uma forma bem indireta, subterr\u00e2nea. Ele usa esse modo sinuoso como uma po\u00e9tica pra falar de qualquer assunto. E isso est\u00e1 ligado a uma tradi\u00e7\u00e3o do hermetismo, dos alquimistas. S\u00e3o rela\u00e7\u00f5es sinuosas que t\u00eam a ver com a tradi\u00e7\u00e3o barroca, na qual ele bebe muito. \u00c9 uma forma indireta de falar das quest\u00f5es, mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1.<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\"><strong><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel:<\/span> Raduan come\u00e7ou a escrever na d\u00e9cada de 1960 e \u00e9 autor de uma bibliografia muito<\/strong> <strong>reduzida. Em que medida ver essa produ\u00e7\u00e3o assim, lado a lado, ajuda a entend\u00ea-lo como escritor? \u00c9 poss\u00edvel falar de temas universais em sua obra, de tra\u00e7os agregadores?<\/strong><\/span><br \/>\n<strong><span style=\"color: #800000\">Estev\u00e3o:<\/span><\/strong> \u00c9 poss\u00edvel. E acho que ler os textos na sequ\u00eancia ajuda. Facilita pro leitor identificar certas coisas. Uma delas \u00e9 que \u00e9 uma obra muito coerente. Do primeiro texto ao \u00faltimo, inclusive no ensaio, voc\u00ea v\u00ea quest\u00f5es que se repetem, estruturas verbais, vocabul\u00e1rio similar. Inclusive alguns trechos que s\u00e3o copiados de textos anteriores. \u00c9 uma obra coerente, um bloco conciso, muito denso. Ele \u00e9 um obsessivo. Voc\u00ea percebe que at\u00e9 nas entrevistas, \u00e0s vezes, ele usa as mesmas constru\u00e7\u00f5es, as mesmas met\u00e1foras.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #808080\"><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel:<\/span> Mas \u00e9 uma coer\u00eancia apenas de estilo? Ou tamb\u00e9m \u00e9 tem\u00e1tica?<\/span><\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #800000\">Estev\u00e3o:<\/span><\/strong> As duas coisas. N\u00e3o d\u00e1 pra separar. Uma coisa que ele faz, com os personagens, \u00e9 demolir o conceito de verdade, de tudo o que \u00e9 corrente filos\u00f3fica, religiosa. Todo mundo tem um discurso categ\u00f3rico, mas os personagens demolem. E \u00e9 uma demoli\u00e7\u00e3o que n\u00e3o coloca outra coisa no lugar. Como os discursos e ideologias s\u00e3o feitos de palavra, j\u00e1 trazem em si uma contradi\u00e7\u00e3o. As palavras t\u00eam hist\u00f3rias, podem significar coisas opostas, e ele usa muito dos sofistas nas entrevistas e nos livros, de forma clara ou velada. Mostra que voc\u00ea pode pegar o discurso de um personagem e voltar inteiro contra ele. Voc\u00ea consegue usar o discurso e a mesma frase pra causas diametralmente opostas. \u00c9 uma demoli\u00e7\u00e3o da verdade. A forma e o estilo tamb\u00e9m servem a essa preocupa\u00e7\u00e3o, e por isso o estilo \u00e9 herm\u00e9tico. S\u00e3o met\u00e1foras engenhosas e pro leitor pode ser dif\u00edcil decifr\u00e1-las. Ele pega uma palavra e d\u00e1 caracter\u00edsticas de outra. Al\u00e9m disso, no estilo das frases, t\u00eam longos trechos sem pontua\u00e7\u00e3o. E outra figura que ele usa muito \u00e9 a enumera\u00e7\u00e3o: ele vai descrever uma coisa e faz isso de quatro ou cinco formas diferentes, mostra que as palavras t\u00eam esse germe, servem pro bem e pro mal.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #808080\"><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel:<\/span> Em <em>Lavoura Arcaica<\/em>, ele escreve que \u201co mundo das paix\u00f5es \u00e9 o mundo do<\/span> <span style=\"color: #808080\">desequil\u00edbrio, \u00e9 contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas\u201d. No livro, o processo de posicionamento perante a sociedade passa muito pelo fortalecimento da identidade, pelo conhecimento do corpo, pelo reconhecimento das possibilidades de prazer. Enquanto o pai fala de pureza e vigil\u00e2ncia \u00e0 carne, o Andr\u00e9 vai embora para se livrar disso. S\u00e3o conflitos que sempre passam pela sexualidade?<\/span><\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #800000\"><strong>Estev\u00e3o:<\/strong><\/span> \u00c9 bem isso mesmo. No Lavoura, o Andr\u00e9 t\u00e1 sofrendo as restri\u00e7\u00f5es impostas pela cultura. A gente vira adulto e tem que controlar nossos instintos. O pai representa essa vida em sociedade. Ele dita as regras, imp\u00f5em limites no c\u00edrculo que criou dentro de uma propriedade fechada, na qual n\u00e3o cabe o desejo e a libido de Andr\u00e9. O que ele faz \u00e9 tentar alargar esses limites pra que neles caiba o tipo de sexualidade e desejo que ele quer experimentar. Al\u00e9m de n\u00e3o caber nesses limites, ele percebe que no c\u00edrculo fechado do pai tamb\u00e9m existem rachaduras. Em uma das cenas, ele vai remexer a cesta de roupas sujas e encontra todos os odores da fam\u00edlia. Ele defende que essa limita\u00e7\u00e3o que o pai imp\u00f5e \u00e9 uma conven\u00e7\u00e3o, uma regra social. Todos t\u00eam suas coisas secretas, mas n\u00f3s vamos fingir que n\u00e3o tem, vamos sublimar. E ele tenta alargar esse c\u00edrculo restrito. Ali\u00e1s, a figura do c\u00edrculo \u00e9 muito importante. Na cena da dan\u00e7a, est\u00e3o dan\u00e7ando em c\u00edrculo, est\u00e3o fechados e de m\u00e3os dadas. As frutas no meio, redondas. O que a irm\u00e3 faz \u00e9 romper esse c\u00edrculo, partir as frutas. Todas as esferas est\u00e3o amea\u00e7adas. Costumam dizer que o Andr\u00e9 \u00e9 libert\u00e1rio, mas n\u00e3o \u00e9 bem isso. No final, ele n\u00e3o est\u00e1 pregando um regime de liberdade onde todos possam usufruir. Ele n\u00e3o quer abolir a ordem, o dom\u00ednio, apenas quer que nessa ordem caibam os desejos dele.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #808080\"><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel:<\/span> \u00c9 poss\u00edvel encontrar algumas semelhan\u00e7as entre teu Tempo de Espalhar Pedras e o Lavoura. Passa pela ambienta\u00e7\u00e3o, pela linguagem que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia, pela prosa po\u00e9tica que n\u00e3o \u00e9 piegas. No teu processo de escrita, Raduan esteve conscientemente presente?<br \/>\n<\/span><span style=\"color: #800000\">Estev\u00e3o:<\/span><\/strong> Eu j\u00e1 tava escrevendo o Tempo quando li <strong><span style=\"color: #008000\">Raduan<\/span><\/strong>. Mas depois que li, com certeza vi que estava presente, foi um impacto. N\u00e3o era uma refer\u00eancia pr\u00e9via porque eu n\u00e3o conhecia, mas depois at\u00e9 inclui uma frase do <strong><span style=\"color: #008000\">Raduan<\/span><\/strong>. A partir da\u00ed, sim. Eu n\u00e3o o conhecia, mas a gente j\u00e1 se amava. Quando li, eu falei: \u2018porra, \u00e9 isso aqui\u2019. No estilo que escrevo, talvez seja o que eu poderia almejar na vida. Tem a ver com o que eu fa\u00e7o, mas em um grau de qualidade absurdo.<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\"><strong><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel:<\/span> \u00a0Por que ler Raduan hoje?<\/strong><\/span><br \/>\n<strong><span style=\"color: #800000\">Estev\u00e3o:<\/span><\/strong> Primeiro porque \u00e9 um dos maiores escritores brasileiros vivos e um dos maiores de todos os tempos. Tamb\u00e9m \u00e9 interessante isso da linhagem, porque ele faz um tipo de literatura que n\u00e3o gerou muitos sucessores. Com o Rubem Fonseca, com a Clarice Lispector, voc\u00ea pode imaginar autores que vieram depois, mas com o <strong><span style=\"color: #008000\">Raduan<\/span> <\/strong>\u00e9 mais complicado. Eu mesmo sou muito mais realista. Ele \u00e9 uma figura singular na literatura brasileira, at\u00e9 por sua hist\u00f3ria pessoal. Ele escreveu essas obras e decidiu espontaneamente n\u00e3o escrever mais e viver \u00e0 margem do mercado do ego.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por J\u00e1der Santana (jader.santana@opovo.com.br) Raduan Nassar \u00e9 um autor de bibliografia enxuta. 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