{"id":4861,"date":"2018-05-04T04:00:17","date_gmt":"2018-05-04T07:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=4861"},"modified":"2018-05-04T16:21:51","modified_gmt":"2018-05-04T19:21:51","slug":"coluna-ao-pe-do-ouvido-baladas-para-leitores-e-rincon-sapiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2018\/05\/04\/coluna-ao-pe-do-ouvido-baladas-para-leitores-e-rincon-sapiencia\/","title":{"rendered":"Coluna Ao p\u00e9 do ouvido: Baladas para Leitores e Rincon Sapi\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Lilian Martins*<\/strong><\/p>\n<p>Por aqui, a coisa t\u00e1 preta! Logo, subvertendo o sentido negativo da express\u00e3o arraigada de preconceito, o que vem a seguir, nestas linhas, \u00e9 algo muito bom. Se a cor preta j\u00e1 foi sin\u00f4nima de fato ruim, hoje, \u00e9 express\u00e3o de luta e resist\u00eancia do movimento negro a fim de representar algo positivo e de alto valor est\u00e9tico e cultural. Se essa nova concep\u00e7\u00e3o \u2013 ainda &#8211; n\u00e3o chegou at\u00e9 voc\u00ea, eis o meu convite para conhecer e ouvir um dos seus principais adeptos, o artista brasileiro, considerado um dos mais promissores da cena rap, Danilo Albert Ambrosio ou, simplesmente, Rincon Sapi\u00eancia, o Manicongo.<\/p>\n<p>Escute: \u201cA coisa t\u00e1 preta\u201d:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Rincon Sapi\u00eancia - A Coisa T\u00e1 Preta\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FsTTvHoLxEA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O paulistano da zona leste, de 31 anos, chegou para resfolegar a nossa m\u00fasica popular brasileira. Seus clipes j\u00e1 somam 6,7 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es no YouTube, seu disco de estreia <strong>Galanga Livre<\/strong> (2017) traz influ\u00eancias da negritude que v\u00e3o desde a capoeira at\u00e9 o blues, passando pelo coco e pela tropic\u00e1lia, at\u00e9 o afrobeat. Funk, samba, tambor africano e batida eletr\u00f4nica tudo misturado no melhor sabor brasileiro.<\/p>\n<p>E j\u00e1 que o assunto \u00e9 Brasil, o m\u00fasico estampa a cara do pa\u00eds em sua mais dura realidade na can\u00e7\u00e3o: \u201cCoisas de Brasil\u201d. \u00c9 a melhor e mais atual imagem de uma na\u00e7\u00e3o dividida entre ricos e pobres, omitida \u2013 propositalmente &#8211; pela grande imprensa em favor das classes dominantes: \u201cNem tudo \u00e9 verdade na televis\u00e3o\u201d, alerta Sapi\u00eancia e nos diz tamb\u00e9m sobre a influ\u00eancia norte-americana no pa\u00eds, seja na pol\u00edtica, seja na cultura de massa. O rapper desconstr\u00f3i o estere\u00f3tipo da cultura brasileira reduzida a terra do \u201cfutebol e gl\u00fateo\u201d e escancara, na real malandragem de quem \u00e9 mais um subversivo, a vida dura e combalida do povo brasileiro.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a: \u201cCoisas de Brasil\u201d:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"RINCON SAPI\u00caNCIA - Coisas de Brasil (clipe) - part. Denna Hill\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Kwpb6zJqeKY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A influ\u00eancia da literatura est\u00e1 na faixa: \u201cCrime B\u00e1rbaro\u201d, criada a partir de um conto de sua pr\u00f3pria autoria em que relata a hist\u00f3ria do escravo Galanga, nome do \u00e1lbum e uma alus\u00e3o ao monarca africano que, escravizado no Brasil, conquistou a liberdade e se tornou Chico Rei, s\u00edmbolo da afirma\u00e7\u00e3o do povo negro. As leituras do artista s\u00e3o muitas, ele \u00e9 um apaixonado declarado por anime, mang\u00e1 e quadrinhos nacionais. Pelo teor liter\u00e1rio de suas can\u00e7\u00f5es, repletas de posicionamento pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, Rincon Sapi\u00eancia j\u00e1 foi criticado de \u201cMC acima da m\u00e9dia\u201d. Mas, ele surpreende mesmo \u00e9 na forma como articula essas refer\u00eancias, que incluem tamb\u00e9m cinema e MPB, com as da Cultura Pop e de massa de forma nada tradicional e caprichosamente atraente para esses p\u00fablicos supostamente t\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>Observemos o exemplo da can\u00e7\u00e3o \u201cVida longa\u201d: &#8220;O gueto sempre quis \/ Que chore s\u00f3 guitarras \/ Tipo Jimmy Hendrix \/ Onde h\u00e1 fogo, h\u00e1 fuma\u00e7a \/ Sinto pelo faro \/ Infelizmente Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 tipo raro&#8221;, uma mostra de que a rima de Sapi\u00eancia \u00e9 inteligente e mordaz, suas letras investem na cr\u00edtica social, na luta contra o racismo e no combate a apologia da viol\u00eancia. A luta de classes estampada no verso: \u201cBatemos tambores, eles panela\u201d de \u201cPonta de Lan\u00e7a\u201d \u00e9 uma cr\u00edtica direta aos manifestantes que bateram panela pr\u00f3-impeachment no Brasil. Na mesma m\u00fasica contra o ass\u00e9dio e a favor dos direitos das mulheres, Manicongo canta: \u201cSe tem permiss\u00e3o, tamo dando sarrada\u201d, ou seja, sexo s\u00f3 com consentimento, \u00e9 essa permiss\u00e3o que evoca a conquista e n\u00e3o o abuso, \u00e9 uma ode pelo fim da cultura do estupro!<\/p>\n<h2>Rincon Sapi\u00eancia<\/h2>\n<p>Ao conclamar \u201cOs preto \u00e9 chave, abram os port\u00f5es!\u201d, o m\u00fasico n\u00e3o s\u00f3 ressignifica o movimento \u201cBlack is Beautiful\u201d como faz de sua voz o eco das periferias, do povo exclu\u00eddo nas baixadas e nas comunidades de norte a sul deste pa\u00eds, antenado na \u00faltima s\u00e9rie da Netflix, e que se movimenta, atrav\u00e9s das redes sociais, exigindo seu espa\u00e7o de sociabilidade com os rolezinhos e faz dos saraus, nas periferias, seu pr\u00f3prio centro cultural. Onde o Estado n\u00e3o chega e as fac\u00e7\u00f5es proliferam seus tent\u00e1culos criminosos, Sapi\u00eancia estende m\u00e3o fraterna e l\u00edngua afiada contra as injusti\u00e7as sociais, mostrando ao \u201cpivete\u201d que ele pode ir mais al\u00e9m, que o tr\u00e1fico de drogas n\u00e3o \u00e9 a sua \u00fanica op\u00e7\u00e3o e que a sa\u00edda para sua ascens\u00e3o social existe na batalha de quem conquista o outro extremo da ponta de lan\u00e7a.<\/p>\n<p>Escute \u201cPonta de Lan\u00e7a\u201d:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Rincon Sapi\u00eancia - Ponta de Lan\u00e7a (Verso Livre)\" width=\"668\" height=\"501\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vau8mq3KcRw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Aumenta o som e boas Leituras.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Confira tamb\u00e9m nossa playlist no spotify:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/user\/2jbfpfo5rv8mv7ebvwanyyb8v\/playlist\/7CknkkZEfNakNYh7l8DHnl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>https:\/\/open.spotify.com\/user\/2jbfpfo5rv8mv7ebvwanyyb8v\/playlist\/7CknkkZEfNakNYh7l8DHnl<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>*L\u00edlian Martins \u00e9 jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura Comparada pela UFC com a disserta\u00e7\u00e3o: \u201cCom saudades do verde marinho: O Cear\u00e1 como territ\u00f3rio de pertencimento e inf\u00e2ncia em Ana Miranda\u201d, vencedora do Pr\u00eamio Bolsa de Fomento \u00e0 Literatura da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional e Minist\u00e9rio da Cultura (2015) e do Edital de Incentivo \u00e0s Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 2016. \u00c9 uma apaixonada por r\u00e1dio, sebos, pelos filmes do Fellini, os poemas de Pablo Neruda e outras velharias\u2026<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lilian Martins* Por aqui, a coisa t\u00e1 preta! Logo, subvertendo o sentido negativo da express\u00e3o arraigada de preconceito, o que vem a seguir, nestas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":105,"featured_media":4862,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[33],"tags":[130,161,286,670,688,811,1283],"class_list":["post-4861","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-ao-pe-do-ouvido","tag-baladas-para-leitores","tag-coluna-ao-pe-do-ouvido","tag-lilian-martins","tag-literatura-cearense","tag-musica","tag-rincon-sapiencia"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/105"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4861"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4861\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4868,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4861\/revisions\/4868"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4862"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}