{"id":4926,"date":"2018-06-02T15:44:06","date_gmt":"2018-06-02T18:44:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=4926"},"modified":"2018-06-02T15:44:06","modified_gmt":"2018-06-02T18:44:06","slug":"leia-a-bentinho-sem-amor-texto-da-escritora-kah-dantas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2018\/06\/02\/leia-a-bentinho-sem-amor-texto-da-escritora-kah-dantas\/","title":{"rendered":"Leia &#8216;A Bentinho, sem amor&#8217;, texto da escritora Kah Dantas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4927\" style=\"width: 482px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4927\" class=\"size-full wp-image-4927\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/06\/Untitled-1.png\" alt=\"\" width=\"472\" height=\"593\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/06\/Untitled-1.png 472w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/06\/Untitled-1-300x377.png 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/06\/Untitled-1-120x151.png 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 472px) 100vw, 472px\" \/><p id=\"caption-attachment-4927\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Fabiano Seixas Fernandes<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Por Kah Dantas*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma noite de luto, seguida por uma manh\u00e3 de vazio, ambas encerradas nesta carta. Esse foi o tempo, <em>amor<\/em>, que a dor da sua aus\u00eancia viveu. E a ela dedico estas linhas, no entanto endere\u00e7adas a voc\u00ea, para libertar e eternizar o que deveria ter sido dito em face.<\/p>\n<p>\u00c0 imagem e semelhan\u00e7a do outro, <em>meu<\/em> <em>amor<\/em>, voc\u00ea cumpria fielmente o seu papel shakespeariano: quando estava impaciente, zangado ou magoado, usava a l\u00edngua feito punhal fundo na carne. E retorcia-o uma, duas, tr\u00eas, quantas vezes fosse necess\u00e1rio e prazeroso para o seu gozo de algoz, sem perceber ou se importar com o meu sangue que rebentava.<\/p>\n<p>Acredite quando eu digo que o combate o deixava em fr\u00eamito, da aniquila\u00e7\u00e3o desta sua despercebida inimiga, e que voc\u00ea salivava feito um c\u00e3o encegueirado e raivoso pelo ataque sem raz\u00e3o de ser. Voc\u00ea era incapaz de enxergar.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi esse, <em>meu<\/em> <em>bem<\/em>, o eterno retorno que voc\u00ea me prometeu.<\/p>\n<p>Foram tantas as vezes em que voc\u00ea foi covarde <em>me<\/em> <em>amando<\/em>, bailando com meus sentimentos ao som de delicadas e cantantes marchas f\u00fanebres, que eu acabei por me acostumar, at\u00e9 alegremente, com suas sobras pretensiosas.<\/p>\n<p>Eu merecia mais, voc\u00ea sabe.<\/p>\n<p>E quando voc\u00ea me tomou por Desd\u00eamona pela \u00faltima vez, foi ent\u00e3o que eu acordei, meu caro Bentinho, do sonho indigno no qual eu continuamente me debru\u00e7ava sobre os seus medos, para tentar entend\u00ea-los quando nem mesmo voc\u00ea fazia quest\u00e3o disso.<\/p>\n<p>Voc\u00ea nunca esteve comigo e n\u00f3s nunca estivemos juntos. Fui fantasma e assombro no seu cora\u00e7\u00e3o de mouro enciumado, e a sua covardia me acorrentou para sempre a essa condi\u00e7\u00e3o et\u00e9rea, indecente e luxuriosa, quando a minha carne estava aqui, sangrando e palpitando pela sua. Somente a sua.<\/p>\n<p>Voc\u00ea se desculpou, \u00e9 claro. Mas foi covarde at\u00e9 o fim, quando eu precisei, depois de ouvir de voc\u00ea que <em>me amava, mas alguma coisa<\/em>, despedir-se por n\u00f3s dois, para al\u00edvio m\u00fatuo dos nossos esp\u00edritos.<\/p>\n<p>A vida era boa sem voc\u00ea. E voltar\u00e1 a s\u00ea-lo depois da sua frouxa, mas oportuna deser\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e me contou, veja s\u00f3, que minha av\u00f3 a contou que<em> cora\u00e7\u00e3o \u00e9 terra que ningu\u00e9m anda<\/em>. E eu sei que enquanto eu tinha certeza de ter aberto o meu e feito de voc\u00ea leg\u00edtimo convidado para visitar mesmo os lugares long\u00ednquos e sombrios, voc\u00ea n\u00e3o me deixou sequer entrever a aridez do seu.<\/p>\n<p>Mas isso j\u00e1 n\u00e3o importa. No final, estamos todos s\u00f3s. E em meio aos mais esperan\u00e7osos suspiros niilistas, permane\u00e7o atenta \u00e0quele velho e l\u00eddimo ditado: antes s\u00f3 do que mal acompanhada. \u00c9 isto.<\/p>\n<p>Sem amor,<\/p>\n<p>Sua Capitu.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<h2><strong>Kah Dantas<\/strong><\/h2>\n<p>\u00e9 cearense, professora e escritora. \u00c9 autora do livro Boca de Cachorro Louco, tem alguns contos publicados e premiados em concursos liter\u00e1rios nacionais e apresenta seus textos nos canais intitulados Conta, Kah!, no blog Orgasmo Santo e aqui no Leituras da Bel.<\/p>\n<p>Contato<br \/>\nInstagram: @contakah<br \/>\nTumblr: https:\/\/contakah.tumblr.com\/<br \/>\nBlog: https:\/\/orgasmosanto.blogspot.com\/2018\/03\/orgasmo-santo-contos-inacabados-de-amor.html<\/p>\n<h3><strong>Fabiano Seixas Fernandes<\/strong><\/h3>\n<p>\u00e9 ilustrador, tradutor e poeta. Fundador da tradizer: servi\u00e7os de tradu\u00e7\u00e3o. Entre 2012 e 2015, publicou o blogue pequeninos (poesia autoral); publica o podcast quase uma Bethania (recita\u00e7\u00e3o de poesia). Traduziu poemas de John Milton para o portugu\u00eas (L\u2019Allegro, Il Penseroso, excertos de Comus e Paradise Lost).<\/p>\n<p>Contato:<\/p>\n<p>tradizer: https:\/\/tradizer.com\/ e https:\/\/www.facebook.com\/tradizer\/<br \/>\nquase uma Bethania: https:\/\/soundcloud.com\/fabiano-seixas-fernandes<br \/>\npequeninos: https:\/\/pqnns.blogspot.com.br\/<br \/>\nInstagram: @fabiano.seixas.fernandes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Kah Dantas* Uma noite de luto, seguida por uma manh\u00e3 de vazio, ambas encerradas nesta carta. 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