{"id":5299,"date":"2018-08-14T14:00:53","date_gmt":"2018-08-14T17:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=5299"},"modified":"2018-08-14T14:17:00","modified_gmt":"2018-08-14T17:17:00","slug":"leia-guarda-me-bem-e-me-ama-tambem-texto-da-escritora-kah-dantas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2018\/08\/14\/leia-guarda-me-bem-e-me-ama-tambem-texto-da-escritora-kah-dantas\/","title":{"rendered":"Leia &#8220;Guarda-me bem e me ama tamb\u00e9m&#8221;, texto da escritora Kah Dantas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_5300\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5300\" class=\"size-large wp-image-5300\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/08\/Ilustra-Bruno-740x952.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"952\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/08\/Ilustra-Bruno-740x952.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/08\/Ilustra-Bruno-300x386.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/08\/Ilustra-Bruno-120x154.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/08\/Ilustra-Bruno.jpg 746w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-5300\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Bruno Marafigo<\/p><\/div>\n<p><strong>Por Kah Dantas*<\/strong><\/p>\n<p>O conto a seguir \u00e9 resultado da visita feita pela escritora Kah Dantas e pelo digital influencer Davi Melo a uma cl\u00ednica de tanatopraxia. O relato completo &#8211; incluindo as opini\u00f5es de Kah, as curiosidades e as fotografias feitas por Davi &#8211; com a\u00a0\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/orgasmosanto.blogspot.com\/2018\/08\/quem-tem-medo-da-morte.html\">experi\u00eancia est\u00e1 narrado aqui!<\/a><\/strong>\u00a0Leia, leia, leia! \ud83d\ude42<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>No dia em que eu morri, o sol andava a pino e o calor queimava a gente, igual metal esquentado no fogo e triscando na pele. Era uma agonia medonha e eu n\u00e3o tinha para onde recolher os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos de moto, eu e o menino que tamb\u00e9m trabalhava l\u00e1 na empresa, indo levar uma documenta\u00e7\u00e3o ao cart\u00f3rio. Foi quando a gente ficou no sinal da Dois com a Tr\u00eas, e eu me distra\u00ed reparando numa loja de ilumina\u00e7\u00e3o, cheia de l\u00e2mpadas, refletores e lumin\u00e1rias coloridas, algumas refletindo intensamente a luz do sol.<\/p>\n<p>Quando o sem\u00e1foro esverdeou, eu ainda tinha os olhos encandeados e n\u00e3o percebi que vinha ali uma Kombi velha e descatitada, pronta para avan\u00e7ar sobre a luz vermelha. Fomos arremessados em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 loja que eu observava segundos antes e, depois de bater a cabe\u00e7a com for\u00e7a na cal\u00e7ada, sei que a \u00faltima coisa que eu vi, em vida, foram luzes de todas as cores.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o deixaram que eu ficasse para ver os primeiros lutos e as despedidas.<\/p>\n<p>Primeiro veio o pai, muito mais forte que a m\u00e3e, ver se era isso mesmo. Ficou fazendo pergunta ao menino que andava na garupa e tinha machucado s\u00f3 a perna e ralado um cotovelo, chorando com as m\u00e3os na cabe\u00e7a, sem saber explicar a meu pai o que tinha sucedido. Mas n\u00e3o tinha mais jeito n\u00e3o.<\/p>\n<p>Pai me acompanhou em tudo. S\u00f3 depois \u00e9 que foi buscar a m\u00e3e, que ficou toda desmantelada, o mundo interno desabado, pedindo perd\u00e3o por n\u00e3o ter sido uma m\u00e3e t\u00e3o boa, por n\u00e3o ter aceitado meus jeitos, por ter me falado que eu dava desgosto com aquelas coisas que eu fazia. N\u00e3o dava. Que voltasse, filhinha, que seria tudo diferente. Que perdoasse. E eu perdoei, sim, ela e as l\u00e1grimas tardias, sem poder chorar tamb\u00e9m, porque j\u00e1 n\u00e3o havia como.<\/p>\n<p>Pai tamb\u00e9m arranjou todas as coisas. Foi ele quem falou com minha patroa e liberou a documenta\u00e7\u00e3o para que ela cuidasse de tudo, de todas as assist\u00eancias, at\u00e9 a hora do funeral e do fim das coisas por l\u00e1. E ela tinha prometido que cuidariam bem de mim, que eu era fam\u00edlia e que eles n\u00e3o se preocupassem com nada, que eu seria lembrada como a pessoa boa e feliz que tinha sido.<\/p>\n<p>Se eu ainda tivesse cora\u00e7\u00e3o que funcionasse, eu sei que ele teria batido como louco naquela hora, quando o carro chegou para me buscar no hospital e eu sabia que a veria na cl\u00ednica, uma \u00faltima vez eu a veria, n\u00e3o como eu gostaria que tivesse sido, mas ainda assim eu fiz quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos que trabalhamos juntas. E eu nunca confessei que ela era a mulher mais linda e mais forte que eu j\u00e1 tinha conhecido. Que ela tinha sido o amor da minha vida.<\/p>\n<p>Depois que me retiraram da urna, foi ela quem me preparou. Disse que cuidaria de mim, que estava bem, n\u00e3o tinha problema, que eu gostaria que fosse ela. Eu n\u00e3o soube se ela tinha raz\u00e3o, nem o que ela pensava quando disse essas coisas, mas assim foi.<\/p>\n<p>Banhou o meu corpo feito um carinho que nunca me deu quando eu estive viva. Lavou os meus cabelos como uma devota, tirou deles o sangue e limpou a minha pele com cuidados e maneiras que teria com um rec\u00e9m-nascido seu. Um dia ela tinha me contado, rindo, que adorava crian\u00e7as e que queria ter filhos. E eu me lembro que eu queria ter dado um beijo nela e dito que teria com ela quantos filhos quisesse. Mas eu n\u00e3o fiz nada disso.<\/p>\n<p>Depois de estar seca, ela iniciou o procedimento de inje\u00e7\u00e3o, pela car\u00f3tida, do produto arterial, massageando meu corpo parte a parte, para evitar incha\u00e7os, com express\u00e3o grave no rosto, mas sempre gentil. Ela dizia coisas com os olhos, coisas que eu n\u00e3o consegui compreender, e falava tamb\u00e9m com as m\u00e3os cuja temperatura eu n\u00e3o podia mais sentir.<\/p>\n<p>J\u00e1 vestida com a roupa trazida pelo pai, fui penteada. Ela arrumou minhas sobrancelhas e deu cor \u00e0s minhas bochechas e l\u00e1bios, do jeito modesto que ela sabia que eu gostava. Depois passou base nas minhas unhas e, por \u00faltimo, me perfumou.<\/p>\n<p>Nesse finzinho foi que, quando eu j\u00e1 nem mais esperava, ela chorou. Discreta e silenciosa, ela chorou. Segurou minha m\u00e3o dentro da sua, abaixou para me beijar a testa e murmurou alguma coisa ao meu ouvido. Ela tamb\u00e9m falou em perd\u00e3o.<\/p>\n<p>E eu a perdoei. Por ter sido igualmente medrosa, como eu, e por nunca ter me dito aquelas palavras quando eu estava viva. As mesmas palavras que eu n\u00e3o falei.<\/p>\n<p>Talvez eu tivesse respirado fundo quando me disseram que o tempo estava acabando. Mas j\u00e1 n\u00e3o havia necessidade disso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu s\u00f3 a olhei, pela \u00faltima vez, porque ela n\u00e3o iria ao meu funeral e enterro. Isso n\u00e3o, ela tinha decidido.<\/p>\n<p>E o que eu tenho a dizer sobre esse amor que j\u00e1 n\u00e3o se sentia como antes e do qual eu tamb\u00e9m me despedia, \u00e9 que se eu tivesse estado l\u00e1 de verdade e pudesse ter sido ouvida e sentida, eu teria dito a ela que a tinha amado mais do que a mim mesma. E talvez eu pedisse, muito t\u00edmida como eu fui quando viva, que ela me guardasse bem. E revelaria que teria sido absurdamente feliz se ela tivesse me amado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O fim chegou de surpresa, eu digo. Quando eu achava que seria para sempre, que haveria tempo pra criar coragem e que um dia os sonhos realizados viriam espontaneamente at\u00e9 mim.<\/p>\n<p>Nenhuma dessas coisas era verdade. E eu deveria ter prestado mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 isso mesmo. \u00c9 que a gente presta pouca aten\u00e7\u00e3o \u00e0 vida.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Kah Dantas\u00a0<\/strong>\u00e9 cearense, professora e escritora. \u00c9 autora do livro Boca de Cachorro Louco, tem alguns contos publicados e premiados em concursos liter\u00e1rios nacionais e apresenta seus textos nos canais intitulados Conta, Kah!, no blog Orgasmo Santo e aqui no Leituras da Bel.<br \/>\nContato<br \/>\nInstagram: @contakah<br \/>\nTumblr: <strong><a href=\"https:\/\/contakah.tumblr.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/contakah.tumblr.com\/<\/a><\/strong><br \/>\nBlog: <strong><a href=\"https:\/\/orgasmosanto.blogspot.com\/2018\/03\/orgasmo-santo-contos-inacabados-de-amor.html\">Orgasmo Santo<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\nBruno Marafigo<\/strong> \u00e9 um ilustrador e quadrinista curitibano.<br \/>\nContato: brunomarafigo@hotmail.com<br \/>\nInstagram: <strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/brunomarafigoarte\/?hl=pt-br\">brunomarafigoarte<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Kah Dantas* O conto a seguir \u00e9 resultado da visita feita pela escritora Kah Dantas e pelo digital influencer Davi Melo a uma cl\u00ednica&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":5300,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[1370,304,428,634,683,708,806],"class_list":["post-5299","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conto","tag-bruno-marafigo","tag-conto","tag-escrita-criativa","tag-kah-dantas","tag-literatura","tag-livro","tag-morte"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5299"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5299\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5305,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5299\/revisions\/5305"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5300"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}