{"id":5403,"date":"2018-09-06T12:26:45","date_gmt":"2018-09-06T15:26:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=5403"},"modified":"2018-09-06T12:26:45","modified_gmt":"2018-09-06T15:26:45","slug":"leia-o-conto-pai-da-escritora-cearense-kah-dantas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2018\/09\/06\/leia-o-conto-pai-da-escritora-cearense-kah-dantas\/","title":{"rendered":"Leia o conto &#8220;Pai&#8221;, da escritora cearense Kah Dantas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Kah Dantas*<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_5404\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5404\" class=\"size-large wp-image-5404\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/09\/Ilustra-Bruno-II-740x924.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"924\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/09\/Ilustra-Bruno-II-740x924.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/09\/Ilustra-Bruno-II-300x375.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/09\/Ilustra-Bruno-II-768x959.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/09\/Ilustra-Bruno-II-120x150.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/09\/Ilustra-Bruno-II.jpg 1640w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-5404\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Bruno Marafigo<\/p><\/div>\n<p>Foi tudo, tudo muito depressa, escute. Eles viveram a vida toda aqui, entende? Meus vizinhos a vida toda. S\u00f3 que eram duas filhas j\u00e1 adultas com a primeira e leg\u00edtima mulher e tr\u00eas crian\u00e7as com a segunda, que ele conheceu vendendo marmita no p\u00e9 de uma constru\u00e7\u00e3o e colocou numa casa em bairro distante, enganada. A menina mais velha dela, de catorze anos, a bichinha, nem sa\u00eda da cama, porque nasceu com uma dessas doen\u00e7as incur\u00e1veis, de s\u00f3 mexer os olhos e fazer murmurar a boca com baba. Os outros dois s\u00e3o mais crian\u00e7as ainda, uma menina de oito e um menino de seis. E eles t\u00eam todos a pele mais escura, que a m\u00e3e tinha sido uma mulher negra, coisa que ele calava quando estava s\u00f3brio e que negava cuspindo quando estava b\u00eabado. Depois de morta por um c\u00e2ncer no \u00fatero, dizem, foi uma amiga dela desaforada que veio aqui pessoalmente deixar as tr\u00eas crias adulterinas na porta dele e da mulher, que as acolheu horrorizada e obrigada pela primog\u00eanita. Era imposs\u00edvel negar a semelhan\u00e7a com aquele cabra e, c\u00e1 entre n\u00f3s, s\u00f3 vivia embriagado, mas jurava que era homem honrado, que a m\u00e3e tinha sido uma senhora santa e que o pai o tinha criado para a fam\u00edlia. Dizia que n\u00e3o admitia aquela situa\u00e7\u00e3o, imagine! A comadre nem o olhava mais, quanto mais trocar palavra. As crian\u00e7as, \u00f3rf\u00e3s de pai e m\u00e3e, viviam num quarto atr\u00e1s da casa, que a filha mais velha, coitada, professora \u00e0s v\u00e9speras de se casar, tinha mandado levantar para abrigar os menores, depois de ter comprado inimizade sem volta com a m\u00e3e magoada e de ter arranjado uma raz\u00e3o definitiva para odiar aquele homem que ela tinha passado a vida chamando de pai. Foi na noite de noivado, n\u00e9? Os convidados faziam festa e m\u00fasica na \u00e1rea verde em frente do casar\u00e3o que ele mesmo construiu, bem ali, veja, comendo, bebendo e dando risada; dava para ouvir muito bem daqui, meu marido disse, enquanto as crian\u00e7as, proibidas pela comadre de sair, ficaram adormecidas no quarto ao fundo. Pior que ningu\u00e9m viu, nem ouviu a arruma\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m sentiu falta dele? Ave, nada. Ningu\u00e9m gostava dele. Foi a mais velha, a noivinha, que se sentiu mal, tal hora, e decidiu ir buscar as crian\u00e7as para comer, mesmo com a m\u00e3e pedindo a ela que n\u00e3o. Todo mundo acompanhou. Dizem que foi cena de filme de terror, pode escrever. Enquanto todo mundo celebrava, ele estava l\u00e1 assentando tijolos, era o trabalho dele antes de se aposentar, e morto de b\u00eabado, como passou a vida, tampando a entrada do quarto com as crian\u00e7as dentro, tudo deitadinha na cama. Parece que ele tinha banhado as crian\u00e7as com gasolina e amea\u00e7ado, ningu\u00e9m sabe, mas quando a mais velha chegou, j\u00e1 estava a menina doente enrolada num len\u00e7ol que pegava fogo, enquanto as outras duas gritavam no canto do quarto, \u201cpai, pai\u201d, elas gritavam, tadinhas, mas j\u00e1 tinham nascido com essa palavra muda na boca. A filha professora ia derrubando os tijolos desesperada, sangrando a garganta de tanto gritar socorro. Pegou as crian\u00e7as sadias e p\u00f4s para fora, depois sacudiu e bateu os len\u00e7\u00f3is da aleijada, mas era tarde demais, que a gasolina tinha ido na pele. A festa s\u00f3 parou quando a fuma\u00e7a chegou na frente de casa, mandaram parar a m\u00fasica e ouviram os gritos, chega d\u00e1 um frio na espinha quando eu me lembro, a filha coberta de cimento puxando as crian\u00e7as pequenas pela m\u00e3o, chamando o noivo, a m\u00e3e, uma ambul\u00e2ncia. O fogo a pr\u00f3pria filha apagou, n\u00e3o sei como, mas a menina doente j\u00e1 tinha sido levada pelos anjos. Antes n\u00e3o tivesse nascido, eu acho. N\u00e3o, mo\u00e7o, ningu\u00e9m encostou dedo nele. Foi a pol\u00edcia que levou aquele infeliz. Monstruosidade? N\u00e3o foi monstro, foi homem. Isso \u00e9 tudo coisa de homem, meu filho. Pode escrever a\u00ed.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Kah Dantas<\/strong> \u00e9 cearense, professora e escritora. \u00c9 autora do livro Boca de Cachorro Louco, tem alguns contos publicados e premiados em concursos liter\u00e1rios nacionais e apresenta seus textos nos canais intitulados Conta, Kah!, no blog Orgasmo Santo e aqui no Leituras da Bel.<br \/>\nContato<br \/>\nInstagram: @contakah<br \/>\nTumblr: https:\/\/contakah.tumblr.com\/<br \/>\nBlog: Orgasmo Santo<\/p>\n<p><strong>Bruno Marafigo<\/strong> \u00e9 um ilustrador e quadrinista curitibano.<br \/>\nContato: brunomarafigo@hotmail.com<br \/>\nInstagram: brunomarafigoarte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Kah Dantas* Foi tudo, tudo muito depressa, escute. Eles viveram a vida toda aqui, entende? Meus vizinhos a vida toda. 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