{"id":5542,"date":"2018-10-02T17:23:57","date_gmt":"2018-10-02T20:23:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=5542"},"modified":"2018-10-02T17:25:38","modified_gmt":"2018-10-02T20:25:38","slug":"leituras-da-bel-entrevista-andreia-amaral-editora-do-selo-rosa-dos-tempos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2018\/10\/02\/leituras-da-bel-entrevista-andreia-amaral-editora-do-selo-rosa-dos-tempos\/","title":{"rendered":"Leituras da Bel Entrevista: Andreia Amaral, editora do selo Rosa dos Tempos"},"content":{"rendered":"<p>O ano de 1990 trouxe uma inova\u00e7\u00e3o para o mercado editorial brasileiro. Rose Marie Muraro e Ruth Escobar criaram o selo Rosa dos Tempos, dedicado a publica\u00e7\u00e3o de livros cl\u00e1ssicos do movimento feminista nacional e mundial. O tempo passou e as quest\u00f5es pareciam estar resolvidas. Apenas pareciam! Chegou 2018 e percebeu-se que ainda h\u00e1 muito para aprender, conhecer, explicar e estudar sobre o feminismo. No come\u00e7o do ano, ent\u00e3o, o Rosa dos Tempos foi relan\u00e7ado pelo Grupo Editorial Record, sua casa de origem, com uma proposta diferenciada: a gest\u00e3o compartilhada dos processos produtivos do livro.\u00a0Desde ent\u00e3o, j\u00e1 foram lan\u00e7ados os livros <strong>Feminismos em Comum<\/strong>, de Marcia Tiburi, <strong>O Mito da Beleza<\/strong>, de Naomi Wolf, <strong>Mam\u00e3e&amp;Eu&amp;Mam\u00e3e,<\/strong> de Maya Angelou, e <strong>A Terra das Mulheres<\/strong>, de Charlotte Perkins Gilman. Todos com recep\u00e7\u00e3o positiva da cr\u00edtica e do p\u00fablico. Andreia Amaral, uma das editoras da Rosa dos Tempos, falou ao Leituras da Bel sobre a import\u00e2ncia do retorno do selo, o processo de retomada, a nova gest\u00e3o do Rosa dos Tempos, os processos produtivos e os planos para 2019. H\u00e1 planos, por exemplo, de colocar livros esgotados de volta no mercado, mas, tamb\u00e9m, de permanecer olhando para a nova produ\u00e7\u00e3o sobre feminismo. Leia a <strong>entrevista<\/strong>:<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Qual a import\u00e2ncia de ter os livros sobre feminismo abrigados todos sobre um mesmo selo da editora? A marca ganha mais for\u00e7a?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> Ao reunirmos os livros de vi\u00e9s feminista numa mesma marca, que j\u00e1 existia no Grupo, conseguimos fidelizar mais leitores, temos mais facilidade para trabalhar o selo e contratar novos t\u00edtulos, uma vez que fica claro que estamos apostando nesses livros. A cada t\u00edtulo lan\u00e7ado, todo o cat\u00e1logo da Rosa volta a ser revisitado.<\/p>\n<div id=\"attachment_5543\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5543\" class=\"size-large wp-image-5543\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/10\/Andreia-Amaral-1-740x1098.jpg\" alt=\"\" width=\"690\" height=\"1024\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/10\/Andreia-Amaral-1-740x1098.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/10\/Andreia-Amaral-1-300x445.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/10\/Andreia-Amaral-1-768x1140.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/10\/Andreia-Amaral-1-120x178.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/10\/Andreia-Amaral-1.jpg 863w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 690px) 100vw, 690px\" \/><p id=\"caption-attachment-5543\" class=\"wp-caption-text\">Andreia Amaral (foto: divulga\u00e7\u00e3o)<\/p><\/div>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Em qual momento a editora entendeu que o selo precisava voltar?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> As editoras do Grupo vinham, naturalmente, acompanhando a onda do mercado e contratando para os seus respectivos selos livros com tem\u00e1tica feminista. J\u00e1 havia uma troca de opini\u00f5es e conversas para embasar essas contrata\u00e7\u00f5es. Fomos, ent\u00e3o, amadurecendo a ideia de ter um selo que reunisse esses livros e n\u00e3o tinha como ignorar a grande marca j\u00e1 existente no Grupo. Ent\u00e3o, propomos resgatar a Rosa dos Tempos como uma homenagem a uma das grandes feministas do pa\u00eds, Rose Marie Muraro, uma mulher extraordin\u00e1ria, ousada, que j\u00e1 militava corajosamente numa \u00e9poca em que ser feminista rendia muito mais preconceito e estranhamento do que elogios.<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Como aconteceu sua forma\u00e7\u00e3o como editora? Quais conselhos voc\u00ea daria para mulheres que desejam escrever e publicar?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> Cada uma de n\u00f3s tem uma forma\u00e7\u00e3o. H\u00e1 jornalista, produtora editorial, economista, enfim, mulheres com experi\u00eancias em diversas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Para escrever, a forma\u00e7\u00e3o \u00e9 o que menos importa. Na \u00e1rea de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida ser\u00e1 necess\u00e1rio um olhar mais minucioso e especializado sobre o tema, \u00e9 importante poder escrever sobre aquilo que se domina. Mas na \u00e1rea de fic\u00e7\u00e3o, basta uma boa hist\u00f3ria e o dom\u00ednio da l\u00edngua, para que se produza um texto criativo, fluente e que desperte aten\u00e7\u00e3o do leitor. Hoje em dia, h\u00e1 caminhos alternativos para quem quer publicar (antes da internet, o caminho natural era terminar de escrever e enviar o original para a editora. O autor ficava numa posi\u00e7\u00e3o mais passiva, aguardando uma resposta; mas hoje, com as plataformas de autopublica\u00e7\u00e3o, muita gente consegue angariar leitores e fama antes mesmo de ser contratado por uma editora. Muitas vezes o caminho \u00e9 inverso, as editoras v\u00e3o atr\u00e1s de quem est\u00e1 se sobressaindo na rede).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Quando o Rosa dos Tempos foi extinto, se pensava que as quest\u00f5es de machismo e misoginia estavam liquidadas. Hoje, encontramos um cen\u00e1rio diferente &#8211; onde o conservadorismo tem se mostrado forte. Qual a import\u00e2ncia de reabrir o selo nesse cen\u00e1rio? E quais as dificuldades?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> Para qualquer discuss\u00e3o, necessariamente, precisa-se de informa\u00e7\u00e3o. Muitos estere\u00f3tipos foram criados em rela\u00e7\u00e3o ao feminismo, muita gente refuta a ideia sem ao menos ter lido a respeito do que realmente prop\u00f5e o feminismo. S\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel mudar a mentalidade das pessoas a partir da leitura, da educa\u00e7\u00e3o. Vimos buscando textos b\u00e1sicos, de autoras consagradas, para que os leitores mais jovens possam entender mais sobre as diversas ondas do feminismo, a import\u00e2ncia de cada uma delas. Ainda h\u00e1 quem acredite que ser feminista \u00e9 ter raiva do universo masculino, ou que significa o contr\u00e1rio de machismo. Isso em pleno s\u00e9culo XXI, com tanta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. O feminismo defende o poder da mulher sobre si mesmo. Ent\u00e3o, todo esclarecimento \u00e9 essencial, principalmente se conseguirmos falar tanto com os jovens que se interessam pelo tema quanto com os leitores mais velhos, aqueles que nunca se interessaram em ler a respeito ou t\u00eam uma vis\u00e3o deturpada do assunto. Nosso papel \u00e9 selecionar o que consideramos relevante para colaborar nessa forma\u00e7\u00e3o, tornar dispon\u00edvel o que tanta gente incr\u00edvel vem escrevendo ao longo dos \u00faltimos anos. Muito da liberdade e dos direitos que temos hoje \u00e9 o resultado de batalhas que feministas travaram, a um grande custo, mas muita gente n\u00e3o se d\u00e1 conta disso e banaliza a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A maior dificuldade, sem d\u00favida, \u00e9 romper as barreiras, \u00e9 falar para aquele p\u00fablico que n\u00e3o est\u00e1 disposto a compreender o assunto. E que por conta disso diminui a import\u00e2ncia das pautas feministas para a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Quando anda na rua e olha para uma mulher aleatoriamente, voc\u00ea j\u00e1 chegou a pensar que um dos livros do selo Rosa dos Tempos fez a diferen\u00e7a na vida daquela pessoa? Como \u00e9 a recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> Essa \u00e9 uma das partes mais emocionantes do nosso trabalho. Saber que um livro que selecionamos e publicamos pode mudar a vida de algu\u00e9m. Quando lan\u00e7amos nosso primeiro t\u00edtulo, O feminismo em comum, da Marcia Tiburi, aconteceu uma coisa linda: no lan\u00e7amento em Recife, depois da palestra da Marcia, para um audit\u00f3rio lotado, muitas mulheres vestiam uma camiseta laranja com uma frase sobre o livro e que foi distribu\u00edda no evento. Mesmo algumas horas depois dos aut\u00f3grafos, ainda via-se no entorno da livraria (na regi\u00e3o do Recife Antigo) muitas meninas que ficaram por ali mesmo depois do fim do evento discutindo quest\u00f5es, criando redes entre si. Esta uni\u00e3o delas chamou aten\u00e7\u00e3o por conta da camiseta, e ent\u00e3o ficava mais f\u00e1cil de identificar que aquela aglomera\u00e7\u00e3o era de mulheres que tinham sa\u00eddo do lan\u00e7amento. N\u00e3o \u00e9 de arrepiar?<\/p>\n<p>Durante a caravana que a Marcia fez para lan\u00e7ar o livro as experi\u00eancias foram incr\u00edveis, porque ela abria o microfone para que outras mulheres pudessem falar e compartilhar experi\u00eancias, sempre em eventos lotados.<\/p>\n<p>E mais recentemente tivemos O mito da beleza, que foi escrito d\u00e9cadas atr\u00e1s mas que ainda se mostra t\u00e3o assustadoramente atual. N\u00e3o h\u00e1 uma mulher que leia esse livro e n\u00e3o fique perplexa com a atualidade do texto. E de como ainda somos ref\u00e9ns de uma imagem de beleza imposta e cobrada de n\u00f3s socialmente. A experi\u00eancia de leitura desse livro pode ser libertadora.<\/p>\n<p>Saber que em cada livro publicado h\u00e1 a oportunidade de melhorar a vida de algu\u00e9m, ou mudar uma vis\u00e3o deturpada que um leitor tinha a respeito do assunto, \u00e9 o que faz valer a pena lutar pela perman\u00eancia do selo e de tantas obras que ainda pretendemos publicar.<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Voc\u00ea lembra de fazer leituras dos livros lan\u00e7ados pelo selo Rosa dos Tempos no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990? Lembra de algum t\u00edtulo espec\u00edfico?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> Dos livros antigos publicados pela Rosa, talvez o que seja comum a todas n\u00f3s \u00e9 O martelo das feiticeiras. Algumas de n\u00f3s chegaram a trabalhar bem perto da Rose Marie Muraro sem ter, na \u00e9poca, muita ideia de quem ela era e do que representava. D\u00e1 para imaginar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Quais os pr\u00f3ximos lan\u00e7amentos do selo? Quais os planos para 2019?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> Recebemos muitos projetos bons ao longo de 2018, j\u00e1 como resultado da visibilidade que o selo conseguiu com o seu resgate. Nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 continuar publicando autoras cl\u00e1ssicas, relan\u00e7ar t\u00edtulos que j\u00e1 foram importantes no cat\u00e1logo da Rosa na \u00e9poca da <strong>Rose Marie Muraro<\/strong> e, claro, estar atentas \u00e0s autoras contempor\u00e2neas, que possam colaborar nesse cat\u00e1logo de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Existem obras brasileiras lan\u00e7adas por outras editoras e que atualmente est\u00e3o esgotadas. O Rosa dos Tempos tem interesse por esses materiais? Quais acervos est\u00e3o sendo investigados por voc\u00eas?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> Esta ano publicamos O mito da beleza, uma obra que foi publicada no Brasil na d\u00e9cada de 1990, por outra editora, e que h\u00e1 muito tempo estava esgotada. Temos outras surpresas nessa linha para o pr\u00f3ximo ano. Ao mesmo tempo em que pesquisamos essas obras cl\u00e1ssicas, estamos selecionado e lendo o que h\u00e1 de mais contempor\u00e2neo, para que o cat\u00e1logo possa ter a diversidade e representatividade que precisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Como acontece o processo de curadoria no selo? Quantas vozes s\u00e3o ouvidas? Como o grupo divide as fun\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\n<strong>Andreia Amaral &#8211;<\/strong> Somos hoje 6 mulheres formando o Conselho da Rosa dos Tempos, com liberdade para sugerir projetos e avaliar tudo o que chega. A ideia \u00e9 que seja um selo colaborativo, com todas opinando desde a contrata\u00e7\u00e3o at\u00e9 as escolhas sobre capa, lan\u00e7amento e divulga\u00e7\u00e3o. Depois do projeto aprovado, cada editora fica respons\u00e1vel por cuidar do processo daquele livro que indicou ou recebeu, mas compartilha suas decis\u00f5es com as demais. Conversamos muito e praticamos no dia a dia a nossa sororidade. Agora mesmo, para responder a esta entrevista, uma escreveu, as demais olharam e interferiram no que acharam necess\u00e1rio. Porque a ideia n\u00e3o \u00e9 ter a cara de uma de n\u00f3s, mas o resultado de escolhas feitas pelo grupo, sem hierarquia e com muito respeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 1990 trouxe uma inova\u00e7\u00e3o para o mercado editorial brasileiro. 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